17 de maio de 2014

A revolta popular no leste da Ucrânia: rebelião contra o primeiro regime neo-fascista na Europa do pós-guerra

Lionel Reynolds

The 4th Media

Esta semana, a guerra no leste da Ucrânia continuou , apesar do referendo realizado em Donetsk e Lugansk no domingo. Nas circunstâncias, os referendos foram bem organizados. Nestas circunstâncias, os referendos foram bem organizados. O grau de precisão dos resultados pode ser questionado, mas já não cabe dúvida de que os grupos regionais que se opõem ao regime de Kiev gozam, sim, de apoio forte e declarado da população.

O regime ucraniano tem marcado os rebeldes como terroristas. Ao mesmo tempo, recrutaram batalhões de bandidos mascarados e armados dos grupos de direita e os enviaram para o Donbass. Esses “homens de pretro”, cuja existência nem a mídia corporativa consegue negar (Christopher J. Miller, “Volunteer Donbass Battalion takes up arms to defend Ukraine, defeat separatists”, Kiev Post, 14 de maio de 2014), são em parte financiados por interesses comerciais próximoa do próprio governo de Yatsenyuk. Semana passada, assassinaram civis em Mariupol e Slavyansk.

Antes do referendo a grande mídia divulgou que a votação realizar-se-ia “sob mira de fuzis”. Até que acertaram, dessa vez: os eleitores tiveram de enfrentar o perigo de serem fuzilados, para conseguir votar. Em Krasnoarmeisk um grupo de bandidos armados neonazistas pró-governo de Kiev tentou impedir que eleitores se aproximassem das zonas eleitorais. Tiros foram disparados e alguns civis ficaram feridos. A ação não tinha lógica militar. Não há motivo algum pelo qual o regime devesse dar “tratamento especial” ao referendo nessa cidade em especial. É provável é que tenha sido terrorismo com o objetivo de intimidar os eleitores, realizada por uma brigada pró-regime desonesto.

Bem-vindos à nova Ucrânia, o primeiro regime neo-fascista na Europa pós-guerra.

O regime neofascista e seus apoiadores no “bloco atlanticista” (Washington, União Europeia, OTAN) e a imprensa-empresa comercial dominante muito falaram sobre os rebeldes do Donbass, que seriam agentes russos. E ainda insistem em falar da rebelião antifascista como se fosse terrorismo “pró-russos”. É possível até que funcione, como propaganda, entre os que nada saibam do elemento etnocultural russo crucialmente importante dentro da Ucrânia. RTpublicou recentemente matéria interessante sobre correlação que há entre o empenho com que os norte-americanos apoiam o regime golpista na Ucrânia, de um lado; e, de outro, a total ignorância dos norte-americanos sobre a própria Ucrânia que eles, sequer, sabem encontrar num mapa.

Mas se a rebelião fosse “coisa” “pró-Rússia”, por que, afinal, estaria acontecendo exatamente agora, em 2014. Por que não aconteceu em 2004? Obviamente, há algo mais acontecendo aqui.

Onde estão as provas de que os “homens polidos vestidos de verde” são russos? Provas, não meras fotografias distribuídas por conta de instagram e “tratadas” para fazer ver dois homens, igualmente barbudos, onde parece haver um único homem, em duas imagens cortadas-coladas sobre diferentes cenários. Fosse aquilo verdade confirmada, não há dúvida de que a imagem estaria em todas as manchetes. O fato de não estar lhe diz tudo o que você precisa saber.

O regime ucraniano e seus apoiadores falam dos rebeldes antigoverno golpista de Kiev como “terroristas”. O ministro do Interior, Avakov, escreveu recentemente em sua página de Facebook que “a única atitude contra terroristas é atirar para matar”. Estranho, para dizer o mínimo, vindo de ministro do Interior de regime que chegou ao poder mediante golpe! E em fevereiro de 2014? Por acaso não estavam ali, perfeitamente visíveis, todos os traços e pegadas de terrorismo, pré-organizado, de ataques armados planejados com antecedência contra a política e as forças de segurança e executados por gangues de bandidos de extrema direita organizados na praça Maidan, já em fevereiro de 2014?

Yanukovich fez inúmeras concessões ao movimento da Praça Maidan e, inclusive, assinou acordo de paz. O atual regime não tomou conhecimento do acordo que ele próprio assinara. Resolveu que não negociaria com “terroristas”. A resposta do governo golpista de Kiev e seus apoiadores norte-americanos foi armar as gangues de bandidos de direita já reunidos na Praça Maidan e lançá-los, como matilha de cachorros loucos, contra os cidadãos no Leste da Ucrânia.

Os russos, a Organização de Segurança e Coordenação da Europa (OSCE) e o Ministério de Relações Exteriores da Alemanha, todos, já se manifestaram: entendem que o regime golpista de Kiev tem de aceitar o início de negociações com os rebeldes. De fato, como todos sabemos – apesar das mentiras do regime ucraniano e do bloco atlanticista – os rebeldes têm considerável apoio nas suas respectivas regiões. Mas o regime golpista de Kiev-EUA não aceita negociar: continua a fazer guerra contra civis ucranianos.

Assim, deixando de lado a propaganda simplista sobre "agentes russos" e "terroristas" , é hora de olhar para as verdadeiras razões para a revolta popular no leste da Ucrânia.

O plano de fundo

O estado da Ucrânia que temos hoje é recente e pode-se dizer que seja uma espécie de entidade política artificial, que incorpora regiões com normas culturais e experiência histórica muito diferentes. Em linhas gerais, a Ucrânia é constituída de quatro regiões: o Oeste, cujo núcleo são as províncias (Oblasts) de Galicia, Ternopil e Volhynia; o Centro, baseado em Kiev e Dnieper; o Sul, que inclui Odessa e Dnipropetrovsk; e o Leste, essencialmente o Donbass e Carcóvia.

Na verdade, os atuais residentes na Ucrânia só coexistiram sob política unificada em 1939 (deixando de lado, por hora, a complexa história da Crimeia e de algumas outras pequenas áreas de fronteira).

A Ucrânia central e do oeste, inclusive Kiev, é área em que predomina o idioma ucraniano. Na Ucrânia do leste, predominam os falantes de russo como primeira língua; como na maioria das áreas urbanizadas no Sul. Muitos falantes de ucraniano são ucranianos étnicos. Cerca de 65% dos falantes de russo são russos étnicos. A Crimeia, já reincorporada à Federação Russa, é etnicamente e linguisticamente predominantemente russa.

Paralelas às distinções étnicas e linguísticas, há também variações religiosas. Os ucranianos étnicos tendem a pertencer ou à Igreja Católica Ucraniana (fortemente concentrada no oeste do país) ou à Igreja do Patriarcado Ucraniano Ortodoxo de Kiev. Os russos étnicos pertencem à igreja do Patriarcado Ortodoxo de Moscou.

Muitos ucranianos do oeste, e números cada vez maiores de ucranianos do centro do país e de Kiev, apoiam fortemente um nacionalismo aspiracional nascido de um senso de destino histórico frustrado. O nacionalismo ucraniano clássico tem raízes no início do século passado. Como muitos movimentos nacionalistas europeus, tem inimigos declarados – grupos que ameaçam ou oprimem a nação, negando-lhe a realização de algum destino manifesto. Para os nacionalistas ucranianos, o “inimigo” sempre teria sido os judeus, os poloneses e os russos. No atual clima político, os nacionalistas ucranianos entraram em modo de ataque ao elemento semita, traço que sempre se observou no nacionalismo ucraniano clássico. O elemento anti-polonês também sempre foi muito marcado, no passado.

O inimigo ideológico do nacionalismo ucraniano é o comunismo, que é visto como uma espécie de “disfarce” a encobrir a dominação pelos russos étnicos. Sempre houve amargo ressentimento contra os russos, vistos como responsáveis pelo sofrimento terrível pelo qual passaram os camponeses ucranianos durante a coletivização forçada da agricultura nos anos 1930s, quando milhões morreram de fome.

