21 de julho de 2014

Sobre “escudos humanos” em Gaza

Como o exército israelense tenta justificar o bombardeio em áreas civis

Neve Gordon e Nicola Perugini

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Todos os confrontos que ocorrem dentro de cidades e todos os bombardeios em espaços urbanos – até mesmo os “mais precisos e cirúrgicos” -, são uma armadilha mortal em potencial para os civis. Consequentemente, a permeação da guerra dentro das cidades transforma, inevitavelmente, sua população em potenciais escudos humanos.

Para os palestinos vivendo hoje em Gaza, os simples atos de passar tempo em suas próprias casas, frequentando uma mesquita, ir a um hospital ou à escola, se tornaram atividades perigosas, uma vez que qualquer um desses edifícios arquitetônicos podem se tornar a qualquer momento um alvo. Ninguém mais pode dizer com segurança que a existência de inúmeros corpos humanos – até mesmo os de crianças – em espaços civis podem servir como defesa do “fraco” contra a letal capacidade dos “países hi-tech”.

Onde os terroristas de Gaza escondem suas armas?

Mas uma vez que países hi-tech podem e matam centenas ou milhares de civis, eles têm que fornecer uma justificativa moral para suas ações e assim preservar sua posição perante o cenário internacional. Eles têm que demonstrar que estão protegendo os princípios da democracia liberal e é precisamente nesse contexto que nós temos que compreender a série de imagens recentemente disseminados pelos militares de Israel através de suas contas no Twitter, Facebook e blogues.

O poster acima é um exemplo paradigmático, onde a mensagem parece dizer: casas, mesquitas, escolas e hospitais são alvos legítimos, pois estes presumivelmente são depósitos de armas.

“Quando uma casa é um lar?”

Essa também é a mensagem em “Quando uma casa é um lar? E quando ele se torna um alvo militar legítimo? O Hamas usa casas de palestinos em Gaza para propósitos militares.”, que simplesmente dá um zoom em uma da imagem anterior, mostrando como palestinos supostamente escondem mísseis em casas civis.

A lógica é clara: enquanto o Hamas esconder suas armas em casas (ilegítimo), Israel pode bombardeá-las como se fossem alvos militares (legítimo). Dentro desse contexto, uma simples função (esconder armas) dentro de muitas existentes (lar, abrigo, etc.) determina o status de um local urbano (nesse caso), assim sendo, o edifício perde seu significado original.

A pergunta “quando uma casa se torna um alvo militar legítimo” é meramente retórica. Seu real significado é: “Todas as casas em Gaza são alvos legítimos”, uma vez que todas as casas são “não-casas” em potencial.

Israel usa suas armas para proteger seus civis.

Não diferente de guerras coloniais, como também de outras guerras vastamente assimétricas, a legitimação de Israel para seu bombardeio indiscriminado tem como premissa uma profunda desconexão entre israelenses e palestinos. No poster “Israel usa suas armas para proteger seus civis. O Hamas usa civis para proteger suas armas. Hamas coloca civis palestinos na linha de fogo.”, os palestinos são pintados como bárbaros que ignoram a gramática elementar da lei internacional.

A estratégia de guerra de Israel, então, não apenas tenta remodelar o significado das estruturas urbanas, como também transformar seres humanos como danos colaterais – indivíduos que podem ser mortos sem a violação da lei internacional. Essa é a mensagem que o poster abaixo com o chefe de gabinete das Forças de Defesa de Israel dizendo: “Até mesmo quando conduzimos ataques, nós lembramos que há civis em Gaza. O Hamas os tornou reféns” – Ten. General Benny Gantz, chefe de gabinete das Forças de Defesa de Israel.

Até mesmo quando conduzimos ataques, nós lembramos que há civis em Gaza. O Hamas os tornou reféns.

Novamente, a lógica é clara. Todos os civis em Gaza estão sendo mantidos como reféns pelo Hamas, o que é considerado um crime de guerra e uma grave violação das leis internacionais a respeito de conflitos armados. Consequentemente, isso provê uma justificação legal e moral contra a acusação de que Israel está matando civis. As supostas violações de direitos humanos de palestinos contra palestinos – ao transformá-los em reféns e escudos humanos – tem como resultado a legitimação da violência letal e indiscriminada por parte de força ocupante.

Além disso, o uso de escudos humanos não é apenas uma violação. Em guerras urbanas assimétricas contemporâneas, acusar o inimigo de utilizar escudos humanos ajuda a validar a alegação de que a morte de “civis não-alvejados” é meramente um dano colateral. Se todos os civis são potenciais escudos humanos e se todo e qualquer civil pode se tornar um refém do inimigo, então todo e qualquer civil inimigo pode ser morto.

Alguns abrigos abrigam pessoas. Alguns abrigam bombas.

In order for all this to be convincing, the Israeli military depicts the asymmetric context in which it unleashes its violence against a whole population as symmetric. This is carried out, for instance, through the poster “Alguns abrigos abrigam pessoas. Alguns abrigam bombas.”. Here a radically disproportionate situation is presented as if it were balanced.

The residents of Gaza are bombed by cutting edge F-16 fighter jets and drones, yet they do not have bomb shelters, and they have nowhere to flee. Israel’s residents are bombed mostly by makeshift rockets, many of which have been intercepted by Iron Dome missiles. The majority of the population in Israel has access to shelters and can flee out of the rocket’s range.

Essas poderosas imagens distribuídas por Israel em redes sociais, tentam transformar a própria presença de civis como suspeitos dentro das áreas que bombardeiam – independente do fato de que tais áreas são centros urbanos.

O cerne da questão é que em um contexto como esse, o fraco não tem muitas opções. Quando não existem abrigos contra bombas, as pessoas ficam em casas durante o intenso bombardeio. E se, como no caso dos palestinos em Gaza, fugir não é uma opção – because all exits from the strip have been closed, or because the neighbour’s house is under the exact same threat as one’s own, or because one is already a refugee and does not want to become a refugee anew – staying put, which the high-tech states term “illegal human shields”, constitui uma forma de resistência.

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