22 de abril de 2014

Obama: "Refazer o Oriente Médio": O Gulag americano

James Petras

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Introdução

Tradução / Durante o início do seu primeiro mandato, o presidente Obama prometeu “refazer o Oriente Médio numa região de prosperidade e liberdade”. Seis anos depois, a realidade é totalmente contrária: o Oriente Médio é governado por regimes despóticos cujas prisões transbordam de presos políticos. A grande maioria dos ativistas pró-democracia que foram presos foram submetidos a duras torturas e cumprem longas penas de prisão. Os governantes não têm legitimidade, uma vez que tomaram o poder e o mantiveram através de um estado policial centralizado e da repressão militar. Decisivas para a construção da série de prisões desde o norte de África até aos estados do Golfo são a intervenção direta de militares americanos e da CIA, os fornecimentos maciços de armas, as bases militares, as missões de treinamento e as Forças Especiais.

Prosseguiremos documentando a escala e o alcance da repressão política em cada estado policial apoiado pelos EUA. Descrevemos depois a escala e alcance da ajuda militar americana de apoio a esse “refazer do Oriente Médio” numa série de prisões políticas conduzidas pelo e para o império dos EUA.

Os países e regimes incluem o Egito, Israel, Arábia Saudita, Bahrein, Iraque, Iêmen, Jordânia e Turquia, todos eles promotores e defensores dos interesses imperiais dos EUA contra a maioria pró-democracia representada pelos seus movimentos sociopolíticos independentes.

Egito: Estado vassalo estratégico

Desde há muito estado vassalo e o maior país árabe do Oriente Médio, a atual ditadura militar do Egito que resultou de um golpe em julho de 2013 lançou uma onda de repressão selvagem a seguir à tomada do poder. De acordo com o Centro Egípcio dos Direitos Sociais e Econômicos, foram presos entre julho e dezembro de 2013 21.317 manifestantes pró-democracia. Em abril de 2014, foram encarcerados mais de 16.000 presos políticos. Os julgamentos sumários por tribunais ad-hoc resultaram em penas de morte para centenas e longas penas de prisão para a maior parte. O regime de Obama recusou chamar golpe à derrubada militar do governo Morsi democraticamente eleito, para poder continuar a fornecer ajuda militar à junta. Em troca, a ditadura militar continua a apoiar o bloqueio israelense a Gaza e a apoiar as operações militares dos EUA no Oriente Médio.

Israel: o maior carcereiro da região

Israel, cujos apoiadores nos EUA designam a “única democracia no Oriente Médio”, é de fato o maior carcereiro na região.

De acordo com o grupo israelense de direitos humanos B’Tselm, entre 1967 e dezembro de 2012, foram feitos prisioneiros 800.000 palestinos, 20% da população. Mais de 100.000 foram mantidos em “detenção administrativa” sem acusação ou julgamento. Quase todos foram torturados e brutalizados. Israel tem atualmente 4.881 prisioneiros políticos nas cadeias. O que faz do estado judeu escolhido por Deus o primeiro carcereiro, contudo, é a manutenção de 1,82 milhões de palestinianos que vivem em Gaza numa prisão virtual a céu aberto. Israel condiciona viagens, comércio, construção, produção e culturas através de bloqueios e policiamentos aéreo, marítimo e terrestre. Além disso, 2,7 milhões de palestinos dos Territórios Ocupados (Margem Ocidental) estão cercados por muros como os das prisões, sujeitos a incursões militares diárias, detenções arbitrárias e assaltos violentos pelas forças armadas israelenses e pelos colonos israelenses vigilantes empenhados no perpétuo despojar dos habitantes palestinos.

Arábia Saudita: monarquia absolutista

De acordo com o “refazer do Oriente Médio” do presidente Obama, a Arábia Saudita figura como o “aliado mais fiel no mundo árabe”. Como estado vassalo leal, as suas prisões transbordam de dissidentes pró-democracia encarcerados por procurarem eleições livres, liberdades civis e o fim de políticas misóginas. De acordo com a Comissão de Direitos Humanos Islâmicos, os sauditas detêm 30.000 presos políticos, a maior parte arbitrariamente detidos sem acusação ou julgamento.

A ditadura saudita desempenha um papel principal no financiamento dos regimes de estados policiais na região. Despejaram 15 bilhões de dólares nos cofres da junta do Egito a seguir ao golpe militar, como recompensa pela purga sangrenta em massa dos eleitos e seus apoiadores pró-democracia. A Arábia Saudita desempenha um importante papel no apoio ao domínio de Washington, financiando e armando “regimes carcerários” no Paquistão, Iêmen, Bahrein, Jordânia e Egito.

Bahrein: pequeno país – muitas prisões

De acordo com o respeitado Centro de Direitos Humanos local, o Bahrein possui a duvidosa distinção de ser o primeiro país globalmente em número de presos políticos per capita. Segundo o The Economist (4 de fevereiro de 2014), o Bahrein tem 4.000 presos políticos para uma população de 750.000. De acordo com o Pentágono, a ditadura absolutista do Bahrein desempenha um papel vital no proporcionar aos EUA bases aéreas e marítimas para o ataque ao Iraque, ao Irã e ao Afeganistão. A maioria dos dissidentes pró-democracia estão presos por procurarem acabar com a vassalagem, a autocracia e o servilismo perante os interesses imperiais dos EUA e da ditadura saudita.

Iraque: Abu Ghraib com caracteres árabes

Tendo começado na invasão e ocupação americanas do Iraque em 2003 e prosseguido com o seu vassalo primeiro-ministro Nouri Al-Maliki, dezenas de milhares de cidadãos iraquianos foram torturados, encarcerados e assassinados. A junta iraquiana no poder continuou a apoiar-se nas tropas e forças especiais dos EUA e a envolver-se no mesmo tipo de “varreduras” militares e policiais que aniquilam qualquer pretensão democrática. Al-Maliki apoia-se em ramos especiais da sua polícia secreta, a notória Brigada 56, para assaltar comunidades da oposição e baluartes dissidentes. Quer o regime xiita, quer a oposição sunita se envolvem em contínuas lutas terroristas. Ambos serviram de colaboradores próximos de Washington em momentos diferentes.

A lista diária de mortos é da ordem das centenas. O regime de Al- Maliki assenhoreou-se dos centros de tortura (incluindo Abu Ghraib) e das técnicas e prisões antes chefiadas e conduzidas pelos EUA e retiveram os conselheiros americanos das “Forças Especiais” para a supervisão das batidas policiais aos críticos dos direitos humanos, sindicalistas e dissidentes democratas.

Iêmen: satélite do grupo EUA-Arábia Saudita

O Iêmen foi governado durante décadas por ditadores clientes dos EUA e Arábia Saudita. O governo autocrático de Ali Abdullah Saleh foi acompanhado com a prisão e tortura de milhares de ativistas pró-democracia, tanto seculares como religiosos, do mesmo modo que serviu de centro clandestino de tortura para dissidentes políticos raptados e transportados pela CIA no seu chamado programa de “rendição”. Em 2011, apesar da prolongada e violenta repressão pelo regime de Saleh apoiado pelos EUA, explodiu uma rebelião de massas ameaçando a existência do Estado e as ligações aos regimes americano e saudita. Para preservarem o seu domínio e as ligações aos militares, Washington e a Arábia Saudita orquestraram um “rearranjo” do regime: fizeram-se eleições manipuladas e tomou o poder um tal Abdo Rabbo Mansour Hadi, leal amigo de Saleh e criado de Washington. Hadi continuou onde Saleh tinha ficado: raptos, tortura e assassínio de manifestantess pró-democracia. Washington optou por chamar ao regime de Hadi “uma transição para a democracia”. De acordo com o Yemen Times (4 de maio de 2014), mais de 3.000 presos políticos enchem as prisões do Iêmen. “Democracia de cárcere” serve para consolidar a presença militar americana na península da Arábia.

