15 de julho de 2014

A estratégia exterior da França para a Polônia (outubro de 1938 - agosto de 1939)

Annie Lacroix-Riz


Tradução / No ano que precedeu a Segunda Guerra Mundial, a França dirigente, civil e militarmente, colocou uma vez mais a Polônia no centro de uma “aliança de contrários”, a qual, desde 1921, é constituída por pequenos Estados da Europa oriental que deviam a totalidade ou parte das suas fronteiras à vitória francesa de 1918. Este dispositivo, constituído para precaver as tentações de vingança do Reich - e que foi completado por uma Pequena Entente checo-romena-jugoslava (oficialmente constituída contra o antigo império austro-húngaro) -, ficou logo fragilizado devido à exclusão da Rússia, o único país decisivo em caso de guerra em duas frentes: “A França não teria tido a mínima possibilidade de sobrevivência em 1914 se não tivesse havido uma frente oriental”, lembrou o subsecretário de Estado permanente do Foreign Office, Robert Vansittart, em março de 1939[1]; esta questão ainda se colocava nestes mesmos termos, num momento em que a quase-totalidade dos obstáculos à expansão alemã já tinham desaparecido.

Uma “frente oriental” completa, incluindo a URSS, tinha sido imaginada em 1934 por Louis Barthou, razão pela qual Varsóvia o detestou tão cordialmente como Berlim. A frente foi enterrada juntamente com Barthou, a 9 de outubro do mesmo ano, apesar da falaciosa assinatura por Laval, sucessor de Barthou, do pacto franco-soviético, a 2 de maio de 1935. A França, cujo secretário-geral do Quai d’Orsay, Alexis Léger, tinha redigido esta “obra-prima de confusão”, deixou-a, de seguida, cuidadosamente nesse estado de letargia[2]. Desde o “assassinato de Marselha” que a França tinha definitivamente obrigado a Pequena Entente, já mal de saúde desde 1933, a não referir nada que incomodasse, sobretudo tudo aquilo que se referisse aos planos de conquista alemães a Oeste e a Este. Os estados orientais perceberam, de uma vez por todas, a 7 de março de 1936, a que destino a aliada francesa entregava as suas fronteiras, deixando tranquilamente o Reich remilitarizar a Renânia, que, desta forma, as ameaçava. A “aliança” foi reduzida a cinzas pelo desmantelamento, na Conferência de Munique, a 29 de setembro de 1938, da Checoslováquia (prelúdio da sua liquidação a 15 de março de 1939), como afirmou um dos principais responsáveis franceses desse desmantelamento, André François-Poncet, embaixador em Berlim (em setembro de 1931) escolhido pelo Comité Forges: “A Checoslováquia (...) morta do ponto de vista militar (...) apenas tem, para nós, o valor de um Luxemburgo oriental que corre o risco de se tornar num satélite alemão”[3].

Destes escombros, os dirigentes franceses, principalmente militares, fizeram surgir, ad usum populi Gallici, a Polônia como protetora suprema, contra um adversário pouco alarmante, uma vez que esses mesmos dirigentes fingiam acreditar nas excelentes intenções daquele adversário a oeste. O argumento polaco (poderosa arma tática inicial contra o pacto franco-soviético) foi retomado quando esses mesmos dirigentes franceses tentaram, juntamente com Londres, arruinar as últimas possibilidades de renovação da Tripla Entente. Os relatórios do Deuxième Bureau [Segundo Gabinete] estabelecem, contudo, a extrema fragilidade, em todos os domínios, inclusivamente militar, da Polônia e referem o seu alinhamento definitivo com Berlim desde o outono de 1933; apesar disso, o Alto Estado-Maior não parava de a encher de elogios. Desde 1935 que o Segundo Gabinete – à imagem do Coronel Gauché, chefe do Segundo Gabinete, o qual adorava transformar o sentido dos relatórios dos seus serviços no seu sentido contrário –, vinha continuamente afirmando, relativamente aos dois apoios militares eventuais, esta “conclusão”: “para a França, a aliança polaca é incompatível com a aliança russa; é necessário fazer uma escolha”[4].

Esta boa imagem pública da Polônia será confrontada com a realidade da política exterior polaca e com as relações franco-polacas, no final dos anos 1930. As ditas “garantias” francesas (e inglesas) relativas ao território polaco opor-se-ão às práticas dos Apaiseurs [Pacifistas] franceses, entre a liquidação inicial da Checoslováquia e o assalto alemão contra um Estado nascido da vitória francesa.

I - Paris e a orientação germanófila e eslavofóbica de Varsóvia

A França observou minuciosamente a orientação germanófila, eslavofóbica e francofóbica que encarnava o trio mentor de Varsóvia: o marechal Pilsudski, que Paris ergueu como herói pelo seu papel de campeão do “cordão sanitário”, nunca “perdoou à França republicana a sua aliança com o Czarismo”: “ele nunca gostou e não gosta da França”[5]; o “príncipe Janusch Radziwill, um dos proprietários de terra mais importantes, não apenas da Polônia, mas de toda a Europa”, organicamente ligado ao Reich pela sua família e pelos seus interesses agrários e industriais, constituiu um apoio decisivo no golpe de Estado de Pilsudski[6], “presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento é francamente francófobo e não faz absolutamente nenhum esforço para o esconder”; Josef Beck, ministro dos Negócios Estrangeiros de Pilsudski desde 1932, a sua alma danada “desde o golpe de Estado de maio de 1926”, “mais francófobo do que o marechal”[7] era inabalável, tanto por razões alemãs como como internas. Ao “serviço da Alemanha” antes de suceder ao “marechal”, falecido em maio de 1935 (o Segundo Gabinete francês acusou-o, em março, de ter “juntado nos bancos suíços uma fortuna que ultrapassava os 2 milhões de francos suíços”)[8], servia de auxiliar aos seus grosseiros trabalhos “orientais”. A sua ação no seio do SDN, que o Reich deixou com grande alarido em outubro de 1933, foi fundamental: na etapa berlinense do seu regresso a Varsóvia, Beck nunca ia às sessões de Genebra sem uma missão precisa nem sem realizar um relatório de execução do mandato, hábito este conhecido pelo Segundo Gabinete[9]. No interior, o inamovível presidente Ignacy Moscicki, que segundo o Quai d’Orsay era “uma nulidade absoluta, uma marioneta escolhida por Pilsudski [depois do golpe de Estado de 1926] para lhe servir de para-vento”[10], nunca lhe recusava nada: Beck “tinha-o nas suas mãos”, graças à utilização de “fundos secretos do ministério dos Negócios Estrangeiros” para o pagamento das enormes “dívidas de jogo” do seu filho, ministro da Polónia em Tokyo[11]. O trio infernal era ainda representado por dois germanófilos conceituados, Josef Lipski, em Berlim desde junho de 1933, e Lukasiewicz, em Paris desde junho de 1936, depois de ter deixado Moscou, cidade que odiava tanto como os responsáveis por ela[12].

Varsóvia justificou a sua mudança externa duplamente: 1° - a declaração de Hitler- Lipski de 15 de novembro de 1933, “instrumento diplomático cujo projeto foi redigido pelos serviços da Willhelmstrasse”[13]: foi, contudo, “uma coisa pequena [...], um simples comunicado relatando uma conversa”, disse, pelo menos uma vez com sinceridade, o espião alemão Friedrich Sieburg, ao embaixador de França em Varsóvia, Jules Laroche[14]; 2° - a “declaração de não-agressão e de amizade”, considerado um “tratado germano-polaco”, concluído a 26 de janeiro de 1934, por Neurath e por Lipski, com uma duração de 10 anos e renovável, obra de Friedrich Gaus, diretor do departamento jurídico da Auswärtiges Amt, que eliminou minuciosamente tudo o que pudesse parecer “uma renúncia da revisão de Versalhes”[15]. Dotada de um papel sem absolutamente nenhum valor, no qual convergem todos os arquivos diplomáticos e militares, a Polônia, com conhecimento de causa, considerou ter ganhado o estatuto de aliada do Reich e de grande potência, o que (indubitavelmente) lhe foi contestado pela sua “aliada” francesa.

Desde o verão de 1933 que Pilsudski criticou o fato de não ser uma prioridade das preocupações pessoais do Führer a “revisão das fronteiras de leste”[16], isto antes de postular a indiferença ao Drang nach Osten de um Hitler mais austríaco do que “prussiano”[17]. Esta grande mentira cobria a sua disposição em fazer cedências sobre o corredor de Dantzig[18] e a sua adesão à Anschluss, provada desde 1932, e quase oficial em novembro de 1933[19]: apoio de tal forma patente que - as chancelarias diziam-no desde os preparativos dos tratados que sancionavam a derrota dos impérios centrais – a “união” proibida teria “inevitavelmente como consequência a Anschluss dos alemães da Boêmia”[20], primeira etapa da liquidação da Checoslováquia. Enfim, a Polônia associou-se ao Reich na ação subversiva quotidiana, incluindo a dimensão terrorista, contra a Ucrânia soviética que os dois países tinham até então feito, cada um do seu lado. Esta colaboração não impediu que Berlim continuasse, juntamente com o Vaticano – anteriormente auxiliar de Viena nesta missão -, através do clero e dos grupos separatistas, o seu trabalho antipolaco na Galícia oriental, ou seja, na parte da Ucrânia que a França possuía em 1920 e que fora entregue aos chefes polacos do “cordão sanitário”[21].

