12 de maio de 2014

Mídia dos EUA ignora plano de paz de Putin

Mike Whitney


Permitam-me repetir que, do ponto de vista da Rússia, a culpa pela crise na Ucrânia é dos que organizaram o golpe de estado em Kiev dias 22-23/2/2014 (...) Mas, seja quem for, é absolutamente necessário encontrar algum meio para resolver a situação como a temos hoje (...) E como eu já disse é preciso que haja diálogo igualitário e geral entre as autoridades em Kiev, e representantes da população no sudeste da Ucrânia. Não sei se uma rodada de conversações Genebra-2 é projeto realista, mas... Entendo que se queremos encontrar solução de longo termo para essa crise, temos de ter diálogo aberto, honesto e igual. Essa é a nossa única opção. 
Vladimir Putin, Declaração à Imprensa, Reunião da Organização do Conselho de Segurança da Europa (OCSE), Moscou, 7 de maio de 2014.

Tantos jazem sob o granito eterno
Mas os que são honrados nessa pedra
Que ninguém seja esquecido
Que nada seja esquecido.  
Olga Berggolts, “Leningrad”

Na quarta-feira (7 de maio de 2014), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, fez uma proposta para pôr fim à violência na Ucrânia, em reunião da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OCSE), em Moscou. Infelizmente, a maioria dos norte-americanos nunca foi informada sobre essa proposta, porque a mídia corporativa norte-americana não noticiou a declaração e a proposta do presidente Putin. A razão pela qual a mídia corporativa age como age é que não deseja que a opinião pública “descubra” que o presidente Putin não É a caricatura que o sórdido “jornalismo” norte-americano inventou que, mas governante pragmático, que tem interesse em chegar logo a solução pacífica para uma crise que ele não inventou nem jamais desejou. Eis o que disse o presidente Putin:

"Entendemos que a coisa mais importante agora é iniciar um diálogo direto, genuíno, aberto, entre as autoridades de Kiev e representantes do sudeste da Ucrânia. Esse diálogo dará ao povo do sudeste da Ucrânia a chance de ver que seus direitos legítimos sejam realmente assegurados na Ucrânia."

São palavras de um “monstro−KGB” sedento de sangue, movido a sonhos de expansão territorial e expansão imperialista, ou, em vez disso, são palavras de um governante responsável, que quer facilitar um cessar-fogo até que as cabeças esfriem e se possam pensar em melhor negociação de paz?

Você, leitor, foi informado de que Putin propôs “diálogo genuíno entre Kiev e os representantes do sudeste da Ucrânia”? O jornalismo, os jornais, os jornalistas não existem para distribuir informação, de modo que cada leitor possa construir sua própria opinião sobre Putin? Ou você entende que o jornalismo teria o direito de esconder a informação que decida esconder, se assim interessar aos patrões−anunciantes corporativos de cada jornal, de cada jornalismo e de cada jornalista? O que, afinal, se deve entender por “imprensa livre”?

Em seu discurso Putin fez uma série de concessões que merecem destaque. Por exemplo, concordou em afastar seus soldados da fronteira ucraniana onde permaneceram como muralha de contenção contra o governo de Obama, desde que o golpe de estado em Kiev começou a atacar, há mais de duas semanas. Putin aceitou retirar seu exército, mesmo sabendo que estava enfraquecendo as defesas russas. Não é questão de somenos, de fato é importante questão de segurança nacional, e é responsabilidade primária básica do presidente, o tipo de responsabilidade que Putin jamais encarou levianamente, sobretudo quando há neonazistas malucos armados até os dentes, nos arredores, ameaçando matar russos étnicos onde os encontrem. Pois Putin fez essa concessão com a esperança de que um gesto de boa fé pudesse ajudar a pôr fim à violência. O presidente Putin disse, precisamente, o seguinte:

"Temos retirado nossas forças e agora elas não estão na fronteira da Ucrânia, mas de volta aos exercícios de rotina, nos campos de treinamento. É coisa fácil de confirmar, usando técnicas de coleta de inteligência, inclusive dos satélites, pelos quais onde nossos soldados podem ser facilmente vistos. Ajudamos a distribuir essa informação aos observadores militares da OSCE, e acho que, assim, também contribuímos para acalmar a situação."

Será que isso soa como um homem que está mentindo?

É claro que não. Por isso, precisamente, os jornais, os jornalismos e os jornalistas não querem que ninguém ouça/leia o que o presidente Putin tem a dizer. Porque desmente o delírio “jornalístico”, segundo o qual “Putin é o Santanás”.

