1 de junho de 2014

A máfia dos esportes e o capitalismo global

Andrew Jennings

Vários Autores. Brasil em Jogo: O que fica da Copa e das Olimpíadas? São Paulo: Boitempo Editorial, 2014.

Devo dizer uma coisa logo de cara: sou um criminoso, um criminoso convicto. E este é meu crime: um tribunal em Lausanne, na Suíça, deliberou dez anos atrás que eu havia demonstrado “profundo desprezo para com o COI, seu presidente e seus membros, criticando suas personalidades, seu comportamento e sua gestão”. Eu era culpado de contar mentiras em benefício próprio. Sou um criminoso porque disse a verdade. Porque revelei que o então presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Juan Antonio Samaranch, era um fascista de carteirinha, com um passado ligado ao ditador Francisco Franco.

Disse que Sepp Blatter, atual presidente da Fédération Internationale de Football Association (FIFA), paga um bônus especial a si mesmo. Expus os bastidores da articulação envolvendo Franz Beckenbauer que deu à Alemanha o direito de sediar a Copa de 2006. Revelei um propinoduto de centenas de milhares de dólares que beneficiava, entre outros cartolas, João Havelange e seu cunhado, Ricardo Teixeira. É verdade. Teixeira, certo dia, apareceu na FIFA com uma maleta com US$ 400 mil em dinheiro vivo que até hoje ninguém sabe dizer de onde veio! Mas criminoso sou eu, não eles.

E mais: o COI e a FIFA me baniram. Das coletivas de imprensa, de cobrir suas reuniões, de fazer meu trabalho como jornalista. Teixeira colocou os advogados da FIFA pra tentar proibir que meu novo livro, Um jogo cada vez mais sujo, denunciando o esquema fraudulento na comercialização de ingressos para a Copa do Mundo, chegasse às livrarias brasileiras. E se você acha que tudo isso está soando um pouco excessivo – um pouco, digamos, totalitário – veja esta: eles ilegalmente obtiveram meus registros telefônicos, identificaram alguns de meus contatos e usaram suas ligações na polícia para tentar sujar o nome de amigos meus. Às vezes brinco que desde que me tornei persona non grata nunca estive mais perto da FIFA – eles estão comigo em cada telefonema que faço!

Aprendi minha profissão investigando empresários corruptos. Durante o caso Irã-Contras, pesquisei serviços secretos de inteligência. Ao longo da década de 1980 explorei a corrupção entre policiais do alto escalão em Londres e revelei suas relações com os gângsteres que eles deveriam estar perseguindo. Investiguei a máfia em Palermo e suas remessas de heroína à capital inglesa. Quando comecei a investigar o COI, há mais de vinte anos, alguns de meus amigos jornalistas riram: “Esporte? Nós investigamos governos, grandes negócios, a polícia. Por que ir futucar no esporte?”. E eu disse: “Organizações esportivas estão na esfera pública. São financiadas por dinheiro público, detêm poder. Por que deveriam ficar isentas do exame crítico?”.

A lacuna que identifiquei entre os holofotes olímpicos e seus bastidores me mobilizou tanto que mal conseguia dormir à noite. Fui descobrindo que o funcionamento do COI não é muito diferente do da FIFA e que figurões de ambas as entidades reapareciam frequentemente nas mesmas cenas obscuras. Continuei farejando, aprendendo mais sobre o esporte mundial, ponderando a fissura entre o público e o privado, e vi que a história ia mais fundo – e era sombria.

Estudei Horst Dassler, antigo chefe da Adidas. Aprendi como ele começou, na década de 1960, a investir tempo, dinheiro e as influências de sua companhia para colocar homens úteis em cargos de poder. Ele empregou uma equipe secreta de fixers [arranjadores], a fim de manipular eleições, e assim os homens de Dassler saltaram ao topo do mundo da política nos esportes. Foi o dinheiro da Adidas que garantiu a João Havelange a presidência da FIFA em 1974.

E eis o que Dassler queria em troca: contratos exclusivos para a International Sport and Leisure (ISL), a companhia de marketing esportivo que ele havia fundado, e dominação mundial para sua companhia de artigos esportivos, a Adidas. Instalou-se um esquema de corrupção sem precedentes no mundo do esporte. Os jogos foram privatizados e a ISL ficou com direitos exclusivos de vender a Copa do Mundo aos patrocinadores. Dassler era um visionário. Ele compreendeu muito cedo a importância de ter alianças estratégicas. Mas, mais do que isso, a verdadeira natureza e o valor das alianças de Dassler estavam no fato de serem secretas.

