2 de junho de 2014

O desembarque de 6 de junho de 1944, do mito de hoje à realidade histórica

O triunfo do mito da libertação americana da Europa

Annie Lacroix-Riz

La faute à Diderot

Tradução / Em junho de 2004, pelo 60º aniversário (e primeiro decênio celebrado no século XXI) do “desembarque aliado” na Normandia, à questão “Qual é, para si, a nação que mais contribuiu para a derrota da Alemanha” o Institut Français d’Opinion Publique (IFOP) registrou uma resposta completamente inversa em relação àquela que recolheu em maio de 1945: respectivamente para os Estados Unidos, 58 e 20% e para a URSS 20 e 57% [1]. Desde a primavera até ao verão de 2004, tinha sido repetido vezes sem conta que os soldados americanos tinham, entre 6 de junho de 1944 e 8 de maio de 1945, sulcado a Europa “ocidental” para lhe dar a independência e a liberdade que lhe tinham sido roubadas pela ocupação alemã e que ameaçava a avançada do exército vermelho em direção ao ocidente. Acerca do papel da URSS, vítima desta “muito espetacular [inversão das percentagens] com o tempo”[2], não havia dúvidas. A (70.ª) colheita de 2014 promete pior sobre a apresentação respetiva dos “Aliados” da Segunda Guerra mundial, sobre o fundo de invetivas contra o anexionismo russo na Ucrânia e noutros lugares”[3].

A lenda evoluiu com a expansão americana no continente europeu planejada em Washington a partir de 1942 e posta em prática com a ajuda do Vaticano, tutor das zonas católicas e administrador antes, durante e depois da Segunda Guerra mundial da “esfera de influência “ocidental”[4]. Conduzido em companhia da RFA (depois Alemanha reunificada) e em concorrência com ela, este empurrão para leste tomou um ritmo frenético depois da “queda do muro de Berlim” (1989): pulverizou os “objetivos de guerra” que Moscou tinha reivindicado em julho de 1941 e resolvidos em 1944 (recuperação do território de 1939-1940) e 1945 (formação de uma esfera de influência que cobria o antigo “cordão sanitário” da Europa central e oriental, velha via germânica de invasão da Rússia)[5]. O projeto americano avançava tão depressa que Armand Bérard, diplomata colocado em Vichy e, depois da libertação, conselheiro da embaixada em Washington (dezembro de 1944) e depois em Bona (agosto de1949) previu, em fevereiro de 1952: “os colaboradores do Chanceler [Adenauer] consideram em geral que, no dia em que a América estiver em condições de pôr em ação uma força superior, a URSS submeter-se-á a uma ordem de coisas na qual abandonará os territórios da Europa central e oriental que domina atualmente”[6]. As previsões, então assombrosas de Bérard-Cassandra, são ultrapassadas em maio-junho de 2014: a antiga URSS, reduzida a Rússia desde 1991, está ameaçada à sua porta ucraniana.

A hegemonia ideológica “ocidental”, acompanhando este Drang nach Osten, foi confirmada pelo tempo que decorreu desde a Segunda Guerra mundial. Antes da Derrocada, “a opinião francesa” deixou-se “enganar pelas campanhas “ideológicas”“ que transformavam a URSS em lobo e o Reich em cordeiro. A grande imprensa, propriedade do capital financeiro, tinha-a convencido de que o abandono do aliado checoslovaco lhe valeria uma preservação duradora da paz. “Uma tal anexação será, e não poderá deixar de ser, o prelúdio de uma guerra que se tornará inevitável à custa de horrores e na qual a França corre o maior risco de derrota, de desmembramento e vassalização do que subsistir do território nacional como Estado aparentemente independente”, tinha advertido, duas semanas antes de Munique, uma outra Cassandra do Estado-maior do exército. Enganada e traída pelas suas elites, “a França” conheceu o destino previsto, mas os seus operários e empregados, que sofreram uma baixa de 50% dos salários reais e a perda de 10-12 Kg entre 1940 e 1944, deixaram-se “enganar menos pelas campanhas “ideológicas””.

Certamente esses operários perceberam estas realidades militares mais tarde do que “os meios bem informados”, mas, em número cada vez maior, ao longo dos meses, seguiram nos atlas e nos mapas da imprensa colaboracionista a evolução da “frente do Leste”. Compreenderam que a URSS, que reclamava em vão, desde julho de 1941, a abertura a oeste de uma “segunda frente” para aliviar o seu martírio, suportava sozinha o peso da guerra. O “entusiasmo” que entre eles suscitou a notícia do desembarque anglo-americano no norte de África (8 de novembro de 1942) estava “extinto” na primavera seguinte: “Hoje, todas as esperanças estão voltadas para a Rússia cujos sucessos enchem de alegria toda a população […] Toda a propaganda do partido comunista se tornou inútil […] [pois,] a comparação demasiado fácil entre a inação inexplicável de uns e a heroica atividade de outros prepara dias penosos àqueles que se inquietam com o perigo bolchevique”, dizia um relatório de abril de 1943 destinado ao BCRA gaullista[8].