Os russos étnicos na Ucrânia têm senso de identidade completamente à parte. Identificam-se como parte de um espaço etnocultural pan-russo, e descendem, sobretudo, de duas ondas de colonização. A primeira foi a criação da Novorossiya, como resultado da expansão imperial russa no final do século 18. A segunda, a criação da União Soviética. Os russos étnicos não são tipicamente comunistas; de fato, o leste da Ucrânia é algo como um reduto comunista no antigo espaço soviético.

Além do mais, há grande número de ucranianos que falam russo. São ucranianos étnicos que foram socializados no idioma russo no contexto da urbanização industrial. Isto porque áreas em que predomina o russo sempre foi mais comum nas cidades do que no campo.

São dois grupos etnolinguísticos básicos (há outros grupos, mas relativamente pequenos e sem impacto considerável na questão em curso), cada um deles com suas específicas memórias históricas partilhadas – o que tende a reforçar, simultaneamente, tanto a solidariedade intragrupo como a exclusividade extragrupo.

O que se pode chamar de “etnocultura ucraniana” memorializa o terrível sofrimento dos tempos das coletivizações soviéticas (interpretadas sempre como “russas”). É fator usado como justificação histórica básica para a colaboração de muitos dos ucranianos do oeste, com os nazistas. Mas essa colaboração jamais foi “simples” e sem oposição, dado que os nazistas alemães sempre manifestaram o mais absoluto desprezo pelos povos eslavos; o único interesse dos nazistas sempre foi explorar explorar o sentimento anti- russo para seus propósitos.

Por outro lado, o que se pode chamar de “etnocultura russa” memorializa o horrendo genocídio nas garras dos invasores nazistas e seus colaboradores, e a eventual vitória do Exército Vermelho. Muitos, o maior número de ucranianos, lutaram no Exército Vermelho que contra ele, mas, dada a atual ascendência do nacionalismo ucraniano, esse equilíbrio não se reflete na história contemporânea como é hoje “reimaginada”.

Os ucranianos étnicos tendem mais facilmente a votar pelo centro direita, com os partidos burgueses liberais de orientação “ocidental”. Os russos étnicos tendem mais a votar pelo centro-esquerda e partidos mais “estatizantes”, de orientação “eurasiana”. Os partidos nacionalistas praticamente não têm apoio entre os russos. Os partidos comunistas têm pouco apoio entre os ucranianos.

As duas “etnoculturas” internalizaram narrativas históricas que são potencialmente antagônicas. Para um lado, o inimigo são os russos (soviéticos), e os heróis são os nacionalistas ucranianos que combateram contra os russos (soviéticos) na IIª Guerra Mundial. Para o outro lado, o inimigo são os nazistas, além dos nacionalistas ucranianos os quais, ou lutaram com os nazistas ou lutaram contra os soviéticos; e os heróis são os soviéticos – ucranianos étnicos e russos étnicos.

Em uma cultura política pluralista e inclusiva, essas diferenças não são necessariamente problema insolúvel, desde que os grupos consigam construir o próprio senso de identidade de modo respeitoso e tolerante.

Infelizmente, a Ucrânia contemporânea viu crescer uma onda virulenta de etnonacionalismo entre os que se autoidentificam como “ucranianos”. Esses nacionalistas rejeitam furiosamente o aspecto “russo” da identidade civil e política da Ucrânia. Veem a Rússia como inimiga e, no mínimo, desconfiam muito dos russos étnicos na Ucrânia. Ressentem-se também do uso disseminado do idioma russo; e dos remanescentes históricos e culturais do comunismo soviético.

O confronto resultante de narrativas etnoculturais e identidades histórico-políticas pode ser exemplificado pela “batalha dos monumentos”. Em anos recentes, monumentos em homenagem a Stepan Bandera brotaram por todo o oeste da Ucrânia. Os monumentos em homenagem a Lênin concentram-se agora quase totalmente no leste e no sul da Ucrânia. Havia um em Kiev, mas foi derrubado como parte da “ação” do golpe de Maidan. Para muitos, no leste, Bandera foi criminoso, colaboracionista e fascista. Para muitos, no oeste, Lênin foi criminoso e precursor das coletivizações stalinistas. Ele também era russo.

Deve-se enfatizar que a Ucrânia conseguiu manter a própria unidade durante 80 anos, apesar de todas essas diferenças. Mas a unidade da nação ucraniana está, agora, sob forte estresse.

O Maidan e o golpe nacionalista

O levante fascista da Praça Maidan, e o golpe subsequente contra o governo de Yanukovich foi apoiado pelo bloco atlanticista e pela imprensa-empresa comercial dominante, como se fosse vitória de forças liberais e democráticas contra regime estatizante, corrupto e – pior! – “pró-Rússia”.

Essa é a narrativa padrão que os atlanticistas usam para “colorir” as “revoluções” que produzem; é o meio para expor a vitória do lado que interessa ao bloco atlanticista como se fosse vitória de algum bloco “naturalmente” democrático; os interesses desse bloco, coincidentemente, correspondem também “naturalmente” aos interesses do mesmo bloco (i) atlanticista; e (ii) golpista. Essa narrativa, como se demonstra aqui, adiante, no caso da Ucrânia, e como se pode demonstrar também no caso da Síria, é uma sequência de mentiras em cadeia ou, pelo menos, é uma cadeia em que se ligam mais mentiras, que fatos demonstráveis e confirmáveis.

A narrativa atlanticista também encobre outro fato crucialmente importante. O movimento da Praça Maidan e o regime pós-golpe são, em vasta medida, criação de apenas um dos dois amplos grupo políticos e etnoculturais que coabitam na Ucrânia. Essa evidência é determinante e tem de ser bem compreendida para que se possa avaliar com clareza a resposta de muitos no leste e no sul, aos eventos recentes.

O movimento de protesto de Maidan foi gerado, sobretudo, pelo sentimento nacionalista ucraniano e por manifestantes do oeste e do centro da Ucrânia. O regime que está hoje no poder é uma coalizão de três partidos políticos. O centro de gravidade geográfico dos três partidos está no Oeste/Centro da Ucrânia, com presença menor no sul (especialmente Dnipropetrovsk), mas apoio muito atenuado no leste.

Um desses partidos, o Svoboda fascista (adiante, mais sobre ele), tem praticamente toda a sua base concentrada exclusivamente no oeste do país. Nas eleições para o Parlamento, em 2012, o partido fascista Svoboda recebeu apenas cerca de 1-2% dos votos dos milhões de eleitores do leste industrializado falante de russo. Mas tiveram mais de 30% dos votos em cidades do oeste da Ucrânia, como Ternopil e Lyviv.

A natureza anti-russos, como um dos elementos significativos no novo governo pós-Maidan, já ficou bem evidente desde o primeiro momento. Ouviram-se vozes que exigiam que o ucraniano fosse tornado língua oficial obrigatória, com proibição do uso do idioma russo, websites em russo foram derrubados; estações de televisão que transmitem em russo foram bloqueadas e jornalistas russos influentes tiveram cancelados os passaportes ou os vistos de residência ou de passagem pelo país.

Em Kiev, fascistas russofóbicos andavam acintosamente pelas ruas atacando oponentes; por exemplo, invadiram e saquearam os escritórios do Partido das Regiões e do Partido Comunista, e atacaram jornalistas de televisão que divulgavam notícias favoráveis à reincorporação da Crimeia à Federação Russa, a pedido dos crimeanos.

E como se isso não bastasse, à luz do contexto histórico acima exposto, é difícil avaliar a extensão da ofensa da qual a classe trabalhadora industrial socialista russa da região do Donbass ressentiu-se, cometida contra ela, quando os mineiros e trabalhadores deram-se conta de que um golpe do qual não participaram, feito à revelia deles, havia instalado um novo governo que incluía fascistas do oeste da Ucrânia.

