21 de maio de 2014

Confronto na Ucrânia

Putin contra o camarada lobo

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

“O camarada lobo sabe o que comer, e ele come sem ouvir ninguém.” 
- O presidente russo Vladimir Putin referindo-se aos Estados Unidos

A crise na Ucrânia tem suas raízes em uma política que remonta há 20 anos. Sua origem pode ser rastreada até um artigo de Zbigniew Brzezinski, em 1997, na revista Foreign Policy, intitulado “A Geostrategy for Eurasia” [Uma geoestratégia para a Eurásia]. O artigo argumenta que os Estados Unidos precisam se estabelecer firmemente na Ásia Central, a fim de manter sua posição de única superpotência mundial. Por mais que muitos leitores estejam familiarizados com a forma de pensar de Brzezinski sobre essas questões, podem ainda não se ter orientado sobre o que ele diz sobre a Rússia. E é muito útil revisar essa parte, porque o recente incremento da violência tem mais a ver com a guerra por procuração movida contra a Rússia, que com a Ucrânia em si mesma. Eis o que diz Brzezinski:

"A forma pela qual a Rússia se autodefinirá tem muito a ver com o papel que desempenhará a longo prazo na Eurásia... Mais do que tentar readquirir o status de potência global, a Rússia deve priorizar a sua própria modernização. Dado o tamanho do país e sua diversidade, um sistema político descentralizado somado à economia de livre mercado provavelmente se mostrará a melhor opção para liberar o potencial criativo do povo russo, assim como de seus vastos recursos naturais. Uma confederação russa não tão rígida, composta de uma Rússia Europeia, uma República Siberiana e uma República do Extremo Oriente, poderia inclusive tornar mais fácil o cultivo de relações econômicas mais estreitas com seus vizinhos. Cada um dos estados confederados habilitar-se-ia então para explorar o próprio potencial criativo local, sufocado ao longo dos séculos pela mão pesada da burocracia de Moscou. Ao mesmo tempo, uma Rússia descentralizada seria menos suscetível aos movimentos do império." (Zbigniew Brzezinski, A Geostrategy for Eurasia, Foreign Affairs, 76:5, September/October 1997.)

Portanto, este é o objetivo da política dos Estados Unidos: criar uma “confederação russa não tão rígida”, com uma economia que possa ser incorporada ao sistema baseado no mercado da América? 

De fato, parece muito fácil a Brzezinski fatiar a Rússia em pequenos estados, estados mínimos que não tenham poder para ameaçar a expansão imperial dos EUA. Indubitavelmente, Brzezinski tem a visão de uma Rússia a vender a baixo preço seus “vastos recursos” em petrodólares para reinvesti-los em títulos do Tesouro americano, tornando ainda mais ricos os usurários corruptos de Wall Street e Washington. Ele prevê uma Rússia que vai abdicar do seu papel histórico no mundo e não terá voz ativa na elaboração da política global. Imagina uma Rússia cabisbaixa e conformada, que facilitará as ambições imperiais dos Estados Unidos na Ásia, até o ponto mesmo em que terá de pagar para reprimir o próprio povo em nome dos oligarcas dos Estados Unidos, fabricantes de armamento, magnatas do petróleo e o 1%. Considere-se um parágrafo da peça composta por Brzezinski, que resume as metas de Washington na Ucrânia, na Rússia e onde mais aparecer qualquer meta. O trecho seguinte aparece na abertura da matéria publica, em negritos, não por acaso:

"SEGURANÇA TRANSCONTINENTAL 
Institucionalizar a forma e definir a substância de um sistema de segurança trans-Eurásia pode vir a se tornar a maior iniciativa de arquitetura política do próximo século. A base de uma nova estrutura de segurança transcontinental poderia ser um comitê permanente composto pelos maiores poderes da Eurásia mais EUA, Europa, China, Japão, Confederação Russa e Índia, que poderiam discutir coletivamente os assuntos inerentes à estabilidade da Eurásia. O surgimento de um sistema transcontinental pode gradualmente aliviar os EUA de seus encargos, ainda que continuem alocados por uma geração ou mais, em seu decisivo papel de árbitro da Eurásia. O sucesso geoestratégico desse empreendimento seria apropriado para avaliar o legado deixado pelos EUA como primeira e única superpotência global."

