22 de abril de 2014

EUA persegue "paz" sob condições de Israel

Ramzy Baroud

The Palestine Chronicle

Créditos: Yuri Gripas/Reuters.

[Tradução] Para entender como tem sido imprudente o mais recente “processo de paz” dos EUA, basta um olhar crítico para alguns dos personagens envolvidos nesse teatro político. Particularmente, um personagem tem destaque como uma prova de quanto é fútil o exercício desse processo. Trata-se de Martin Indyk.

Ex embaixador em Israel, Indyk foi escolhido pelo Secretário de Estado John Kerry para desempenhar as funções de enviado especial nas negociações entre a Autoridade Palestina e Israel. Normalmente, a escolha de Kerry pode parecer pouco inteligente. Muitas vezes, ex embaixadores tem o conhecimento necessário para desempenhar tarefas difíceis em países onde tenha servido anteriormente. Ocorre que as circunstâncias nesse caso não são o que se poderia chamar de normais e Indyk não possui as habilidades necessárias como diplomata, no sentido estrito do termo.

Conforme foi se deteriorando o processo de paz mediado pelos Estados Unidos, Kerry tomou uma de suas peculiares atitudes, nomeando e despachando Indyk para Jerusalém. Indyk assumiu a tarefa de falar com ambos os lados separadamente na data de 18 de abril, de 2014. A mídia internacional entendeu e descreveu o acontecimento como um esforço derradeiro para a retomada das negociações e para ajudar a preencher as divergências entre os mandatários da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas e de Israel, Benjamim Netannyahu.

A visita do enviado de Kerry aconteceu um dia depois que foram relatadas conversas intensas e difíceis entre negociadores palestinos e israelenses. No entanto, “nenhum avanço foi feito”, disse uma fonte palestina oficial à AFP depois da reunião de 18 de abril de 2014.

Não que fosse esperado qualquer progresso. A resolução do conflito em si mesmo não era o tema discutido por ambas as partes e sim um adiamento do prazo que permitisse que Kerry costurasse um “acordo geral”, previsto para 29 de abril de 2014.

Para os Estados Unidos é interessante manter essa farsa, por diferentes razões que não a paz. Ocorre que sem um “processo de paz” os Estados Unidos não terão uma plataforma política importante no Oriente Médio. “Mediador honesto” é um título auto concedido pelas administrações dos EUA.

Evidentemente, não é preciso ser um gênio para perceber que “honestos” os Estados Unidos não são nas suas relações com estas duas partes. De fato, em vez de um terceiro imparcial, os Estados Unidos sempre estiveram e estão em campo firmemente ao lado dos israelenses. A sua influência financeira e política foi usada como uma plataforma que permitiu patrocinar avanços, em primeiro lugar, de Israel, depois seus próprios interesses. Um exemplo? Indyk.

O potencial agente do prenúncio de paz, Martin Indyk, em 1982 trabalhou para o grupo de lobby pró Israel AIPAC. O AIPAC é uma força de direita que tem investido energia e recursos ilimitados com a intenção de impedir todo e qualquer avanço ou resolução justa e pacífica para o conflito Palestina/Israel. Tal é a sua influência e força, como por exemplo sobre o Congresso, que se diz que o Capitólio acabou por se tornar um território ocupado por Israel e seus aliados.

No entanto, a contribuição mais valiosa de Indyk para Israel foi a fundação do Instituto Washington para a política do Oriente Próximo (WINEP). Em 1985, um outro lobby israelense fez um estrago sem tamanho para a credibilidade externa dos EUA no Oriente Médio através de intelectuais e “especialistas” deste lobby.

Escrevendo em Mondoweiss no último ano, Mac Blumenthal lembrou de declarações interessantes feitas por Indyk na primeira convenção da “J Street” em Washington DC em 2009. A “J Street” é um outro grupo de lobby pró Israel que maliciosamente procura se distinguir como pró paz, levando muitas pessoas a concluir, enganosamente, que a influência da AIPAC em Washington estaria em declínio e sendo desafiada por um lobby rival. No entanto, com políticas habilmente formuladas e dado o passado colorido de seus convidados de honra para palestras indicam justamente o contrário. Indyk, como hábil lobista de direita, estava realmente entre seus melhores amigos.

“Posso me lembrar de encontrar um auditório lotado para ouvir de Indyk como ele fez “Aliyah para Washington” durante a década de 1980, garantindo assim que a política dos Estados Unidos se mantivesse inclinada a favor de Israel, culpando Yasser Arafat pelo fracasso de Camp David,” lembrou Blumenthal.