Juan Antonio Samaranch era um desses homens estratégicos de Dassler. O imperativo comercial de Dassler e as habilidades fascistas de Samaranch funcionaram lindamente juntos. Os valores que formaram Samaranch – totalitarismo, repressão, respeito ao capitalismo e tudo mais – estavam em perfeita harmonia com a forma pela qual as Olimpíadas realmente operavam. O fascismo desses homens não era uma aberração. Era sua suprema qualificação para o cargo.

Por isso não é de espantar que quem assumiu a presidência da CBF depois de Teixeira finalmente ter renunciado foi alguém como José Maria Marin. Aquele velhinho simpático flagrado dois anos atrás embolsando uma das medalhas que deveriam ser entregues aos vencedores da Copa São Paulo de Futebol Júnior, lembram? Pois é. Ele, que integra o Comitê Organizador Local da Copa de 2014 no Brasil, foi também um figurão da ditadura militar, amigo do torturador Sérgio Fleury. Escrevi sobre como um discurso seu foi decisivo para a prisão, tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog. As relações de João Havelange com alguns dos ditadores mais assassinos do Cone Sul também são conhecidas.

Gostaria de dizer que suei muito pra descobrir isso tudo, mas o pior é que não foi tão difícil. O passado fascista de Samaranch e de José Maria Marin eram fatos. Tudo o que fiz foi olhar para eles. Sem pressa, sem concorrência. Os jornalistas especializados já estavam de mãos cheias. Cheios de releases oficiais de imprensa e esperança de um dia se tornarem porta-vozes ou assessores dos sujeitos sobre os quais escreviam. Vez ou outra as cidades concorrentes reclamavam de ter de comprar votos do COI. A informação estava lá. Mas ninguém falou nada a respeito até o escândalo de Salt Lake, quando o fedor estava tão grande que o próprio presidente do COI teve de admitir. Por fim, a corrupção institucionalizada do COI havia atingido as manchetes mundiais. Rapidamente Samaranch anunciou um “programa de reformas”. Foi aí que aprendi que o esporte era muito maior e mais importante do que jamais imaginara.

O programa de reformas de Samaranch era organizado pela Hill & Knowlton Strategies, empresa multinacional de relações públicas, e um de seus figurões era ninguém menos do que Henry Kissinger. Esse não é o tipo de gente que você chama pra lançar uma nova marca de rímel. A Hill & Knowlton possui spin-doctors, os “assessores de imagem” que o capitalismo global convoca quando está em apuros. Quando as grandes empresas por trás do tabaco queriam que acreditássemos que fumar não era uma questão de saúde, chamaram a Hill & Knowlton. E Kissinger não mudou desde que fez seu nome bombardeando o Camboja, pavimentando o mundo para o capital estadunidense. Ele não se aposentou, virou freelancer! Sua firma de consultoria internacional, a Kissinger Associates, aconselhou, entre outros gigantes, a Coca-Cola, a American Express, a Freeport-McMoRanMinerals e a J.P. Morgan-Chase.

Quando o escândalo de Salt Lake estourou, os interesses mais atingidos foram aqueles das corporações que detinham as marcas: Coca-Cola, IBM, Kodak, McDonald’s, Panasonic, Visa... Não eram só as centenas de milhões de dólares investidas nesse evento em particular que estavam ameaçadas. O valor de suas marcas também estava em risco. As Olimpíadas estavam em apuros, logo, as corporações estavam em apuros.

Então os supremos mercenários de manipulação mental do capital, Kissinger e a Hill & Knowlton, vieram ao resgate. Depois de meses de “discussões”, apresentaram-se as “cinquenta reformas”. O programa contava com medidas radicais como “uma substancial exibição ambulante da história e do movimento olímpico a ser instalado nas cidades-sede”, e outras alterações “profundas” como a demanda de “maior reconhecimento da importância educacional do revezamento da tocha olímpica”.

As aparências mudam, o jogo se reconfigura para permanecer o mesmo. Nos últimos anos antes de quebrar, a ISL ocupava um belo bloco de escritórios em Zug, na Suíça. Há uma nova companhia de marketing esportivo lá agora, no mesmo lugar. Chama-se Infront, que detém contratos de transmissão e de vendas semelhantes aos da ISL. Como conseguiram esse incrível negócio? Não vou entrar em detalhes, mas dou uma dica: o atual CEO da Infront é Philippe Blatter, sobrinho de nosso amigo Sepp Blatter.

Mas por que o capital gosta tanto de esporte? Esta é minha teoria. O esporte é tão velho quanto nós. É como treinamos para a caça e para a batalha. É uma de nossas formas de diversão. Para alguns, é parte do ritual de acasalamento... Quando assistimos a esportes, somos mais que meros espectadores. Quando Pelé fez o gol, fui eu que fiz o gol. Quando Ali nocauteou Sonny Liston, foram os jovens negros de todos os Estados Unidos que deram aquele golpe. Quando estamos curtindo o esporte, estamos completamente abertos, vulneráveis. E é assim que o grande capital gosta que estejamos.

Lembrem-se do que disse Antonio Gramsci: “Como ter uma revolução quando o inimigo tem um posto avançado em sua mente?”. O esporte dá às corporações esse posto avançado em nossas mentes. Tradicionalmente, a Coca-Cola era vista como símbolo da exploração capitalista. Os movimentos populares organizados contra o imperialismo estadunidense nos países em desenvolvimento não iam bater de frente com os soldados armados das embaixadas dos Estados Unidos. Marchavam até a fábrica local da Coca e tacavam fogo no lugar. Por que não fazem mais isso? Vá até qualquer evento de futebol em algum país em desenvolvimento. Estará saturado de emblemas e slogans da Coca-Cola. O revezamento da tocha olímpica foi vendido à Coca há muito tempo. Hoje, é ela que traz a taça da FIFA a você, o “tour do troféu da Copa”. O que é David Beckham? Eu diria que ele é uma marca. E sua riqueza pessoal estupenda? Isso reflete como seu sucesso em campo, sua beleza física e as fofocas sobre sua vida “privada” combinam para produzir um poder forte o suficiente para nos levar a comprar Vodafone ou Gillette. David Beckham, a marca, é uma ferramenta do capitalismo – capitalismo cuja sobrevivência depende de crescimento a qualquer custo. E então, tocar o futebol mundial é hoje uma operação destinada a servir às corporações.

Corporações precisam atingir milhões de consumidores, o que exige, portanto, muita audiência televisiva. Multidões exigem heróis artilheiros, recordistas. A raça humana evolui devagar demais para quebrar recordes com a frequência satisfatória. E aí vêm os médicos do doping com a cura. Esportistas não precisam de doping. Patrocinadores precisam. E o mesmo vale para o futebol... O jogo bonito. E é, não é? Quando você assiste a futebol de classe, e vê a cabeçada perfeita encontrar o cruzamento perfeito, e a bola voando para dentro do gol. Não é lindo? Quando você vê as crianças jogando bola na rua, discutindo para ver quem vai ser o Ronaldo... Não vê beleza aí? As corporações veem também, e sabem como usá-la.

Os esportes – e em especial o futebol, o mais popular de todos – tornaram-se uma arma essencial na criação de novos mercados globais e, no âmbito nacional, na penetração de identidades e resistências. O conceito de esportes “universais”, altamente competitivos, nutrido nas nações capitalistas avançadas, foi implantado para transcender barreiras culturais e regulatórias ao redor do mundo. O capital encontrou no esporte uma forma de se legitimar e de se camuflar.

Os intermediários – as agências de marketing – secretamente lavavam os subornos que alinharam as mentes por trás do esporte com as necessidades das marcas globais.

A ISL foi a intermediária criada com uma dupla função: entregar o esporte de forma aceitável ao capitalismo e transmitir propinas aos oficiais que assinavam os contratos. Nada ilegal havia acontecido. Eles estavam todos se movendo em direção a um mundo extraterritorial com pouca imprensa ou crivo regulatório, com uma determinação candente de lucrar com o esporte. Esse lucro nem sempre foi medido em dólares; influência e hegemonia se mostrariam tão importantes quanto. Dominação cultural garantiria os objetivos do capitalismo.

Quando a Rede Globo recebeu no ano passado uma multa equivalente a R$ 615 milhões da Receita Federal por sonegação na compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002, alegou que a negociação com a ISL e a Kirsh via paraíso fiscal não era crime, mas simplesmente um “planejamento tributário”. Hoje, “parceiros” como Visa, Adidas, McDonald’s e Samsung, entre outros, conseguem uma fantástica isenção fiscal de exceção por meio da “lei da FIFA”. Romário lutou contra ela, mas Dilma forçou sua aprovação. Se eles não pagam os impostos, os brasileiros pagam. E isso é roubo!

Se a corrupção é definida como o abuso do ofício público para benefício próprio, então, na minha opinião, a FIFA criou um modelo institucionalizado de corrupção global. A FIFA exporta corrupção de Zurique ao mundo. Junto ao COI, reivindica “autonomia” para o esporte, alegando que governos não devem ter permissão de interferir na “independência” das federações esportivas. E a sugestão de que essas federações devem operar acima da lei é aceita pela maior parte dos governos, na maior parte do tempo. Até quando?

Andrew Jennings, premiado jornalista investigativo escocês, é autor de Jogo sujo, o mundo secreto da Fifa (Panda Books, 2011), entre outros. Até hoje é o único repórter no mundo banido das coletivas de imprensa da Fifa.

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