19 de maio de 2014

David Harvey, Piketty e a contradição central do capitalismo

Michael Roberts


David Harvey é um reconhecido professor marxista de Antropologia e Geografia no Centro de Graduados da Universidade da Cidade de Nova York. Harvey publicou um novo livro e também uma resenha de Thomas Piketty. Harvey é bastante crítico ao livro de Piketty. Reconhece que Piketty proporciona dados de grande importância sobre a desigualdade da riqueza e das rendas nas principais economias capitalistas, desde que o capitalismo se tornou o modo dominante de produção e das relações sociais a partir de 1750. “O que Piketty mostra estatisticamente (e estamos em dívida com ele e seus colegas por isso) é que o capital tendeu, através da história, a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade. Isso, para muitos de nós, é má notícia. Além disso, é exatamente a conclusão teórica de Marx no Volume I de seu O Capital.”

Apesar disso, como aponta Harvey, Piketty nada disse sobre as crises recorrentes de produção e de investimento do capitalismo. Piketty “não nos conta por que razão ocorreu a crise de 2008, e por que está demorando tanto para tanta gente se levantar, sob o fardo do desemprego prolongado e da execução da hipoteca de milhões de casas. Ele não nos ajuda a entender por que o crescimento é tão medíocre hoje nos EUA, em oposição à China, e por que a Europa está travada sob uma política de austeridade e uma economia de estagnação.”

Então, Harvey nos diz que tudo o que Piketty deveria fazer é ler Marx (que, como já referi antes, ele não fez). Se tivesse feito isso, diz Harvey, teria percebido que “no Volume II de O Capital (que Piketty também não leu, como alegremente declara) Marx apontou que a tendência do capital de rebaixar os salários iria, em algum momento, restringir a capacidade do mercado de absorver os produtos do capital.” Nesse sentido, Harvey diz que a explicação das crises no capitalismo se encontra no Volume II de O Capital, e não no volume I ou III.

Na verdade, não há uma explicação das crises recorrentes do capitalismo que esteja presente no Volume II. Está sobretudo no Volume III, com a esquematização de Marx da lei de tendência da taxa de lucro a cair (LTCTG) e suas contratendências.

A explicação alternativa pelo “subconsumo” de Harvey não é nova nele (see my post on Harvey back in 2011, and also see Paul Mattick Jnr’s excellent critique of Harvey’s work, mattick on harvey). Mas esta não é a explicação de Marx.

Em seu novo livro, que parece que vale a pena ler e que ainda não li, Harvey destaca o que ele vê como “as contradições no coração do capitalismo - inclinar-se, por exemplo, em acumular para além dos meios para investir, seu imperativo de utilizar os métodos mais baratos de produção que leva a consumidores sem meios de consumo...”.

De fato, a posição de Harvey é que a lei de Marx da rentabilidade é irrelevante para a explicação da crise. Isto o leva a afirmar que a direção neoliberal para aumentar os lucros nos anos 1980 não foi “ditada por qualquer lei matemática” (o que provavelmente significa a lei de Marx da rentabilidade). Cita Alan Budd, assessor econômico de Margaret Thatcher, que confessou, “em um momento de descuido”, que as políticas de luta contra a inflação, nos anos 1980, foram “uma maneira muito boa de aumentar o desemprego, e aumentar o desemprego era um modo extremamente desejável de reduzir a força das classes trabalhadoras... o que foi construído, em termos marxistas, como uma crise do capitalismo que recriava um exército de mão de obra de reserva, possibilitou que os capitalistas lucrassem mais do que nunca.” (Budd). Esta citação, na verdade, me me faz pensar que a agenda neoliberal, em muito, atuou para restaurar a rentabilidade que havia chegado ao mínimo no pós-guerra, em fins dos anos 1970. Porém, ao que parece, segundo Harvey, a profunda recessão de dupla queda nos anos 1980 que desvalorizou e destruiu capital e restaurou a rentabilidade, não tinha nada a ver com isso. Em vez disso, “era tudo política”.

Harvey critica Piketty por não ter se fixado em que a restrição na participação dos salários e o potencial “subconsumo”, que era possível criar, foram superados por um aumento massivo da dívida das famílias: “onde está a demanda? Piketty ignora essa questão. Os anos 1990 encobriram essa resposta com vasta expansão do crédito, inclusive estendendo o financiamento hipotecário aos mercados sub-prime. Mas o resultado foi uma bolha de ativos fadada a estourar, como aconteceu em 2007-2008, levando consigo o banco de investimento Lehman Brothers, juntamente com o sistema de crédito”. Portanto, as crises são produto da falta de demanda. As bolhas de crédito podem compensar, mas apenas por um tempo.

Harvey pontua que “as crises não são eventos singulares. Embora tenha seus fatores desencadeantes evidentes, os movimentos tectônicos que representam demoram muitos anos para se resolver... Com a perspectiva do tempo, não é difícil encontrar abundantes sinais de problemas a surgir, muito antes que uma crise exploda completamente”. Contudo, para ele, os sinais da crise não se encontram em nenhum movimento da rentabilidade, mas, sim, em crédito, porque “a financeirização global da dívida-saturada e cada vez mais desregulada, que começou nos anos 1980 como uma forma de resolver os conflitos com o trabalho, ao facilitar a mobilidade geográfica e a dispersão, produz seu desenlace com a queda do banco de investimento Lehman Brothers, no dia 15 de setembro de 2008”.

Harvey identifica corretamente o defeito chave de Piketty como “Ele repousa sobre uma definição equivocada de capital. Capital é um processo, não uma coisa. É um processo de circulação no qual o dinheiro é usado para fazer mais dinheiro, frequentemente – mas não exclusivamente – por meio da exploração da força de trabalho. (...) Todo o pensamento econômico neoclássico (base do pensamento de Piketty) está fundado numa tautologia. A taxa de retorno do capital depende essencialmente da taxa de crescimento, porque o capital é avaliado pelo modo como produz, e não pelo que ocorreu em sua produção.”. Este é um destaque que James Galbraith e outros, entre eles eu, fizeram sobre Piketty: não reconhecer que o capital não é “a riqueza”. E isto faz a diferença. Como disse Harvey, se tirarmos a moradia e a riqueza imobiliária da medida do capital, a previsão de Piketty de um rendimento estável de “capital”, que é mais alta que a taxa de crescimento da tendência a longo prazo, não se sustenta.

Em um novo artigo, Esteban Maito mostra precisamente isso. Usando os próprios dados de Piketty, descobre que é a lei de Marx da tendência da taxa de lucro a cair no tempo o que se confirma pela evidência, não um retorno estável de Piketty. Explica que, “na perspectiva de Piketty, o capital não está relacionado com a produção ou o processo de valorização”. Como sinônimo da palavra “riqueza”, qualquer bem ou serviço intercambiável no mercado é capital. Porém, as tendências descritas por Marx se referem à produção capitalista. Neste sentido, qualquer avaliação da teoria marxista, apesar de sua validação empírica, tem que considerar este aspecto básico em sua análise. De tal maneira, “as moradias” não devem ser consideradas como parte do capital, como bens de consumo particulares no lugar dos meios de produção. Considerações similares podem se estabelecer em outros casos, como “os ativos financeiros” (um circuito puro MM’) ou “a terra”.

De fato, durante o último período (desde o máximo alcançado em meados de 1960), o retorno, inclusive de Piketty, do capital, tendeu a cair, em linha com a taxa de lucro marxista, porque a terra e a propriedade residencial se tornaram menos significativas como parte da riqueza em comparação com as máquinas e a propriedade não residencial.

A lei de Marx da rentabilidade explica a contradição central do capitalismo, não o erre (“r”) de Piketty, nem “a falta de meios de consumo” de Harvey.

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