19 de agosto de 2014

5 razões pelas quais o vídeo de um repórter da Fox News sendo insultado no ar é magnífico

Em meio a uma noite quente de protestos, o repórter Steve Harrigan aprendeu algumas lições importantes

Ian Blair

Salon

Tradução / Ontem à noite, Steve Harrigan, da Fox News, aprendeu algumas lições importantes. O vídeo é uma pérola que surgiu da cobertura jornalística dos protestos em Ferguson, Missouri, depois da morte de Michael Brown, adolescente negro assassinado a tiros por um policial de Ferguson, branco, Darren Wilson. Durante a transmissão ao vivo no canal Fox News, o repórter Steve Harrigan foi confrontado por um manifestante nervoso. Harrigan acabava de dizer ao microfone que a comunidade de Ferguson estava ali fazendo infantilidades [porque], os “manifestantes dignos já tinham voltado para casa antes de escurecer”. É um vídeo incrível. Realmente. Aqui estão cinco razões:

1. O que está acontecendo em Ferguson, Missouri, não é brincadeira de criança. Não é. Realmente. Isto não precisa de explicação. Um adolescente negro foi morto. E estão fazendo piadas sobre as pessoas que estão chateados com isso.

2. Você é um filho da puta, cara. Você deveria saber que é um filho da puta, se se põe na rua a dizer coisas que só um filho da puta diz. Quando o manifestante confronta o jornalista, ele parece assustado diante da raiva do homem. Arregala os olhos, encolhe-se como criança que um adulto repreendeu por ter saído do cercadinho. Todo seu corpo broxa, murcha. Abaixa o microfone, afasta-o da boca, abaixa o microfone até a cintura, como se não entendesse de onde teria aparecido aquele homem, ou como se o homem estivesse falando alguma língua estrangeira. Não. Aquele homem fala inglês. Fala o inglês das ruas, forte e duro, como se a adrenalina lhe saísse também pela voz. Harrigan não entende nada. Nem reconhece as palavras. E lá fica, parado, de boca aberta, as mangas da camisa azul de colarinho enroladas, à frente, muito perto, a um passo de um homem que lhe pede que simplesmente compreenda de onde ele saiu e porque está ali.

3. O que é real reconhece o que é real. Essa é uma lei universal. Ciência ou sem ciência. É assim que é. Se você não me vê e não acredita em mim, é porque você não é real. Não há como explicar melhor. Olhem o rosto do homem, quando ele confronta a “imprensa”: tem o tronco tenso, como de um lutador no ringue, apenas constatando a presença intimidada de Harrigan. Ao mesmo tempo, a cabeça do homem está ligeiramente caída de lado, questionando, perguntando. “Quando alguém só mente e condena pessoas que nem conhece, em vez de mostrar o fato, contar a história, o público logo percebe a mentira”. Consumado mestre desse ofício, outro jornalista no estúdio, retoma o “pé”. Ainda ao vivo, falando do estúdio, o segundo jornalista: “Eis o que acontece quando a imprensa lança suas luzes brilhantes sobre as ruas”. É exatamente o que acontece. De fato, tem de continuar a acontecer. Tem de acontecer muitas vezes, outra vez, outra vez, de novo. E mais e mais.

4. Se você não vive isso, não tente fingir que sabe do que se trata. O que torna essa parte do vídeo ainda mais engraçada é a tentativa falhada da “imprensa”, de mostrar simpatia pelo calvário pelo qual passa aquele homem. “Estamos aqui. Viemos até aqui. Estamos tentando mostrar os fatos...” – diz Harrigan. Ah, é! Você faz televisão ao vivo, aí, do lado da estrada, bem longe de onde os protestos estão realmente acontecendo. Mas você acaba de chegar. No máximo, está aí há uma semana. Os moradores de Ferguson lidam com “os fatos” todos os dias. Aqui é vida real, cara.

5. A decisão e a firmeza das pessoas em Ferguson são mais fortes do que vocês pensam. Mais para o final do vídeo, um segundo manifestante segue Harrigan, que tenta ganhar novamente o controle da entrevista. No estúdio, Shep tenta parecer interessado na continuação da história. Harrigan não tem como fugir. Caminha, afastando-se do primeiro manifestante, e tenta resumir o que lhe parece que esteja acontecendo: “Deixe-me perguntar uma coisa: você está zangado porque o mandaram ficar na calçada e circular? Qual a fonte da sua zanga?” – Harrigan pergunta. A linguagem corporal do manifestante responde à pergunta. Vira-se de frente para a câmera, a camiseta-regata branca em destaque, cabeça levantada, como de um galo triunfante, para o céu, e sem parar de encarar a câmera (“Grupos diferentes? Com objetivos diferentes?!” – o manifestante pergunta, enquanto Harrigan vai falando). Mas ante a pergunta, o homem para, põe as mãos na cintura, o Meteor Man, e responde: “A fonte da minha zanga? Quer saber a fonte da minha raiva?” Pois lhe digo. “A fonte da minha zanga é ver meu povo – branco, ou preto, azul ou marron...”

Mas deixe-me cortar. O que se segue não importa. Ele bate no peito a cada sílaba, cada sílaba lhe bate no peito. Harrigan, que nada entende e não lê a linguagem corporal do homem faz-lhe mais uma pergunta: “O que você está disposto a fazer? Como consertar isso? O que você vai fazer?” O manifestante dá um passo atrás, cruza as mãos às costas, feito Morfeu em Matrix. Endireita as costas, bem retas. E dá uma resposta que congela Harrigan: “O que vou fazer é permanecer aqui com o meu povo todas as noites – toda a noite – sem travesseiro, sem cobertor. Com os como eu, ou meus irmãos”.

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