21 de julho de 2014

Ucrânia, objetivo centrado

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / Uma "tragédia mundial": foi assim que Barack Obama qualificou a destruição do avião malaio na Ucrânia, aquando da sua conversa por telefone com Vladimir Putin. No decorrer da qual acusou a Rússia de armar os rebeldes ucranianos fornecendo-lhes também mísseis antiaéreos. Por outras palavras, ele acusou Moscou de ser, direta ou indiretamente, responsável pela trágica morte de 298 pessoas oriundas de vários países do mundo. Versão validada por uma série de "provas" que os serviços secretos americanos difundiram via Kiev na mídia mundial, algumas horas apenas, depois do avião ter caído: entre elas, o telefonema em que um comandante rebelde relata a um coronel da Inteligência militar russo que as forças separatistas derrubaram o avião, juntamente com um vídeo que mostra, na área controlada pelos rebeldes, uma bateria russa Sa-11, à qual falta um míssil, aquele que teria abatido o avião.

Em seguida, o secretário de Estado Kerry disse à CNN ter as provas que Moscou não só forneceu aos separatistas mísseis Sa-11, mas que os havia treinado a utilizá- los. Nesta altura a comissão internacional de inquérito aparece como supérflua. As "provas" apresentadas por Washington teriam, com efeito, já demonstrado que o aparelho civil foi abatido, não por engano, mas deliberadamente (os vôos civis são identificados por um código especial), com uma bateria de mísseis russos por Ucranianos russos, de fato sob comando russo, que imediatamente após telefonaram para a Inteligência militar russa para confirmar a conclusão da destruição, sabendo portanto que todas as chamadas telefônicas são interceptadas.

Resultado: Moscou colocado no banco dos réus pela "comunidade internacional" (leia-se: Estados Unidos e seus aliados); os Ucranianos russos marcados como terroristas; a atenção da mídia focada na tragédia do avião, fazendo passar para segundo plano a tragédia do massacre israelense dos palestinos em Gaza.

Uma técnica comprovada, usada várias vezes por Washington, para fabricar o casus belli. Lembre-mo-nos, apenas, do incidente do golfo de Tonquim (o ataque por vedetas, lança-torpedos, norte-vietnamitas contra o contra-torpedeiro americano Maddox, em seguida provado falso), que em 1964 permitiu ao presidente Johnson ter carta branca do Congresso para alargar a guerra ao Vietnã do Norte. Ou, as provas sobre as armas de destruição maciça iraquianas, apresentadas pelo secretário de Estado Colin Powell ao Conselho de Segurança da Onu, (mais tarde reconhecidas como falsas pelo próprio Powell), que em 2003 permitiram ao presidente Bush ter carta branca do Congresso para atacar e ocupar o Iraque.

Pouco importa se, em 2024 ou mais tarde, surgir algum documento desclassificado dizendo que o avião malaio foi, intencionalmente, abatido, em 2014, por uma das baterias Sa-11 de fabricação russa, implantada, alguns dias antes, pelas forças armadas de Kiev à beira do território controlado pelos rebeldes, uma zona de guerra estranhamente não interdita aos vôos civis. E, que toda a operação havia sido organizada pelos serviços secretos dos Estados Unidos. O importante é o resultado atual: a acusação à Rússia, de ser responsável pela destruição premeditada do avião malaio, (ato que para Moscou seria suicida), permite que o presidente Barack Obama tenha carta branca do Congresso para expandir a nova Guerra Fria contra a Rússia. O Congresso, com efeito, adotou a 17 de julho, a "Russian Aggression Prevention Act of 2014" que garantiu à Ucrânia, à Geórgia e à Moldávia, o estatuto de "aliados principais dos Estados Unidos não-membros da Otan", autorizando o Presidente a fornecer a estes países, e a outros países de Leste, diretamente ou por intermédio da Otan, o máximo de ajuda militar e econômica com intenção anti-russa .

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