23 de julho de 2014

Hamas, a história do primeiro exército palestino

Israel did not rightly assess Hamas’ military abilities and must henceforth stop considering it as terror cells, like the other Gaza Strip groups, but as an army that it should aspire to bring down.

Shlomi Eldar

Al-Monitor

Crédito: Mohammed Salem / Reuters.

Tradução / Recentemente, desenvolveram-se duas narrativas em Israel, com respeito ao envolvimento com o Hamas. De acordo com a primeira, o Hamas é uma organização terrorista e, portanto, táticas antiterroristas clássicas devem ser usadas para combatê-lo. A segunda narrativa, formada após o Hamas ganhar as eleições em Gaza, em 2007, sustenta que Israel deve criar um equilíbrio entre terror militar e econômico, contra a organização, e erguer limites claros. Somente se esses limites forem ultrapassados pelo Hamas, Israel deve entrar em ação para destruir a organização.

Em geral, os governos israelenses adotaram políticas relativamente limitadas de contenção do Hamas. A razão para isso era a compreensão de que o regime do Hamas deveria ser derrotado militarmente ou colapsar economicamente, e que regimes alternativos na Faixa de Gaza seriam ainda muito piores e mais perigosos para a segurança de Israel. A Operação Escudo Protetor já provou que ambas as narrativas não são mais aplicáveis.

O movimento Hamas foi fundado seis dias após a erupção da Primeira Intifada, no final de 1987. Os primeiros atos terroristas do seu braço militar foram perpetrados pela unidade “101”, estabelecida no campo de refugiados de Jabaliya, na Faixa de Gaza. Seus membros sequestraram e mataram os soldados das Forças de Defesa de Israel Avi Sasportas (em fevereiro de 1989) e Ilan Saadon (em maio de 1989), e esconderam seus corpos.

Os ataques terroristas do Hamas se tornaram mais mortais depois da assinatura do Acordo de Oslo entre Israel e a OLP, em 1993. O Hamas tentou anular o acordo com o uso de ataques suicidas. O auge do terrorismo suicida se deu na Segunda Intifada, em 2000, quando o estado de Israel foi inundado por uma onda de ataques voltados diretamente para civis. O braço militar do Hamas adotou, então, o modo de ataque suicida do Hezbollah. Pequenas células compartimentadas de terror agiam independentemente para planejar ataques e enviar terroristas para se explodirem em shopping centers e ônibus, nas grandes cidades de Israel.

Depois da retirada da ocupação israelense na Faixa de Gaza (agosto de 2005), o movimento passou por uma mudança estratégica. De pequenas células de terror, desenvolveu um verdadeiro exército. O Hamas se tornou uma organização com uniformes e com propósitos militares cotidiano; seus soldados passaram a ser treinados de acordo com a doutrina de um exército recrutado. Tiveram treinamento com o uso de armas e desenvolveram habilidades de excelência militar, junto à doutrinação religiosa para fortalecer a sua fé e adesão à causa jihadista. Então, de fato, o Hamas criou o primeiro exército palestino.

Acredita-se que o exército do Hamas arregimentou entre 15 e 20 mil homens, divididos em três brigadas geográficas, no norte, no centro e no sul da Faixa de Gaza. Ao mesmo tempo, também estabeleceu unidades de elite para operações especiais, localizadas. Durante a atual operação Escudo Protetor, essas unidades estão encarregadas com a implementação da doutrina de combate que adquiriram ao longo dos anos: infiltrar-se nos territórios israelenses através de túneis subterrâneos e atacar bases militares ou centros onde haja civis reunidos. Cada unidade militar sua tem entre 10 e 15 atiradores que sabem que suas chances de sobrevivência nesse tipo de operação é muito pequena. De fato, trata-se de missões suicidas. Centenas de soldados do Hamas foram treinados de acordo com essa doutrina de combate, nos anos recentes, sobretudo após a operação Pilar de Defesa, e como parte das preparações subsequentes das organizações para o próximo round.

