11 de julho de 2014

Sobre Israel, Ucrânia e a Verdade

O retorno de George Orwell e a guerra do “Big Brother”

John Pilger

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Na noite passada assisti à peça "1984", de George Orwell, encenada num teatro de Londres. Embora clamasse por uma interpretação contemporânea, a advertência de Orwell acerca do futuro foi apresentada como uma peça datada: remota, não ameaçadora, quase reconfortante. Era como se Edward Snowden nada houvesse revelado, como se o Big Brother não fosse agora um espião digital e como se o próprio Orwell nunca houvesse dito: "Para ser corrompido pelo totalitarismo, basta ter de viver num país totalitário".

Aplaudida pelos críticos, a produção cuidadosa foi uma medida dos nossos tempos culturais e políticos. Quando a luzes acenderam, as pessoas já estavam a sair. Pareciam impassíveis, ou talvez outras distrações as chamassem. "Que mindfuck", disse uma jovem, a ligar seu telefone.

Quando sociedades avançadas são despolitizadas, as mudanças são tanto subtis como espetaculares. No discurso diário, a linguagem política é ativida na sua cabeça, tal como Orwell profetizou em "1984". "Democracia" é agora um dispositivo retórico. Paz é "guerra perpétua". "Global" é imperial. O outrora esperançoso conceito de "reforma" agora significa regressão, mesmo destruição. "Austeridade" é a imposição do capitalismo extremo sobre os pobres e a prenda do socialismo para os ricos: um sistema engenhoso sob o qual a maioria serve as dívidas dos poucos.

Nas artes, a hostilidade a dizer a verdade é um artigo de fé burguês. "O período vermelho de Picasso", diz uma manchete do Observer, "e porque política não faz boa arte". Considere isto num jornal que promoveu o banho de sangue no Iraque como uma cruzada liberal. A oposição de Picasso ao fascismo é uma nota de rodapé, assim como o radicalismo de Orwell desvaneceu-se do prêmio que se apropriou do seu nome.

Há alguns anos, Terry Eagleton, então professor de literatura inglesa na Universidade de Manchester, calculou que "pela primeira vez em dois séculos, não há qualquer poeta eminente, dramaturgo ou romancista britânico preparado para questionar os fundamentos do modo de vida ocidental". Nenhum Shelley que fale pelos pobres, nenhum Blake para sonhos utópicos, nenhum Byron a amaldiçoar a corrupção da classe dominante, nenhum Thomas Carlyle e John Ruskin a revelarem o desastre moral do capitalismo. William Morris, Oscar Wilde, H.G. Wells, George Bernard Shaw não têm hoje equivalentes. Harold Pinter foi o último a levantar sua voz. Dentre as vozes insistentes do feminismo consumidor, nenhuma ecoa Virginia Woolf, que descreveu "as artes de dominar outras pessoas... de governar, de matar, de adquirir terra e capital".

No National Theatre, uma nova peça, "Great Britain", satiriza o escândalo das escutas telefônicas que viu jornalistas julgados e condenados, incluindo um ex-editor do New of the World, de Rupert Murdoch. Descrito como uma "farsa com dentes caninos [que] coloca toda a cultura incestuosa [da mídia] em causa e sujeita-os a um ridículo impiedoso", os alvos da peça são as personalidades "abençoadamente divertidas" da imprensa tabloide britânica. Isso está muito bem e soa familiar. Mas o que dizer da mídia não tabloides que se consideram sérios e críveis, mas exerce um serviço paralelo como braço do estado e do poder corporativo, como na promoção de guerras ilegais?

O inquérito Leveson sobre escutas telefônicas considerou isto como não mencionável. Tony Blair estava a depor, queixando-se a Sua Senhoria acerca do assédio dos tabloides a sua esposa, quando foi interrompido por uma voz da galeria do público. David Lawley-Wakelin, um realizador de filmes, exigiu a prisão de Blair e que fosse processado por crimes de guerra. Houve uma longa pausa: o choque da verdade. Lord Leveson saltou sobre os seus pés e ordenou a expulsão do que dizia a verdade e desculpou-se junto ao criminoso de guerra. Lawley-Wakelin foi processado, Blair ficou livre.

Os cúmplices permanentes de Blair são mais respeitáveis do que os hackers das escutas. Quando a apresentadora de artes da BBC, Kirsty Wark, o entrevistou sobre o décimo aniversário da invasão do Iraque, ela prendou-o com um momento com que ele sonhava: permitiu-lhe atormentar-se sobre a sua "difícil" decisão sobre o Iraque ao invés de chamá-lo a prestar contas pelo seu crime gigantesco. Isto evocou o cortejo fúnebre de jornalistas da BBC o quais em 2003 declaravam que Blair podia sentir-se "justificado" e as subsequente séries "seminais" da BBC, "Os anos Blair", para a qual foi escolhido David Aaronovitch autor, apresentador e entrevistador. Um servidor de Murdoch que fez campanha a favor de ataques militares ao Iraque, à Líbia e à Síria, Aaranovitch bajulava com perícia.

Desde a invasão do Iraque – o exemplo de um ato de agressão não provocada que o promotor de Nuremberg, Robert Jackson, classificou como "o supremo crime internacional diferente dos outros crimes de guerra apenas por conter em si próprio mal acumulado do todo" – a Blair e seu porta-voz e cúmplice principal, Alastair Campbell, tem sido concedido um espaço generoso no Guardian para reabilitarem suas reputações. Descrito como a "estrela" do Partido Trabalhista, Campbell tem procurado a simpatia dos leitores pela sua depressão e manifestou seus interesses, embora sua tarefa atual não seja de conselheiro, com Blair, quanto à tirania militar egípcia.

Quando o Iraque é desmembrado em consequência da invasão Blair/Bush, uma manchete do Guardian declara: "Derrubar Saddam estava certo, mas retiramo-nos demasiado cedo". Isto encontra-se num artigo destacado de 13 de junho de um antigo funcionário de Blair, John McTernan, que também serviu o ditador instalado pela CIA no Iraque, Iyad Allawi. Ao apelar à repetição da invasão de um país que o seu antigo mestre ajudou a destruir, ele não faz qualquer referência às mortes de pelo menos 700 mil pessoas, a fuga de quatro milhões de refugiados e a tempestade sectária numa nação que outrora orgulhava-se da sua tolerância conjunta.

"Blair corporifica a corrupção e a guerra", escreveu em 2 de julho o radical colunista do Guardian, Seumas Milne, numa peça inspirada. Isto é o que se conhece no comércio como "equilíbrio". No dia seguinte o jornal publicou um anúncio de página interna de um bombardeiro furtivo americano. Sobre uma imagem ameaçadora do bombardeiro constavam as palavras: "O F-35. Bom para a Grã-Bretanha". Esta outra corporificação da "corrupção e da guerra" custará aos contribuintes britânicos £1,3 bilhões, tendo os seus antecessores modelo F massacrado povos por toda a parte no mundo em desenvolvimento.

Numa aldeia do Afeganistão, habitada pelos mais pobres dos pobres, filmei Orifa, ajoelhada nos túmulos do seu marido, Gul Ahmed, um tecelão de tapetes, e de sete outros membros da sua família, incluindo seis crianças, e duas crianças que foram mortas na casa adjacente. Uma bomba de "precisão" com 500 libras caiu diretamente sobre a sua pequena casa de barro, pedra e palha, deixando uma cratera com 50 pés de largura. A Lockheed Martin, o fabricante do avião, tinha lugar de destaque no anúncio do Guardian.

A antiga secretária de Estado e aspirante à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, foi recentemente à "Women's Hour" da BBC, a quinta-essência da respeitabilidade na mídia. A apresentadora, Jenni Murray, considerou Clinton como um farol do êxito feminino. Ela não recordou aos seus ouvintes acerca da abominação de Clinton que invadiu o Afeganistão para "libertar" mulheres como Orifa. Ela nada perguntou a Clinton acerca da sua campanha de terror utilizando drones para matar mulheres, homens e crianças. Não houve menção à ameaça ociosa de Clinton, enquanto em campanha para ser a primeira mulher presidente, de "eliminar" o Irã. Tão pouco acerca do seu apoio à vigilância ilegal em massa e à perseguição de denunciantes.

Murray perguntou-lhe uma questão delicada. Clinton havia perdoado Monica Lewinsky por ter um caso com o seu marido? "Perdoar é uma opção", disse Clinton, "para mim, era absolutamente a opção certa". Isto rememorou a década de 1990 e os anos gastos com o "escândalo" Lewinsky. O presidente Bill Clinton estava então a invadir o Haiti e a bombardear os Bálcãs, a África e o Iraque. Ele estava também a destruir vidas de crianças iraquianas; a UNICEF relatou a morte de meio milhão de crianças iraquianas com menos de cinco anos em consequência do embargo efetuado pelos EUA e a Grã-Bretanha. 

