23 de maio de 2014

A OTAN empurra a UE para uma nova guerra fria

Manlio Dinucci


Houve um silêncio político-midiático sobre o encontro dos ministros da defesa efetuado em Bruxelas em 21-22 de maio, apesar desse não ter sido um encontro de rotina, mas um ponto alto que anunciava a entrada de uma nova estratégia que condiciona o futuro da Europa. Basta que se pense que 23 dos 28 países da UE são ao mesmo tempo membros da OTAN. Isso traz uma consequência para todas as decisões tomadas pela aliança, a qual encontra-se abaixo da incontestável liderança dos Estados Unidos. Inevitavelmente essa situação determina o caminho a ser tomado pela União Européia.

Foi o general Philip Breedlove – o supremo comandante dos aliados na Europa, nomeado como sempre pelos Estados Unidos – que anunciou em Bruxelas o ponto dessa virada: “Estamos frente a decisão crucial de como enfrentar, a longo prazo, um vizinho agressivo”. Ou seja, a Rússia, que está sendo acusada de violar o princípio de respeito às fronteiras nacionais na Europa, desestabilizando a Ucrânia, como um estado soberano, e ameaçando dessa maneira os países da OTAN nessa região. Esse sermão vem do púlpito de uma aliança militar que demoliu a Iugoslávia, através da guerra até conseguir separar o Kosovo da Sérvia; esse sermão vem de uma aliança militar que se expandiu até englobar todos os países do ex-pacto de Varsóvia, dois da Iugoslávia e três da União Soviética; esse sermão está vindo de uma aliança militar que penetrou na Ucrânia, assumiu o controle de posições chaves nas forças armadas e treinou os grupos neo-nazistas usados no golpe de estado em Kiev.

É significativo que na reunião dos chefes do estado-maior dos países da OTAN, em 21 de maio em Bruxelas, tenha também participado o general Mykhallo Kutsyn, o novo chefe do estado-maior ucraniano. O ainda atual secretário geral da OTAN Rasmussen, em visita a Skopie, anunciou que “a porta da aliança continuava aberta a novos membros” como a Macedônia, a Geórgia e naturalmente a Ucrânia. Continua assim então a expansão ao leste, ou seja, ao oriente. A OTAN – advertiu o comandante supremo na Europa – deverá iniciar uma “adaptação estratégica para enfrentar o uso, pela parte da Rússia, de exercícios improvisados, de atividades cibernéticas e de operações encobertas”.

Isso “custará dinheiro, tempo e esforço”. O primeiro passo consistirá no ulterior aumento da despesa militar da OTAN, que hoje é superior a 1000 bilhões de dólares anuais: com esse objetivo o secretário da defesa dos Estados Unidos, Chuck Hagel, anunciou uma conferência na qual participarão não só os ministros da defesa, mas também os ministros das finanças, no qual o objetivo será o de levar os aliados europeus a aumentar as suas despesas militares. No cenário da “adaptação estratégica” a OTAN vai bem além da Europa, estendendo-se à região Ásia-Pacífico. Aqui – na sequência dos acordos entre a Rússia e a China, que frustram as sanções ocidentais contra a Rússia, apresentam-se novas possibilidades – aqui apresenta-se a possibilidade de uma união econômica euro-asiática capaz de contrabalançar a união USA-UE, a qual Washington quer reforçar ainda mais com a parceria transatlântica para o comércio e investimentos.

Os acordos assinados em Pequim não se limitam ao fornecimento de energia para a China, mas enquadram também o setor da alta tecnologia. Está em fase de estudo, por exemplo, o projeto de uma grande linha aérea que, com uma co-produção russo-chinesa, poderá fazer concorrência à Boeing dos Estados Unidos, e à Airbus da Europa. Um outro projeto de porte planeja a construção de um super helicóptero com capacidade de transportar uma carga de cerca de 15 toneladas.

A questão que é substancialmente ignorada nas campanhas eleitorais europeias, é a de se a União Européia deveria seguir os passos dos Estados Unidos quanto a “adaptação estratégica” da OTAN, a qual leva a um a um novo confronto Ocidente-Oriente – não menos perigosa e cara do que o da guerra fria – ou se a União Européia deveria se desvincular para empreender um caminho próprio e construtivo, desfazendo-se da ideia de colocar a espada no prato da balança, aumentando as despesas militares para poder conservar uma vantagem, que para o ocidente está a diminuir, cada vez mais.

O único sinal que vem da União Européia é um insulto a inteligência: A Comissão Européia decidiu que, em 2014, nos cálculos do PIB, as despesas dos sistemas de armamentos deverão ser considerados não como uma despesa, mas como um investimento para a segurança dos países. Para aumentar o PIB da Itália passaremos então a investir no F–35.

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