Se era delicado enganar as gerações que tinham conservado a memória do conflito, o exercício tornou-se hoje mais fácil. Ao desaparecimento progressivo das suas testemunhas e atores, junta-se hoje o colapso do movimento operário radical. O PCF, “partido dos fuzilados”, durante muito tempo deu a conhecer amplamente, muito para lá das suas fileiras, as realidades desta guerra. O que permanece por tratar – há menos vontade disso –, na sua imprensa, ela própria em vias de desaparecimento, e que até bate no peito pelo passado “estalinista” contemporâneo da sua Resistência. A ideologia dominante, desembaraçada de um sério obstáculo, conquistou a hegemonia neste terreno como nos outros. Os círculos acadêmicos já nada opõem (ou associam-se mesmo) à intoxicação desenfreada da imprensa escrita e dos meios audiovisuais ou do cinema[9]. Ora, os preparativos e objetivos do 6 de junho de 1944 não são explicados nem pelo filme O soldado Ryan, nem pelo longo documentário Apocalipse.

A Pax Americana vista por Armand Bérard em julho de 1941

Foi muito antes da “viragem” de Estalinegrado (janeiro-fevereiro de 1943) que as elites francesas compreenderam as consequências americanas da situação militar nascida da “resistência […] feroz do soldado russo”. Disso é testemunho o relatório de meados de julho de 1941 que o general Paul Doyen, presidente da delegação francesa na Comissão alemã do armistício de Wiesbaden, mandou redigir pelo seu colaborador diplomático Armand Bérard[10]:

1.º - O Blitzkrieg14 estava morto. “O caminho tomado pelas operações” contradizia o prognóstico dos “dirigentes [do] III Reich [que...] não tinham previsto uma resistência tão feroz do soldado russo, um fanatismo tão apaixonado da população, uma guerrilha tão esgotante na retaguarda, perdas tão sérias, um vazio tão completo diante do invasor, dificuldades tão consideráveis de reabastecimento e de comunicações.

As batalhas gigantescas de tanques e de aviões, a necessidade, na falta de vagões com características técnicas apropriadas, de assegurar transporte, por estradas esburacadas, durante várias centenas de quilômetros, implicando, para o exército alemão, desgaste de material e um gasto de gasolina que arriscam fazer diminuir perigosamente os aprovisionamentos insubstituíveis de combustíveis e de borracha. Sabemos que o Estado-Maior alemão constituiu três meses de reservas de gasolina. É preciso que uma campanha de três meses lhe permita derrotar o comunismo soviético, restabelecer a ordem na Rússia sob um novo regime, repor a exploração de todas as riquezas naturais do país e, em particular, as jazidas do Cáucaso. Contudo, sem se preocupar com a sua alimentação para o dia seguinte, a Rússia incendeia as suas colheitas a lança-chamas, faz explodir as suas aldeias, destrói o seu material circulante, sabota as suas explorações”.

2.º - O risco de uma derrota alemã (longamente detalhada por Bérard) obrigava os senhores da França a aliar-se a um outro protetor que o imperialismo “continental” escolheu depois da “Reconciliação” dos anos 1920. Sendo uma tal viragem impossível “nos próximos meses”, passar-se-ia com habilidade da hegemonia alemã à americana, inelutável. Pois “os Estados Unidos saíram já como únicos vencedores da guerra de 1918: sairão ainda mais do atual conflito. O seu poder econômico, a sua civilização desenvolvida, o número da sua população, a sua influência crescente em todos os continentes, o enfraquecimento dos Estados europeus que podiam rivalizar com eles, fazem que, o que quer que aconteça, o mundo deverá, nas próximas décadas, submeter-se à vontade dos Estados Unidos.[11]” Bérard distinguia, pois, desde julho de 1941, o futuro vencedor militar soviético – que o Vaticano identificou claramente pouco depois[12] –, que a guerra de desgaste alemã esgotaria, do “único vencedor” pelo seu “poder econômico” e que praticaria nesta guerra, como na anterior, a “estratégia periférica”.

