7 de maio de 2014

A economia é complicada?

Robert Bibeau


O crédito é dinheiro

Tradução / O leitor pensa que a economia é uma ciência complicada e que é preciso ser banqueiro para se sentir à vontade com ela. A prova é que há montões de analistas na televisão, na rádio, nos jornais, que explicam o que se passa na bolsa, no mercado de ações, com a moeda (euro e dólar), que justifica a inflação (que será controlada!) que comentam os empréstimos governamentais e a dívida soberana, e nos ameaça de recessão. O que é mais complicado para estes apaniguados é não revelarem nada de importante e falarem muito. E para prevenir a crítica, estes especialistas acusam a esquerda de não compreender nada de economia política.¹

Para o leitor e para mim um banco é um cartão bancário, um livro de cheques, um cartão de crédito e (?) nada mais. Onde está o seu dinheiro neste momento? Onde está o seu salário? Quem tem o seu crédito, a sua hipoteca? O seu banqueiro? Nada de mais errado. Uma hipoteca é dinheiro à vista? Um cartão de crédito é uma moeda? Sim, um cartão de crédito é como uma moeda. Quando utiliza o seu cartão de crédito, você dá ordem ao seu banco para emitir moeda para pagar o que você compra aos comerciantes e que depositam o seu dinheiro no banco que o empresta a outro. O mesmo acontece com a sua hipoteca, a sua margem de crédito bancário e o seu empréstimo para compra do automóvel, tudo isso é dinheiro que, não sendo ainda Capital, pode vir a sê-lo eventualmente.

Capital

O seu dinheiro (crédito, hipoteca, empréstimo, salário depositado diretamente na sua conta, abonos recebidos do Estado) tornar-se-á Capital sob duas condições:

1 – Ser posto em circulação através das suas compras – o que já acontece no que diz respeito à sua dívida pessoal, à sua hipoteca e ao seu empréstimo para compra de automóvel – sendo os seus pagamentos mensais a garantia da circulação deste dinheiro.

2 – O seu dinheiro em circulação na economia ser investido numa empresa que fará produzir mais-valia. Se o investimento do dinheiro só serve para fazer circular dinheiro especulativo, esse não constitui capital produtivo, mas sim capital especulativo, que não pode servir, para o investidor-especulador, senão para se apoderar de uma maior porção do dinheiro em circulação em detrimento dos seus concorrentes.

Será útil aqui um exemplo. Assim que os banqueiros colocaram no mercado bolsista papéis “tóxicos” - pacotes de dívidas ativas, hipotecas, empréstimos – titularizados, acompanhados da promessa de renderem fortes dividendos ao comprador prudente e imprudente, estes bancos atraíam dinheiro para si – quer dizer, uma porção de lucros financeiros em circulação na economia anárquica, até que a bolha especulativa rebentasse e que o crédito colapsasse. Todos terão compreendido que se o Banco ABC vende a dívida de Olivier Assalariado ao especulador bolsista, a Firma XYZ , esta transação não cria nenhum trabalho – não produz nenhum valor salarial – não gera nenhuma mais-valia. Então de onde vêm os juros sobre o empréstimo que o Banco ABC tem de entregar ao especulador bolsista, neste caso a Firma XYZ? Vêm do salário de Olivier Assalariado que cauciona a sua hipoteca com o seu salário (especialmente).

É fácil compreender que, para ser rentável, esta transação financeira necessita de duas condições:

A) a primeira, é que Olivier conserve o seu emprego – e o sua renda, seja qual for a sua proveniência – e, a segunda,

B) que os juros hipotecários pagos por Olivier aumentem sempre, porque se o senhor Assalariado paga sempre os mesmos juros nunca aumentará o dinheiro em circulação que será distribuído entre os credores (bancos e especuladores) e toda a operação fraudulenta bolsista terá sido inútil.

Apliquemos estes conceitos à análise da crise econômica sistêmica de 2008. A crise econômica foi desencadeada pela combinação de dois fatores incontornáveis:

I) por um lado, numerosos assalariados norte-americanos, como Olivier Assalariado, perderam os seus empregos, e

II) as taxas de juro aumentaram, ao ponto de os assalariados que pediram empréstimos, mesmo os que conservaram o emprego, já não conseguirem pagar a sua hipoteca.

Um paradoxo da economia capitalista

Eis um paradoxo que os economistas encartados nunca vos explicarão. Dissemos anteriormente que, para que para que a operação piramidal da titularização dos ativos bancários tóxicos seja lucrativa, é necessário que as taxas de juro sobre os empréstimos aumentem sempre, senão como se apropriariam de mais lucros bancários (parte da mais-valia global) para o seu clã em vez de ir para o dos seus concorrentes? Ora, se as taxas de juro aumentam, um grande número de assalariados torna-se incapaz de pagar os seus empréstimos e entram em incumprimento, são apanhados e expulsos das suas casas (milhões de lares nos Estados Unidos entre 2008 e 2012 e o mesmo drama proletário atualmente em Espanha), expulsões que, contudo, não beneficiam nem os banqueiros nem os especuladores bolsistas enganados.

