25 de julho de 2014

O que é clintonismo?

Hillary é um vírus reaganista

Andrew Levine

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Não há políticos americanos cujas ideias sobre política mereçam análise séria por qualquer outra razão que não o poder que tenham. E tem sido assim, só com mínimas exceções (e há muito tempo), desde depois dos pais fundadores dos EUA.

Por convicção sincera (embora quase sempre irrefletida), ou para melhorar as possibilidades eleitorais ou promover interesses pecuniários, vez ou outra os políticos esforçam-se para exibir maquiagem “ideológica”. Mas não trabalham com ideias ou teorias ou práticas políticas para em sua base. Nem saberiam como fazer.

Esta é uma razão pela qual “reaganismo” é um equívoco. É um termo conveniente e frequentemente usado​​, mas dá muito crédito a um ator maléfico que mal conseguia manter mais do que uma ideia na cabeça de cada vez.

“Neoliberalismo” seria expressão melhor, exceto por sugerir foco exclusivo em questões de economia política. O Reaganismo não trata só de economia; é um fenômeno político retrógrado também.

A expressão denota uma teoria e uma prática que poucos ainda celebram, mas superestimados economistas e politólogos convocados para reviver linhas já há muito tempo dormentes do pensamento liberal clássico. É empreitada fracassada de antemão, sem densidade e peso intelectuais e sem apelo moral.

Mas, graças principalmente às vicissitudes do capitalismo tardio, ainda sobrevive.

Nos anos 1970, com a reconstrução pós-guerra e a fase de crescimento do capitalismo chegadas ao fim, sob o peso de excesso de produção e capacidade produtiva, tornou-se óbvio – sobretudo para capitalistas à procura de oportunidades de investimentos – que os velhos péssimos modos de operar teriam de mudar.

O resultado foi um crescimento na influência política do setor financeiro e um declínio no poder do trabalho organizado.

Esses desenvolvimentos pavimentaram o caminho para a chamada “Revolução Reagan”.

Nada mais de desenvolvimento capitalista que, apesar do mal que fez, pelo menos melhorou materialmente a vida de bastante gente; e nada mais, sequer, de qualquer semelhança, ainda que remota, de justiça e equidade na distribuição do benefício e da carga do crescimento econômico.

O Reaganismo iniciou um novo “contrato social” – segundo o qual um pequeno punhado de gente no topo ganharia faustosamente, ao mesmo tempo em que o resto todo da pirâmide ganharia muito menos.

Aumentar o endividamento pessoal e a pronta disponibilidade de produtos de baixa qualidade feitos longe de casa, além de outras medidas paliativas, mascararam a nova realidade por algum tempo; e uma série de bolhas econômicas mantiveram a economia à tona.

Mas não há como negar o fato de que a condição econômica de muita gente estagnou ou deteriorou, e que a esfera pública, sem fundos, declinou ainda mais rapidamente. Isso é o que faz o Reaganismo.

E, porque a ideia de que o governo seria o problema, não a solução, é um dos núcleos da doutrina Reaganista, o Reaganismo também milita contra programas públicos para melhorar as condições de vida e contra todos os remédios que o estado de bem-estar provê. Para substituir tudo isso, o Reaganismo oferece as trampas e ilusões da teologia do livre mercado.

Com sociedades mais ricas, a maioria contudo se via cada vez mais pobre – em relação não só aos hiper-ricos ou a como estariam numa ordem econômica mais racional, mas em relação ao que estavam acostumados.

Não é tudo culpa de Reagan, que teve muito menos a ver com o Reaganismo do que a maioria supõe. A presidência de Reagan foi mais efeito, que causa.

Reagan fez pouco, se é que fez alguma coisa, para modelar a doutrina Reaganista, e não foi muito bem-sucedido, sequer, na aplicação da doutrina. No máximo, acreditava na doutrina; e pôs seus talentos de comunicador a serviço de promovê-la.
O Reaganismo tomou conta de tudo quase imediatamente depois da virada na trajetória do capitalismo. Jimmy Carter, portanto, foi o primeiro presidente Reaganista. E Carter não abraçou a causa com paixão, mas bastante desanimadamente; e só nos anos finais de sua presidência.

Reagan não foi sequer o líder Reaganista mais importante nos primeiros dias. Essa duvidosa honra cabe a Margaret Thatcher. Foi durante o governo dela na Grã-Bretanha que a teoria e a prática Reaganistas tomaram plena forma.

Por isso é que, no mundo anglófono fora dos EUA, o Reaganismo é chamado de Tatcherismo.
Os norte-americanos são paroquiais no seguir modas, mas essa não é a única razão para terem dado ao fenômeno o nome do Gipper. Desde o final da II Guerra Mundial, a Grã-Bretanha se mantivera como parceira júnior – incapaz de, por meios seus, liderar qualquer grande mudança no curso dos eventos mundiais. Nem a Dama de Ferro teria conseguido, sozinha, causar todo o dano que causou ao mundo, se os ianques não a tivessem ajudado. E assim aconteceu que a coisa ficou conhecida como Reaganismo.

No começo, o sofrimento ficou confinado sobretudo à Grã-Bretanha e aos EUA. Para infelicidade do resto do mundo, a coisa não tardou a alastrar-se. E, hoje, todos os políticos capitalistas são Reaganistas.

Os políticos norte-americanos ainda aparecem puxando a fila. Os presidentes dos EUA merecem ter todo um círculo especial reservado só para eles, no Inferno. E, dado que esses presidentes são feitos do mesmo pano Reaganista, não faz sentido inventar algum outro “−ismo” para colar aos seus nomes. A família Bush agachou-se pela Casa Branca por mais tempo que os Reagans, mas nem por isso se fala de “bushismo”. E por que se falaria?

Bush Pai foi Reaganista “mais bondoso, mais gentil”; é o que ele próprio conta. E, não fosse Carter, teria sido o melhor (o menos ruim) presidente que os EUA conheceram, desde que o Reaganismo emergiu. Se por mais não for, sua presidência foi a última, nos EUA, na qual os assuntos internacionais foram conduzidos com um mínimo de competência e decência.

Mas foi tedioso, previsível. Seu principal problema era o que ele chamava de “a coisa da visão”. Era presidente quando o comunismo ruiu, e a URSS implodiu; para ele, essa “nova ordem mundial” era a velha ordem, só que sem a União Soviética. Nada haveria, em lugar algum, que deixasse qualquer marca duradoura.

Bush Filho, esse, deixou inúmeras marcas muito duradouras. Mas ninguém, em juízo perfeito, reivindicaria como feitos seus, os feitos de Bush.
Os neoconservadores aos quais Bush Filho entregou o comando do showdesencadearam catástrofes que ainda estão tendo desdobramentos. O homem, afinal, estava em mar tão mais profundo do que sabia enfrentar que é quase injusto culpá-lo pelos tais desdobramentos. Mas é claro que é preciso responsabilizá-lo; era nominalmente o presidente. De qualquer modo, Dick Cheney e Donald Rumsfeld foram, no mínimo, tão culpados quanto o presidente.

Num mundo justo, George W. Bush e seus servidores não estariam tendo hoje vida mansa. No nosso mundo, graças à magnanimidade do Advogado Geral do presidente que sucedeu Bush, escaparam todos de serem condenados por assassinato – e, de fato, até por crimes piores que assassinato. Não há “-ismo” que diga tudo isso.

“Bushismo” portanto não funciona, não importa o Bush que se tenha em mente. Mas “Clintonismo”, aí, sim, já é outra coisa!

A expressão já está em circulação há algum tempo. As pessoas sabem usá-la porque, como o juiz Potter Stewart disse da obscenidade, você reconhece quando vê o Clintonismo.

Mas o que, exatamente, significa o Clintonismo? Essa é questão longe de esclarecida – principalmente porque a relação entre Reaganismo e Clintonismo é sutil e complicada.

Com Hillary Clinton em rota para concorrer à presidência em 2016 – e com alta probabilidade de ser eleita se concorrer, dado que o Velho Grande Partido (orig. inglês: Great Old Party − GOP) dos Republicanos não consegue achar candidato crível – já não se sabe com clareza nem se a palavra aplica-se ao marido ou à esposa.

Na verdade, nem interessa a quem se aplique. Como poderia dizer um meio metafísico meio piadista: “Clinton” nomeia uma entidade supraindividual que recobre duas formas interdependentes mas analiticamente distintas.

Bill é de longe o mais colorido dos dois porque ele é um tarado e um patife que exala charme meretrício. Para as pessoas de uma certa idade, é difícil não pensar nele como um adulto, sem castidade, versão do personagem Eddie Haskell em “Leave It To Beaver.”

Se aquela série fosse revivida uma década ou duas mais tarde, é muito provável que a trama evoluísse em torno dos problemas de Eddie com princesas hot do estacionamento de trailers e variedades judeu-norte-americanas; e que seus arranjos com os ricos e famosos, para lucro e prazer fosse tema recorrente.

Entrementes, Hillary usa paletozinhos e calças e diz imbecilidades – muito imbecis, até pelos padrões de Joe Biden. Em matéria de dizer imbecilidades máximas, Biden já perdeu o concurso.

Hillary não é sequer vil, em sentido interessante: o personagem é raso demais. Não surpreende que os criadores da Idade de Ouro da televisão jamais tenham dado qualquer atenção a uma personagem que evoca ninguém e coisa alguma, como ela.

Questões de caráter à parte, Bill Clinton foi o mais perfeito presidente Reaganista de toda a história – não o mais visionário, não o que selecionou subordinados mais competentes, mas o mais efetivo. Ninguém, não com certeza o próprio Reagan, fez mais que Bill Clinton para privatizar e desregular e descontrolar, e para desfazer programas governamentais que existiam para cumprir funções relevantes, úteis e proveitosas.

Reagan propôs, em proposta que ficou famosa, “matar de fome o monstro” [orig. “starving the monster”]. Foi o que Bill Clinton fez. Enquanto isso, o verdadeiro monstro prosperava no governo Clinton, como já prosperara no governo Reagan. Os militares e o estado de segurança nacional que já começava a inchar operaram como gangues de bandidos.

É provável que Clinton jamais tenha investido o coração em pôr em prática o Reaganismo. Era – como é até hoje – um oportunista, não um homem de crenças, de verdadeira fé. Mas, no Partido Democrata, conseguiu neutralizar a oposição e, até, seduzi-la para o seu barco. Pôde assim realizar plenamente o que, para Reagan e o pessoal que o cercava, foram sonhos e nada mais.

Essa é uma das razões pelas quais é difícil ver com clareza o que é o Clintonismo. Parece próximo demais do Reaganismo para poder auto-ostentar-se como “-ismo” autônomo, por mérito próprio.

O Clintonismo escapa a qualquer caracterização fácil, porque os Clintons, aliados a outros Democratas de direita, efetivamente expurgaram o partido deles de toda a ala esquerda que lá havia. Por isso é difícil distinguir a política Clintonista da política dos Democratas, em termos gerais.

Seja como for, o Clintonismo é conceito útil. O que o Bushismo nunca foi. Nem, tampouco, para não deixar de falar dele, algum Obamismo algum dia teve alguma utilidade.

Claro que ainda é possível que Obama tais e tantas ainda faça, que ainda erre mais, e tão impressionantemente, que “Obamismo” ou expressão assemelhada, venha a ganhar entrada no léxico político. Mas se acontecer, a palavra não designará qualquer traço político distintivo. Será uma espécie de forma taquigráfica para gigantíssima incompetência.

Ou para designar quem cometa erros ainda mais desastrosos que os de George W. Bush. Pode acontecer, por exemplo, se os Clintonistas que venham a assumir a política externa dos EUA inventem, mesmo, uma nova Guerra Fria. Estão trabalhando precisamente para isso.

Contudo, no curso normal dos eventos – onde “normal” inclui permitir que um governo israelense brutal e ilegal massacre palestinos em Gaza – não haverá Obamismo.

Quando o Reaganismo ainda estava tomando forma, Bertram Gross escreveu sobre o que chamou de “fascismo amigável” [orig. “friendly fascism”]. Ao falar de “fascismo”, Gross explica que o Reganismo abraçara um objetivo fundamentalmente fascista – acabar com o movimento trabalhista e, na sequência, reconfigurar a relação entre a Grande Finança e o Estado, de modo a garantir interesses desses dois lados.

Com o adjetivo “amigável”, Gross diz que o Reaganismo fez o que fez sem o antiliberalismo acintoso e a violência organizada associados aos movimentos fascistas do período entre-guerras (e posteriores). O ar amistoso e amável de Ronald Reagan ajudou, mas esse não foi o ponto central.

Obama dá prosseguimento a essa tradição de fascismo amigável. E, construindo sobre os fundamentos lançados por George Bush e Dick Cheney, Obama comanda uma virada relacionada, na política dos EUA. Bom nome para o que Obama faz é “totalitarismo amigável”.

Bush e Cheney pegaram o trem andando, mas Obama será lembrado por ter feito dos EUA estado de vigilância total, 24/7, e por ter reduzido a trapos todos os direitos à privacidade e ao devido processo legal. Será também lembrado por continuar guerras velhas e iniciar novas. São coisas que andam juntas: guerras perpétuas são indispensáveis em estado totalitário.

Obama fez tudo isso sem agredir a amicabilidade que daria legitimidade, que identificou no grande projeto Reaganista. Vivemos hoje mais ferozmente espionados do que nunca antes, mas não, supomos nós, por estado policial; e temos o exército mais poderoso que o mundo jamais conheceu, mas não temos atitudes e instituições militaristas...

Reunindo tudo, essa ordem totalitária amigável é realização equivalente a alcançar objetivos do fascismo, pela via Reaganista ostensivamente benigna.

Nem assim se justifica acrescentar um “-ismo” ao nome de Obama. Como no caso de Bush, decisões erradas e inaptidão não bastam para gerar algum novo tipo de política.

Diferente seria se houvesse realizações positivas pelas quais Obama pudesse receber os louros. Mas, exceto por ser preto que “chegou lá”, Obama nada fez. Falar de “esperança” e depois de “mudança” absolutamente não conta.

Com os Clintons é diferente: eles merecem os créditos por terem desenvolvido uma forma específica de Reaganismo, muito especialmente deletéria.

O que os Clintons urdiram é difícil de definir, mas é fácil reconhecer e opor-se “àquilo”.

Oposição ao Clintonismo não é a mesma coisa que antipatia pelos Clintons. A oposição ao Clintonismo é rampante em todo o mundo, segundo a ex-Primeira Dama: “uma vasta conspiração da direita” (contra a dupla). Supondo-se que Hillary saiba do que fala, a questão é: por quê? Não há, nem remotamente, qualquer resposta política satisfatória. Na direita, Reagan é cultuado como deus; e, embora as conexões entre Reagan e o Reaganismo possam não ser tão diretas como se supõe por aí, é certo que faz diferença que o Clintonismo seja Reaganismo na prática.

Pergunta melhor é por que há mais antipatia contra os Clintons nos acampamentos liberais? Não há dúvidas de que fizeram por merecer.

Mas o que mais pesa é a antipatia contra o Clintonismo. Entre os quadros do próprio Partido Democrata praticamente não há. Mas, sim, há muita antipatia contra o Clintonismo entre os eleitores do Partido Democrata. O anti-Clintonismo teve papel importante na vitória de Obama sobre Hillary Clinton, nas primárias de 2008.

A esperança, naquele momento, de vários eleitores de Obama era que uma vitória de Obama conseguiria des-Clintonizar o Partido Democrata. Para quem acompanhasse de perto a campanha, não era caso de esperança, mas de delírio. De qualquer modo, Obama ganhou com folga.

Não surpreendentemente, a ilusão rapidamente evanesceu. A desilusão já crescia antes do dia da posse, desde as primeiras notícias sobre os nomeados para postos chaves. Pode-se dizer que começara bem antes – desde quando Obama acolheu Joe Biden para candidato à vice-presidência.

Quando Obama nomeou Hillary Clinton para o cargo de Secretária de Estado – posto para o qual ela absolutamente nunca apresentou as qualificações mínimas indispensáveis, e todo mundo via que não – já não havia como não ver o que o futuro traria.

Na sequência, veio plena e total Restauração Clintonista. No campo da política externa, o único sinal de “novidade” apareceu adiante – com a nomeação de imperialistas “humanitárias” do tipo de Susan Rice e Samantha Powers. E aí já se via em ação a mão de Hillary.

Se o impulso para fazer reviver a Guerra Fria é ideia saída diretamente dela, ou não, não há dúvidas de que é ideia saída de seus protegidos e coligados: e ela nunca para de dar-lhes cada vez mais corda.

Sabe-se lá por que Hillary e outros tanto querem embarcar nesse negócio tão arriscado. Será que estão sentindo que a “guerra ao terror”, ou tenha lá o novo-nome que tenha na novilíngua recente de Obama, não está rendendo tudo que se esperava para o estado do complexo militar de segurança nacional?

Ou talvez percebam que meteram de tal modo os pés pelas mãos, tão profundamente, no Oriente Médio, que já não há lugar para eles por lá e terão de puxar o carro – rumo a outras aventuras. Faria sentido, mais é pouco provável que pensem, pode-se dizer, tanto. É reflexão que exigiria um grau de autoconhecimento e de autocompreensão que está muito além do capacidade dela e deles.

De fato, chega a ser espantoso o quanto é pouco o que eles, pode-se dizer, entendem. Será que se dão conta de o quanto uma Guerra Fria contra a Rússia – e contra a China também – pode ser perigosa? Como podem não saber?

Essa, afinal, é uma questão psicológica: a resposta pode variar de pessoa a pessoa. Mas num nível político, os contornos gerais de uma resposta já aparecem suficientemente claros.

Essa resposta é que isso, precisamente, é o que acontece quanto o espírito do Reaganismo toma conta de descendentes ideológicos dos anticomunistas da Guerra Fria!

Por quase 40 anos depois do fim da II Guerra Mundial, sempre houve liberais que foram levados, por simpatias e convicções, a apoiar o movimento trabalhista e outras forças populares de pensamento assemelhado, o que sempre serviu de freio contra o impulso inerente e incansável do capitalismo para enriquecer os capitalistas à custa de todo o resto da população.

Aqueles liberais eram tão devotados ao capitalismo quanto qualquer outro setor da classe política, mas eram menos inclinados que os demais a só promover os interesses dos principais beneficiários do capitalismo.

Essa sensibilidade começou a evanescer quando os Reaganistas chegaram ao poder; em pouco tempo, já sumira completamente. Ao mesmo tempo o liberalismo social continuou e até avançou, com o avanço de atitudes da sociedade.

Como reação, o zero-liberalismo social endureceu na direita. Em pouco tempo, discordâncias sobre valores, mais do que sobre valores materiais, passaram a ser a principal linha divisória a rachar a política norte-americana.

Disso trata, precisamente, o Clintonismo.

É liberalismo Reaganizado; é liberalismo anticomunista de Guerra Fria, sem a dimensão econômica progressista.

Os Clintonistas ainda estão comprometidos com tolerância e outros valores liberais não econômicos, mas nas questões econômicas, não há nenhuma diferença entre eles e seus adversários Republicanos.

Essa é a mais perfeita descrição de Hillary Clinton. Disseque-se sua persona pública, e está tudo lá: o liberalismo social, mas também o neoliberalismo econômico e, sobretudo, a insuperável animosidade contra a Rússia – e contra a China – herdada do passado da Guerra Fria.

Ninguém pode acusar Bill Clinton de ser presidente “transformador” no sentido em que Obama pensa que Ronald Reagan foi. Mas Reagan e sua primeira dama sim, transformaram o Partido Democrata – e de tal modo, em tal extensão, que já não há redenção possível.

Richard Nixon conseguiu levar com ele os Republicanos e a ala direita dos Democratas quando abriu relações diplomáticas com a China – porque era homem da direita que provara inúmeras vezes as suas credenciais.

Mas o pessoal que levou com ele, esses, nunca mudaram. Eram doentiamente anticomunistas antes e eram doentiamente anticomunistas depois de Nixon os levar à China. Foi questão de fazer uma escolha estratégica, não de mudar corações e mentes.

Bill Clinton, por outro lado, não levou com ele seus companheiros Democratas quando decidiu promover o Reaganismo. Ele os modificou fundamentalmente; conseguiu que assumissem a agenda Reaganista, como se fosse sua própria agenda.

Isso, agora, é o que Hillary Clinton fará – o que ela, de fato, já começou a fazer. E por isso a possibilidade de que ela venha a comandar o Partido Democrata é tão apavorante.

Converter os Democratas em direitistas já foi ruim que chegue sob o comando do Clinton marido, há uma geração. Imaginem as consequências disso agora, depois de décadas de deriva à direita e de oito anos de Barack Obama!

O Clintonismo é pior que simples Reaganismo, para os Democratas. É como um vírus Reaganista, dirigido contra os Democratas. Quando entra no sistema, dissemina-se como um vírus: e corrompe sem parar; só faz corromper.

Como em geral no trato com outros vírus, o melhor modo de lidar com ele é mantê-lo à distância. Se for impossível, o Plano B é salvar e restaurar o mais que se consiga salvar e restaurar.

É possível que já seja tarde demais. Tendo já iniciado a virada Clintonista, o Partido Democrata – que, afinal, nunca foi nenhuma maravilha – pode já estar danificado demais para ser salvo.

Mais ou menos em meados do próximo ano, como agora, ano que vem, com a campanha presidencial de 2016 já em andamento, já saberemos com certeza.

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