3 de junho de 2014

Brasil: A luta dos trabalhadores triunfa sobre o espetáculo

James Petras

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Crédito: Movimento dos Trabalhadores sem-Teto (MTsT).

Tradução / Durante décadas críticos sociais lamentaram a influência do esporte e de espetáculos de entretenimento que "distraíam" trabalhadores da luta pelos seus interesses de classe. Segundo aqueles analistas, a "consciência de classe" era substituída pela consciência de "massa". Argumentavam eles que indivíduos atomizados, manipulados pelos mass media, eram convertidos em consumidores passivos que se identificavam com heróis milionários do esporte, com protagonistas de novelas e celebridades do cinema.

O culminar desta "mistificação" – a ilusão em massa – era os campeonatos mundiais assistidos por bilhões por todo o mundo, patrocinados e financiados por corporações bilionárias: as World Series (baseball), a Copa do Mundo (futebol) e a Super Bowl (futebol americano). 

Hoje, o Brasil está a viver a refutação desta linha de análise cultural-política. Os brasileiros têm sido descritos como "loucos por futebol". Suas seleções venceram o maior número de Copas do Mundo. Seus jogadores são cobiçados pelos proprietários das equipes mais importantes da Europa. Dizem que seus torcedores "vivem e morrem pelo futebol"... Ou assim nos diziam.

Mas foi no Brasil que os maiores protestos na história da Copa do Mundo tiveram lugar. Já um ano antes dos jogos, programados para 12 de junho de 2014, houve manifestações em massa de até um milhão de brasileiros. Apenas nas últimas semanas, proliferaram greves de professores, polícia, trabalhadores da construção e empregados municipais. O mito dos espetáculos de mass media a hipnotizar as massas foi refutado – pelo menos no Brasil dos dias de hoje.

Para entender porque o espetáculo de massa foi um fracasso de propaganda é essencial entender o contexto político e econômico no qual foi lançado, bem como os custos e benefícios e o planejamento tático de movimentos populares.

O contexto político e econômico: A Copa do Mundo e as Olimpíadas

Em 2002, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula da Silva, venceu as eleições presidenciais. Seus dois mandatos (2003–2010) foram caracterizados por um caloroso abraço do capitalismo de livre mercado juntamente com programas populistas de [alívio da] pobreza. Ajudado por influxos em grande escala de capital especulativo, atraído por altas taxas de juro, e pelos altos preços das commodities para as suas exportações agro-minerais, Lula lançou um programa maciço quanto à pobreza proporcionando cerca de US$60 por mês a 40 milhões de brasileiros pobres, os quais constituíram parte da base de massa eleitoral de Lula. O Partido dos Trabalhadores reduziu o desemprego, aumentou salários e apoiou empréstimos com juros baixos ao consumidor, estimulando um "boom do consumidor" que levou a economia em frente.

Para Lula e seus conselheiros, o Brasil estava a tornar-se uma potência global, atraindo investidores de classe mundial e incorporando os pobres no mercado interno.

Lula foi louvado pela Wall Street como um "esquerdista pragmático" e como um estadista brilhante pela esquerda!

De acordo com esta visão grandiosa (e em resposta a um amontoado de bajuladores presidenciais, de Norte e a Sul), Lula acreditou que a ascensão do Brasil à proeminência mundial exigia que "hospedasse" a Copa do Mundo e as Olimpíadas e embarcou numa campanha agressiva... O Brasil foi escolhido.

Lula enfeitava-se e pontificava: o Brasil, como hospedeiro, alcançaria o reconhecimento simbólico e os prêmios materiais que uma potência global merecia.

A ascensão e a queda das grandes ilusões

A ascensão do Brasil foi baseada em fluxos de capital estrangeiro condicionados pelo diferencial (favorável) de taxas de juro. E quando as taxas mudam, o capital flui para fora. A dependência do Brasil da alta procura pelas suas exportações agro-minerais baseou-se no prolongado crescimento econômico com dois dígitos na Ásia. Quando a economia da China arrefeceu, a procura e os preços caíram e, assim, os ganhos do Brasil com exportações.

O "pragmatismo" do Partido dos Trabalhadores significou aceitar as estruturas políticas, administrativas e regulamentares herdadas dos regimes neoliberais anteriores. Estas instituições eram permeadas por responsáveis corruptos ligados a empreiteiros de construção notórios por superfaturamento de custos e longos atrasos em contratos com o Estado.

Além disso, a "pragmática" máquina eleitoral do Partido dos Trabalhadores foi construída sobre comissões debaixo da mesa e subornos. Somas vastas foram desviadas dos serviços públicos para bolsos privados.

Inchado pela sua própria retórica, Lula acreditou que a emergência econômica do Brasil na cena mundial era um "negócio feito". Ele proclamou que os seus faraônicos complexos esportivos – os bilhões de dinheiro público gastos em dúzias de estádios e infraestrutura custosa – "pagar-se-iam por si mesmos".

O fatal "efeito demonstração": A realidade social derrota a grandeza global

A nova presidente do Brasil, Dilma Rousseff, protegida de Lula, concedeu bilhões de reais para financiar os maciços projetos de construção o seu antecessor: estádios, hotéis, rodovias e aeroportos para acomodar uma prevista inundação de torcedores estrangeiros de futebol.

O contraste entre a disponibilidade imediata de quantias maciças de fundos públicos para a Copa do Mundo e a perene falta de dinheiro para deteriorados serviços públicos essenciais (transporte, escolas, hospitais e clínicas) foi um enorme choque para os brasileiros e uma provocação para a ação em massa nas ruas.

Durante décadas, a maioria dos brasileiros, que dependiam de serviços públicos para transporte, educação e cuidados médicos (as classes superiores e média podem permitir-se serviços privados), foi dito que "não havia fundos", que os "orçamentos tinham de ser equilibrados", que um "excedente orçamental era necessário para cumprir acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e atender o serviço da dívida".

Durante anos fundos públicos foram desviados por nomeados políticos corruptos para pagar campanhas eleitorais, levando a um transporte asqueroso, superlotado, frequentemente avariado, e a atrasos nas viagens diárias em veículos abafados e a longas filas nos congestionamentos. Durante décadas, escolas estiveram em ruínas, professores corriam de escola em escola para compensar os seus miseráveis salários mínimos levando a uma educação de baixa qualidade e desprezada. Hospitais públicos eram sujos, perigosos e superlotados, médicos mal pagos frequentemente aceitavam pacientes privados nas horas vagas, medicamentos essenciais eram escassos nos hospitais públicos e muito caros nas farmácias.

O público foi ultrajado pelo contraste obsceno entre a realidade de clínicas dilapidadas com janelas partidas, escolas superlotadas com goteiras e transporte de massa não confiável para o brasileiro médio e os enormes novos estádios, hotéis luxuosos e aeroportos para os torcedores e visitantes estrangeiros ricos.

O público foi ultrajado pelas óbvias mentiras oficiais: a afirmação de que "não havia fundos" para professores quando bilhões de reais ficaram instantaneamente disponíveis para construir hotéis de luxo e atraentes camarotes nos estádios para torcedores ricos do futebol.

O detonador final para o protesto em massa nas ruas foi o aumento nas tarifas de ônibus para "cobrir perdas" – depois de aeroportos e rodovias públicas terem sido vendidas a baixo preço a investidores privados que elevaram os pedágios e comissões.

Os manifestantes que marchavam contra o agravamento das tarifas de ônibus foram apoiados amplamente pelas dezenas de milhares de brasileiros que denunciavam as prioridades do governo: Bilhões para a Copa do Mundo e migalhas para a saúde pública, educação, habitação e transporte!

Desatento às exigências populares, o governo avançou na tentativa de acabar seus "projetos de prestígio". No entanto, a construção de estádio ficou atrás do programado por causa da corrupção, incompetência e má administração. Empreiteiros de construção, que foram pressionados, reduziram padrões de segurança e pressionaram trabalhadores mais duramente, levando a um aumento de mortes e lesões nos canteiros de obras. Trabalhadores da construção entraram em greve protestando contra a aceleração e deterioração da segurança do trabalho.

Os esquemas grandiosos do regime Rousseff provocaram uma nova cadeia de protestos. O Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) ocupou lotes urbanos próximos a um novo estádio exigindo "habitação social" para o povo ao invés de novos hotéis cinco estrelas para estrangeiros ricos adeptos do esporte.

A escalada dos custos com os complexos esportivos e o aumento das despesas governamentais atearam uma onda de greves sindicais para exigir salários mais altos superiores aos objetivos do regime. Professores e trabalhadores da saúde foram apoiados pelos trabalhadores industrias e empregados assalariados em greve em setores estratégicos, tais como o transporte e os serviços de segurança, capazes de desestabilizar gravemente a Copa do Mundo.

A adoção pelo PT dos espetáculos esportivos grandiosos, ao invés de enfatizar o"arranque do Brasil como potência global", pôs em destaque o amplo contraste entre os 10% ricos e seguros nos seus condomínios de luxo no Brasil, em Miami e em Manhattan, com acesso a clínicas privadas de alta qualidade e escolas privadas exclusivas para seus rebentos, com a massa de brasileiros médios, fincados durante horas em veículos cheios de suor e superlotados, em encardidas salas de espera para conseguir meras aspirinas de médicos inexistentes e em desperdiçar os futuros dos seus filhos em salas de aula em ruínas sem professores adequados e em tempo integral.

A elite política, especialmente o círculo em torno da presidência Lula-Rousseff, caiu vítima das suas próprias ilusões de apoio popular. Eles acreditaram que pagamentos de subsistência (cabazes alimentares) para os muito pobres lhes permitiria gastar bilhões de dinheiro público em espetáculos esportivos para entreter e impressionar a elite global. Eles acreditaram que a massa de trabalhadores estaria tão fascinada pelo prestígio de abrigar a Copa do Mundo no Brasil que ela passaria por alto a grande disparidade entre despesas do governo para grandes espetáculos da elite e a ausência de apoio para atender as necessidades quotidianas dos trabalhadores brasileiros.

Mesmo sindicatos, aparentemente ligados a Lula, que alardeavam o seu passado de liderança dos metalúrgicos, rompeu as fileiras quando perceberam que "o dinheiro era para fora" – e que o regime, pressionado pelos prazos finais de construção, podia ser pressionado a elevar salários a fim de ter o trabalho feito.

Os brasileiros, sem dúvida, são voltados para o esporte. Eles seguem entusiasticamente sua seleção nacional. Mas eles também são conscientes das suas necessidades. Não se contentam e aceitar passivamente as grandes disparidades sociais reveladas pela atual corrida louca para encenar a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil. A vasta despesa do governo com os jogos tornou claro que o Brasil é um país rico com uma multidão de desigualdades sociais. Eles perceberam que há vastas somas disponíveis para melhorar serviços básicos da vida diária. Perceberam que, apesar da sua retórica, o "Partido dos Trabalhadores" estava a jogar um jogo esbanjador de prestígio para impressionar uma audiência capitalista internacional. Perceberam que têm poder estratégico para pressionar o governo e tratar de algumas das desigualdades em habitação e em salários através da ação de massa. E eles agarraram-na. Perceberam que merecem desfrutar a Copa do Mundo em habitações públicas adequadas e a preços acessíveis e viajar para o trabalho (ou para um jogo ocasional) em veículos decentes. A consciência de classe, no caso do Brasil, triunfou sobre o espetáculo de massa. O "Pão e circo" cedeu aos protestos em massa.

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