Jordânia: um Estado policial cliente de longa duração

Durante mais de meio século, três gerações de monarcas absolutistas no trono da Jordânia estiveram na lista de pagamentos da CIA e serviram os interesses dos EUA no Oriente Médio. Os governantes vassalos da Jordânia brutalizam os nacionalistas árabes e os movimentos de resistência palestinos e assinaram um chamado “acordo de paz” com Israel para reprimirem qualquer apoio através da fronteira da Palestina e proporcionam bases militares de apoio ao treinamento, armamento e financiamento dos mercenários que invadem a Síria pelos EUA, Arábia Saudita e UE.

A corrupta monarquia e a sua íntima oligarquia controlam uma economia perpetuamente dependente de subsídios estrangeiros para se manter à tona: desemprego acima dos 25% e metade da população subsistindo na pobreza. O regime encarcerou milhares de opositores pacíficos. De acordo com um recente relatório da Amnistia Internacional (Jordan 2013), a ditadura do rei Abdullah “prendeu milhares sem acusação”. A monarquia de cárcere desempenha um papel central fortalecendo a construção do império americano no Oriente Médio e facilitando a apropriação de terra por Israel na Palestina.

Turquia: bastião da OTAN e democracia de cárcere

No reinado do auto-intitulado “Partido Justiça e Desenvolvimento” liderado por Tayyip Erdoğan, a Turquia transformou-se numa importante base operacional militar para a invasão da Síria apoiada pela OTAN. Erdoğan tem tido as suas diferenças com os EUA, especialmente o esfriar de relações da Turquia com Israel sobre a apreensão pela última de um navio turco em águas internacionais e o assassinato de nove ativistas humanitários turcos desarmados. Mas, à medida que a Turquia se tornou mais dependente dos fluxos internacionais de capital e da integração em guerras internacionais da OTAN, Erdoğan tornou-se mais autoritário. Enfrentando desafios populares em larga escala à sua privatização arbitrária de espaços públicos e a despejos em bairros da classe trabalhadora, Erdoğan lançou uma purga da sociedade civil, dos movimentos de classe e das instituições do Estado. Em face das manifestações pró-democracia de grande dimensão no verão de 2013, Erdoğan desencadeou um assalto selvagem aos dissidentes. De acordo com os grupos de direitos humanos, mais de 5.000 pessoas foram presas e 8.000 feridos durante os protestos no Parque Gezi. Antes, Erdoğan estabeleceu “Tribunais Autorizados Especiais” que organizaram julgamentos políticos de fachada baseados em provas falsificadas que facilitavam a detenção e prisão de centenas de oficiais militares, ativistas partidários, sindicalistas, advogados de direitos humanos e jornalistas, em particular os críticos do seu apoio à guerra contra a Síria. Apesar da retórica conciliatória, as prisões de Erdogan encerram vários milhares de dissidentes curdos, incluindo ativistas eleitorais e juristas (Global Views, 17 de outubro de 2012).

Enquanto Erdoğan serviu como âncora islâmico leal e capaz contra os movimentos populares democráticos e nacionalistas no Oriente Médio, a sua procura de maior influência turca na região levou os EUA a aprofundar os laços políticos com o movimento Gulenista mais submisso, pró-Washington e pró-Israel, infiltrado no aparelho de Estado, no comércio e no ensino. Este movimento adotou uma estratégia permeacionista: sanear os adversários na sua marcha tranquila para o poder por dentro do Estado. Os EUA apoiam-se ainda na “democracia do cárcere” de Erdoğan para reprimir movimentos anti-imperialistas na Turquia, para servir de âncora militar para a guerra contra a Síria, para apoiar sanções contra o Irã e para apoiar o regime pró-OTAN de Maliki no Iraque.

O gulag do Oriente Médio e a ajuda militar americana

Os regimes de Estado policial e a cultura política autoritária de longo prazo no mundo árabe são um produto do apoio militar de longo prazo dos EUA aos governos despóticos. A ausência de democracia é uma condição necessária para a expansão e o avanço da presença militar imperial dos EUA na região.

Um pequeno exército de acadêmicos, especialistas, jornalistas e anti-islâmicos da mídia americana ignoram totalmente o papel dos EUA na promoção, apoio e reforço de ditadores reinantes e na repressão de movimentos de massas profundamente democráticos que têm surgido ao longo de um grande período de tempo. Tendo como liderança acadêmicos desde sempre pró-Israel de universidades da Ivy League no Oriente Médio, estes propagandistas clamam que as ditaduras árabes são um produto da “cultura islâmica” ou da “personalidade autoritária dos árabes” em busca de um “homem forte” que os guie e governe. Ignorando ou distorcendo a história das lutas da classe trabalhadora e os protestos e posições pró-democracia em todos os principais países árabes, estes intelectuais justificam as ligações americanas às ditaduras como “política realista” dadas as “opções disponíveis”. Onde quer que a real democracia comece a emergir e onde os direitos políticos comecem a ser exercidos, Washington promove golpes e intervém para apoiar o aparelho repressivo estatal (Bahrain 2011-2014, Iémen 2011 a 2014, Egito 2013, Jordânia 2012, entre muitos outros casos). Enquanto a maioria dos especialistas sobre o Oriente Médio responsabilizam os cidadãos árabes pelos regimes autoritários, ignoram completamente e encobrem a maioria racista de Israel que apoia solidamente o encarceramento e tortura de centenas de milhares de palestinos pró-democracia.

Compreender o gulag do Médio Oriente requer uma discussão da “política de ajuda” que é central para a sustentação dos “regimes carcerários”.

A ajuda dos EUA ao Egito: bilhões para ditadores

O Estado policial egípcio é uma âncora do “arco imperial” dos EUA desde o norte de África até ao Oriente  Médio. O Egito esteve ativamente empenhado na desestabilização da Líbia, do Sudão, do Líbano, da Síria e colaborou com o desalojamento dos palestinos por Israel. A ditadura de Mubarak recebeu de Washington 2 bilhões de dólares por ano – cerca de 65 bilhões para os seus serviços imperiais. A ajuda dos EUA reforçou a sua capacidade para encarcerar e torturar ativistas pró-democracia e sindicalistas. Washington prosseguiu o apoio militar ao regime ditatorial depois do golpe militar contra o primeiro governo democraticamente eleito do Egito na ordem de 1,55 bilhões de dólares para 2014. Apesar dos “sinais de preocupação” pelo assassinato de milhares de manifestantes pró-democracia pelo novo homem forte militar, general Abdul Fattah al-Sisi, não houve qualquer corte no financiamento para o chamado “contra-terrorismo” e “segurança”. Para continuar a financiar a ditadura sob legislação do Congresso dos EUA, Washington recusou caracterizar a tomada violenta do poder como golpe, referindo-se a ela como uma “transição para a democracia”. O papel chave do Egito na política externa dos EUA é a proteção do flanco ocidental de Israel. A ajuda dos EUA ao Egito é produto da pressão e influência da configuração de poder sionista no Congresso e na Casa Branca. A ajuda dos EUA está dependente do “policiamento” da fronteira de Gaza pelo Egito, garantindo que o bloqueio por Israel é efetivo. A Casa Branca apoia a repressão pelo Cairo da maioria nacionalista e anticolonial dos egípcios contrária ao desalojamento dos palestinos. Uma vez que são os interesses israelenses a definir a política externa dos EUA no Oriente Médio, o financiamento por Washington da ditadura carcereira do Egito está de acordo com a estratégia sionista de Washington.

