6 de julho de 2014

A ascensão da Nova Rússia

W. Patrick Lang


"Eu compreendo e compartilho a amargura e o ressentimento de todos que souberam hoje cedo que a Força de Defesa deixou Slaviansk. As notícias horrorizaram todos – os patriotas do “viva-viva”, os patriotas do “chora-chora” e até os figuras metidos a “analistas”. Mas, agora, por favor, ouçam uma pessoa que passou os últimos 45 dias em Slaviansk.

Desde o tempo em que os primeiros postos de controle nos arredores da cidade estavam sendo instalados, até a cidade ser completamente cercada. Saímos de Slaviansk, pela rota ‘'de guerrilha'’ que contornava a cidade em meados de junho; horas depois, já havia ali um posto de controle do exército ucraniano. É isso: a cidade foi bloqueada de todos os lados. Suprimento para os soldados tornou-se uma dor de cabeça enorme, incompatível com a vantagem tática.

Mas, apesar de todo o desespero que se percebe nas declarações públicas feitas por Igor Ivanovich, quando disse ao mundo que “só conseguiremos aguentar até 12 de julho”, tenho absoluta de que, se a Guarda-Nazista [Nota: “Guarda Nacional”] conseguir, lá pelo Dia de Ano Novo, entrar, afinal em Slaviansk, mesmo que a cidade esteja reduzida a escombros, ainda haverá gente lá com rifles automáticos e lança-granadas para resistir contra as tropas ucranianas, de dentro dos porões que houver.

Na realidade, o destino de Slaviansk foi decidido em abril-maio, quando o monte Karachun foi tomado. É impossível conduzir defesa ativa e efetiva, se você enfrenta uma força estratégica dominante, implantada sobre toda a cidade, quilômetros de comprimento, tudo ocupado pelo adversário, com artilharia pesada. Nessas circunstâncias, a luta é impossível. É impossível lutar, se você não tem os meios militares. É impossível. Mas, mesmo assim, Igor Ivanovich e as Forças de Defesa conseguiram resistir.

Mais que isso: não só resistiram como, em apenas poucos dias, conseguiram acabar com qualquer interesse que aquele exército, várias vezes superior, tivesse, de engajar-se em combate contra as Forças de Defesa. A informação que tenho é que o exército ucraniano desistiu de tomar a cidade, no instante em que as Forças de Defesa entregaram a cidade de Semyonovka que tinham sob seu controle.

Não há dúvidas de que Slaviansk já é um símbolo da “Primavera Russa”. Mais do que isso, já fez história, e para sempre. Mas o objetivo em Slaviansk era outro: a cidade atraiu para ela as forças efetivas do exército da Ucrânia. Com isso, permitiu a mobilização das Forças de Defesa em Lugansk e Donetsk." (Komsomolskaya Pravda)

Concordo integralmente com essa avaliação de Dmitry Steshin. Os rebeldes parecem bem treinados, bem organizados e bem motivados. Um excelente exemplo é este curto vídeo, dos morteiros 120 milímetros dos rebeldes em ação: As varetas-de-alvo [original “aiming stakes] estão abertas. Significa que há observadores avançados e um centro de direção de fogo. Os artilheiros nivelam os canos entre os turnos de tiro. Tudo isso exige treinamento e disciplina. Fiquei impressionado. Muitos dos líderes rebeldes e provavelmente uma quantidade considerável dos soldados rebeldes são veteranos de uma ou das duas guerras da Chechênia. As unidades do exército ucraniano não estão com o coração nessa luta. As unidades da Guarda Nacional (na maioria, os bandidos do Setor Direita e suas gangues) estão muito motivados pela “Operação Anti-Terroristas” [orig. ATO], mas foram treinados para tumultos urbanos (na Praça Maidan), não para guerra com vários tipos de armamento.

Por que Putin não iniciou sua operação de manutenção da paz para pôr fim à luta e ao massacre de civis? O The Saker e muitos outros estão clamando por intervenção. Há muitas razões lógicas para não intervir abertamente. Mas não creio que a ameaça de sanções e de uma nova guerra fria são os fatores que estariam “contendo” Putin. Não. Putin é casca-grossa [orig. he is another hard hearted empath]. Ele sabe que a Nova Rússia terá de ser forjada a ferro e fogo, se vier para sobreviver. Terão de querer e de estar dispostos a lutar por eles mesmos. Em abril passado, Igor Strelkov, ex-coronel das Forças Especiais de Defesa Nacional da Rússia, SPETZNAZ, e comandante militar dos rebeldes, reclamou que poucos se apresentaram para alistar-se nas Forças de Defesa. Isso mudou. Os rebeldes já são mais de 20 mil alistados. Os mineiros do Donbass levantaram-se contra seus patrões oligarcas e já desde junho começaram a alistar-se em grande número.

Além disso, Putin despreza a “tendência” que o “Ocidente” tem manifestado, pela chamada “responsabilidade de proteger” (R2P) sempre mediante interferência agressiva em assuntos de outros. Mas é claro que Putin se movimentará, se considerar necessário e quando considerar necessário. Por enquanto, parece-me que Putin e seu governo estão cuidando de garantir o necessário apoio secreto aos rebeldes; e trabalham incansavelmente para obter o cessar-fogo e para construir uma solução política. Assim, vão criando condições para que uma nova nação – o Estado Federal da Nova Rússia, que quer implantar-se de Carcóvia até Odessa e Transnistria – possa surgir, afinal, com vida própria.

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