“Estratégia periférica” e Pax Americana contra a URSS

Os Estados Unidos, que nunca tinham sofrido qualquer ocupação estrangeira nem nenhuma destruição desde a submissão do sul agrícola (esclavagista) ao norte industrial, tinham acantonado o seu exército permanente em missões tão cruéis quanto despreocupadas, antes (e eventualmente depois) da era imperialista: liquidação das populações de indígenas, submissão de vizinhos fracos (“o quintal das traseiras” latino-americano) e repressão interna. Para a expansão imperial, a palavra de ordem do chantre do imperialismo Alfred Mahan – desenvolver indefinidamente a marinha – foi enriquecida pelos sucessores com as mesmas receitas a respeito da aviação[13]. Mas, a modéstia das suas forças armadas terrestres ditava a sua incapacidade num conflito europeu. Vitória adquirida por interposto país, fornecedor de “carne para canhão”, as forças americanas, tardiamente postas em marcha, cercariam, como a partir da primavera de 1918, o território a controlar: daqui para a frente seria a partir de bases aeronavais estrangeiras e as do norte de África que se juntaram, depois de novembro de 1942, às britânicas[14].

A Entente [aliança] tripartida (França, Inglaterra, Rússia) em 1914 repartiu o papel militar, finalmente devolvido, dada a retirada russa, sobretudo à França. Seria a Rússia sozinha que o assumiria, desta vez numa guerra americana que, segundo o estudo secreto de dezembro de 1942 do Comitê dos chefes de Estados-maiores inter-armas (Joint Chiefs of Staff, JCS), decidia como norma “ignorar as considerações de soberania nacional” dos países estrangeiros. Em 1942-1943, o JCS 1º: tirou do conflito em curso (e do precedente) a conclusão de que a próxima guerra teria “como espinha dorsal os bombardeiros estratégicos americanos” e que, simples “instrumento da política americana, um exército internacional” encarregado das tarefas subalternas (terrestres) “internacionalizaria e legitimaria o poder americano”; e 2º: elaborava a interminável lista das bases do pós-guerra que sulcariam o universo, incluindo as colônias dos “aliados” (JCS 570): nada nos poderia levar a “tolerar restrições à nossa capacidade de estacionar e operar o avião militar dentro e sobre certos territórios sob soberania estrangeira”, declarava o general Henry Arnold, chefe de Estado-maior da força aérea, em novembro de 1943[15].

A “Guerra fria”, que transformava a Rússia em “ogre” soviético[16] abriria a porta às confissões sobre a tática de subordinar o uso da “carne para canhão” dos aliados (momentâneos) aos objetivos dos “bombardeamentos estratégicos americanos”. Em maio de 1949, assinado o Pacto atlântico (em 4 de abril), Clarence Cannon, presidente da comissão das Finanças da Câmara dos Representantes (House Committee on Appropriations) glorificou os dispendiosíssimos “bombardeiros terrestres de grande alcance capazes de transportar a bomba atômica que “em três semanas teriam pulverizado todos os centros militares soviéticos”“ e felicitava-se pela “contribuição” que dariam “os nossos aliados [...] com o envio dos jovens necessários para ocupar o território inimigo depois de nós os termos desmoralizado e esmagado com os nossos ataques aéreos. [...] Foi esse o plano que seguimos durante a última guerra”[17].

Os historiadores americanos Michael Sherry e Martin Sherwin demonstraram que: foi a URSS, instrumento militar da vitória, que era simultaneamente o alvo de futuras guerras de conquista – e não o Reich, oficialmente designada como inimiga “das Nações unidas”[18]. Compreende-se porquê lendo William Appleman Williams, um dos fundadores da “escola revisionista” (progressista) americana. A sua tese sobre “as relações americano-russas de 1781 a 1947” (1952) demonstrou que o imperialismo americano não consentia nenhuma limitação da sua esfera de influência mundial que a “Guerra fria”, nascida em 1917 e não em 1945-1947, tinha fundamentos não ideológicos, mas econômicos e que a russofobia americana datava da era imperialista[19]. “A aliança [russo-americana], frouxa e informal [...] rompeu-se com os direitos de passagem dos caminhos-de-ferro [russos] entre a Manchúria meridional e o leste da China entre 1895 e 1912”. Para cúmulo, os Sovietes tiveram a audácia de explorar eles mesmo a sua caverna de Ali Babá, subtraindo aos capitais americanos o seu imenso território (22 milhões de Km2). Eis o que produziu “a continuidade, de Theodore Roosevelt e John Hay a Frankin Roosevelt, passando por Wilson, Hugues e Hoover, da política americana no Extremo oriente”[20] - mas também na África e na Europa, outros campos privilegiados “duma partilha e repartilha do mundo”[21] americanas, renovadas sem cessar desde 1880-1890.

Washington pretendia levar a cabo esta “partilha-repartilha” em seu benefício exclusivo, razão fundamental para Roosevelt exercer o seu veto a toda a discussão em tempo de guerra com Stálin e Churchill sobre a repartição das “zonas de influência”. A paragem das armas assegurar-lhe-ia a vitória militar a custo zero, dado o estado lastimoso do seu grande rival russo, devastado pelo assalto alemão[26]. Em fevereiro-março de 1944, o milionário Harriman, embaixador em Moscou desde 1943, manifestava acordo com dois relatórios dos serviços “russos” do Departamento de Estado (“Alguns aspetos da política soviética atual” e “A Rússia e a Europa oriental”) por pensar que a URSS, “empobrecida pela guerra e à procura da nossa assistência econômica […] uma das nossas principais alavancas para orientar uma política compatível com os nossos princípios”, não teria força para invadir o leste da Europa, dentro de pouco tempo americano. A URSS contentar-se-ia, no pós-guerra, com uma promessa de ajuda americana, o que nos permitiria “evitar o desenvolvimento de uma esfera de influência da União Soviética sobre a Europa oriental e os Bálcãs”[23]. Prognóstico que manifestava um otimismo excessivo, quando a Rússia ainda não tinha renunciado a gerir a sua própria esfera de influência.

A Pax Americana na parte francesa da zona de influência

Os planos de paz da sinarquia...

Esta “alavanca” financeira era, tanto a oeste como a leste, “uma das armas mais eficazes à nossa disposição para influenciar sobre os acontecimentos políticos europeus na direção que nós desejamos”[24].

Antevendo esta Pax Americana, a alta finança sinárquica, coração do imperialismo francês particularmente representado no estrangeiro – Lemaigre-Dubreuil, dono dos óleos Lesieur (e de sociedades petrolíferas), o presidente do banco da Indochina Paul Baudouin, último ministro dos Negócios estrangeiros de Reynaud e primeiro de Pétain, etc. – negociou, mais ativamente depois do segundo semestre de 1941, com o financeiro Robert Murphy, delegado especial de Roosevelt no norte de África. Futuro primeiro conselheiro do governador militar da zona de ocupação americana na Alemanha e um dos chefes dos serviços de informações, do Office of Strategic Services (OSS) [Gabinete dos serviços estratégicos] de guerra contra a Central Intelligence Agency (CIA) de 1947, instalou-se em Argel em dezembro de 1940. Este católico integrista estava aí a preparar o desembarque dos Estados Unidos no norte de África, trampolim para a ocupação da Europa que começaria pelo território francês quando a URSS se preparasse para franquear as suas fronteiras de 1940-1941 para libertar os países ocupados[25]. Estas conversações secretas realizaram-se em zona não ocupada, no “império”, por via dos “neutros”, os pró-hitlerianos Salazar e Franco, sensíveis ao canto de sereia dos americanos, suíços e suecos e, via Vaticano, tão preocupados como em 1917-1918 em assegurar uma paz doce ao Reich vencido. Prolongados até ao final da guerra, incluíram desde 1942 planos de “viragem das frentes” contra a URSS, que apareceram antes da capitulação alemã[26], mas não tiveram pleno efeito senão depois de 8-9 de maio de 1945.

Tratando de assuntos econômicos imediatos (no norte de África) e futuros (metropolitanos e coloniais para depois da Libertação) com os grandes sinarcas, Washington contava com eles para derrubar de Gaulle, igualmente odiado pelos dois partidos. Não porque ele fosse uma espécie de ditador militar insuportável, de acordo com uma lenda que perdura, do grande democrata Roosevelt. De Gaulle desagradava apenas porque, por mais reacionário que tenha sido ou fosse, ele arrancava a sua popularidade e a sua força da Resistência interna (sobretudo comunista): seria a este título que iria entravar o domínio total dos Estados Unidos, enquanto um “Vichy sem Vichy” ofereceria parceiros tão odiados pelo povo, tão dóceis “perinde ac cadaver” [como se fosse um cadáver] às imposições americanas como o eram às ordens alemãs. Esta fórmula americana, finalmente votada ao fracasso, dada a relação de forças geral e francesa, teve, pois, como heróis sucessivos, de 1941 a 1943, os “encapuzados”33 , fiéis de Vichy, Weygand, Darlan, depois Giraud, campeões comprovados da ditadura militar[27] representativos do gosto de Washington pelos estrangeiros convertidos à liberdade dos seus capitais e à instalação das suas bases aeronavais[28].