Israel: o eixo americano no Oriente Médio

A maior parte dos especialistas independentes e conhecedores concordam que a política dos EUA no Oriente Médio é largamente ditada por uma multidão de fiéis sionistas que ocupam posições-chave de tomada de decisão no Tesouro, no Departamento de Estado, no Pentágono e no Comércio, assim como pelo domínio do Congresso pelos presidentes das 52 maiores organizações americano-judaicas e respectivos 171.000 ativistas pagos a tempo integral. Enquanto existe alguma verdade no que alguns críticos citam como divergência entre o “real interesse nacional” dos EUA e as ambições coloniais de Israel, o fato é que os dirigentes dos EUA em Washington entendem haver convergência entre o domínio imperial e o militarismo israelense. Na verdade, um Egito submisso serve os interesses imperiais mais vastos dos EUA e os interesses coloniais de Israel. A guerra de Israel no Líbano contra o movimento anti-imperialista Hezbollah serviu tanto aos esforços dos EUA para instalarem um cliente dócil, como aos esforços de Israel para destruírem um partidário da autodeterminação palestina. A divergência de Washington com Israel sobre o despojamento de todos os palestinianos por Israel vai contra o interesse de Washington num mini-estado palestiniano governado por funcionários árabes neocoloniais. Como resultado da influência sionista, Israel é o maior beneficiário per capita de ajuda americana no mundo, apesar de possuir um nível de vida mais elevado do que 60% dos cidadãos americanos. Entre 1985-2014, Israel recebeu mais de 100 bilhões de dólares, dos quais 70% para fins militares, incluindo a mais avançada tecnologia sobre armamentos. Israel, que é o país com o recorde mundial de presos políticos e ataques militares contra países vizinhos nos últimos quarenta anos, tem também o recorde de ajuda militar americana. Israel, como primeira “democracia carcerária” é um elo chave no Gulag que se estende do norte de África até aos estados do Golfo.

Arábia Saudita

A Arábia Saudita compete com Israel como centro de encarceramento de dissidentes pró-democracia. Os sauditas reciclam centenas de bilhões de petro-rendas através da Wall Street, enriquecendo déspotas sauditas locais e banqueiros de investimento pró-israelenses no exterior. A convergência sauditas-EUA-Israel é mais do que circunstancial. Partilham interesses militares na guerra contra os movimentos árabes pró-independência e pró-democracia através do Oriente Médio. A Arábia Saudita alberga a maior base militar dos EUA e as maiores operações de espionagem no Golfo. Apoiou a invasão do Iraque. Financia milhares de mercenários islâmicos na guerra por procuração dos EUA-OTAN contra a Síria. Invadiu o Bahrein para esmagar o movimento pró-democracia. Intervém com Washington em apoio ao estado policial do Iêmen. É o maior e mais lucrativo mercado para o complexo militar-industrial dos EUA. As vendas militares dos EUA entre 1951-2006 totalizaram 80 Bilhões de dólares. Em outubro de 2010, assinou a compra de 60,5 bilhões de armas e serviços aos EUA.

Bahrein: um porta-aviões dos EUA com nome de país

O Bahrein serve de base naval da 5ª Frota dos EUA e é uma base operacional para atacar o Irã. Tem estado ao serviço da ocupação do Afeganistão e do controle americano das rotas de transporte marítimo do petróleo. A ditadura de Al-Khalifa está extremamente isolada, é altamente impopular e enfrenta constante pressão da maioria pró-democracia. Para amparar os governantes seus vassalos, Washington aumentou as vendas militares ao pequeno estado de 400 milhões entre 1993-2000 para 1400 milhões de dólares na década seguinte. Washington aumentou as vendas e o programa de treinamento militar na proporção direta do aumento do descontentamento democrático, resultando no aumento geométrico do número de presos políticos.