A unidade do Hamas que se infiltrou no território israelense em 21 de julho, próximo ao Kubbutz Nir Am, conseguiu atingir com um míssil antitanque um jipe do IDF [Forças de Defesa de Israel, na sigla em inglês] e matou o tenente-coronel Dolev Keidar (comandante do regimento da escola de treinamento de oficiais) e três soldados que viajavam com ele. O ataque foi documentado por câmeras situadas ao longo da fronteira entre Gaza e Israel; 10 terroristas armados vestindo uniformes similares aos da IDF, inclusive capacetes e uniforme camuflado, foram vistos antes de atacarem o jipe das IDF que se aproximava deles.

Essa emboscada filmada mostrou as habilidades e a expertise dos atiradores do Hamas, mais do que qualquer vídeo de propaganda disseminado pelo grupo seria capaz. A sequência  demonstra claramente que as IDF não enfrentam células de terror, desta feita, mas um exército de verdade.

As duas operações anteriores na Faixa de Gaza, a Operação Chumbo Fundido e a Pilar de Defesa, pegaram o Hamas de surpresa. Desta vez, a organização planejou meticulosamente o ataque, por anos. Em contraste, o IDF não levou a sério o escopo da ameaça dos túneis subterrâneos.

Fazemos a pergunta: agora que as verdadeiras dimensões do Hamas e a sua magnitude, estão claras, Israel ainda acredita que aguentar o regime do Hamas é o menor dos males? É preferível o Hamas a alguma outra entidade desconhecida que tomaria o seu lugar?

Quando Israel fala de “desconhecido” – querendo se referir à entidade que assumiria o controle da Faixa de Gaza se o Hamas for destruído, e às novas ameaças que isso implicaria – fala principalmente do ISIS. Essa organização islâmica já conseguiu conquistar cidades no Iraque, e aparentemente está se expandindo para a Faixa de Gaza e para a Península do Sinai. Ela proclama que seu objetivo é estabelecer um estado islâmico do Iraque a Síria.

Mas em que o exército do Hamas difere das organizações fanáticas que operam no Iraque? Ambas se alimentam da crença religiosa no martírio para a santificar o nome de Alá, ambas recrutam exércitos bem treinados e que mostram excelentes habilidades militares. Portanto, Israel não deveria mais ver o Hamas como os dirigentes padrão de fato, da Faixa de Gaza. Como outras organizações salafistas em Gaza, além da Jihad Islãmica e dos Comitês Populares de Resistência, ameaçariam Israel mais do que o Hamas?

O Hamas opera majoritariamente de acordo com os comandos dos membros de seu braço armado. Todos os recursos de Gaza estão mobilizados com fortes armamentos e incrível proteção subterrânea. As células do ISIS, das organizações salafistas e da Jihad Islãmica não têm muito acesso a recursos financeiros do porte que o Hamas tem. O Hamas ser tomado como quem de fato comanda a Faixa de Gaza, não significa que tenha de seguir sendo assim. Israel não entendeu adequadamente as habilidades militares do Hamas ou, evidentemente, suas intenções. Até a explosão da atual operação, muitos em Israel pensavam que o Hamas estava em crise e portanto não estaria interessado em entrar em conflito com Israel, agora.

Qualquer cessar-fogo que venha a ser declarado entre Israel e o Hamas será visto como uma vitória da organização palestina. O Hamas verá como uma trégua para a reorganização, reconstrução e aumento de seu recrutamento para o exército para o próximo round de hostilidades. Até a destruição de túneis, por mais efetiva que possa ser, não destruirá o braço armado do Hamas. O Hamas comanda em escala, os líderes do braço armado e os comandantes das brigadas ainda estão protegidos em seus bunkers abaixo de Gaza, assim como os líderes de seu braço político.

Quem quer que pense, ou acredite, verdadeiramente, que o Hamas concordará em desmilitarizar Gaza, está se autoenganando. Para desmantelar os foguetes do Hamas, é preciso, antes, desmantelar o Hamas.

Mesmo que Israel ainda considere a possibilidade de pôr a termo a existência e a presença do exército do Hamas na Faixa de Gaza, uma coisa deve ser lembrada: nenhuma outra organização pode ser mais perigosa para a segurança do estado de Israel do que o Hamas.

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