As crianças foram ignoradas pela mídia, assim como as vítimas de Hillary Clinton nas invasões que ela apoiou e promoveu – Afeganistão, Iraque, Iêmen, Somália – são ignoradas pela mídia. Murray não lhes fez referência. Uma fotografia dela e da sua distinta convidada, radiante, aparece no sítio web da BBC.

Na política, tal como no jornalismo e nas artes, parece que a discordância outrora tolerada na mídia "de referência" regrediu para dissidência: uma clandestinidade metafórica. Quando comecei minha carreira na Fleet Street na Grã-Bretanha, na década de 1960, era aceitável criticar o poder ocidental como uma força predadora. Ler as celebradas reportagens de James Cameron sobre a bomba de hidrogênio no Atol de Bikini, a bárbara guerra na Coreia e o bombardeamento americano do Vietnã do Norte. A grande ilusão de hoje é de uma era da informação quando, na verdade, vivemos numa era da mídia na qual a propaganda corporativa incessante é insidiosa, contagiosa, eficaz e liberal.

No seu ensaio "On Liberty", de 1859, ao qual os liberais modernos prestam homenagem, John Stuart Mill escreveu: "Despotismo é um modo legítimo de governo ao tratar com bárbaros, desde que o objetivo seja o seu aperfeiçoamento e os meios justificados pelos que realmente atuam para aquele fim". Os "bárbaros" eram vastas parcelas da humanidade da qual era exigida "implícita obediência". "É um mito bonito e conveniente o de que os liberais são pacifistas e os conservadores belicosos", escreveu o historiador Hywel Williams em 2001, "mas o imperialismo pelo caminho liberal pode ser mais perigoso por causa da sua natureza ilimitada: sua convicção de que representa uma forma de vida superior". Ele tinha em mente um discurso de Blair no qual o então primeiro-ministro prometia "reordenar o mundo em torno de nós" de acordo com os seus "valores morais".

Richard Falk, respeitada autoridade sobre direito internacional e Relator Especial da ONU sobre a Palestina, certa vez descreveu "um quadro legal/moral farisaico, unilateral, com imagens positiva dos valores ocidentais e de inocência retratada como ameaçada, validando uma campanha de violência política irrestrita". Isto é "tão amplamente aceito ao ponto de ser virtualmente indiscutível".

Os guardiões são premiados com estabilidade e patrocínio. Na Radio 4 da BBC, Razia Iqbal entrevistou Toni Morrison, a afro-americana laureada com o Nobel. Morrison perguntou porque o povo estava "tão irado" com Barack Obama, que era "cool" e desejava construir uma "economia forte e cuidados de saúde". Morrison estava orgulhosa por ter conversado ao telefone com o seu herói, o qual havia lido um dos seus livros e convidara-a para a sua posse.

Nem ela nem sua entrevistadora mencionaram os sete anos de guerra de Obama, incluindo sua campanha de terror através de drones, na qual famílias inteiras, equipes de resgate e parentes enlutados foram assassinados. O que parecia importar era que um homem de cor que "falava com elegância" havia ascendido ao comando nas alturas do poder. Em "Os condenados da terra", Frantz Fanon escreveu que a "missão histórica" do colonizado era servir como uma "linha de transmissão" àqueles que dominavam e oprimiam. Na era moderna, o emprego da diferença étnica nas potências ocidentais e seus sistema de propaganda é agora considerada como essencial. Obama sintetiza isto, embora o gabinete de George W. Bush – sua clique belicosa – fosse o mais multirracial da história presidencial.

Quando a cidade iraquiana de Mossul caiu nas mãos dos jihadistas do ISIS, Obama disse: "O povo americano fez enormes investimentos e sacrifícios a fim de dar aos iraquianos a oportunidade de traçar um melhor destino". Quão "cool" é aquela mentira? Quão "elegante" foi o discurso de Obama na academia militar de West Point em 28 de maio. Ao apresentar o seu discurso dos "estado do mundo" na cerimônia de graduação daqueles que "levarão a liderança americana" através do mundo, Obama disse: "Os Estados Unidos utilizarão força militar, unilateralmente se necessário, quando nossos interesses essenciais o exigirem. A opinião internacional importa, mas a América nunca pedirá permissão..."