Tradução: Os Estados Unidos vão policiar o mundo, despachar encrenqueiros e eliminar quaisquer potenciais problemas onde surgirem. Será imposto o dogma sagrado do neoliberalismo (austeridade, privatizações, ajustes estruturais, reformas contra os direitos trabalhistas, etc.) em todos os lugares e para todos os participantes. Além do mais, os parceiros “menores”, como Europa, China, Japão, a Confederação Russa e Índia – deverão providenciar segurança para o próprio povo e às próprias custas, para que os EUA sejam “aliviados de alguns de seus encargos”.

Ótimo, não é? Então, você ainda tem que pagar por seus próprios carcereiros.

E o que é "Segurança Transcontinental", afinal? Não é apenas uma maneira elegante de dizer "governo mundial"?

De fato, é. É a mesma coisa. E temos mais de Brzezinski:

"A falha na expansão da OTAN... destruiria o conceito de uma Europa em expansão..., pior, poderia reacender latentes aspirações políticas russas em relação à Europa Central."

Essa declaração é estranhamente complicada. Primeiro, Brzezinski apoia a ideia de uma Europa em expansão; na sequência, mostra-se preocupado por a Rússia também se interessar por expansão... Como sempre. É mais um caso do roto falando do esfarrapado.

O que está claro, é que, na concepção de Brzezinski, a expansão da União Europeia e da OTAN ajudará as aspirações hegemônicas dos EUA. Isso é tudo o que importa. Eis o que ele diz:

"A Europa é uma cabeça de ponte essencial dos Estados Unidos na Eurásia.... Uma Europa maior e a OTAN ampliada servem aos interesses políticos dos EUA tanto no curto quanto no longo prazo... Uma Europa politicamente definida também é essencial para que a Rússia seja assimilada num sistema de cooperação global."

“Cabeça de ponte”? Em outras palavras, a Europa não passa de meio para alcançar um fim. E que “fim” seria esse?

Dominação global. Não é isso que ele está falando?

Claro, é.

A crise ucraniana tornou-se difícil de entender, por causa da neblina impenetrável na qual a mídia envolve, diariamente, incansavelmente, a política que move os eventos. Nos momentos em que a neblina dissipa-se um pouco, vê-se facilmente qual a causa de todos os problemas. Chama-se EUA, os bons, velhos EUA, fazendo sua farra a tiros, em terra alheia.

Nem a maioria dos ucranianos nem Putin querem guerra. Todo esse imbrógliofoi criado pelo Tio Sam e seus asseclas, na tentativa de interromper o fluxo contínuo de gás russo para a Europa; empurrar a OTAN mais um pouco para leste; e quebrar em mil pedaços a Federação Russa. Esta é a verdade, toda a verdade. Para conseguir seus objetivos, esses norte-americanos insanos não se importam de destruir a Ucrânia e matar tudo o que se mova num raio de 4.800 quilômetros de Kiev. Afinal... Já fizeram o mesmo no Iraque, não fizeram? Sim, fizeram. Já disse aqui que, segundo o Wall Street Journal desta semana, “a produção iraquiana de petróleo alcançou seu mais alto nível nos últimos 30 anos”. Claro! E, afinal, os suspeitos de sempre estão auferindo lucros imensos.

A questão é se farão na Ucrânia o que já fizeram no Iraque. Porque Washington não se importa com carnificinas, mas ainda se importa um pouco com a opinião dos eleitores. Massacres não são problema.

O caso é que Brzezinski não é o único a apoiar a atual política. Com Zbig está também, companheira de viagem, Hillary Clinton. De fato, foi ela quem primeiro falou do tal “pivô”, quando ainda era Secretária de Estado, em artigo intitulado “O século do Pacífico da América”. Nesse artigo-discurso, Clinton descreveu um plano de reequilíbrio que, em tese, abriria novos mercados para as corporações dos Estados Unidos e para Wall Street; controlaria o fluxo de recursos vitais e “permitiria uma presença militar ampla” em todo o continente. Aqui está um trecho do discurso seminal de Clinton:

