17 de junho de 2014

A noite do Iraque é longa

Vijay Prashad

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names 

"Iraq’s night is long
Dawn breaks only to the murdered
Praying half a prayer and never finishing a greeting to anyone." 
Mahmoud Darwish, Athar al-Farasha

Norte do Iraque, entre a região dos curdos e Bagdá, convulsionado antes da blitzkrieg de três formações – o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), o Exército Islâmico Iraquiano (comandado por ex-ba’athistas) e integrantes do ex-Conselho Shura Mujahedin. Como os mongóis, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) – a principal força – corre livremente pela paisagem. Não demorou muito para que soldados do exército iraquiano despissem os uniformes e se unissem às caravanas de iraquianos que fugiam do norte e do sul, deixando para trás cidades do rio Tigre, Mosul e Tikrit, e também outras, do oeste, como Tal Afar – pela estrada que liga o Iraque à Síria. Os soldados iraquianos capturados pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) e seus confederados passaram horas de horror. Os soldados do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) os dividiram em grupos, por seitas. Ante suas próprias câmeras de vídeo, os soldados do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) massacraram os soldados xiitas – 1.700, conforme relato dos mesmos – e, na sequência, distribuíram os vídeos on-line. Soldados sunitas foram obrigados, sob ameaça de morte, a declarar fidelidade eterna ao Estado Islâmico. A comissária para Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, já disse que estas mortes constituem crimes de guerra.

O Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) é a principal força nessa nova aventura, mas não está sozinho. Com ele está o Exército Islâmico Iraquiano, liderado pelo ex-vice-presidente de Saddam Hussein, Izzat al-Dori Ibrahim; e a Associação Ulema Muçulmana. O que liga essas três forças – extremistas da al-Qaeda, ba’athistas e militares iraquianos que debandaram – é o desespero ante o sectarismo do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki e os fracassos do Estado iraquiano que não se conseguiu implantar nas cidades predominantemente sunitas do Rio Tigre. Muqtada al-Sadr, líder do Exército Mahdi, disse em fevereiro que o Iraque: "é governado por lobos, sedentos de sangue, almas sedentas só de riquezas, que deixam a nação afundada em sofrimento, em medo, em fossas, nas noites escuras iluminadas só pela lua ou por uma vela, num pântano de assassinatos causados por diferenças ou por qualquer ridículo desentendimento." Ele partiu para o Irã, farto da política e da violência em sua terra. Esse desespero é que deu ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) a oportunidade para construir suas bases no norte do Iraque.

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair disse que a ascensão do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) não está relacionada com a Guerra do Iraque de 2003, mas com a falta de ação ocidental na Síria. Mas o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) surgiu em 2004, primeiro como al-Qaeda-no-Iraque, liderado pelo jordaniano sanguinário Abu Musab al-Zarqawi; dois anos depois, foi recriado como Estado Islâmico do Iraque. O lento crescimento nas pequenas cidades do norte do Iraque, entre ex-militares iraquianos e experientes e duros combatentes ba’athistas ajudou o Estado Islâmico a crescer, apesar de os EUA terem destruído as cidades de Fallujah e Ramadi, e do Despertar Sunita, movimento de 2005. Com o interesse pelo Despertar Sunita já sumindo em Washington e Bagdá, seus militantes uniram-se ao Estado Islâmico. Eles são os veteranos da insurgência contra a ocupação pelos EUA-Grã-Bretanha do Iraque. Eles não têm nada a ver com a Síria.

Quando a guerra começou na Síria em 2011, foi o Estado Islâmico no Iraque, sob a liderança dinâmica de Abu Bakr al-Baghdadi – como Radwan Mortada deal-Akhbar descobriu – que ajudou a montar a afiliada da al-Qaeda na Síria, Frente al-Nusra. Ao longo de 2012 e 2013, o Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) e a Frente al-Nusra começaram a desentender-se, com a segunda entendendo que teria autoridade sobre a Síria e querendo que os sírios fizessem a parte principal dos combates naquele país. O Estado Islâmico expandiu o próprio nome para Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL), aumentando seu contingente com combatentes importados de todo o mundo. No início de 2014, já havia cerca de 100 mil combatentes interessados em defender as cores do Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL). Muitos não são jihadistas, como descobri, mas veteranos endurecidos do Despertar Sunita e seu tipo de gente. O stado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) ofereceu o melhor veículo para a suas frustrações.

Apesar dos desentendimentos com a Frente al-Nusra, o stado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) manteve o controle das cidades de Raqqa e Deir ex-Zor no norte da Síria, tomadas desde meados de 2013. Assaltos a campos de petróleo no leste da Síria e a venda de antiguidades ajudaram o Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) a aumentar o fluxo de suas rendas, as quais, antes, dependiam de impostos cobrados no norte do Iraque e de doações privadas de sheiks árabes do Golfo. Até semana passada, havia cerca de 500 milhões de dólares nos cofres do Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL). O saque de Mosul lhes rendeu US$ 1,5 bilhões, como mostrou Martin Chulov, do The Guardian, e a tomada da refinaria de petróleo de Baiji oferece potencial para mais recursos. Uma vez que os soldados do Iraque ofereceram pouca resistência, o Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) e seus aliados capturaram equipamento militar em excelentes condições, grande parte do qual oferecido pelos EUA aos iraquianos, para combaterem contra o Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL). Essas armas serão agora usadas na Síria e no Iraque, para promover a agenda do Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) (criar um Estado islâmico). Umas das primeiras coisas que o grupo fez quando tomou Mosul foi destruir os postos de fronteira entre Síria e Iraque, como gesto de propaganda. Sua visão sonhada de um cinturão que ligue Trípoli (Líbano) às fronteiras do Irã está próximo da realidade.