A natureza etnocultural viciosa, orientada só por uma visão, cega e surda às diferenças que dividem o país, marca registrada do golpe da Praça Maidan e do regime que dali se espalhou para todo o país, terá provocado alguma preocupação entre os apoiadores atlanticistas – EUA, União Europeia, OTAN, esses bastiões de defesa do pluralismo e da inclusão? Não e não. Não lhes fez nem cócegas. Por quê? Porque o único interesse desse grupo era explorar a situação para seu próprio ganho geopolítico. Sempre se tratou exclusivamente de ganhar a Ucrânia para o bloco atlanticista, aprofundar a presença e o engajamento da OTAN, estender os tentáculos da oligarquia empresarial da União Europeia; criar mais um estado endividado a ser “depenado” pelo Fundo Monetário Internacional; e “punir” Putin por ter feito gorar os esquemas do bloco atlanticista para vaporizar a Síria do Partido Ba’ath e converter o Oriente Médio em quintal um pouco mais seguro para EUA, União Europeia, OTAN e Israel – ou, como os “jornalistas” da imprensa-empresa comercial ocidental denominam o mesmo grupelho: para a “comunidade internacional”.

Na busca dessa meta, não apenas o bloco atlanticista tratou os falantes de russo e o leste de tendências socialistas como se não existissem, mas, também, o bloco “ocidental” não se envergonhou de alistar-se abertamente ao lado dos fascistas.

O bloco atlanticista teve de encobrir o fato de que atropelara todas as delicadas divisões na Ucrânia para obter o que se pudesse apresentar como “vitória” geoestratégica, pondo sob grave ameaça o próprio tecido da unidade ucraniana pluralista [que fazia contrapeso ao etnonacionalismo extremista]. Teve de explicar por que tantos no leste, no sul e na Crimeia puseram-se a protestar em número crescente, muitos dos quais acenando com bandeiras russas – brandidas como signo de “nova via”, ante a identidade etnocultural ofendida dos ucranianos.

Para obter isso, o bloco atlanticista teve de inventar e distribuir até implantar na opinião pública uma narrativa histérica, fortemente enviesada anti-Rússia, conspiracional, na esperança de, mediante essa narrativa histérica, conseguir empurrar a opinião pública para bem longe do fato de que as divisões na Ucrânia de hoje foram, de fato, em larga medida provocadas, numa sequência de eventos que o bloco atlanticista explorou desavergonhadamente a seu próprio favor e para seu próprio e exclusivo benefício.

Rússia – de novo?

Por exemplo, segundo o “noticiário” dos veículos de imprensa atlanticista, a Crimeia não se autosseparou da Ucrânia: a Crimeia teria sido invadida. Culpa dos russos. Assalto, puro e simples, com roubo e ocupação de terras. Não é verdade. Essa é a versão mentirosa. Essa versão ignora convenientemente o fato de que, por todas as normas existentes e concebíveis de autodeterminação nacional democrática – as mesmas que o bloco atlanticista tanto defende quando lhe interessa, quanto agride quando os interesses mudam – a Crimeia sempre foi, deve continuar e requereu legalmente para continuar a ser, república autônoma incorporada à Federação Russa, como deve ser e quer ser.

A Crimeia só foi dada à Ucrânia em 1954. Antes sempre tivera e nutrira sua forte identidade russa. O apoio da população crimeana à reintegração à Federação Russa foi esmagadora.

Por que, em março de 2014, a Crimeia optou por voltar a ser parte da Rússia? Por que não antes? Por que não em 2004? A resposta para essas perguntas é que os eventos em Kiev provocaram completa, compreensível e genuína reação irredentista. Para a Crimeia, o negócio com a “Ucrânia”, concluído em 1954 sem o consentimento formal dos cidadãos, já era assunto velho e ultrapassado. Etnicamente a Crimeia russa não tinha, como não tem, qualquer interesse em ser parte integrante de um regime ucraniano nacionalista fantoche do sistema atlanticista. Especialmente não, se, como se sabe, o atual governo nacionalista e fantoche de EUA-UE-OTAN é aliado a partidos fascistas.