Ao repudiar o direito internacional e os direitos de nações independentes, o presidente americano afirma uma divindade baseada no poder da sua "nação indispensável". É uma mensagem familiar de impunidade imperial, embora sempre reforçada a fim ser ouvida. Evocando a ascensão do fascismo na década de 1930, Obama disse: "Acredito no excepcionalismo americano com toda a fibra do meu ser". O historiador Norman Pollack escreveu: "Para os incondicionais (goose-steppers), substitui a aparentemente mais inócua militarização da cultura total. E para o líder bombástico, temos o reformador fracassado, a trabalhar alegremente para planejar e executar assassinatos, a sorrir o tempo todo".

Em fevereiro, os EUA montaram um dos seus golpes "coloridos" contra o governo eleito da Ucrânia, explorando protestos genuínos contra a corrupção em Kiev. A secretária de Estado assistente, Victoria Nuland, seleccionou pessoalmente o líder de um "governo interino". Ela alcunhou-o como "Yats". O vice-presidente Joe Biden veio a Kiev, tal como o diretor da CIA John Brennan. As tropas de choque do seu putsch foram fascistas ucranianas. 

Pela primeira vez desde 1945 um partido neo-nazista, abertamente anti-semita, controla áreas chave do poder de estado numa capital europeia. Nenhum líder europeu ocidental condenou esta ressurreição do fascismo na fronteira através da qual invasores nazistas ceifaram milhões de vidas russas. Eles foram apoiados pelo Ukrainian Insurgent Army (UPA), responsável pelo massacre de judeus e russos a quem chamam "insetos". O UPA é a inspiração histórica nos dias de hoje do Partido Svoboda e seus companheiros de viagem do Right Sector. O líder do Svoboda, Oleg Tyahnybok, conclamou a um expurgo da "máfia moscovita-judaica" e "outra escória", incluindo gays, feministas e aqueles na esquerda política.

Desde o colapso da União Soviética, os Estados Unidos têm cercado a Rússia com bases militares, aviões de guerra e mísseis nucleares, no âmbito do seu Projeto de Ampliação da NATO. Renegando uma promessa feita em 1990 ao presidente soviético Mikhail Gorbachev de que a NATO não se expandia "nem uma polegada para Leste", a NATO efetivamente ocupou militarmente o Leste da Europa. No antigo Cáucaso soviético, a expansão da NATO constitui a maior acumulação militar desde a Segunda Guerra Mundial.

Um Plano de Ação para a pertença à NATO é a prenda de Washington para o regime golpista de Kiev. Em agosto, a "Operação Tridente Rápido" colocará tropas americanas e britânicas na fronteira russa da Ucrânia e a operação "Brisa Marítima" enviará navios de guerra estadunidenses frente a portos russos. Imagine a resposta se estes atos de provocação, ou intimidação, fossem executados nas fronteiras da América.
Ao recuperar a Crimeia – a qual Nikita Kruschev ilegalmente destacara da Rússia em 1954 – os russos defenderam-se como haviam feito durante quase um século. Mais de 90 por cento da população da Crimeia votou pelo retorno do território à Rússia. A Crimeia é a base da Frota do Mar Negro e sua perda significaria a vida ou a morte da Armada Russa e um prêmio para a NATO. Confundindo os partidos da guerra em Washington e Kiev, Vladimir Putin retirou tropas da fronteira ucraniana e instou russos étnicos no Leste da Ucrânia a abandonarem o separatismo.

Em modo orwelliano, isto foi invertido no Ocidente para a "ameaça russa". Hillary Clinton comparou Putin com Hitler. Sem ironia, comentadores alemães de direita disseram o mesmo. Na mídia, os neo-nazistas ucranianos são tornados aceitáveis como "nacionalistas" ou "ultra-nacionalistas". O que eles temem é que Putin está habilmente a procurar uma solução diplomática – e pode ter êxito. Em 17 de junho, respondendo à mais recente proposta acomodatícia de Putin – seu pedido ao Parlamento russo para revogar legislação que lhe dava o poder para intervir em prol de russos étnicos na Ucrânia – o secretário de Estado John Kerry emitiu outro dos seus ultimatos. A Rússia deve "atuar dentro das próximas horas, literalmente" para acabar com a revolta no Leste da Ucrânia. Apesar de Kerry ser amplamente reconhecido como um bufão, o objetivo grave destas "advertências" é conferir o estatuto de pária à Rússia e suprimir notícias da guerra do regime de Kiev ao seu próprio povo.
Um terço da população da Ucrânia é de falantes do russo e bilíngues. Eles têm desde há muito procurado uma federação democrática que reflita a diversidade étnica da Ucrânia e seja autônoma e independente de Moscou. A maior parte não é nem "separatista" nem "rebelde" mas cidadãos que querem viver com segurança na sua pátria. O separatismo é uma reação aos ataques da junta de Kiev sobre eles, causando a fuga de 110 mil (estimativa da ONU) para a Rússia através da fronteira. Tipicamente, são mulheres e crianças traumatizadas.