Não se fazia nenhum esforço para poupar de Gaulle aos Sovietes: assustados com o resultado da batalha de Estalinegrado, os mesmos financeiros franceses enviaram imediatamente a Roma o seu dedicado amigo Emmanuel Suhard, instrumento, desde 1926, dos seus planos de liquidação da República. O cardeal-arcebispo (de Reims) tinha sido nomeado em Paris, em maio, precisamente depois da invasão alemã (de 10 de maio) tendo a “Cogula”36, oportunamente, em abril de 1940, liquidado o seu predecessor Verdier: os seus mandantes e Paul Reynaud, cúmplice do putsch Pétain-Laval que estava iminente, enviaram-no para iniciar em Madrid, a 15 de maio, através de Franco, negociações de “Paz” (capitulação) com o Reich. Suhard foi, pois, de novo encarregado de preparar, dada a Pax Americana, as conversações com o novo tutor: deveria pedir a Pio XII que colocasse “em Washington”, através de Myron Taylor, antigo presidente da US Steel e, depois do verão de 1939 “representante pessoal” de Roosevelt “junto do papa”, “a seguinte pergunta: “Se as tropas americanas forem levadas a entrar em França, o governo de Washington empenhar-se-á em que a ocupação americana seja tão completa como a ocupação alemã?””, com a exclusão de qualquer “outra ocupação estrangeira (soviética). Whashington respondeu que os Estados Unidos desinteressar-se-iam da forma futura do governo da França e que se empenhariam em não deixar o comunismo instalar-se no país”[30]. A burguesia, sublinha um informador do BCRA em finais de julho de 1943, “tendo deixado de acreditar na vitória alemã, conta [...] com a América para evitar o bolchevismo. Aguarda o desembarque anglo-americano com impaciência e qualquer atraso parecia-lhe uma espécie de traição”. Este refrão foi cantado até à concretização da operação “Overlord”[31].

... contra as esperanças populares

Ao “burguês francês [que tinha] sempre considerado o soldado americano ou britânico como devendo naturalmente estar ao seu serviço em caso de vitória bolchevique” os RG opunham, desde fevereiro de 1943, o “proletariado” que exultava: “Os receios de ver a “sua” vitória escamoteada pela alta finança internacional desvanecem-se com a queda de Estalinegrado e o avanço geral dos sovietes”[32]. Deste lado, o rancor contra a inação militar dos Anglo-Saxões contra o Eixo juntou-se à cólera provocada pela sua guerra aérea contra os civis, os das “Nações unidas” incluídos. Os “bombardeamentos estratégicos americanos”, ininterruptos desde 1942, atingiam as populações mas poupavam as corporações parceiras, a IG Farben à cabeça, como relatava em novembro “um muito importante industrial sueco com relações estreitas com [o gigante da indústria química] no regresso de uma viagem de negócios à Alemanha”: em Frankfurt, “as fábricas não foram atingidas”, em Ludwigshafen “os danos são insignificantes”, em Leverkusen “as fábricas da IG Farben [...] não foram bombardeadas”[33].

Nada mudou até 1944, em que um longo relatório de março sobre “os bombardeamentos da aviação anglo-americana e as reações da população francesa” expôs os efeitos destes “ataques assassinos e inoperantes”: a indignação aumentou tanto desde 1943 que abalou as bases do controle americano iminente do território. Depois de setembro de 1943 intensificaram-se os ataques contra os subúrbios de Paris, onde as bombas eram como que “lançadas ao acaso, sem objetivo preciso e sem a menor preocupação de poupar vidas humanas”. Seguiu-se Nantes, Estrasburgo, La Bocca, Annecy, depois Toulon que tinha “levado ao cúmulo a cólera dos operários contra os Anglo-Saxões”: sempre os mesmos mortos operários e poucos ou nenhuns alvos industriais atingidos. As operações preservavam sempre a economia de guerra alemã, como se os Anglo-Saxões “receassem acabar a guerra demasiado depressa”. Assim, exibiam-se intactos os altos-fornos, cuja “destruição paralisaria imediatamente as indústrias transformadoras que deixariam de funcionar por falta de matérias-primas”. Espalhava-se “uma opinião muito perigosa [...] em certas partes da população operária que foi duramente atingida pelos raides. É que os capitalistas anglo-saxões não ficam descontentes por eliminar os concorrentes comerciais e, ao mesmo tempo, dizimar a população operária, mergulhá-la num estado de angústia e de miséria que lhe tornasse mais difícil, depois da guerra, apresentar reivindicações sociais. Seria inútil esconder que a opinião francesa está, há já algum tempo, consideravelmente arrefecida a respeito dos Anglo-Americanos”, que recuam sempre perante “o desembarque prometido […]. A França sofre indizivelmente [...] As forças vivas do país esgotam-se a uma cadência que se acelera de dia para dia e a confiança nos aliados segue numa curva descendente. [...] Instruídos pela cruel realidade dos fatos, a maior parte dos operários vira-se de ora em diante para a Rússia, cujo exército é, na sua opinião, o único que pode alcançar uma moratória próxima da resistência dos alemães”[34]

Foi, pois, numa atmosfera de rancor contra estes “aliados”, tão amigos do Reich como antes e depois de 1918, que teve lugar o desembarque de 6 de junho de 1944. Persistiam a cólera e a sovietofilia populares, dando ao PCF uma influência que inquietava o Estado gaullista iminente: “o desembarque tirou à sua propaganda uma parte da sua força de penetração” mas, “o tempo que demorou o desembarque dos exércitos anglo-americanos no solo francês foi explorado para demonstrar que o exército russo era o único que estava em condições de lutar eficazmente contra os nazistas. Os mortos provocados pelos bombardeamentos e o sofrimento que causaram servem igualmente de elementos favoráveis a uma propaganda que inculcam que os russos combatem com os métodos tradicionais e não se preocupam com a população civil”[35].

O défice de simpatia registado nesta parte inicial da esfera de influência americana mantém-se entre a Libertação de Paris e o fim da guerra na Europa, como demonstram as sondagens do IFOP depois da Libertação parisiense (“de 28 de agosto até 2 de setembro de 1944”) e de maio de 1945, e nacional (já citado)[36]. Isso aconteceu no final da guerra, diz-se, primeiro progressivamente, depois aumentado brutalmente. Não constitui, portanto, grande admiração recordar que, depois da batalha das Ardenas (dezembro 1944-janeiro de 1945, únicos combates importantes travados pelos anglo-saxões contra as tropas alemãs (9 000 mortos americanos)[37], o alto-comando da Wehrmacht tenha negociado febrilmente a sua rendição “aos exércitos anglo-americanos e a relação de forças no leste”; que em fim de março de 1945, “26 divisões alemãs estavam colocadas na frente ocidental”, com o único objetivo de evacuação “para o oeste” pelos portos do norte, “contra 170 divisões na frente leste”; que combateram ferozmente até 9 de maio (data da libertação de Praga)48; que o libertador americano, que tinha duplicado o seu orçamento nacional para a guerra, tinha perdido nas frentes do Pacífico e da Europa 290 000 soldados entre dezembro de 1941 e agosto de 194549: que tenha sido o efetivo soviético que tombou nas últimas semanas da queda de Berlim e 1% do total de mortos soviéticos da “Grande guerra patriótica”, perto de 30 milhões em 50.

De 6 de junho a 9 de maio de 1945, Washington conseguiu erguer todo ou quase todo “o cordão sanitário” que os rivais imperialistas ingleses e franceses tinham edificado em 1919; e para transformar em besta negra o país mais querido dos povos da Europa (os franceses incluídos). A lenda da “Guerra fria” mereceria os mesmos corretivos que a lenda da libertação exclusiva pelos americanos da Europa[40].

Notas

[1] Frédéric Dabi, «1938-1944 : Des accords de Munich à la libération de Paris ou l’aube des sondages d’opinion en France »,[Dos acordos de Munich à libertação de Paris ou o alvor das sondagens de opinião em França (NT)] fevereiro de 2012, http://www.revuepolitique.fr/1938-1944-laube-dessondages-dopinion-en-france/, números extraídos do quadro, p. 5. Total inferior a 100: 3 outros dados: Inglaterra; 3 países; sem opinião.

[2] Ibid., p. 4.

[3] Campanha tão delirante que um jornal eletrónico ligado aos Estados Unidos, em 2 de maio de 2014, sugeriu que houvesse um pouco de pudor na equação CIA-democraciahttp://www.huffingtonpost.fr/charles-grandjean/liberte-democratie-armes-desinformationmassive-ukraine_b_5252155.html.

[4] Annie Lacroix-Riz, Le Vatican, l’Europe et le Reich 1914-1944 [O Vaticano, a Europa e o Reich 1914-1944. (NT)] Paris, Armand Colin, 2010 (2.ª edição), passim.

[5] Lynn E. Davis, The Cold War begins […] 1941-1945, Princeton, Princeton UP, 1974; Lloyd Gardner, Spheres of influence […], 1938-1945, Chicago, Ivan R. Dee, 1993 ; Geoffrey Roberts, Stalin’s Wars : From World War to Cold War, 1939-1953. New Haven & London : Yale University Press, 2006, traduction chez Delga, septembre 2014.