Putin é alguém que fala claro e diz o que ele quer dizer. Ele não é um mentiroso. As pessoas percebem isso, motivo pelo qual a imprensa-empresa ocidental jamais o mostra ao vivo, nem jamais publica suas falas e discursos. Exclusivamente porque temem que os leitores e telespectadores acreditarão no que ouvirem−lerem e, onde e quando assim acontece, toda a propaganda pró-guerra à qual toda a imprensa−empresa ocidental está dedicada, é desmascarada. Fato é que as pessoas sabem, por instinto, quando o sujeito mente deslavadamente. As pessoas sabem ver, imediatamente, a diferença que separa um sujeito claro, como Putin, e uma fraude ambulante, com Kerry. Por isso Putin tem de ser escondido. Para isso, precisamente, serve a imprensa−empresa como a temos: para não noticiar.

Putin também pediu aos representantes das regiões sudeste da Ucrânia que adiassem o referendo marcado para o dia 11 de maio de 2014.

Por que ele faria isso? Afinal, se ele realmente queria “reconstruir” o Império Russo, como dizem seus críticos, teria desejaria que o referendo fosse realizado e exibiria, precisamente, o resultado que mais o interessaria: o mundo veria que o leste rejeita o governo da Junta−de−Kiev e exigiria maior autonomia em relação ao governo central de Kiev. Mas não é isso que Putin quer. O que ele quer é pôr fim aos massacres, motivo pelo qual pediu que se adiassem os referendos, para não dar à junta dos neonazistas em Kiev pretextos para mais ataques e mais massacres. Putin não tem interesse algum em ver a Ucrânia rasgada em farrapos, reduzida à anarquia que se vê hoje no Iraque, por ação de inimigos que usam o país como rinha de exercício de suas ambições geopolíticas. Putin quer restaurar a estabilidade e a segurança. Quer o fim das hostilidades. Eis, exatamente, o que ele disse: 

"Solicitamos aos representantes das regiões sudeste da Ucrânia e apoiadores da federalização, que transfiram o referendo marcado para 11 de maio de 2014."

Ok. Significa, então, que Putin recuou os próprios soldados, afastando-os da fronteira; e pediu que ativistas pró−Rússia adiem a votação que, com certeza, exigirá maior autonomia política. São duas concessões muito significativas. Mas... Por que Putin está fazendo o que está fazendo?

Será que tem alguma carta na manga? Está tentando enrolar os inimigos, antes de ordenar ataque massivo, total, contra Kiev?

Falemos sério. Basta de tolices. Putin não quer tomar a Ucrânia; essa é conversa−terrorismo dos neoconservadores norte-americanos. Putin já tem problemas que cheguem, sem somar a eles a ocupação da Ucrânia. Por que, afinal, anexaria estado falido, falhado, quebrado, que desliza rapidamente para o fundo de Depressão das grandes? Por que ele faria isso?

Nesse caso, por que faz tantas concessões, tão rapidamente? Talvez porque esteja com medo? Talvez porque tema uma confrontação com a OTAN e os EUA, e, por isso, estaria tentando salvar seu front ocidental, antes antes de a guerra estourar em seu flanco ocidental?

É isso? Putin é um covarde ?

Segundo a mídia corporativa ocidental, sim, Putin é covarde, mas isso porque a cobertura só tem olhos para a disposição para recuar os próprios soldados, o que quase faria crer que as políticas de linha−dura de Washington estariam funcionando, em vez de, como de fato estão, só tornarem as coisas cada dia piores, para o próprio ocidente. O que tem sido deixado de lado é plano de Putin para acabar com a violência. Isso nunca é mencionado , porque a mídia não quer que Putin apareça como estadista  interessado em gerar paz. Isso não serve aos interesses do Ocidente.

Putin não tem medo. Não terminará como Gaddafi ou Saddam. Mas, sim, está preocupado. Está preocupado, porque os EUA obram para tentar bloquear o acesso da Rússia ao seu maior mercado, a União Europeia. A Rússia não pode simplesmente redirecionar seu gás, do oeste (União Europeia) para o leste (China), como tantos “especialistas” parecem crer que fará. A loucura−imbecilidade é total. A Rússia precisa da Europa, como a Europa precisa da Rússia. É essa relação comercial/de trocas, tradicional, forte e natural, que Washington quer sabotar, para que possa meter as garras diretamente na Ásia Central. Trata-se, afinal, disso e só disso: do tal “pivoteamento” para a Ásia, de Obama.