Tal como as crianças do Iraque sob embargo e as mulheres e meninas do Afeganistão "libertado", aterrorizadas pelos senhores da guerra da CIA, este povo de etnia russa da Ucrânia é ignorado pela mídia do ocidente, o seu sofrimento e as atrocidades contra ele cometidas são minimizadas ou silenciadas. Nenhum sentido da escala do assalto do regime é refletido na mídia de referência ocidentais. Isto não é sem precedentes. Relendo a obra magistral de Philip Knighteley, "The first casualty: the war correspondent as hero and myth-maker from the Crimea to Iraq", reitero minha admiração pelo Morgan Philips Price do Manchester Guardian, o único repórter ocidental a permanecer na Rússia durante a revolução de 1917 e a relatar a verdade de uma invasão devastadora pelos aliados ocidentais. Sem preconceitos e corajoso, só Philips Price perturbou o que Knightley chamou de um "escuro silêncio" anti-russo no ocidente.

No dia 2 de maio, em Odessa, 41 russos étnicos foram queimados vivos na casa dos sindicatos com a polícia a assistir. Há horrendas provas em vídeo. O líder do Right Sector, Dmytro Yarosh, louvou o massacre como "mais um dia brilhante na nossa história nacional". Na mídia americana e britânica, isto foi relatado como uma "tragédia obscura" resultante de "choques" entre "nacionalistas" (neo-nazistas) e "separatistas" (pessoas a colherem assinatura para um referendo sobre uma Ucrânia federal). O New York Times enterrou o assunto, tendo descartado como propaganda russa advertências acerca das políticas fascista e anti-semita dos novos clientes de Washington. O Wall Street Journal amaldiçoou as vítimas – "Incêndio fatal na Ucrânia provavelmente ateado pelos rebeldes, diz o governo". Obama congratulou a junta pela sua "contenção".

Em 28 de junho, o Guardian dedicou quase toda uma página a declarações do "presidente" do regime de Kiev, o oligarca Petro Poroshenko. Mais uma vez, a regra da inversão de Orwell foi aplicada. Não houve putsch, nenhuma guerra contra a minoria da Ucrânia; os russos eram culpados por tudo. "Queremos modernizar meu país", disse Poroshenko. "Queremos introduzir liberdade, democracia e valores europeus. Alguém não gosta disso. Alguém não gosta de nós por isso".

Nesta reportagem, o entrevistador do Guardian, Luke Harding, não desafiou estas afirmações, ou mencionou a atrocidade de Odessa, os ataques aéreos e de artilharia do regime contra áreas residenciais, a morte e sequestro de jornalistas, o ataque com bombas incendiárias a um jornal da oposição e a sua ameaça de "libertar a Ucrânia de excrementos e parasitas". O inimigo são "rebeldes, "militantes", "insurgentes", "terroristas" e sequazes do Kremlin. A atual campanha para culpar o governo russo pela queda do avião malaio faz parte desta propaganda. Na verdade, o crime da queda daquele avião civil é um resultado direto do putsch de Obama na Ucrânia. Evoca da história os fantasmas do Vietnã, Chile, Timor Leste, África do Sul, Iraque. Observa-se a reprodução das mesmas etiquetas, as mesmas falsas bandeiras. A Palestina é imã deste logro constante. A seguir à última carnificina de Israel em Gaza, com equipamento americano, de mais de 800 palestinos – incluindo 120 crianças – um general israelense escreve no Guardian: "Uma demonstração de força necessária".

Na década de 1970 encontrei Leni Riefenstahl e perguntei-lhe acerca dos seus filmes que glorificavam os nazistas. Utilizando técnicas de câmera e de iluminação revolucionárias, ela produziu uma forma documentário que hipnotizou os alemães. Foi o seu "O triunfo da vontade", que segundo se crê lançou o discurso de Hitler. Perguntei-lhe acerca da propaganda em sociedades que se imaginavam superiores. Ela respondeu que as "mensagens" nos seus filmes estavam dependentes não de "ordens de cima" mas de um "vazio submisso" na população alemã. "Isso incluía a burguesia liberal e educada?", perguntei-lhe. "Toda o mundo", respondeu, "e naturalmente a intelligentsia".

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