17 de julho de 2014

Palestina: Um a zero para o Hamas

Como se sabe, todas as guerras têm um objetivo político, e a que promove o Estado de Israel contra Gaza não é exceção.

Michel Warcshawski

Hebdo L'Anticapitaliste

Tradução / Guerra? Vista a correlação de forças militares, o conceito é inapropriado: uma agressão armada frente a uma resistência cujo heroísmo não pode ocultar a sua debilidade. Todavia, com os seus foguetes pouco eficazes, o Hamas consegue paralisar, desde há uma semana, a vida quotidiana de mais de meio milhão de israelenses e vai, sem dúvida, impor ao estado judeu um compromisso não muito diferente do que foi alcançado depois da agressão israelita de 2011.

Abbas sob pressão

Qual é o objetivo de Benyamin Netanyahu e do seu governo? Por paradoxo que possa parecer, o objetivo é... Mahmud Abbas (Abu Mazen), sendo a campanha militar contra o Hamas e Gaza só um meio destinado a debilitar o presidente palestiniano.

Desde o sequestro dos três jovens colonos, o primeiro ministro israelense tinha apontado Mahmud Abbas como o principal responsável por esta operação, e só sob a pressão norte americana os dirigentes israelenses viram-se obrigados a mudar o seu alvo e reconhecer que os palestinos de Abbas não tinham poupado esforços para tentar encontrar os sequestrados, aproveitando a ocasião para deter dezenas de militantes ligados - ou não - ao Hamas.

Mas isso não importa: se não és tu o responsável, é-o o teu irmão, e os dirigentes israelenses passam a acusar o Hamas, com o qual Mahmud Abbas acaba de constituir um governo de unidade nacional: ou bem que Abbas rompe a aliança com o Hamas, e, assim, perde crédito aos olhos da população, amplamente favorável à união nacional, ou recusa-se a fazê-lo e torna-se assim cúmplice daqueles que têm sido apontados como responsáveis pelo sequestro e pelo seu trágico desfecho.

Querem prosseguir com a colonização

O Hamas tem desmentido estar por trás do sequestro e o assassinato dos três colonos, o que é coerente com a decisão de constituir um governo de união nacional com Abbas. Acreditem ou não que o Hamas é responsável, Netanyahu e o seu rebanho decidiram atacar a faixa de Gaza. Reflexo habitual dos diversos governos israelenses: Gaza = Hamas = terrorismo; portanto, ataca-se de forma discricionária.

Enquanto estão a ser redigidas estas linhas, anunciam-se 122 mortos, civis na sua grande maioria. Evidentemente, para os chefes da guerra em Tel Aviv não existem civis em Gaza, senão uma comunidade de um milhão e meio de terroristas, com idades entre os 6 meses e os 90 anos... Recordemos: as centenas de mísseis disparados desde Gaza nos últimos meses não causaram – ainda – uma única vítima israelense, a não ser, em Haifa, uma mulher idosa, árabe, que morreu devido a uma crise cardíaca quando corria para alcançar um abrigo durante uma alerta.

Deslegitimando Abbas, o que Netanyahu quer eliminar por completo é todo o processo negociado, um processo que a comunidade internacional queria ver sair do marasmo a que os dirigentes israelenses o têm condenado voluntariamente. Para o governo israelense existe um único objetivo: a prossecução da colonização da Palestina. Tudo o que possa comprometer esse objetivo deve ser derrotado, mesmo quando estão em causa centenas de vítimas inocentes na faixa de Gaza, e, inclusive, a perturbação da vida quotidiana de centenas de milhares de israelenses.

Derrota para Israel, prestígio para o Hamas

O problema de Netanyahu é que, com a resposta do Hamas, tem contribuído não só para aumentar o prestígio da organização islâmica - à custa de Abbas, o que incomoda enormemente os interesses americanos - senão que, em vez de uma vitória israelense, estamos perante um empate que significa de fato uma derrota israelense. Face a um balanço assim elevam-se vozes, na extrema direita do governo de extrema direita israelense, que pedem uma ofensiva terrestre, isto é, conquistar a faixa de Gaza e ocupá-la por um período indeterminado.

Se não estivéssemos conscientes do preço exorbitante que pagaria a população de Gaza por uma aventura assim, teríamos vontade de dizer ao general Amidror, que comanda a campanha a favor de uma operação terrestre, Atreve-te! Ruma a Gaza! Se não tivésseis a memória destroçada pela arrogância, recordaríeis o Líbano e o que custa ocupar uma zona cuja população tem mostrado em numerosas ocasiões o que quer dizer a palavra resistência.

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