Varsóvia teve, assim, de fazer de conta, entre vários outros episódios de uma novela feita de cegueiras voluntárias, que ignorava que Berlim tivesse armado e financiado os terroristas ucranianos que, sob a direção de Bandera e de Lebed, chefes da OUN, assassinaram, a 15 de junho de 1934, o seu ministro do interior Bronislaw Pieracki[22]: provocação e teste de grande envergadura, o evento produziu-se dois dias depois de o ministro ter acolhido com grande fausto Göbbels na capital, sendo que Barthou o havia precedido sem que “tivesse sido sequer saudado por um ministro polaco”[23]. Paris, igualmente informada do controle alemão do “assassinato de Marselha”, ao qual o de junho havia servido de repetição – com a cumplicidade respectiva de Laval e de Beck –, imitou Varsóvia, fingindo tudo ignorar[24].

A Polônia de Beck tinha recebido do Reich – segundo François-Poncet, símbolo da linha francesa de abdicação, batizada “Apaisement” – a ampla missão de “desmembrar a Pequena Entente, exercendo, sobretudo, pressão sobre a Iugoslávia, retirar estes Estados da influência francesa, afastá-los da França, afastar, desta forma, a França da Europa Central, e, assim, ganhar estes mesmos países para a ideia de que seria necessário pôr em causa o princípio da segurança coletiva, assim como a própria Sociedade das Nações”[25]. Deste amplo programa – realizado para além do que se possa imaginar – apenas terei aqui em consideração a sua parte russa e checoslovaca, extremamente útil, apesar do desprezo de Paris por Varsóvia, a uma linha francesa idêntica. A Polônia ajudava a Alemanha com a mesma intensidade com que os seus dirigentes odiavam a Rússia: “Pilsuddki nunca escondia a sua aversão [à Rússia][...], fosse ela branca ou vermelha, bolchevique ou czarista”[26]. Este ódio ao qual o bolchevismo havia dado trunfos magníficos não apenas não incomodava os dirigentes franceses, como lhes proporcionava prazer.

Os franceses tinham como delegados, em Varsóvia, Laroche e, desde o fim de maio de 1935, Léon Noël (antigo diretor da Segurança geral de Laval e, em breve, membro do Conselho de Administração do Comitê França-Alemanha), anticomunistas e antissoviéticos obcecados, que detestavam, para além disso, “os judeus de leste”, os quais eram continuamente associados aos bolcheviques[27]. Ouviam, por essa razão, com prazer, os seus homólogos polacos, jovens fascistas “da secção oriental do ministério dos Negócios Estrangeiros [...], fortemente anti-russa”, assim como “a imprensa polaca oficial e [...] a camarilha que rodeava Beck”, o qual “contava a todos aqueles que o queriam ouvir que o hitlerismo, constituindo a melhor barreira possível ao potencial revolucionário que constituía a Rússia, era também a melhor garantia possível para a existência da Polônia”. Léon Noël, em 1936, apreciava bastante o tema dos dois inimigos da Polônia – tema rico em variações e que ainda servirá mais tarde –, o alemão, salvador, e a Rússia, o verdadeiro e único inimigo: “A Alemanha [...] pode tirar-nos uma ou duas províncias; a Rússia, por seu lado, tem o poder de nos tomar tudo, o território, os corpos, as almas”[28].

II – Da “aliança polaca” de Munique aos preparativos do “segundo Munique”

Em outubro de 1938, o ícone do antibolchevismo parisiense, Lukasiewicz, anfitrião dos salões pró-nazis, rodeado pelos principais ministros, ficou maravilhado perante um agente do Quai d’Orsay que fez parte da operação de Munique, o qual havia poupado ao Reich a guerra que ele, por enquanto, não tinha o poder de levar a cabo e que valeu ao seu país uma (breve) gratificação. Atacou, igualmente, o seu alvo favorito, assim como Barthou, a quem não eram poupadas críticas. A Polónia nunca teria sofrido caso se tivesse unido “à Rússia, branca ou vermelha. [...] foi a queda da Rússia que nos permitiu conquistar a independência. [...] Tivemos de fazer a guerra aos bolcheviques, sendo que os dirigentes de Moscovo nunca abandonaram o sonho de instaurar na nossa própria casa os Sovietes. Você é capaz de imaginar a aparição (sic) na Rússia branca, na Ucrânia, na Galícia oriental, e mesmo em certas cidades industriais polacas, como Lodz – com os seus 20.000 judeus -, soldados vermelhos como nossos aliados? Se assim fosse, no dia seguinte ao da sua chegada, teríamos Sovietes em metade da Polónia, e em vez de combater os alemães, teríamos de combater os bolcheviques, ou, então, teríamos de apelar à ajuda alemã. Para a Polónia, os bolcheviques são muito mais perigosos do que os alemães, tal como Moscovo é uma cidade mais perigosa do que Berlim. Por outro lado, apreciamos mais o valor do Exército Vermelho do que os franceses. O Exército Vermelho é bom para fazer propaganda ou para ajudar uma revolta comunista, contudo, mal entre em choque com um exército europeu, quebrar-se-á como um vidro. Então, por que razão nos queriam embarcar na galera comunista? Se Barthou conhecesse melhor a história das relações polaco-russas ao longo dos séculos e, em particular, desde a partilha da Polónia, nunca nos teria proposto a assinatura de um pacto de assistência mútua com os Sovietes; da mesma forma, tampouco os seus sucessores nos teriam pedido para deixar passar as tropas bolcheviques através do nosso território. Nenhum governo polaco permitiria uma tal experiência que ameaçasse o nosso país de uma revolução comunista”[29].

Lukasiewicz triunfava no mesmo momento em que Berlim acabava de ceder a Varsóvia o território de Teschen, parte silesiana do grande território sudeta entregue, na Conferência de Munique, aos alemães pelos franco-ingleses, que, para o fazer, não consultaram a opinião dos Sovietes. À escala dos ódios polacos, Praga – considerada maldita por ter “roubado” Teschen (graças à insistência do siderurgista francês Eugène Schneider30) – ascendeu ao mesmo patamar que Moscovo. Em agosto de 1934, o núncio apostólico em Viena, Enrico Sibilia, disse conhecer “um acordo secreto que previa deixar as mãos livres à Alemanha, que reconhecia as reivindicações da Polónia sobre a Silésia checoslovaca e partes da Morávia setentrional” 31. Paris, no verão de 1935, estava informada sobre o “acordo militar [...] em preparação entre a Alemanha, a Polónia e a Hungria”, com vista ao “ataque e partilha” da Checoslováquia32. Desde a primavera de 1938 que todas as capitais – sobretudo Paris, Londres e Berlim – desprezavam crescentemente Varsóvia, qualificando-a de “hiena” ou de “abutre que espera o seu pedaço de carne”33.

A duplicidade tinha como paralelo a grandiosidade, uma vez que – isto sem referir o fato de que nem Paris nem Londres consultaram Varsóvia para assassinar Praga – certos “muniquenses” insistiam para que a “hiena” tirasse algum proveito da situação. O adjunto militar francês Félix Musse, tão antirusso e anticheco como Noël e a equipa de Beck, defende tal ideia, a 21 de setembro, pretextando ser fundamental ganhar a gratitude de um país importante: “depois de termos cedido tanto à Alemanha, estamos a recusar à Polónia uma satisfação modesta”; não nos deveríamos opor às “reivindicações polacas”, uma vez que “a Polónia [...] pode ser, amanhã, um dos elementos fundamentais para a reconstrução da nossa política europeia. É uma carta que não deveríamos deixar escapar”34. Um dos “quatro carniceiros de Munique”35, Daladier, esconde, a 26 de setembro, ao embaixador americano Bullitt a sua contribuição para o desmembramento iminente, açoitando Varsóvia: “ele esperava viver o suficiente para que a Polónia pagasse a sua atitude de rapina, propondo à Checoslováquia uma nova partilha da Polónia”36 (em breve, esta proposta não seria feita a Praga, mas sim a Berlim). Londres, cuja participação na crucificação da vítima fora igualmente importante, estigmatizará logo depois “uma potência cujo passado deveria acalmar a sua vontade de partilhas e que parecia procurar os campos de batalha sobretudo para que aí acabassem, de uma vez por todas, os feridos”[37].

O adiamento de pena polaco não esperou sequer a morte da Checoslováquia. Sem mencionar o facto de que a fugaz tomada de Teschen agravaria a sobreprodução mineira e metalúrgica e o déficit abissal do comércio exterior polaco[38], o Reich retomou – num momento em que os Sudetas acabavam de ser submetidos – a sua expansão ucraniana na Ruténia subcarpática proclamada “autónoma” assim como noutros territórios, ameaçando, desta forma, diretamente, as fronteiras orientais da pretendida aliada. Contudo, a aparente “acalmia polaco-soviética” que se seguiu, não imprimiu nenhuma “inversão da política polaca” 39. Foi, apenas, afirmou Léon Noël, uma astúcia tática de Beck e o “presságio de uma próxima tentativa de aproximação do lado de Berlim” relativamente a “questões” a negociar: “fronteira da Rússia subcarpática, questões relativas a Dantz, trânsito através do Corredor, judeus polacos do Reich, questões económicas e minoritárias”40.

Apesar de não haver mais nada para negociar após o dia 15 de março, a Polónia, na linha de mira direta do Reich, representou, ainda, durante alguns meses, para os dirigentes franceses, o mesmo interesse tático de antes. Moscoco, que havia sido votado ao vazio diplomático desde Munique, pediu, no dia seguinte à invasão da Boémia-Morávia, que houvesse de uma vez por todas uma concertação entre todos os alvos do Reich, a oeste como a este. Paris lançou então o mito público da magnífica aliada militar polaca, que dizia ser superior ao inepto exército vermelho, ao mesmo tempo que, em privado, afirmava que o barco naufragado seria varrido dentro de dias pela Wehrmacht. Representativo desta linha, Pierre Taittinger, campeão do “cordão sanitário” (“um dos promotores do grupo franco-polaco em 1920”), protegeu-se. A 20 de abril, aquando do regresso de uma estadia na Polónia (no mês de março), declarou num banquete parisiense do “Círculo nacional republicano”: “o apoio da Polónia, cujos aviões podem chegar a Berlim em menos de uma hora, poder-nos-á ser mais precioso do que o apoio da URSS, em caso de conflito com a Alemanha” 41. Contudo, a 6 de setembro, quando a Polónia já se encontrava submetida, e oferecendo a Daladier os seus serviços políticos, Taittinger diz-lhe que “o chefe do Estado-Maior do exército polaco” [Waclaw Stachiewicz] lhe tinha dito em março que “apesar da superioridade considerável dos meios da Alemanha, ele pensava poder resistir mais de um mês [...]. As autoridades francesas que consultei nessa altura, tanto no ministério dos Negócios Estrangeiros em Paris (Bressy), como as autoridades diplomáticas em Varsóvia, declararam, no entanto, que oito dias já seria bom”[42].

A Polônia voltou, então, a juntar-se, de março a agosto de 1939, à Inglaterra, como artimanha contra a “aliança de contrários”: a aliança militar inglesa, imaginária, tinha sido sempre apresentada à opinião pública como o recurso supremo, superior a qualquer outro, sobretudo soviético. Depois de terem garantido em março-abril de 1939 as fronteiras da Polônia – que não lhes havia pedido nada -, franceses e ingleses afirmaram, aquando dos preparativos da missão Drax-Doumens de 11-24 de agosto em Moscou (exclusivamente destinada a responsabilizar os russos do fiasco), que não consentiriam a Varsóvia nenhum socorro, nem militar nem econômico. Moscou, tratado como “valet de ferme” [trabalhador agrícola - NT], segundo a fórmula de Jdanov no Pravda de 29 de junho[43], privada da aliança defensiva com Paris e Londres, iria assegurar aos polacos ajuda económica e militar (com o veto contra a entrada do seu exército em terra polaca, que os ocidentais imputariam, apenas, aos polacos).

A cortina da aliança militar anglo-polaca foi destruída a 17 de agosto em presença dos anfitriões soviéticos graduados – Vorochilov, comissário do Povo para a Guerra, e Chapochnikov, chefe do Estado-Maior General - pelos obscuros delegados militares franceses (Doumenc) e ingleses (Drax). O general Heywood confessou ter “efetivos [...] insuficientes”, ao mesmo tempo que os triplicava: anunciou que os ingleses colocariam seis divisões em França “nos primeiros meses de guerra”, apesar de nunca ter prometido mais de dois, desde 1936. Depois disto, perante um Vorochilov surpreendido com essa confissão, «Drax, depois de ter tossido durante um longo momento, acabou por apresentar um argumento que já tinha submetido à delegação francesa durante a [longa] travessia, o qual lhe haviam suplicado nunca utilizar: “Não se esqueçam, afirma, que a Polónia, caso esteja sozinha, pode ser destruída em duas semanas...». “Tal queria dizer, comenta o honesto Doumenc, que a Rússia nunca teria tempo para ajudar a Polónia e que se encontraria sozinha em face de um exército vitorioso”.

Londres e Paris não só não o disseram perante as respetivas opiniões públicas, como também se protegeram por detrás do veto polaco, renovado, contra a ajuda do exército vermelho: com a Wermacht à sua porta, Varsóvia ainda entoava (a 19 de agosto) o grande refrão de Pilsudski: “Com os alemães arriscamo-nos a perder a nossa liberdade, mas com os russos arriscamo-nos a perder a nossa alma”. Estes novos “aliados” mostravam a sua indiferença perante o veto da Polónia, que não foi sequer contestado, da mesma forma que, um ano antes, o Estado-Maior francês o havia feito relativamente à opinião da Checoslováquia sobre o seu direito a existir. Quando este mesmo Estado-Maior tinha, na primavera de 1935, fingido ter em consideração uma aliança com a URSS e feito, consequentemente, planos de guerra, reteve três hipóteses: 1° - a Polónia, “aliada da França contra a Alemanha”; 2° - A Polónia “neutra”; 3° - a Polónia, “aliada da Alemanha”. Concluiu, então, que apenas a terceira hipótese possuía um valor militar, pois seria com uma Polónia inimiga – cujas opiniões não seriam tidas em consideração – que poderíamos melhor utilizar a totalidade do território[44].

Em agosto de 1939, o trio Daladier-Bonnet-Alexis Léger, eficazmente seguidos em Varsóvia pelo tandem Léon Noël-Félix Musse, foi mais além do que os ingleses na tentativa de sabotagem da “aliança da última oportunidade” (Michael Carlev). Quando o capitão Beaufre foi enviado numa (falsa) missão, a 19, para obter a adesão polaca a um pedido de ajuda do exército vermelho, lembra a este exército que “as avaliações britânicas relativas à resistência polaca afirmavam que esta não duraria mais de 15 dias”, provocando a indignação “do general Musse e dos seus adjuntos”: estes “ ripostaram com violência tal apreciação sobre a resistência polaca, dizendo que seria um absurdo subestimar um exército excelente, bem equipado e cujas concepções táticas tinham evoluído bastante”. A negritude das intrigas, sobre este, assim como sobre outros aspectos, do embaixador e do adjunto militar contra a aliança tripartida enervou o general Doumenc, envergonhado pelo papel que os seus chefes civis e militares o tinham feito jogar desde julho, primeiro em Paris, depois em Moscovo[45].

O dia 23 de agosto permitiu, como previsto, imputar aos Sovietes a derrota final, estigma este que ainda hoje resiste a toda e qualquer abertura de arquivos e à consequente produção científica46. Varsóvia suportou o peso de um crime tão francoinglês como polaco, e Daladier, um dos seus mentores, teatralizou perante Bullitt a sua fúria contra “os polacos, culpados de loucura criminal, uma vez que não responderam à proposta dos russos de uma assistência ativa à Polónia” 47. Esta falácia escondeu uma outra mentira da “opinião francesa, enganada pelas campanhas ideológicas” sem fim da era muniquense48. Os dirigentes franceses, no preciso momento em que reanimavam a múmia da “aliada” polaca, apoiaram a tentativa de um “segundo Munique”: em abril-maio de 1939, estavam entusiasmadíssimos com a “conferência da paz [...] inspirada por Mussolini” e lançada por Pio XII, via Paris, pelo núncio Valerio Valeri, com vista a arrancar a Varsóvia o abandono de Dantzig e do corredor. Esta questão, marcada pelo célebre artigo de Marcel Déat, Mourir pour Dantzig? em L’OEuvre, de 4 de maio, acabou por não resultar, consequência das reticências britânicas em repetir a operação de setembro de 1938[49].

Os arautos franceses, livres do Reich a Leste, não renunciaram, no entanto, a obter de Varsóvia (tal como não o renunciaram relativamente a Praga) o consentimento para o seu desmembramento. Lukasiewicz, rei da germanofilia mundana, tinha sido destronado abruptamente pela nova etapa do Drang nach Osten: durante o verão, foi abandonado por todos, nomeadamente pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Georges Bonnet, que o privou das suas visitas diárias50. Os mesmos “pacifistas” recomeçaram depois do dia 23 de agosto, com o acréscimo de audácia que autorizava um para-vento inoxidável antissoviético e anticommunista. Boné tomou, com a sua imponente corte “pacifista”, a iniciativa “de negociações” com o Eixo sobre a Polónia, de quem o Reich já não tinha necessidade: incapaz de atacar com sucesso a Checoslováquia em 1938, o exército alemão teve condições, a 1 de setembro de 1939, de conquistar a Polónia. O método das negociações então afastado por Berlim, será, em contrapartida, praticado para preparar uma derrota tão rápida e espetacular como a da Polônia, “grande porto paralisado […] em 48 horas”51: a da França. Os líderes polacos tinham ativamente participado na destruição da Polónia; os seus antigos tutores, por mais que desprezassem a “camarilha” de Beck, fariam melhor ainda ao serviço da Derrota francesa de maio (oficialmente em junho) de 1940.

