20 de junho de 2014

Quatro mitos da Grande Guerra

Paul Seabright


Tradução / Se o centenário do assassinato em Sarajevo do arquiduque Francisco-Fernando, o 28 de junho de 1914, já provocou uma avalanche de publicações históricas, teve relativamente poucos trabalhos sobre a economia. Mas os economistas não podiam deixar passar sem reagir ante um acontecimento tão destacável. Em um documento de trabalho da Universidade de Warwick (Reino Unido) que já provocou uma série de discussões, o historiador econômico Mark Harrison dissecaa quatro "mitos sobre a Grande Guerra" ("Myths of the Great War" em CAGE Working Paper, nº 188, University of Warwick, Department of Economics).

Segundo Mark Harrison, o primeiro mito é que a guerra foi desencadeada acidentalmente, sem que nenhum de quem tinham capacidade de decisão política a quisesse de maneira consciente. Cita numerosas provas que demonstram, na sua opinião, uma previsão consciente dos riscos por parte de quem tomaram as decisões mais importantes. Então, estas pessoas tinham com frequência interesses muito parciais, escassamente consoantes com os das populações afetadas. Mas o problema era a falta de representatividade dos sistemas políticos e não uma falta de entendimento dos perigos.

O segundo mito, segundo Harrison, é que a hecatombe das trincheiras resultasse um esbanjamento inesperado para as estratégias da época. Muito ao invés, o equilíbrio de recursos militares entre as partes implicava que uma guerra de desgaste era a única concebível. Alemanha levava vantagem em termos de população; os aliados, em recursos econômicos (sobretudo na produção de tanques de combate, de aviões, de metralhadoras). Estas vantagens estavam equilibradas de forma tão precisa que, uma vez tomada a decisão de ir à guerra, só uma longa campanha de desgaste podia mostrar quem era, em realidade, capaz de ganhar.

O terceiro mito responde ao papel do bloqueio dos aliados sobre a importação de alimentação na Alemanha, frequentemente citado como o fator mais desmoralizante para a população alemã. Em realidade, demonstra que a queda da produção de alimentos foi, antes bem, resultado da mobilização e do esforço de guerra na mesma Alemanha, que desviaram da agricultura a mão de obra camponesa, a construção de maquinaria agrícola e os produtos químicos que servem para fabricar abono.

O quarto mito se cifra em que o Tratado de Versalles foi a causa do extremismo político em que se afundou Alemanha após 1933. Esta ideia, desenvolvida inicialmente por John Maynard Keynes, continuou a ser moeda corrente até hoje. Harrison demonstra que a carga dos reparos exigidos em Versalles foi bastante mais ligeira do que habitualmente se pensa, em parte porque Alemanha reembolsou delas menos de uma quinta parta e porque a partir de 1924 os empréstimos norte-americanos cobriam a totalidade dos reembolsos efetuados. O que abismou a Alemanha no extremismo foi a Grande Depressão dos anos 30, o qual não resulta em absoluto uma conclusão reconfortante, já que hoje em dia a metade dos jovens gregos e dos jovens espanhóis se encontra no desemprego.

Provavelmente, há mais unanimidade nestas questões entre os historiadores da economia que entre os historiadores da economia e os demais historiadores. O trabalho de Harrison não se apoia unicamente nas suas próprias investigações senão nas de vários colegas economistas. Não é pois seguro que os historiadores "puros" fiquem convencidos. As origens e as consequências da Grande Guerra são objeto de controvérsias... desde 1914! Cem anos depois, estão longe de ter concluído.

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