[6] Tel. 1450-1467 de Bérard, Bonn, 18 février 1952, Europe généralités 1949-1955, 22, CED, archives du ministère des Affaires étrangères (MAE).

[7] Nota do Estado-maior, anônimo, 15 de setembro de 1938 (modelo e papel das notas Gamelin, N 579, Serviço histórico do exército-SHAT).

[8] Moral da região parisiense, nota recebida a 22 abril de 1943, F1a, 3743, Arquivos nacionais (AN).

[9] Lacroix-Riz, A história contemporâneo sempre sob influência, Paris, Delga-Le temps des cerises, 2012.

[10] Reivindicação de paternidade, t. 1 das suas memórias, Un ambassadeur se souvient. Au temps du danger allemand, Paris, Plon, 1976, p. 458, verosimilhante, dada a sua correspondência do MAE.

[11] Relatório 556/EM/S ao general Koeltz, Wiesbaden, 16 de julho de 1941, W3, 210 (Laval), AN.

[12] As dificuldades «dos alemães» ameaçam-nos, lamenta-se em finais de agosto Tardini, terceira pessoa do secretariado de Estado do Vaticano, de tal forma «que Stalin seria chamado a organizar a paz em concertação com Churchill e Roosevelt», conversa com Léon Bérard, carta Bérard, Roma-Santa-Sé, 4 de setembro de 1941, Vichy-Europa, 551, arquivos do Ministério dos Negócios estrangeiros (MAE) [Ministère des Affaires étrangères (NT)].

[13] Michael Sherry, Preparation for the next war, American Plans for postwar defense, 1941-1945, New Haven, Yale University Press, 1977, chap. 1, dont p. 39.

[14] Exemplos francês e escandinavo (um recente feudo britânico), Lacroix-Riz, Le Maghreb: allusions et silences de la chronologie Chauvel, La Revue d’Histoire Maghrébine, Tunis, février 2007, p. 39-48; Les Protectorats d’Afrique du Nord entre la France et Washington du débarquement à l’indépendance 1942-1956, Paris, L’Harmattan, 1988, chap. 1 ;«L’entrée de la Scandinavie dans le Pacte atlantique (1943-1949): une indispensable “révision déchirante”», guerres mondiales et conflits contemporains (gmcc), 5 articles, 1988-[Lacroix-Riz, O Magreb: alusões e silêncios da cronologia Chauvel, A Revista de História Magrebina, Tunes, fevereiro de 2007, p. 39-48; Os Protetorados da África do norte entre a França e Washington do desembarque à independência 1942-1956, Paris L´Harmattan, 1988, Cap. 1; «A entrada da Escandinávia no Pacto atlântico (1943-1949: uma indispensável “revisão demolidora” » guerras mundiais e conflitos contemporâneos (gmcc) 5 artigos, 1988-1994, lista (NT)], http://www.historiographie.info/cv.html.

[15] Sherry, Preparation, p. 39-47 (citações esparsas).

[16] Sarcasmo do embaixador americano H. Freeman Matthews, antigo diretor do gabinete dos Assuntos europeus, despacho de Dampierre n° 1068, Stockholm, 23 de novembre de 1948, Europa Generalidades 1944-1949, 43, MAE.

[17] Tél. Bonnet n° 944-1947, Washington, 10 de maio de 1949, Europa generalidades 1944-1949, 27, MAE, Lacroix-Riz, «L’entrée de la Scandinavie», gmcc, n° 173, 1994, p. 150-151 (150-168).

[18] Martin Sherwin, A world destroyed. The atomic bomb and the Grand Alliance, Alfred a Knopf, New York, 1975; Sherry Michael, Preparation; The rise of American Air Power: the creation of Armageddon, New Haven, Yale University Press, 1987; In the shadow of war: the US since the 1930’s, New Haven, Yale University Press, 1995.

[19] Williams, Ph.D., American Russian Relations, 1781-1947, Nova York, Rinehart & Co., 1952, et The Tragedy of American Diplomacy, Dell Publishing C°, New York, 1972 (2e ed).

[20] Richard W. Van Alstyne, recensão de American Russian Relations, The Journal of Asian Studies, vol. 12, n° 3, 1953, p. 311.

[21] Lenin, O imperialismo estado supremo do capitalismo, Ensaio de vulgarização, Paris, Le Temps des cerises, 2001 (1ª edição, 1917), p. 172. Sublinhado no texto.

[22] Elemento chave da análise revisionista, pelo que a leitura de Gardner, Spheres of influence, é essencial.

[23] Tél. 861.01/2320 de Harriman, Moscou, 13 mars 1944, Foreign Relations of the United States 1944, IV, Europe, p 951 (on line).

[24] Ibid.

[25] Lacroix-Riz, Politique et intérêts ultra-marins de la synarchie entre Blitzkrieg et Pax Americana, 1939-1944, in Hubert Bonin et al., Les entreprises et l’outre-mer français pendant la Seconde Guerre mondiale, Pessac, MSHA, 2010, p. 59-77 ; Le Maghreb : allusions et silences de la chronologie Chauvel , La Revue d’Histoire Maghrébine, Tunis, février 2007, p. 39-48.

[26] De que resultou a capitulação do exército Kesselring de Itália, operação Sunrise negociada em março-abril de 1945 por Allen Dulles, Chefe do OSS [nome da organização de espionagem que veio a dar origem à CIA] com escritório em Berna, com Karl Wolff, «Chefe de estado-maior pessoal de Himmler» responsável pelo «assassinato» de 300 000 judeus, que atingiu Moscovo. Lacroix-Riz, Le Vatican, chap. 10, p. 562-563, et Industriels et banquiers français sous l’Occupation, Paris, Armand Colin, 2013, cap. 9.

[27] Jean-Baptiste Duroselle, L’Abîme [O Abismo (NT)] 1939-1945, Paris, Imprensa nacional, 1982, passim ; Lacroix-Riz, Quand les Américains voulaient gouverner la France, Le Monde diplomatique, mai 2003, p. 19 ; Industriels..., chap. 9.

[28] David F Schmitz, Thank God, they’re on our side. The US and right wing dictatorships, 1921-1965, Chapel Hill, University of North Carolina Press, 1999.

[29] Index Suhard Lacroix-Riz, Le choix de la défaite: les élites françaises dans les années 1930, et De Munich à Vichy, l’assassinat de la 3e République, 1938-1940, Paris, Armand Colin, 2010 (2ª edição) e 2008.

[30] LIBE/9/14, 5 de fevereiro de 1943 (visita recente), F1a, 3784, AN. Taylor, Vatican, cap. 9-11 e índice.

[31] Informação de outubro, recebida a 26 de dezembro de 1943 F1a, 3958, AN, e Industriais, cap. 9.

[32] Carta n° 740 do comissário dos RG ao prefeito de Melun, 13 fevereiro de 1943, F7, 14904, AN

[33] Informação 3271, chegada a 17 de fevereiro de 1943, Argel-Londres, 278, MAE.

[34] Informações de 15 de maio, divulgadas a 5 e 9 junho 1944, F1a, 3864 et 3846, AN.

[35] Informação de 13 junho, divulgada a 20 de julho de 1944, «o PC em Grenoble», F1a, 3889, AN.

[36] M. Dabi, diretor do departamento de Opinião do Ifop, farol da ignorância reinante em 2012 sobre a história da Segunda Guerra mundial, deplora o resultado de 1944: «uma muito clara maioria (61%) considera que a URSS é a nação que mais contribuiu para a derrota alemã, enquanto os Estados Unidos e a Inglaterra, portanto os libertadores do território nacional [fim de agosto 1944 ??], não recolhem senão, respetivamente, 29,3% e 11,5% », «1938-1944», p. 4, sublinhado por mim.

[37] Jacques Mordal, Dictionnaire de la Seconde Guerre mondiale [Dicionário da Segunda Guerra Mundial], Paris, Larousse, 1979, t. 1, p. 109-114.

[38] Gabriel Kolko, The Politics of War. The World and the United States Foreign Policy, 1943-1945, New York, Random House, 1969, cap. 13-14.

[39] Perdas «militares unicamente», Pieter Lagrou, Les guerres, la mort et le deuil : bilan chiffré de la Seconde Guerre mondiale [As guerras, a morte e o luto: balanço numérico da Segunda Guerra mundial], in Stéphane Audoin-Rouzeau et al., dir., La violence de guerre 1914-1945, Bruxelles, Complexe, 2002, p. 322 (313-327).

[40] Bibliografia, Jacques Pauwels, Le Mythe de la bonne guerre : les USA et la Seconde Guerre mondiale, [O mito da guerra justa: os EUA e a Segunda Guerra Mundial (NT)], Bruxelles, Éditions Aden, 2012, 2ª edição ; Lacroix-Riz, Aux origines du carcan européen, 1900-1960. La France sous influence allemande et américaine, Paris, Delga-Le temps des cerises, 2014.

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