Quanto ao crescimento, no leste, do movimento de base contra o governo de Kiev, especialmente no Donbass, é também um fenômeno puramente reflexivo. Não houve “homens polidos vestidos de verde e armados” antes que os “fascistas de camisas negras” tomassem o poder e tratassem o leste russófilo, com ódio russofóbico.

Em Kiev, membros do Parlamento há muitos meses ameaçavam banir o Partido Comunista e o Partido das Regiões. Esse tipo de non sense antidemocrático apenas recomeçou logo depois do referendo de Donetsk, em larga medida porque elementos do Partido das Regiões e do Partido Comunista haviam tido coragem suficiente para denunciar que a culpa pelos eventos no Donbass não cabia nem jamais coubera aos russos, mas, sim, ao regime golpista de Kiev e aos seus patrocinadores internacionais.

Mas há ainda um aspecto mais importante que esses. A natureza da rebelião em Donetsk está sendo sistematicamente distorcida desde o primeiro momento. A imprensa fala sempre de que seria movimento “pró-Rússia” ou que seria movimento “separatista”. De fato, no plano popular, a rebelião em Donetsk é, antes de tudo, antifascista. Quem tiver visto fotos dos cartazes, faixas e pôsteres exibidos nas barricadas em torno de prédio ocupados ou bloqueios em estradas, ou que tenha visto os cartazes e faixas exibidos nas manifestações, ou que tenha ouvido os gritos de “fascistas!” contra as forças ucranianas que atacavam ucranianos em Mariupol ou Slavyansk, não pode deixar de ter notado isso.

Mas por que o povo do Donbass define como fascista, o regime de Kiev? Será simples efeito da propaganda russa, explorando velhos medos históricos?

O fascismo ucraniano – de “movimento” a “governo”

Em 21 de fevereiro de 2014, o governo de Yanukovich concluiu um acordo de paz com os três principais partidos que davam base política à liderança dos protestos da Praça Maidan. Esse acordo foi negociado por Alemanha, França e Polônia. Foi firmado depois de ataque armado violento, que provocou mais de cem mortos na praça; incluía um compromisso para construir um governo de unidade nacional; realizar eleições sem grande demora; anistia a todos os manifestantes; e investigação ampla e transparente, sob supervisão internacional, para esclarecer os ataques à bala na praça, contra os manifestantes, que haviam ocorrido nos três dias antes de o acordo ser assinado.

Se esse acordo tivesse sido honrado, é altamente provável que a Ucrânia, hoje, estivesse em situação bem diferente. Mas não foi honrado, e por razão bem simples – quando a liderança do Parlamento ucraniano levou o acordo ao conhecimento do “comando” da linha mais dura do “movimento” em Maidan, ele simplesmente rejeitaram o acordo e, na sequência, lançaram os ataques mais violentos contra inimigos do regime. Dia seguinte, Yanuokovich desapareceu, muito provavelmente para tentar salvar a vida (e ainda mais provavelmente, para tentar salvar o dinheiro). O Partido das Regiões implodiu; e o velho regime foi alvo de “impeachement”, embora em condições de constitucionalidade e de legalidade que eram, no mínimo, muito duvidosas.

A força por trás de tudo isso eram os radicais da Praça Maidan, já nesse momento mobilizados em torno da liderança do conhecido Pravy Sektor (Setor Direita) – grupo de fascistas armados. O que temos hoje como “governo de Kiev” – que a imprensa-empresa chama de “regime de Yatseniuk” – é governo que chegou ao poder mediante golpe e violência fascistas. Quanto a isso, a posição da Rússia sempre foi rigorosamente a mais acertada, a mais ponderada e a única posição moralmente defensável: a Rússia sempre insistiu em que se retomassem os termos negociados no acordo do dia 21/2/2014. Os EUA opuseram-se. E os EUA apoiaram 100% o governo pós-golpe – vale dizer: o governo dos fascistas – ignorando completamente o acordo de paz multilateral que os fascistas da Praça Maidan haviam atropelado.

Mas há muito mais de presença fascista no atual regime de Kiev do que as circunstâncias que cercam o golpe.

Pode-se voltar ao ano de 1991, à fundação do Partido Social-nacionalista. Como qualquer aluno estudante de fascismo sabe, “social-nacionalista” significa Nazi-socialista, em ordem invertida, só para soar menos apavorante: o significado é o mesmo.

Nacionalismo social - Socialismo nacional - Nazismo - Fascismo

O Partido Nacional Social foi inspirado pelo nazismo histórico, e tem conexões com o nacionalismo radical do oeste da Ucrânia. São grupos cujos tentáculos alcançam até as torcidas organizadas de times de futebol. Operam uma organização paramilitar, chamada “Os Patriotas da Ucrânia”, liderada por um dos cofundadores do Partido, um certo Andriy Parubiy. Só se admitem como membros do partido, ucranianos étnicos.

Curiosamente, a atual encarnação desse partido nazista é que está hoje no governo da Ucrânia. E Andriy Parubiy é diretor da Segurança Nacional desse governo... E esse mesmo governo conta com irrestrito apoio dos EUA, da União Europeia, da OTAN e da mídia mainstream.

Em 2004, o Partido Nacional-Social trocou de nome para Partido “Liberdade” [Svoboda], e abandonou o símbolo cripto-rúnico que o mundo sempre identificou e sempre identificará como emblema fascista, e que usara desde os tempos em que o partido congregava skinheads.

Naquele mesmo ano, o líder, Oleh Tyahnybok, o qual, durante os tumultos na Praça Maidan apareceu nas telas de televisão do mundo ao lado de figuras como Catherine Ashton e John McCain, fez um discurso, na cerimônia de enterro de um ex-comandante do Exército Ucraniano colaboracionista; nesse discurso, conclamou os ucranianos a lutar contra a “máfia judeu-moscovita”, e elogiou a Organização dos Nacionalistas Ucranianos por terem lutado contra “moscovitas, alemães, judeus e o resto da escória que queria roubar nosso estado ucraniano”. Esse discurso está gravado e provocou grave controvérsia na Ucrânia já em 2004.

Quando aconteceu a Revolução Laranja, o partido era insignificante, mas ao longo da segunda metade daquela década houve crescimento considerável, sobretudo no oeste na Ucrânia. Esse desdobramento tem de ser visto no contexto do crescimento de toda uma extrema direita pan-europeia – organizações como Jobbik na Hungria; a Frente Nacional na França, e o BNP no Reino Unido. Em 2009, o partido Svoboda uniu-se à Aliança de Movimentos Nacionais Europeus como membro-observador; nessa aliança, os ucranianos passaram a ter contato íntimo (e armado e de treinamento) com fascistas italianos, húngaros, espanhóis e portugueses.

Em 2009, o partido Svoboda também conheceu o seu maior sucesso eleitoral, obtendo mais de 30% dos votos nas eleições da região [oblast] de Ternopil. Em 2010, tornou-se a maior força na Galicia; e em 2012, nas eleições parlamentares, obteve 38 assentos com direito a voto; mais de 10% do total de votos e conseguindo multiplicar por catorze o número de votos recebidos, em comparação a 2007. No oeste da Ucrânia, o partido Svoboda obteve 40% dos votos; mas no leste, não alcançou nem 2%.

Nas eleições de 2012, o partido Svoboda fez um pacto eleitoral com o Partido Batkivshchyna, de Yatseniuk/Yulia Timoshenko (para derrubar a legislação proposta, que impediria propaganda fascista na Ucrânia). Depois da eleição, o partido Svoboda fez acertos no Parlamento com o partido de Yatsenyuk e com o partido UDAR, de Vitali Klitschko. Esses três partidos constituem o núcleo duro do Parlamento que se transferiu para a Praça Maidan e, dali, para formar o atual governo apoiado pelos EUA-União Europeia e OTAN.

Verdade chocante é que, em 2004, houve a Revolução Laranja e, em 2014, a Revolução das Camisas Marrons fascistas.