Da circulação do dinheiro ao Capital financeiro

Toda a gente compreenderá que a razão da existência do Banco ABC não é prestar serviços financeiros a Olivier Assalariado (não é mais do que um pretexto para as suas atividades bancárias). O Banco ABC retém e armazena o seu dinheiro, o seu crédito, a sua hipoteca, o seu salário, mesmo antes de Olivier o ter recebido e, sobretudo, faz circular o seu dinheiro real e virtual (ainda não ganho nem recebido).

Fazer "circular" o dinheiro significa que o Banco ABC joga na bolsa dos mercados mundiais com o dinheiro, o crédito de Olivier e o dos seus camaradas assalariados. O banco especula com o preço do cereal canadense e ucraniano, com o algodão do Egito, com os diamantes sul-africanos, com as ações de Renault e de Bombardier, da Airbus, da Boeing e do Facebook.

Fazer "circular" o dinheiro significa, para o Banqueiro ABC, fazer dinheiro com o dinheiro de Olivier sem trabalhar 8 horas na fábrica, isso é certo. Mas esta circulação de dinheiro, de uma carteira de ações para outra, de um fundo de investimento para outro, não produz nenhuma riqueza, nenhuma mercadoria, nenhum valor real, nenhum bem imóvel, nenhum produto mobiliário, nem nenhum valor. Então o que se passa quando o banqueiro, utilizando 10 mil milhões de dólares que lhe foram confiados por muitos Oliviers assalariados, os tenha colocado em ações do Facebook e, no dia seguinte, aparece proprietário de 12 mil milhões de dólares de valores do Facebook? Deu-se alguma produção de valor – de riqueza – de patrimônio – de Capital no Facebook de dois mil milhões de dólares durante a noite? Evidentemente que não! A sociedade Facebook não produz nenhuma riqueza, nenhuma mercadoria tangível. A firma Facebook mantém em funcionamento um sistema (alugado) de meios de comunicação informáticos na Internet que permitem aos vossos filhos enviar imagens e mensagens simpáticas (o mais frequente) e espera que lhe comprem publicidade e serviços informáticos.

Os dois bilhões de aumento de preço dos ativos da firma Facebook constituem uma emissão de moeda especulativa, inflacionista, fraudulenta em termos morais, mas legal em termos jurídicos, no sistema da economia política capitalista. Estes dois bilhões de dólares de créditos constituem uma antecipação sobre a capacidade de a firma Facebook atrair para si, como na pirâmide de Ponzi outros banqueiros-financeiros-apostadores-especuladores que venham tentar a sua sorte no Loto bolsista, onde nada se cria, nada se perde, mas onde tudo se transforma em dinheiro especulativo e inflacionista, dinheiro este que muitas vezes não passa de vento, como explicaremos no parágrafo seguinte.

Acabamos de observar que o dinheiro, o salário real e mesmo virtual-antecipado, de Olivier Assalariado está transformado em ações duvidosas, em dinheiro virtual, especulativo, inflacionista. Mas, um dia, um grande banqueiro investidor e alguns dos seus amigos membros do serralho capitalista decidem encaixar o seu "lucro", quer dizer, vender as suas ações Facebook agora que o preço está inflado – soprado –enganado; estes iniciados embolsarão assim a sua maquia. Se o seu banqueiro não faz parte dos seletos trapaceiros de primeira categoria que retomaram o dinheiro da sua parada - ele perderá tudo, os seus ativos do Facebook comprados por 10 bilhões de dólares e aumentados instantaneamente para 12 bilhões não valerão mais do que 100 milhões de dólares ou menos. A sociedade canadense Nortel, em 2000, vendia as suas ações a 124 dólares e a apenas 000,47 dólares em 2002². A sua capitalização total na bolsa de Toronto que se cifrava em 398 bilhões de dólares em 2000, não valia mais do que 5 bilhões de dólares em 20023.

A falsa moeda "inventada e viciada" volatilizar-se-á. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma em dinheiro ou falências! A ilusão torna-se "ação", volta a tornar-se ilusão e eis a transformação bancária-bolsista das ações-especulação. Os assalariados cipriotas viveram a resultante desta manigância bancária bolsista – numa manhã de março de 2012, o seu banco foi encerrado e o seu dinheiro sequestrado. Algumas semanas mais tarde, aperceberam-se de que 40% das suas economias tinham sido expropriadas pelos seus banqueiros e nunca mais lhes seriam devolvidas, sem contar que o Estado cipriota europeu teve de pagar milhares de milhões de dólares aos banqueiros vigarizados pelos seus camaradas chacais dos bancos e dos seus aliados.

Notas:

¹ Os economistas a soldo publicam grossos calhamaços de 650 páginas como este senhor Piketti – superstar da economia capitalista –, mas incapaz de resolver o mínimo problema do sistema. (Richard Hétu, "Le Phénoméne Piketty", La Presse+, 28 de abril de 2014).

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