Notas:

1 Michael Carley, 1939, the alliance that never was and the coming of World War 2, Chicago, Ivan R. Dee, 1999, p. 4, sublinhado no texto original.

2 Citação, Jean-Baptiste Duroselle, Politique étrangère de la France, la décadence 1932-1939, Paris, Le Seuil, 1983, p. 142.

3. Informação citada, 12 de abril, e « note sur l’évolution du problème tchécoslovaque », 10 de outubro de 1938, 7 N 3097, Service historique de l'armée de terre (SHAT) [Serviço histórico do Exército de Terra].

4 Informação EMA 2e Bureau (DB), 6 de fevereiro de 1936, 7 N 3186, SHAT.

5 EMA DB Depas 177, H/19.1/8, 10 de janeiro de 1934, 7 N 3024, SHAT.

6 EMA DB, Depas 866, 17 de junho de 1935, 7 N 3024, SHAT.

7 Note Europe, 8 de maio de 1935, URSS 1918-1940, 982, MAE et EMA Depas 177, H/19.1/8,

10 de janeiro de 1934, 7 N 3024, SHAT.

8 EMA Depas 282, 4 de março de 1935, 7 N 3024, SHAT.

9 Arquivos alemães e franceses, Lacroix-Riz, Choix, p. 196-199, 225-227.

10 Note Europe centrale de la sous-direction SDN, 30 de novembro de 1937, SDN 1918-1940, 2171, MAE.

11 As «novas dívidas do jogo» do filho Moscicki elevavam-se a «200-250 000 zlotys», informação de 12 de Léon Noël, Varsóvia, 4 de janeiro de 1936, SDN 1918-1940, 2168, MAE; EMA DB, P/a 23863, 18 de fevereiro de 1936, 7 N 3024, SHAT.

12 Comunicação 32 de Laroche, Varsóvia, 30 de maio de 1933, e telegrama 441-442 de Léon Noël, Varsóvia, 8 de junho de 1936, SDN 1918-1940, 2163 e 2169, MAE.

13 Telegrama de François-Poncet 2063-2065, Berlim, 18 de novembro de 1933, SDN 1918- 1940, 2164, MAE.

14 Telegrama de Laroche 728-36, Varsóvia, 18 de novembro de 1933, SDN 1918-1940, 2164, MAE. Sobre o « jornalista » Sieburg, index Choix e Munich.

15 "Déclaration", 26 de janeiro, memorando Gaus, Berlim, 16 e 22 de janeiro de 1934, Documents on German Foreign Policy (DGFP), C, II, p. 364-367, 394-395 e 421-422.

16 Comunicação 252 de Laroche, Varsóvia, 28 de junho de 1933, SDN 1918-1940, 2163, MAE.

17 "Ele não é prusso. Não tem o rigor dos prussos. Vem do povo. 'Ele quer a aliança (sic) [(sic) no texto] com a Áustria", declara a 24 de novembro de 1933 ao general de Arbonneau, o adjunto militar francês, telegrama 750-755 Laroche, Varsóvia, mesma data, SDN 1918-1940, 2164, MAE.

18 SDN 1918-1940, a partir do vol. 2163, Polónia, dossier geral, fevereiro-outubro de 1933, MAE.

19 Telegrama 927 François-Poncet, Berlim, 16 de maio de 1933, SDN 1918-1940, 2163, e a partir dos telegramas 2053 do mesmo, 16 de novembro, e 746 de Laroche, Varsóvia, 23 de novembro de 1933, SDN 1918-1940, 2164, MAE.

20 Comunicação Beaumarchais 397, Viena, 25 de novembro de 1926, Áustria 1918-1940, 77, MAE.

21 Lacroix-Riz, Vatican, passim e index: Szepticky.

22 Fontes inesgotáveis a partir do telegrama Laroche 556-7, Varsóvia, 16 de junho de 1934, SDN, 2166, MAE (todos os volumes Polónia até 2169, fevereiro-julho de 1936), e sobretudo a carta 575 de Léon Noël a Laval, Varsóvia, 13 de novembro de 1935, Jugoslávia 1918-1940, 138, assassinato de Alexandre I, 1934-30 de dezembro de 1935, 19 de dezembro de 1936, MAE; EMA DB, informação Depas 882 "de um informador competente e em geral bem informado", H/25.7/9, 23 de julho de 1934, 7 N 3024, relatório dos adjuntos militares, 1928-1929, e 1933-1939, SHAT. Marian Wojciechowski, Die Polnisch-Deutschen Beziehungen 1933-1938, Leiden, Brill-Verlag, 1971, p. 241-242.

23 Berliner Börsenzeitung do 14 de junho, « Bulletin périodique de la presse allemande » n° 438 do Quai d'Orsay (4 de junho-1 de julho), 6-7 de julho de 1934, F 7 13433, Alemanha, 1934, Arquivos Nacionais (AN).

24 Laval, Choix, p. 207-208; Beck, EMA DB, Depas 116, 19 de dezembro de 1934, 7 N 3024, SHAT.

25 Comunicação 937 François-Poncet, Berlim, 4 de junho de 1936, SDN 1918-1940, 2169, MAE.

26 Note Europe centrale de la sous-direction SDN, 30 de novembro de 1937, SDN 1918-1940, 2171, MAE.

27 Relatório sobre o CFA, 2 de maio de 1945, PJ 42, Brinon, Arquivos da Prefeitura de Polícia (APP). 628 Comunicação 179 de Léon Noël, Varsóvia, 8 de abril de 1936, SDN 1918-1940, 2169, MAE.

29 Relatório Nac, Paris, 11 de outubro de 1938, SDN 1918-1940, vol. 2174, MAE.

30 Desejando a unidade da bacia carvoeira e metalúrgica, o futuro rei industrial e financeiro da Checoslováquia preferia confiá-la a Praga, a qual dava mais segurança, Segal Paul H., The French State and French private investment in Czechoslovakia, 1918-1938 : a study of economic diplomacy, New York, Garland, 1987, p. 55-67.

31 Relatório Z1.110/Pol. D’Hoffinger, 27 de agosto de 1934, sublinhado no texto, tradução, 7 N 3024, SHAT. Sibilia, Vatican, index.

32 EMA DB, P/a, 22124, 22141, 8, 9 de julho, e Depas 1095, 29 de setembro de 1935, 7 N 3024, SHAT.

33 DGFP, D, II, p. 770-771, 849-850, 861-863, 915-918, etc.

34 Relatório Musse 98/S, 21 de setembro de 1938, 7 N 3107, SHAT.

35 Hénaff, 25e Congresso da Confederação CGT, novembro de 1938, p. 274.

36. Tel. 1124 Bullitt, Paris, 26 de setembro de 1938, Foreign Relations of the United States (FRUS) 1938, I, p. 668-669.

37 Comunicação 891 do embaixador Corbin, Londres, 10 de outubro de 1938, SDN 1918-1940, 2174, MAE.

38 Comunicação 131 de Triat, cônsul de France em Poznan, 21 de outubro de 1938, SDN 1918-1940, 2174, MAE.

39 Comunicação 942 de Adrien Thierry, Bucareste, 7 de dezembro de 1938, SDN 1918-1940, 2174, MAE.

40 Telegrama 1282 de Léon Noël, Varsóvia, 8 de dezembro de 1938, SDN 1918-1940, 2174, MAE.

41 RG, 17 de março, BA 1951, PRNS, 20 de abril de 1939, GA, T6, Arquivos da Prefeitura de Polícia (APP).

42 Carta confidencial e pessoal a Daladier, Saint André de Mareuil sur Lay (Vendée), 6 de setembro de 1939, 5 N 581, SHAT.

43 Comunicação 2309 de Palasse, Moscovo, 5 de julho de 1939, e artigo traduzido, 7 N 3123, SHAT.

44 "Nota sobre o apoio que poderá eventualmente ser pedido à URSS" anexo à carta 485 2/RMA de Maurin a Laval, 8 de abril de 1935, URSS 1930-1940, 928, MAE.

45 Relatório Doumenc (incluindo as citações), 7 N 3185, SHAT. detalhes, Choix, p. 495-503, e Munich, p. 159-168 (arquivos franceses e britânicos).

46 Geoffrey Roberts, The unholy alliance : Stalin’s pact with Hitler, Londres, Tauris, 1989; The Soviet Union and the origins of the Second World War. Russo-German relations and the road to war, 1933-1941, New York, Saint Martin’s Press, 1995; Michael Carley, 1939; Lacroix-Riz, Choix e Munich.

47 Entrevista com Daladier e Léger, tel. 1543 Bullitt, Paris, 22 de agosto, FRUS, 1939, I, p. 301-304.

48 Nota Estado-maior, anónima, 15 de setembro de 1938, N 579, SHAT.

49 Tel. 897 Bullitt, Paris, 28 de abril, FRUS, 1939, I, p. 179-182, após 4 de maio de 1939, DBFP, 3, 5, p. 411 sq., Vatican, p. 382-384 (e Choix e Munich).

50 Relatório Guariglia, Paris, 12 de julho de 1939, Documenti Diplomatici italiani, 8e série, XII, p. 413-414.

51 Stachiewicz a Musse, 2 ou 3 de setembro de 1939, citado no processo Pétain, 31 de julho de 1945, F1 a 3310, AN.

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