29 de julho de 2014

Guerra de engano, Israel, 2014

Como uma guerra preventiva pode se justificar? E como se pode enganar a si mesmo e sua retidão na presença de imagens de horror de Gaza?

Gideon Levy


Tradução / Começa como uma guerra de escolha: uma política israelense diferente nos últimos meses a teria evitado. Evoluiu para uma guerra sem sentido. Já é bastante óbvio que isso não resultará em qualquer conquista de longo prazo. Pode ainda deteriorar-se num desastre, e no final, vir a ter sido uma guerra de engano – Israel mentiu para si mesmo até arruinar-se.

O primeiro engano foi o de que não havia alternativa. É verdade, quando vários foguetes caem em Israel, tornou-se o caso. Mas e os passos que levaram a eles? Foram passos para os quais houve outras opções. Não é difícil imaginar o que teria acontecido se Israel não tivesse suspendido as conversações de paz; se não tivesse lançado uma guerra total contra o Hamas na Cisjordânia, no rastro do assassinato de três adolescentes israelenses; não teriam deixado de realizar a transferência de recursos destinados ao pagamento de salários na Faixa de Gaza; não teriam se oposto ao governo de unidade palestina, e teriam atenuado o bloqueio da Faixa de Gaza.

Os foguetes Qassam foram uma resposta às escolhas de Israel. Depois que os objetivos se amontoaram, como sempre ocorre em guerras – de parar os foguetes, para encontrar e destruir túneis, e para a desmilitarização de Gaza. Eles podem bem continuar a crescerem, para sabe-se lá o que mais. “O silêncio será recebido com calma”. Lembram disso? Na sexta-feira, Israel rejeitou a proposta de cessar-fogo do Secretário de Estado John Kerry.

O segundo engano é que a ocupação da Faixa de Gaza acabou. Imagine um enclave sitiado, cujos habitantes estão aprisionados, com a maioria dos seus negócios e atividades controlados por um outro estado – da manutenção do registro populacional ao comando de sua economia, inclusive proibindo exportações e restringindo a pesca, e que voa no seu céu e ocasionalmente invade o seu território. Isso não é ocupação?

O terceiro engano é a afirmação de que as Forças de Defesa de Israel “fazem tudo o que está em seu alcance” para evitar a morte de civis. Já passamos dos primeiros mil civis mortos, um número assustador deles de crianças e a maioria deles de civis; com uma vizinhança que foi destruída e 150 mil pessoas desalojadas sem lugar a salvo para onde escapar. Tudo isso torna essa afirmação nada mais que uma piada cruel.

A afirmação de que o mundo apoia a guerra e reconhece sua justeza também é um engodo israelense. Embora seja verdade que os políticos ocidentais reiterem que Israel tem o direito de se defender, os corpos que vão se empilhando e os refugiados desesperados estão decepcionando o mundo e gerando ódio contra Israel. Finalmente, até os estadistas que apoiam Israel lhe deram as costas.

O próximo engodo é que a guerra mostrou ser “o Povo de Israel” uma “nação maravilhosa”. Essa campanha mentirosa, intoxicante e autocongratulatória e melosa já dura há tempo. A nação se moveu para dar suporte às trevas, e assim segue. Mas além das vans cheias de doces e de caminhões com pacotes de roupas íntimas, e funerais para soldados cujas famílias vivem no exterior, que milhares de israelenses acompanharam e as demonstrações de preocupação com os feridos, essa guerra também expôs outros comportamentos, em toda a sua feiura. Os “soldados do comitê de bem estar” que são o Povo de Israel, expôs indiferença em relação ao sofrimento do outro lado. Nem um gesto de compaixão, nem um pingo de humanidade, nenhum choque, nenhuma empatia pela sua dor. As imagens horríveis de Gaza – elas não são nada menos que horríveis – são recebidas aqui com algo entre um bocejo e uma alegria. Um povo que se comporta assim não merece os elogios que acumula sobre si. Quando as pessoas estão morrendo em Gaza e, em Tel Aviv, as pessoas estão desinteressadas, não há razão para agitação.

Nem há causa para agitação no incidente da campanha contra meia dúzia de pessoas que se opõem à guerra. Do gabinete de ministros e membros do parlamento para as ruas e os caras da internet – um vento doente está soprando. Somente cidadãos obedientes. “Unidade israelense”? “A nação é uma grande família?”. Isso é uma piada. Assim como é piada a cobertura midiática israelense em tempos de guerra, uma rede de propaganda cujos membros emitem notícias para si mesmos, a título de autoelogio ou exortação, para incitar e instigar – e para fechar os próprios olhos.

E a maior piada de todas, a mãe de todos os enganos: a crença na retidão de seus métodos. O slogan da “guerra justa” é repetido com tanta frequência, ad nauseam, que se começa a suspeitar que até aqueles que o entoam em mais alta voz começam a duvidar, não fosse assim, não estariam gritando tão alto e não combateriam tão facilmente os poucos que tentam expressar uma opinião diferente. Afinal de contas, como uma guerra preventiva pode ser justificada? E como se pode enrolar a si mesmo nessa retidão, na presença do show de horrores das imagens de Gaza?

Talvez o chão esteja queimando sob os pés dos membros desse coro de justificadores da guerra, também. Talvez eles também tenham entendido que, quando as batalhas acabam, o quadro real se torna claro. É assim que sempre ocorre em guerras enganadoras, e é assim que a guerra de 2014 também vai se mostrar.

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