11 de julho de 2014

Israel desperta a Palestina que tenta esmagar

A guerra brutal desencadeada em Gaza tem um objetivo - e não tem nada a ver com os três colonos mortos. Netanyahu sabe que ele tem que esmagar o espírito coletivo palestino que surgiu apesar de décadas de esforços de assimilação por Israel.

Ramzy Baroud

The Palestine Chronicle

Quando os corpos de três colonos israelenses – Naftali Frenkel e Gilad Shaar, ambos com 16 anos, e Eyal Yifrach, 19 anos – foram encontrados no dia 30 de junho de 2014 perto de Hebron no sul da Cisjordânia, Israel entrou em luto profundo, e uma onda de simpatia cresceu em todo mundo. Os três estavam desaparecidos havia 18 dias, em circunstâncias até hoje não esclarecidas.

Todo o episódio, sobretudo depois do fim triste, pareceu traumatizar os israelenses a ponto de não verem, ali, algumas duras verdades sobre os colonos e a militarização da sociedade israelense. Por exemplo, um dos três já foi acusado por prisioneiros palestinos de humilhações, enquanto um outro seria um soldado da ocupação.

Além da representação dos três jovens como infelizes (embora o mais velho fosse um soldado profissional), os “analistas” nada ofereceram que ajudasse a ver o contexto dos eventos. Raros comentaristas, se algum o fez, culpou o culpado mais flagrantemente visível – as políticas expansionistas de Israel, que semearam e continuam a semear ódio e violência extrema, com vastos derramamentos de sangue.

Antes de os corpos serem encontrados, já se conhecia a face real do governo de extrema direita do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu. Poucos, algum dia, tiveram qualquer ilusão sobre a possibilidade de alguma ocupação “pacífica”, por governo que incluía figuras como Avigdor Lieberman, no Ministério de Relações Exteriores; Naftali Bennett, como ministro da Economia; e o vice-ministro da Defesa Danny Danon. Mas como havia “crianças” – foi a palavra que o próprio Netanyahu usou – envolvidas, nem os mais críticos esperaram qualquer tipo de análise propriamente política.

Até entre os palestinos houve onda de simpatia e preocupação com os colonos desaparecidos. Mas evanesceu rapidamente, ante a violência da resposta israelense (na Cisjordânia, em Jerusalém e, na sequência, com guerra total contra Gaza) – que toda a opinião pública respeitável, em todo o mundo, considerou desproporcional e cruel. Aquela resposta nada teve jamais a ver com a morte trágica dos três jovens. A guerra de Israel contra Gaza é obra de Netanyahu, de demorados e bem elaborados planos políticos.

Enquanto turbas israelenses partiam em um surto de linchamento e limpeza étnica de palestinos, por toda Israel, em Jerusalém e na Cisjordânia – e surto de tais dimensões que houve quem o comparasse a um “pogrom” –  soldados israelenses da ocupação executavam operação de prisões em massa de centenas de palestinos, a maioria dos quais membros e apoiadores do Hamás.

O Movimento de Resistência Islâmica Hamas disse que não teve nenhum papel na morte de colonos, o que parece plausível, porque o Hamás jamais deixou de exigir os créditos das ações executadas pelo braço armado do Movimento. Claro que os estrategistas militares israelenses sabiam que o Hamás nada tivera a ver com as mortes.

Esta guerra contra o Hamas, no entanto, tem pouco a ver com os colonos mortos e tudo a ver com as circunstâncias políticas que precederam o seu desaparecimento.

Nakba e uma nova Intifada


Em 15 de maio de 2014 dois jovens palestinos, Nadim Siam Abu Nuwara, 17 anos, e Mohammed Mahmoud Odeh Salameh, 16 anos, foram assassinados por soldados israelenses, quando participavam de uma manifestação de protesto, parte das atividades do aniversário da Nakba, a Grande Desgraça, a Grande Catástrofe. Há vídeos que mostram que Nadim aproxima-se andando normalmente na direção de um grupo de amigos, até que cai, repentinamente, atingido por uma bala do exército de Israel. Vídeo e fotos a seguir:

A Nakba aconteceu há 66 anos, quando emergiu o hoje chamado “conflito” árabe-israelense. Uma grande onda de judeus sionistas invadiu a Palestina e expulsou de suas casas estimados um milhão de palestinos. Israel foi implantada sobre as ruínas daquela Palestina.