Ele continuou citando Indyk: “Eu cheguei a essa conclusão há 35 anos. Na época era estudante em Jerusalém, quando a guerra do Yom Kippur estourou”, disse Indyk.

“Naqueles dias terríveis, eu era voluntário, pois a sobrevivência de Israel parecia estar em perigo e eu testemunhei a miséria da guerra, assim como o papel crítico que os Estados Unidos desempenharam, através do ativismo diplomático de Henry Kissinger, para forjar a paz em meio a essa guerra terrível.”

Estes não eram apenas comentários de Indyk, mas a reflexão do compromisso eterno do homem, não para promover a paz, mas com Israel, ou, mais precisamente, a paz que convenha e seja prevista por Israel, o que acaba por se constituir no núcleo da crise atualmente em curso.

O primeiro Ministro Israelense, Netanyahu nunca deixa de falar sobre a paz, assim como seu Ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman. Mesmo o Ministro da Economia, Naftali Bennet, líder do partido extremista “A Casa Judaica”, largamente conhecido por sua retórica extremamente belicosa, é um ardente defensor da Paz.

Ocorre que a paz que desejam não é a paz baseada na justiça, ou a paz prevista pelas leis humanitárias internacionais. Trata-se de uma paz especificamente adaptada para permitir a Israel manter sua agenda explicitamente racista, e uma política colonizadora de invasão e grilagem de terras.

Sem surpresa. Esse é exatamente o mesmo tipo de “paz” que imaginam os Estados Unidos. A nova “paz” da agenda de Kerry não é inteiramente uma repetição de antigos programas. É isso também, mas engloba quase que de maneira completa as rebuscadas idéias de Lieberman e de grupos de direita, ou seja, anexações – Vale do Jordão – troca de terras dadas em vista de blocos principais de assentamentos. Lieberman soava como um político demente quando aventou essas idéias alguns anos atrás. Graças a Kerry, atualmente é exatamente esse o pensamento dominante.

Então, esse mesmo Indyk, com uma vida dedicada a promover a “paz” no estilo israelense, não mais que de repente marcado como um “negociador honesto” que tentará reviver as negociações, exercendo “pressão” sobre “ambos os lados” como qualquer intermediador hábil faria nessa situação.

Mas Indyk não é o único advogado do diabo que se tornou, de repente, “lobista da paz”. Ele é apenas um entre muitos. Um dos falcões políticos dos EUA, Dennis Ross, considerado essencial em Washington durante muito tempo e dedicado defensor da desastrosa Guerra do Iraque, serviu como coordenador especial de Bill Clinton para o Oriente Médio. Pois foi escolhido a dedo pelo atual presidente, Barak Obama, logo no início de seu mandato, para continuar a exercer o mesmo papel na nova administração. Se não bastasse a forte ligação do “diplomata” com neoconservadores, em especial os envolvidos no já extinto grupo pró guerra conhecido como Projeto para o Novo Século Americano, ele também atuou ativamente como consultor do WINEP, o mesmo lobby fundado por Indyk e já mencionado.

Claro que isso não foi coincidência. O WINEP, como outros grupos extremamente agressivos pró Israel serviu para formar uma plataforma de defesa para Israel e para os assim chamados “promotores da paz” israelenses. Dennis e Indyk, curiosamente, culparam os palestinos pelo fracasso das negociações anteriores, em uníssono. Maliciosamente, Blumenthal destacou o discurso de Indyk na “J Street”, destacando a culpa do falecido Yasser Arafat, com “aquele seu grande sorriso de merda” pelo fracasso dos parâmetros de paz de Clinton, apesar do fato de que na realidade, Arafat tinha aceitado todos os termos do tratado.

Vamos a um pouco das reminiscências de Indyk: “eu me lembro de Shimon Peres dizendo para mim no momento em que Arafat tinha que decidir se aceitaria ou não os parâmetros de Clinton, que, dizia ele, a história é um cavalo que passa a galope por sua janela e o ato de um verdadeiro estadista é aproveitar o momento e saltar sobre o cavalo a galope. Claro que Arafat deixou o cavalo passar a galope, deixando palestinos e israelenses atolados na miséria de sua própria história."

Pois agora é esse Indyk, o valente lobista israelense que está sendo enviado, junto com outro cavalo a galope, para a janela de Abbas. Todos nós sabemos muito bem como isso acaba. Posso imaginar Indyk dando outra palestra em conferências da AIPAC ou J Street ridicularizando Abbas por não saltar no cavalo.

Ramzy Baroud é um colunista internacional sindicalizado, consultor de mídia e editor do The Palestine Chronicle.

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