Iraque: guerra, ocupação e os campos da morte de uma democracia carcerária

A invasão americana e ocupação do Iraque levaram ao massacre de cerca de 1,5 milhões de iraquianos (a maior parte civis, não combatentes) com um custo de 1,5 bilhões de dólares e 4.801 mortos militares americanos. Em 2006, as “eleições” preparadas pelos EUA levaram à instalação do regime de Maliki, suportado pelas armas, por mercenários, por conselheiros e pelas bases americanas. De acordo com um estudo recente para o Gabinete de Investigação do Congresso (fevereiro de 2014) por Kenneth Kilzman, há 16.000 militares e “empreiteiros” americanos atualmente no Iraque. Mais de 3500 empreiteiros militares americanos no Gabinete de Cooperação de Segurança dão apoio ao estado policial corrupto de Maliki. A democracia carcerária foi abastecida com mísseis e drones americanos e mais de 10 bilhões de dólares de assistência militar, o que inclui 2,5 bilhões de ajuda e 7,9 bilhões de vendas entre 2005-2013. Para 2014-2015, Malaki pediu 15 bilhões de dólares em armas, incluindo 36 aviões de combate americanos F-16 e grande número de helicópteros de ataque Apache. Em 2013, o regime de Malaki registou 8.000 mortes políticas resultantes da guerra interna.

O Iraque é um centro crucial para o controle americano do petróleo e do Golfo e como plataforma de lançamento para atacar o Irã. Enquanto Maliki faz “gestos” para o Irã, o seu papel como ligação avançada no gulag imperial dos EUA define a sua “função” real na região do Golfo.

Iémen: o posto avançado militar do deserto para o gulag americano

O Iêmen é um dispendioso posto avançado militar para o despotismo saudita e para o poder americano na península arábica. Segundo o estudo “Iêmen: Bases e Relações com os EUA” de Jeremy Sharp para o Serviço de Investigação do Congresso (2014), os EUA forneceram 1,3 bilhões de dólares de ajuda militar ao Iêmen entre 2009-2014. A Arábia Saudita doou 3,2 bilhões de dólares em 2012 para apoiar a ditadura de Saleh perante um levantamento anti-ditatorial popular de massas. Washington preparou uma transferência de poder de Saleh para o “Presidente” Hadi e assegurou a sua continuidade duplicando a ajuda militar para manter as prisões cheias e a resistência em cheque. De acordo com o New York Times (31 de junho de 2013), Hadi era um “continuador do ditador Saleh”. A continuidade da democracia carcerária no Iêmen é uma ligação crucial entre o eixo Egito-Israel-Jordânia e o gulag imperial Bahrain-Arábia Saudita.

Jordânia: eterno vassalo e monarquia mendicante

A monarquia despótica da Jordânia tem estado na lista de pagamentos dos EUA há mais de meio século. Serviu recentemente como centro de tortura de vítimas raptadas e capturadas pelas Forças Especiais dos EUA envolvidas no programa “rendição”. A Jordânia colaborou com Israel no assalto e prisão de palestinos envolvidos na luta pela liberdade. Atualmente, a Jordânia com a Turquia servem para treinamento e depósito de armas para os terroristas mercenários que invadem a Síria apoiados pela OTAN. Graças à sua colaboração com Israel, Washington e a OTAN, a corrupta monarquia carcerária recebe ajuda militar e econômica de larga escala e a longo termo. A monarquia e a sua extensa rede de patifes, carcereiros e família, rapam dezenas de milhões de dólares de ajuda externa, lavados em contas estrangeiras em Londres, na Suíça, no Dubai e em Nova Iorque. Segundo o relatório do Serviço de Investigação do Congresso (27 de janeiro de 2014), a ajuda americana à ditadura real jordana atinge 660 milhões de dólares por ano. Uma ajuda militar adicional de 150 milhões foi canalizada para o regime com o desencadear da intervenção da OTAN na Síria. O fundo foi destinado a aumentar a infra-estrutura ao redor da fronteira Jordânia-Síria. Além disso, a Jordânia serve como o principal condutor de armas para os terroristas que atacam a Síria: 340 milhões de dólares para “contingências no exterior” são provavelmente conduzidos através de Amman para armar os terroristas que invadem a Síria. Em Outubro de 2012, a Jordânia assinou acordos com os EUA permitindo que um grande contingente de Forças Especiais estabelecesse campos de aviação e bases para fornecimento e armamento dos terroristas.

Turquia: Estado vassalo leal com ambições regionais

Como baluarte militar da OTAN a sul, na fronteira da Rússia, a Turquia tem estado na lista de pagamentos dos EUA há mais de 66 anos. De acordo com o estudo recente de James Zanotti “Cooperação Turquia-EUA na Defesa: Perspectivas e Desafios” (Serviço de Investigação do Congresso, 8 de abril  de 2011), em troca do apoio ao poder militar da “democracia carcerária” da Turquia, os EUA asseguraram uma presença militar importante, incluindo uma grande base aérea em Incirlik, um grande centro operacional abrigando 1800 militares americanos. A Turquia colaborou com a invasão e ocupação americanas do Afeganistão e apoiou o bombardeamento da Líbia pela OTAN. Hoje, a Turquia é o centro militar operacional mais importante para os terroristas jihadistas que invadem a Síria. Apesar das periódicas e demagógicas pretensões nacionalistas do presidente Erdoğan, os construtores do império dos EUA continuam a ter acesso às bases turcas e a corredores de transporte para as suas guerras, ocupações e intervenções no Oriente Médio e na Ásia central e do sul. Em troca, os EUA instalaram sistemas de mísseis defensivos e aumentaram largamente as vendas de armas pela chamada “assistência de segurança”. Entre 2006-2009, as vendas militares dos EUA ultrapassaram 22 bilhões de dólares. Em 2013-2014, as tensões entre a Turquia e os EUA aumentaram quando Erdoğan começou a sanear o Estado de gulenistas, uma quinta-coluna apoiada pelos EUA que infiltrava o estado turco e usava as suas posições para apoiar uma colaboração mais próxima com os interesses militares de Israel e dos EUA.

Conclusão

A expansão do império americano através do norte de África e Oriente Médio foi montada com o armamento e financiamento de estados-vassalos para servirem de postos avançados do império. Estes regimes vassalos, governados por monarquias ditatoriais e governantes autoritários civis e militares, apoiam-se na força e na violência para sustentar o seu domínio. Os EUA forneceram armas, conselheiros e financiamento que lhes permitam dominar. O arco de bases militares imperiais americanas que se estende do Egito, através de Israel, da Turquia, da Jordânia, do Iêmen, do Iraque, do Bahrain e da Arábia Saudita, está protegido por uma série de campos de prisioneiros contendo dezenas de milhares de presos políticos.

O envolvimento americano e a sua  presença generalizada na região são acompanhados por uma série de democracias carcerárias e ditaduras. Ao contrário dos especialistas políticos liberais e conservadores e dos acadêmicos, a política americana durante mais de 50 anos procurou ativamente, instalou e protegeu tiranos sanguinários que pilharam o erário público, concentraram riqueza, entregaram a soberania e subdesenvolveram as suas economias.

Os acadêmicos pró-Israel em prestigiadas universidades americanas têm sistematicamente distorcido as bases estruturais da violência, do autoritarismo e da corrupção no mundo islâmico, responsabilizando as vítimas, os povos turco e árabe, e ignorando o papel dos construtores do império americano no financiamento e no armamento de governos autoritários civis e militares e de monarquias absolutistas e respectivos militares, funcionários judiciais e policiais corruptos.

Ao contrário dos enganadores volumes publicados pelas prestigiosas imprensas universitárias e escritos por altamente respeitados propagandistas políticos pró-Israel, o refazer do Médio Oriente depende da força das correntes democráticas na sociedade islâmica. Elas encontram-se nos movimentos estudantis, entre os sindicalistas e os desempregados, nos intelectuais nacionalistas e nas forças seculares e islâmicas que se opõem ao Império dos EUA por razões muito práticas e óbvias. Junto com Israel, os EUA são os principais organizadores da vasta cadeia de campos prisionais políticos que destroem as mais criativas e dinâmicas forças na região. Mais vassalagem árabe provoca a explosão periódica da vibrante cultura e movimento democráticos, embora infelizmente também resulte em maior ajuda militar e presença dos EUA. O verdadeiro choque de civilizações é entre as aspirações democráticas das classes populares orientais e o profundamente imbuído autoritarismo do imperialismo euro-americano.

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