O avanço rápido provocou uma resposta combinada e coordenada do poder aéreo, tanto da Força Aérea da Síria e do Iraque. Helicópteros iraquianos ainda atacaram o cemitério que guarda os restos mortais de Saddam Hussein em al-Auja, perto de Tikrit. Era uma mensagem de Bagdá para os baathistas, e é calculado para inflamar ao invés de conter. Isso é perigoso. O nacionalismo iraquiano morreu asfixiado nos cárceres do [partido] Ba’ath – e já não é alguma espécie de base à qual o governo de Nouri al-Maliki possa recorrer. Ele baseia-se na moeda do sectarismo. A coordenação entre os exércitos da Síria, Iraque e Irã – com a Turquia nas coxias – já está estabelecida. Mas essa coordenação sempre vai cheirar a sectarismo, a menos que a Turquia tome parte nas operações, o que pode acontecer se ver a fragmentação levando à unidade entre os Curdistões sírio e iraquiano. Tal pátria curda seria um desafio direto para a Turquia. Muito melhor acabar com essas oportunidades pela raiz.

Os clamores dos sindicatos iraquianos, de que o povo combaterá contra o Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL), numa plataforma nacionalista, como se ouviram, de Falah Alwan, da Federação dos Conselhos de Operários e Sindicatos do Iraque, não serão ouvidos. Poucos podem avaliar o que Alwan diz quando diz que “exigimos clara e diretamente o fim do sectarismo” – objetivo muito nobre, mas inaudível ante as barulhentas armas sectárias do Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL). E entrega o povo curdo à guerrilha peshmerga curda e à Unidade de Defesa Popular (YPG) curda; e os xiitas para al-Maliki e suas milícias favorecidas. As abóbodas de sectarismo, que a campanha “Choque e Pavor” dos EUA abriu em 2003, agora fornecem a principal moeda no Iraque e na Síria – uma tragédia de proporções imensas.

O Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) avançou pelo Tigre rumo a Bagdá, mas foi detido perto de Samarra. Não por militares iraquianos que fizessem um muro ali – em uma foto feita nos arredores de Mosul, um soldado do Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) com um sorriso no rosto, sentado frente a um muro em que se lê “O exército iraquiano é um garfo nos olhos do Terrorismo” – Aquele exército desapareceu. Dele, já não se vê nem traço. Em lugar daquele exército, só se veem hoje milícias xiitas, como Asa’ib Ahl al-Haq (AAH), dissidência do Exército Mahdi, muito prestigiada por al-Maliki. Seu líder, Qayis Khazali, foi expulso do Exército por al-Sadr, por ser imprevisível e incontrolável. Seu grupo permaneceu ativo no Iraque, acusado de ludibriar as forças de segurança e de reunir os combatentes mais cruéis ativos na região do santuário de Sayida Zainab em Damasco, Síria. Os soldados do Hezbollah reclamam que os combatentes do AAH têm de receber treinamento à parte, para se acalmarem e aprenderem a se acalmar. O antigo clérigo xiita aiatolá Ali Sistani emitiu uma fatwa conclamando “todos os iraquianos fisicamente capazes” a defender o Iraque contra o Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL). Ele despertou o AAH e suas ramificações. Ammar al-Hakim, líder do Supremo Conselho Islâmico do Iraque, despiu o traje de clérigo e meteu-se em uniforme de campanha, de soldado. Este é o caráter da luta - profundamente sectária.

Antes de partir para o Irã, al-Sadr criticou muito o sectarismo de al-Maliki e o crescimento do poder de grupos como o AAH. Disse que estavam alienando os iraquianos e preparando a mesa para grandes confusões. Agora, está conclamando para que se reforme seu Exército Mahdi, e para uma manifestação de força, marcada para o próximo dia 21 de junho. É pouco provável que seja ouvido em outros grupos, fora dos caixas sectárias para os quais os iraquianos provavelmente se encaminharão. Não há nenhuma base objetiva para o nacionalismo iraquiano, como não há também para o nacionalismo sírio. São países fraturados, quebrados pela guerra. Sírios e iraquianos são prisioneiros numa prisão em chamas. Não há saídas fáceis, sem barreiras.

As promessas dos EUA, de que bombardearão o Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL), do céu, não ajudam nem aliviam em nada. No máximo conseguirão deter o avanço deles, mas não diminuirão o poder deles, que se alastra de partes de Aleppo na Síria, até os arredores de Bagdá no Iraque. E, aqui, quem mais tem a perder é o Irã. O Irã já mandou grupos de seus Guardas Revolucionários para ajudar a formar uma linha de defesa na província de Diyala, cuja principal cidade Baquba, é o berço onde nasceu o Estado Islâmico do Iraque. É a parte do Iraque onde vivem xiitas e sunitas, e será bom teste para aferir a unidade de todos contra o Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) e a favor de qualquer coisa que não seja o sectarismo de al-Maliki. Al-Sadr, pelo que me disseram, está interessado em criar uma versão iraquiana do Hezbollah, com raízes na comunidade xiita do Líbano, mas com aspirações de ser uma força árabe nacionalista. A criação dessa força contribuiria, sim, na direção de construir uma plataforma não sectária, a partir da qual combater o Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL). Vai ser mais eficaz do que uma campanha de bombardeio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário