23 de julho de 2014

Estados Unidos fornecem a Israel as armas utilizadas em Gaza

Ken Klippenstein e Paul Gottinger

TruthOut

Tradução / Os EUA exportaram para Israel uma quantidade substancial do mesmo tipo de armas que Israel está a usar para matar palestinos de Gaza, revela uma nova análise de dados de exportações do Gabinete de Estatística dos EUA. Por exemplo, em 2013, os EUA enviaram para Israel pelo menos 196 milhões de dólares em componentes para aviões e helicópteros militares, uma categoria que inclui caças F-16 e helicópteros Apache que estão a ser utilizados para atacar casas, escolas, fábricas e quintas em Gaza. Entre janeiro e maio de 2014, os EUA já tinham exportado 92 milhões de dólares em peças de aviões e helicópteros militares.

Os aviões e helicópteros militares enviados pelos EUA são o principal setor, em dólares, de todas as exportações de armas para Israel, segundo os dados publicamente disponíveis através do Gabinete de Estatística dos EUA. (ver gráficos)



Os EUA também enviaram para Israel peças para veículos de combate blindados e cartuchos para munições. Por exemplo, entre janeiro e maio de 2014, os EUA exportaram 39 milhões de dólares em peças de veículos blindados de combate, uma categoria que inclui obuses M109 Doher, que Israel utilizou contra alvos em Gaza. Quanto a cartuchos para munições, os EUA enviaram por via marítima mais de 9 milhões de dólares destes materiais durante o mesmo período.

Ao mesmo tempo que o governo dos EUA proclama querer ser o mediador de um cessar-fogo, continuam a facilitar exportações de armas para Israel. A 14 de julho, no mesmo dia em que o presidente Obama afirmou que "Vamos continuar a fazer todo o possível para facilitar o regresso do cessar-fogo de 2012" o Departamento de Estado aprovou uma possível venda a Israel de 544 milhões de dólares de mísseis Sidewinder AIM-9x e os respetivos serviços de apoio. Estes mísseis podem ser utilizados por caças F-16 para atacar alvos em terra.

A ajuda militar oficial dos EUA a Israel é de cerca de 3.000 milhões de dólares por ano, proveniente de um pacote de ajuda militar de uma década, assinado inicialmente pelo presidente George W. Bush e mantido durante o mandato do presidente Obama. Este número não inclui, contudo, os 504 milhões de dólares de
financiamento específico à defesa contra mísseis.

Truthout pediu a Andrew Feinstein, ex-membro do Parlamento na África do Sul e atual membro do Open Society Institute, que comentasse a exatidão da estimativa da ajuda oficial. Ele espondeu:

Na realidade, os números sobre a ajuda militar vindos a público tendem a ser significativamente minimizados. Os números da ajuda militar oficial tendem a mostrar uma ajuda direta óbvia para compras militares que, normalmente, têm de ser feitas ao país doador. Tendem a excluir outras formas diferentes de ajuda ligadas à defesa, como o treinamento permanente; fundos para reparações e aprovisionamentos; apoio à investigação e desenvolvimento; armamento para ações especiais; pagamentos para operações clandestinas (como se utilizaram, por exemplo, para armar os mujahedines no Afeganistão durante muitos anos); financiamento de segurança interna; e uma variedade de financiamentos não especificados de uma série de departamentos. 
Israel é o único país a quem se permite utilizar a ajuda militar dos EUA para construir a sua própria indústria militar, um privilégio que inclui o desenvolvimento de sistemas de armas próprios baseados em tecnologias americanas e o uso de subsídios dos EUA para a compra de materiais, assim como investigação e desenvolvimento por parte de empresas israelenses. Fundos americanos adicionais são gastos em investigação e produção militar conjunta. Israel também goza do estatuto de "via rápida" para venda de armas, o que significa que pode fechar contratos diretamente com fabricantes nos EUA sem ter de passar pelo Pentágono.
Os bilhões de dólares de ajuda militar dos EUA a Israel levaram à compra de uma variedade assombrosa de armas e material militar para as FDI [exército de Israel], incluindo 226 caças F-16, mais de 700 tanques M-60, 6 000 transportes blindados de pessoal, numerosos aviões de transporte, helicópteros artilhados e aviões de serviço e treinamento, para não falar de inumeráveis bombas e mísseis táticos de todos os tipos.

Israel foi criticado por bombardear instalações médicas e edifícios de meios de comunicação e também por não evitar causar vítimas entre os civis. Truthout perguntou a Richard Falk, antigo relator especial da ONU para os direitos humanos palestinos o que pensava ser uma resposta apropriada da comunidade
internacional. Ele respondeu:

[Israel] não mostra neste momento nenhum sinal de respeitar os desejos da comunidade internacional de um cessar-fogo imediato. Por isso, penso que a única maneira de o mundo mostrar absoluta seriedade a respeito da proteção de povos vulneráveis – neste caso os palestinos – seria impor um embargo de armas.

Falk também assinalou que as exportações americanas de armas para Israel violam a Lei de Controle de Armas de 1976. "Não existe nenhum argumento legal, político ou moral que sustente a afirmação de que Israel atua em legítima defesa", disse Falk. "Gaza, do ponto de vista do direito internacional, não é um
Estado estrangeiro, mas um território ocupado. Não está claro que se possa exercer autodefesa em relação a um território de cuja administração se é responsável, de acordo com o direito humanitário internacional".

Os EUA também prestam uma substancial ajuda em armamento ao novo regime militar do Egito, dirigido por Abdel Fattah el-Sisi, que agravou a crise em Gaza. Sisi, que acedeu ao poder depois de um golpe militar em julho de 2013, rapidamente supervisionou a destruição de aproximadamente 80% dos túneis que uniam Gaza ao Egito. Esses túneis são uma tábua de salvação para os habitantes de Gaza, que dependem deles para se abastecerem de medicamentos, combustíveis, alimentos, e outras necessidades; além disso, estima-se que cerca de 40% dos financiamentos do governo de Gaza circulam através desses túneis. Considera-se que a destruição desses túneis contribui para a séria escassez de abastecimentos médicos e medicamentos essenciais, desde que começou o bombardeamento de Gaza por parte de Israel, no dia 8 de julho de 2014. Durante a ofensiva israelense de 2012 os túneis serviram como um importante caminho para levar abastecimentos médicos a Gaza.

"O governo de Sisi está determinado em destruir a Irmandade Muçulmana e considera que o Hamas é um ramo da Irmandade", disse Falk. "Por isso, [o governo de Sisi] está de certo modo do mesmo lado que Israel neste conflito em particular".

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