É claro que o interesse de Putin pela paz não é exclusivamente altruísta. Trata-se, também,de dinheiro, muito, muito dinheiro. Mas, e daí? Que diferença isso faz? Então Putin não é tão puro como a neve. Mas, e daí? O fato é que ele trabalha a favor da paz, que não é benéfica  apenas para Moscou, mas também para a Europa e para a Ucrânia.O único que não se beneficia com a paz é Washington, razão pela qual a mídia corporativa ignora qualquer informação que promova mais paz que guerra, que contribua mais para desarmar, que para armar, exércitos e espíritos. Por quê? Porque Washington deseja a guerra. A guerra é o veículo para quebrar a Federação Russa em inúmeros estados microscópicos que não ameacem as bases militares dos EUA espalhadas pela Ásia. A guerra é o meio pelo qual Washington pode cercar a China, para controlar o seu crescimento futuro. A guerra abre caminho para instalar postos avançados dos EUA na Ucrânia e subverter uma maior integração econômica entre Rússia e a Europa. A Guerra é a política da América porque a guerra favorece os interesses da América. Parágrafo.

Washington de modo algum alcançará seus objetivos estratégicos ou econômicos, se não houver guerra. Por isso, precisamente, a atual situação é tão preocupante, porque – a julgar pela sordidez da retórica que está sendo gerada na Casa Branca e de lá repercute pela imprensa−empresa para o mundo, o Departamento de Estado dos EUA e todos os conglomerados industriais−comerciais de imprensa−empresa: Obama vai continuar a provocar Moscou até obter a reação. Já morreram 40 pessoas em Odessa; não bastaram; na próxima provocação, Washington mandará matar 400, 4 mil ou 400 mil. Não importa o número. Custe o que custar. Madeleine Albright, há algum tempo, quando lhe perguntaram se as sanções contra o Iraque valiam o custo de meio milhão de mortos, respondeu sem um segundo de vacilação ou hesitação: “Entendemos que sim, valem o que custam”.

O que for preciso. Em poucas palavras essa é a política externa da América.

Aqui está mais de Putin:

"A responsabilidade pelo que está acontecendo na Ucrânia cabe ao que tomaram o poder por golpe, anti−constitucionalmente.(...) E aos que apoiaram essas ações e lhes asseguraram suporte financeiro, político, de informação e todos os tipos de suporte, e empurraram a situação até que se converteu nos trágicos eventos que aconteceram em Odessa. É de gelar o sangue. Todos viram os filmes dos eventos de Odessa."

Tente imaginar Obama dizendo algo semelhante. Imagine Obama preocupado com as pessoas que morreram em Odessa. Difícil, até, imaginar a cena. Agora, Obama com certeza já assistiu também aos mesmos filmes de que Putin falou. Com certeza já viu pessoas jogando-se pelas janelas, com as roupas em chamas. Já viu seus aliados neonazistas jogando pessoas pelas janelas; já viu os restos calcinados de vários cadáveres nas fogueiras. Pois viu... e não disse uma palavra! Permaneceu calado. Não protestou porque aqueles matadores de civis em fogueiras neonazistas são aliados dos EUA e das políticas dos EUA. A atitude de Obama é parte do cálculo político: gente não conta; só a política conta. Obama não é diferente de Albright nem de qualquer outro alto funcionário doestablishment político dos EUA, no que tenha a ver com negócios e guerras. São todos iguais. A vida nada significa para eles. A única coisa que interessa é o que os doadores de suas campanhas eleitorais determinem como “interesses” seus, deles e só deles.

Então, o que Putin quer realmente?

Eis o que ele diz:

"A Rússia requer com urgência que as autoridades de Kiev cessem todas as operações militares e punitivas no sudeste da Ucrânia."

"Cessar todas as operações militares e punitivas?" Em outras palavras, ele quer a paz.

Infelizmente, a gangue de Obama estrangulou o Plano de Paz de Putin, ainda no berço. Ontem mesmo o regime−fantoche apoiado pelos EUA que “governa” Kiev prometeu ampliar os ataques contra manifestantes no leste. Segundo o Secretário de Defesa neonazista de Kiev, Andriy Parubiy:

"A operação de contraterrorismo continuará sem mercê, contra a presença de terroristas e grupos insurgentes na região de Donetsk."

Quanto ao apelo de Putin, pela paz, Arseniy Yatsenyuk, o “Yats” fantoche−primeiro−ministro amigo de Victória Nuland, desqualificou-o completamente; para ele, não passaria de “ar quente”.

Então, aí está. A ameaça da paz foi rapidamente neutralizada; Obama e seus amigos neonazistas neofascistas receberam luz verde para prosseguir na estratégia de esfacelar a Ucrânia, assassinar milhares de civis e implantar a OTAN no perímetro oeste da Rússia.

E é por isso que o discurso de Putin foi ignorado pela mídia, porque ele entrou em conflito com o plano de Washington de começar outra guerra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário