17 de junho de 2014

A balcanização do Iraque

Manlio Dinucci

Il Manifiesto

Tradução / Se fosse verdade o que se está dizendo em Washington, quanto aos Estados Unidos terem sido pegos de surpresa pelo ataque de ofensiva feito pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), no Iraque, isso significaria que Obama deveria imediatamente destituir os dirigentes da comunidade de inteligência estadunidense, comunidade essa constituída pela CIA e por inúmeras outras agências federais, que são as responsáveis pela espionagem, assim como para as execuções das operações secretas dos Estados Unidos, feitas em escala mundial.

Sem nenhuma dúvida e isso muito pelo contrário, eles devem ter sido felicitados pelo presidente, atrás de portas fechadas. O EIIL é na verdade um factor instrumental para a estratégia estadunidense de demolição de países através de guerras secretas. Vários dos chefes vindos das formações islâmicas na Líbia, anteriormente classificados como terroristas, foram armados, treinados e financiados pelos serviços secretos estadunidenses para derrubar Kadhafi. Foi o próprio EIIL que confirmou isso de quando comemorando dois de seus comandantes líbios : Abu Abdullah al Libi, que combateu na Líbia antes de ter sido assassinado por um grupo rival, na Síria, em 22 de setembro de 2013; e Abu Dajana que depois de ter combatido, ele também na Líbia, foi assassinado em 8 de fevereiro na Síria, numa confrontação com um grupo da Al Qaida, anteriormente seu aliado. Quando do começo da guerra secreta para derrubar ou abater o presidente Assad, vários militantes foram da Líbia à Síria, unindo-se com outros combatentes, na sua maioria não-sírios, vindos do Afeganistão, Bósnia, Tchetchênia, e outros países. O EIIL construiu uma grande parte da sua força justamente na Síria, onde os “rebeldes”, infiltrados na Turquia e Jordânia, receberam provisões de armas, entre elas então as provenientes da Croácia, através de uma rede organizada pela CIA (a existência dessa rede foi documentada por uma investigação do New York Times, apresentada em 26 de março de 2013.

Seria possível que a CIA e as outras agências estadunidenses – dotadas de uma densa rede de espiões, de eficientes drones, e de satélites militares, pudessem estar ignorantes de que a EIIL estava a preparar uma massiva ofensiva contra Bagdá, ofensiva essa anunciada ela mesma por uma série de atentados? Evidentemente que não. Então, porque seria que Washington não teria dado o alarme, antes da entrada da própria ofensiva? Isso é porque o objetivo estratégico dos Estados Unidos não é a defesa, mas o controle do Iraque.

Depois de ter gasto só na segunda guerra no Iraque mais de 800 bilhões de dólares para as operações militares, que chegam já a 3 trilhões de dólares se todos os custos, inclusive os sanitários forem incluídos, os Estados Unidos agora estão a ver a China cada vez mais marcando presença no Iraque: ela compra cerca da metade da produção petrolífera do Iraque, o que está aumentando de muito, assim também como faz grandes investimentos na indústria de extração do mesmo. Isso entretanto não é tudo. Em fevereiro, durante a visita do ministro dos negócios estrangeiros Wang Yi à Bagdá, os governos do Iraque e da China assinaram acordos tendo em vista fornecimentos de carácter militar para a China. Em maio o primeiro ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, participou em Xangai na Conferência sobre Medidas de Interação e Confiança na Ásia, com Hassan Rouhani, presidente do Irã, país com o qual o governo al-Maliki assinou no último novembro um acordo, desafiando o embargo, desejado por Washington, para a compra de armas iranianas numa quantia de 195 milhões de dólares. É nesse cenário que se passa a ofensiva do EIIL no Iraque, o que põe fogo no país onde se encontra o inflamável proveniente da rivalidade sunita- chiita, rivalidade essa que foi acelerada pela política de al-Maliki. Isso teria permitido aos Estados Unidos o relançamento de sua estratégia de controle do Iraque. Nesse quadro não se deve perder de vista o plano que o atual vice-presidente Joe Biden fez passar no senado em 2007, o qual prevê “a decentralização do Iraque em três regiões semi autônomas: curda, sunita e chiita”, com um “governo central limitado a Bagdá”.

Em outras palavras, o desmembramento do Iraque.

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