A diferença entre 2004 4 2014 é o renascimento do fascismo do oeste da Ucrânia, ao longo da década que separa as duas datas. Assim aconteceu de, hoje, haver na Ucrânia um governo do qual participam partidos fascistas: é o primeiro caso, na história da Europa do pós-guerra. Aconteceu com pleno apoio do bloco atlanticista, e em aliança com nacionalistas burgueses antiesquerda e com os neoliberais neoconservadores. Hoje, o partido Svoboda conta com cinco membros fascistas, com cargos no governo da Ucrânia.

O Donbass , onde em 2012 havia cerca de 20 votos comunistas para cada voto fascista, vê-se hoje governado por um regime putschista, constituído de russófobos e de fascistas ocidentais profundamente anticomunistas.

Há ainda mais um elemento na cena fascista na Ucrânia e que também está conhecendo extraordinário renascimento nos últimos seis meses – o facinoroso Pravy Sektor (Setor Direita). O Setor Direita foi formado de uma associação de vários grupos paramilitares fascistas, inclusive os Patriotas da Ucrânia, que se organizaram dentro do Partido Svoboda, quando os fascistas decidiram passar a participar da vida política nacional oficial na Ucrânia, em 2004.

O Setor Direita passou a ser a força de rua decisiva durante o levante fascista da Praça Maidan, e liderou o putsh até expulsar do governo o regime de Yanukovich, depois que o comando do golpe rompeu o acordo assinado dia 22/2/2014. O Setor Direita também desempenhou papel significativo ao fornecer voluntários para as milícias secretas e batalhões ilegais do novo governo. É grupo bem armado, e recentemente realocou sua liderança, de Kiev para Dnipropetrovsk, com o explicitado objetivo de estar mais próximo da “ação”, no Donbass.

A imprensa-empresa comercial dominante tentou pintar o golpe de Maidan e o governo que dali se originou pela força como alguma espécie de “revolução colorida” – parte da gradual nas inevitável vitória do capitalismo burguês liberal nos espaços antes ocupados pelo bloco soviético. Mas há muito mais marrom-cor-de-merda, que de laranja, nessa revolução. É absoluto, é total escândalo, que EUA, União Europeia e OTAN, com seus/suas “rainhas da bateria” nas empresas da imprensa-empresa comercial, estejam promovendo, propagandeando e divulgando um governo que deixa correr, com rédeas soltas, os grupos de fascistas mais ensandecidos, e justamente na área onde se localiza o coração da classe trabalhadora industrial da Ucrânia.

Guerra Civil?

Este é o verdadeiro pano de fundo da rebelião Donbass, e explica não só por que está acontecendo, mas, também, por que está acontecendo agora.

O regime ucraniano é regime neofascista que chegou ao poder por ação de golpe violento, perpetrado por forças nacionalistas de extrema direita. E a Crimeia e o Donbass levantaram-se contra essa usurpação inconstitucional do poder estatal.

O bloco atlanticista deu pleno apoio ao golpe e esperava que a Rússia se curvasse obedientemente à autodeclarada hegemonia global do bloco EUA-UE-OTAN. Putin tinha outros planos. E a Crimeia voltou a reintegrar-se à Rússia.

A Ucrânia, apoiada pelo bloco atlanticista, armou grupos fascistas e lançou-os contra o Donbass. Só conseguiram piorar as coisas, e, no referendo, afinal, o povo do Donbass declarou, para que todos vissem e ouvissem, a sua própria posição e seu próprio desejo.

O obsceno ataque pelas forças fascistas ucranianas contra o Donbass tem de parar. Se não parar, a Ucrânia deslizará cada vez mais diretamente para a guerra civil. Se isso acontecer, a culpa será deposta, integralmente, à porta do amaldiçoado estado-governo imperialista de Washington, da União Europeia e da OTAN.

Lionel Reynolds who is one of the frequent contributors for The 4th Media writes the Dispatches from the Empire blog.

Nenhum comentário:

Postar um comentário