Nadim e Mohammed, como jovens de várias gerações desde a Nakba, foram mortos a sangue frio, quando caminhavam para relembrar aquele êxodo. Em Israel praticamente não houve reação alguma às duas mortes. Mas a revolta palestina, que parece viver em processo de constante acumulação – sempre sob ocupação militar, e sob condições econômicas dificílimas – estava alcançando, mais uma vez, o ponto de explosão.

De certo modo, a morte desses dois jovens palestinos serviu como fator de “distração” e “desligou” a atenção dos palestinos da complexa desunião política que aflige há anos a liderança e a sociedade palestina. Aquelas mortes foram como um lembrete de que a Palestina, como ideia, como luta e como lócus de ação criminosa de castigo coletivo, ultrapassa em muito os limites da política e, até, os limites de qualquer ideologia.

A morte daqueles dois jovens nos relembrou que há muito mais na Palestina que as ideias e planos do “presidente” da velha Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e seu subtimoneiro na sede em Ramallah; e muito mais, também, que os cálculos estratégicos regionais do Hamás sobre ascensão e queda da Primavera Árabe.

A reação israelense à morte dos colonos foi muito diferente. Depois de encontrados os cadáveres, a direita e a extrema-direita israelenses puseram-se a exigir vingança contra as comunidades palestinas. Os esquadrões-da-morte israelenses organizaram-se sob o slogan “morte aos árabes”, revivendo uma velha noção de identidade palestina que existia antes de haver Fatah e Hamás.

Talvez paradoxalmente, a dor e a fúria geradas pela morte de Mohammad Abu Khdeir, 17 anos, queimado vivo por colonos, como parte do surto de violência dos esquadrões-da-morte israelenses, reforçou ainda mais esse renascimento da antiga identidade nacional árabe palestina.

Essa identidade muito sofreu por causa dos muros israelenses, das táticas militares e da própria desunião entre os palestinos; mas voltou a se recompor, colando novamente seus próprios pedaços, num processo que faz lembrar os eventos que precederam o primeiro e o segundo levantes – as Intifadas de 1987 e 2000.

Governo de unidade


Porém, diferente das Intifadas anteriores, as dificuldades para encontrar uma voz de comando unificada, dessa vez, parecem insuperáveis. Abbas é líder muito fraco, que já cedeu demais às exigências da “segurança” israelense e fez muito pouco para defender os direitos de seu próprio povo. É espécie de relíquia de era já passada, que só sobrevive porque é a melhor opção com que Israel e os EUA contam nesse momento.

Depois da violenta resposta israelense à morte dos colonos, Abbas tentou coordenar buscas com os israelenses. Várias vezes os funcionários do governo do Fatah tiveram de afastar-se, para não serem testemunhas da violência brutal dos soldados israelenses contra civis palestinos, na Cisjordânia.

É perfeitamente claro que não haverá terceira Intifada que deixe intactos Abbas e seu destroçado aparelho político. Por isso, precisamente, os soldados da Autoridade Palestina impediram que palestinos se manifestassem na Cisjordânia contra a violência israelense nos territórios ocupados, violência sem limites que culminou numa guerra total contra Gaza, que já matou e feriu centenas de palestinos.

Fosse qual fosse o crédito que Abbas tivesse acumulado por aproximar-se do Hamás e constituir um governo de unidade em junho passado, ele já o perdeu e também rapidamente. Aquela “ação política” já foi encoberta pelos próprios fracassos de Abbas, que não cumpriu as promessas do acordo de unificação. Além disso, a relevância da “autoridade” de Abbas foi rapidamente eclipsada pela violência israelense, o que expõe a total irrelevância de seu governo, para o cálculo político dos israelenses.

A relançamento do Hamas


Quando Israel lançou sua campanha massiva de prisões que visou o Hamás na Cisjordânia, o braço político do Hamás já analisava “alternativas” para substituir o governo de unidade em Ramallah. This was not seen in statements by Hamas officials, who refused to reveal their frustration with Abbas and his Ramallah echelon, but rather in the clearly worded remarks uttered by senior Hamas official Dr Ahmed Yousef in an interview with Ma’an news agency.

The Rami "Hamdallah government has failed to fill" the political vacuum left open by the dismantling of the Hamas government in Gaza, Yousef said. “We are talking about an all-faction leadership to prevent security chaos and solve the crisis of salaries for the Gaza Strip's civil servants," he added.

Os objetivos do Hamás não estavam sendo alcançados. O acordo de unificação visava a vários objetivos: pôr fim ao isolamento político do Hamás em Gaza, resultante do cerco crescente feito pelo Egito do general-ditador al-Sisi; resolver a crise econômica na Faixa; e, também, permitir que o Hamás voltasse a ser, sobretudo e antes de tudo, movimento de resistência, como antes.

Hamas was perhaps hoping for a similar political arrangement like the one enjoyed by Hezbollah in Lebanon: to hold massive political sway, to maintain its military presence and to navigate its way between resistance and politics as it sees fit. It is a difficult model to duplicate though, since the physical topography and political landscape of Palestine is largely different from Lebanon.

Mas mesmo que o Hamás conseguisse “reposicionar” a própria marca, baseado no seu próprio modelo político e de resistência, Israel estava decidida a desmontar qualquer possibilidade de haver qualquer governo de unidade palestina real. Acabar com aquela unidade converteu-se, de fato, em quase obsessão para Netanyahu.

O desaparecimento dos três colonos deu novo ímpeto à determinação de Netanyahu de pôr fim a qualquer “unidade”. Imediatamente iniciou campanha massiva para pressionar Abbas a romper com o Hamás.  It united various resistance groups, including those affiliated with Abbas’s own party, Fatah, and began responding with barrage of rockets into Tel Aviv, Haifa, Jerusalem and elsewhere. Although few Israelis were hurt, at least at the time of writing this article, while hundreds of Palestinians were killed and wounded, Hamas’s show of prowess further alienated Abbas, now growingly seen, along with his authority as ‘collaborators’ with Israel.

Majdi, a 28-year-old from Deheisheh refugee camp put it best: “The Palestinian police are mercenaries for the Israeli occupation; they just watch and do nothing."

Backlash


Mas há ainda mais que isso, na guerra de Israel contra Gaza. Netanyahu teme mortalmente uma Intifada que una os palestinos, se oponha à Autoridade Palestina e impeça a progressão das construções ilegais nos territórios ilegalmente ocupados: a guerra contra Gaza tem o objetivo de criar uma outra “via”, algo que desconcentre a atenção da população, que a distraia do processo de construir e deixar crescer um sentimento coletivo entre todos os palestinos: na Palestina e também entre os cidadãos palestinos em Israel.

Essa unidade é muito mais alarmante para Netanyahu que algum acordo político entre Fatah e Hamás, ditado por circunstâncias regionais. O ataque ao Hamás é tentativa, por Israel, de contra-atacar a nova narrativa, que já não diz respeito exclusivamente a Gaza e ao cerco de Gaza, mas envolve agora toda a Palestina e seus coletivos, independente de que lado estejam do “muro de separação” dos israelenses.

A verdadeira unidade palestina, culminando em uma enorme Intifada popular é o tipo de guerra que Netanyahu não pode vencer.

Ramzy Baroud is a PhD scholar in People’s History at the University of Exeter. He is the Managing Editor of Middle East Eye. Baroud is an internationally-syndicated columnist, a media consultant, an author and the founder of PalestineChronicle.com. His latest book is My Father Was a Freedom Fighter: Gaza’s Untold Story (Pluto Press, London). (This article was first published in Middle East Eye)

Nenhum comentário:

Postar um comentário