"A decisão sobre o futuro da política será tomada na Ásia, não no Afeganistão ou no Iraque, e os Estados Unidos estarão no centro da ação. 
Os EUA estão em um ponto de pivoteamento, pois a guerra do Iraque está no fim e se inicia a retirada das tropas do Afeganistão. Nos últimos dez anos, colocamos imensos recursos nesses dois teatros de guerra. Nos próximos dez anos, precisamos ser sistematicamente inteligentes em relação ao lugar onde investiremos nosso tempo e energia, de maneira que possamos sustentar nossa liderança, assegurar nossos interesses e fazer avançar nossos valores. 
Uma das mais importantes tarefas do Estado Americano para a próxima década será então dar solidez a substanciais aumentos de investimentos – diplomáticos, econômicos, estratégicos e outros – na região da Ásia e do Pacífico... O aproveitamento dinâmico do crescimento da Ásia é fundamental para os interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos e prioridade absoluta para o presidente Obama. A abertura dos mercados asiáticos proverá os EUA de oportunidades sem precedentes para investimentos, comércio e acesso a tecnologia de ponta... As empresas americanas (precisam) entrar no mercado consumidor da Ásia, que é grande e está em crescimento... A região asiática já é responsável por mais da metade da produção mundial e por cerca da metade do comércio global. Como estamos nos esforçando para atingir a meta do presidente Obama, de dobrar as exportações até o ano de 2015, estamos à procura de oportunidades para mais negócios na Ásia. 
... ao falar com líderes empresariais através do país, ouço sempre como é importante para os Estados Unidos expandir suas exportações e não perder as oportunidades de investimento no dinâmico mercado asiático." (“America’s Pacific Century”, Secretary of State Hillary Clinton”, Foreign Policy Magazine, 2011)

“O aproveitamento dinâmico do crescimento da Ásia é fundamental para os interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos e prioridade absoluta para o presidente Obama”?

Isso parece com alguém que quer cultivar uma relação mutuamente benéfica com os seus parceiros comerciais ou com alguém que quer mudar, assumir e executar o espetáculo?

Tudo tem a ver com o dinheiro – inclusive o plano de Washington para desviar a atenção, do Oriente Médio para a Ásia. A própria Clinton sempre diz exatamente isso. Releiam o que ela diz: “A abertura dos mercados asiáticos proverá os EUA de oportunidades sem precedentes para investimentos, comércio e acesso a tecnologia de ponta... As empresas americanas (precisam) entrar no mercado consumidor da Ásia, que é grande e está em crescimento...”.

Dinheiro, dinheiro, dinheiro. O potencial para mais e mais lucro é ilimitado. Assim, Madame Clinton quer fincar nossa bandeira exatamente no centro da ação, onde as empresas americanas possam acumular grana, sem temer represálias.

Brzezinski diz a mesma coisa em sua obra prima The Grand Chessboard [O grande tabuleiro de xadrez]. Aqui está um trecho:

"O poder que dominasse a Eurásia dominaria duas das três regiões mais avançadas e economicamente produtivas do mundo. Um simples olhar que se lance ao mapa mostra que quem domina a Eurásia tem assegurada de forma quase automática a subordinação da África, tornando o hemisfério ocidental e a Oceania (Austrália) politicamente periféricos ao continente central do globo. Quase 75% da população mundial vive na Eurásia, e a maioria da riqueza física mundial se encontra ali, ou nas empresas ou no subsolo. A Eurásia provê três quartos dos recursos energéticos conhecidos do mundo." (Zbigniew Brzezinski, “The Grand Chessboard: American Primacy And It’s Geostrategic Imperatives”, page 31)

O caro leitor está começando a entender? É uma nova corrida do ouro! Depois de ter pirateado, agredido e saqueado a classe média dos EUA até o último centavo, deixando em farrapos a economia, Brzezinski, Clinton et caterva estão migrando para pastos mais verdes na Ásia Central, onde se localizam as maiores nações produtoras de petróleo do mundo, com as reservas ilimitadas da bacia do Mar Cáspio e, a cereja do bolo, com zilhões de consumidores ávidos para comprar de tudo, começando por i-pads para matar o tempo, e tudo, é lógico, fornecido por empresas norte-americanas. Cha-ching!

Por tudo isso, não se impressione, caro leitor, com o dia a dia da Ucrânia. A luta que ali se desenrola nada tem a ver com “forças pró-Kiev e ativistas antigovernamentais”. É, só, só, mais uma fase do plano dos EUA para conquistar o mundo. Esse plano visa a arrastar a Rússia a, inevitavelmente, lutar contra o massacrante poderio militar dos EUA. É Davi contra Golias. Mãe-Rússia contra o Grande Satã. Vlad Putin contra o camarada lobo.

Ucrânia é apenas o Round 1.

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