24 de junho de 2014

O livro negro da guerra

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Depois de ter recebido o carimbo da autorização do Supremo Conselho de Defesa, convocado pelo presidente Napolitano, a ministra Roberta Pinotti publicou as diretivas do futuro “Livro Branco para a segurança internacional e a defesa”, que traçará “a estratégia de evolução das Forças Armadas no horizonte dos próximos 15 anos”. Estratégia que, como o indica as linhas diretivas, continuará a seguir o caminho aberto em 1991, imediatamente depois do combate da República Italiana no Golfo, sob o comando estadunidense, na sua primeira guerra. Seguindo o modelo da reorientação estratégica do Pentágono, a Ministra da Defesa do governo Andreotti anuncia então um “novo modelo de defesa”. Violando a Constituição, esse estabelece que o dever das Forças Armadas é “a tutela dos interesses nacionais, na concepção mais vasta do termo, em tudo que seja necessário” e define a Itália como “elemento central da zona que se estende do Estreito de Gibraltar ao Mar Negro, unindo, através do Canal de Suez e do Mar Vermelho, o Chifre da África e o Golfo Pérsico”.

Esse “modelo de defesa” foi passando de um governo a outro, de uma guerra a outra, sempre sob o comando dos EUA (Iugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia), sem jamais ter sido discutido no parlamento. Ele ainda também não o será no presente: a ministra da Defesa decidiu que o Supremo Conselho da Defesa, presidido por Napolitano, enviará as linhas diretivas ao presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa, dos dois ramos do parlamento, “para que eles possam fazer eventuais avaliações e sugestões úteis a definição do Livro Branco, onde o governo assume a iniciativa e a responsabilidade”.

Resta ainda modificar a orientação básica, que não pode ser posta em discussão. O dever das forças armadas – determinado nas linhas diretivas – não se dirige mais tanto à defesa do território nacional, que hoje em dia está muito menos sujeita a ameaças militares tradicionais, mas a defesa dos “interesses nacionais”, principalmente os interesses vitais”, em particular a “segurança econômica”. Segurança essa que consiste na “possibilidade de ter o usufruto do espaço e dos recursos mundiais comuns sem limitações”, com uma “referência particular aos recursos energéticos”. Para esse fim a Itália deverá operar na “vizinhança oriental e meridional [ou seja sul] da união européia, indo aos países até onde essa vizinhança se extende” (a qual inclui o Golfo Pérsico). Para salvaguardar os “interesses vitais” – explica ela – “o país está próximo de ter acesso a todas as energias disponíveis, e a todos os meios necessários, os quais incluem a utilização da força, ou a ameaça de a usar”.

Num futuro próximo as Forças Armadas serão chamadas a operar para conseguir objectivos sempre mais complexos, porque “os riscos e as ameaças se desenvolverão no interior de áreas geográficas estendidas e fragmentárias, sejam essas próximas ou longe do território nacional”. Referindo-se especialmente ao Iraque, a Líbia e a Síria, o Supremo Conselho de Defesa sublinha que “todo o Estado falido torna-se inevitavelmente num polo de acumulação e de difusão mundial do extremismo, e da ilegalidade”. Ignorando que a “falência” desses países vêm do fato de que eles foram demolidos pelas guerras da OTAN com a ativa participação das forças armadas italianas. De acordo com as linhas diretivas essas forças cada vez mais se transformarão num “instrumento tendo um amplo espectro de capacidade, capazes de serem integrados nos dispositivos multinacionais” a serem colocados “em todas as fases de um conflito, e por um período prolongado”. Os recursos energéticos a serem destinados a esse objetivo, mostra o Supremo Conselho de Defesa, não deverão descer abaixo de um nível mínimo, que não deve ser transgredidos (e os quais serão cada vez mais altos) porque, sublinha-se nas linhas de direção, “o instrumento militar representa para os países uma garantia para seu próprio futuro”. Com esse objetivo se anunciou uma lei de orçamento quinquenal para os maiores investimentos da Defesa (como a aquisição de novos caças F-35) de maneira a fornecer “a indispensável estabilidade de recursos”.

Também seria conveniente “colocar a indústria a evoluir de acordo com as trajetórias tecnológicas e industriais que possam responder as exigências das Forças Armadas”. Em outras palavras, deve-se impulsionar a indústria de guerra, investindo na inovação tecnológica, “tornada necessária pela exigência de uma contínua adequação dos sistemas”, quer dizer, de fazer com que os sistemas de armamentos sejam continuamente modernizados. Ao mesmo tempo seria necessário não somente uma melhor educação militar, mas uma subida geral da “condição social do personal militar”, através de ajustamentos jurídicos e legais.

Como nascida da “exigência de proteger os interesses legítimos da comunidade” afirma-se nas linhas diretivas que, “a Defesa não pode ser considerada como um tema de interesse essencialmente dos militares, mas de toda a comunidade”. A ministra Pinotti convida assim todos os italianos a enviar “eventuais sugestões” para as caixas de correio eletrônico librobianco@difesa.it. Esperemos que os leitores do Il Manifesto sejam muitos a o fazerem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário