14 de julho de 2014

Gaza, com o gás na mira

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Créditos: Baz Ratner / Reuters.

Para compreender melhor uma das razões do ataque israelense contra Gaza é necessário ir em profundidade, exatamente a 600 metros abaixo do nível do mar, a 30 Km da costa litoral. Lá, nas águas territoriais palestinas encontra-se um grande depósito de gás natural, Gaza Marinha, estimado em 30 bilhões de metros cúbicos, num valor de bilhões de dólares. Outros depósitos de gás e petróleo, de acordo com um mapa estabelecido pela U.S. Geological Survey (agência governamental dos Estados Unidos), encontram-se em terra firme, em Gaza e na Cisjordânia.

Em 1999, com um acordo assinado por Yasser Arafat, a Autoridade Palestina confiou a exploração da Gaza Marinha a um consórcio formado pelo “British Group” e “Consolidated Contractors” (companhia particular palestina), com respectivamente 60% e 30% das ações, nas quais o Fundo de Investimento da Autoridade Palestiniana tem um porcentagem de 10%. Dois poços de petróleo foram abertos, Gaza Marinha-1 e Gaza Marinha-2. Mas eles nunca entraram em função, porque foram bloqueados por Israel, que queria todos os dividendos desse gás confiscados. Por intermédio do ex-Primeiro Ministro Tony Blair, enviado do “Quarteto para o Oriente Médio”, foi preparado um acordo com Israel que retiraria dos palestinos ¾ dos futuros rendimentos do gás, colocando a parte que se lhes retornaria, numa conta internacional controlada por Washington e Londres.

Entretanto, imediatamente depois de ter ganho as eleições de 2006, Hamas recusou o acordo qualificando-o de roubo, e exigiu uma renegociação do mesmo. Em 2007, o atual ministro israelense da Defesa, Moshe Ya’alon disse que “o gás não poderia ser extraido sem uma operação militar que erradicasse o controle de Hamas de Gaza”. Em 2008 Israel lançou a operação “Chumbo Fundido” contra Gaza. Em setembro 2012 a Autoridade Palestina anunciou que, apesar da oposição de Hamas, ela tinha retornado as negociações sobre o gás com Israel. Dois meses depois, a admissão da Palestina como um “Estado observador não membro” na ONU, veio a reforçar a posição da Autoridade Palestina nas negociações. Gaza Marinha continua entretanto bloqueada, impedindo os palestinos de explorar a riqueza natural deles. Mas nesse ponto deu-se uma reviravolta e a Autoridade Palestiniana entrou num outro caminho.

Em 23 de janeiro de 2014, de quando do encontro do presidente palestino com o presidente russo, Vladimir Putin, discutiu-se a possibilidade de confiar à companhia russa Gazprom a exploração dos depósitos de gás, nas águas de Gaza. Foi a agência Itar-Tass que o anunciou, ressaltando que a Rússia e a Palestina tinham um entendimento para reforçar a cooperação no setor energético. Nesse cenário, além da exploração dos depósitos de gás, tinha-se em mente as jazidas de petróleo nos arredores da cidade palestina de Ramalá, na Cisjordânia.

Nessa mesma região a sociedade russa Technopromexport está pronta a participar na construção de uma central termoelétrica com uma potência de 200 MW. A formação do novo governo palestino de unidade nacional, em 2 de junho de 2014, reforçava a possibilidade de que o acordo entre a Palestina e a Rússia chegasse a um bom porto, e atracasse bem.

Dez dias mais tarde, em 12 de junho de 2014, teve-se o desaparecimento de três jovens israelenses, que foram retornados mortos em 30 de junho de 2014: esse veio a ser o pontual casus belli – motivo de guerra – que levou a operação “Barreira Protetora” contra Gaza. Essa é uma operação que entra na estratégia de Tel Aviv, que tem em vista também o se apropriar das reservas energéticas da inteira Bacia do Levante, na qual as reservas palestinas, libanesas e sírias estão incluídas. Depois tem-se a estratégia de Washington, que em apoiando Israel, tem o controle de todo o Oriente Médio, assim como o impedir a Rússia de restabelecer uma influência na região, nos seus próprios planos. Essa é uma mistura explosiva, na qual as vítimas são, ainda mais uma vez, os palestinos.

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