8 de agosto de 2014

A "Operação Estupidez" de Netanyahu

Quem está ganhando em Gaza?

Uri Avnery

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Como seria a história se tivesse sido escrita ao estilo da Operação "Penhasco Sólido" (também conhecida como "Limite Protetor")? 

Por exemplo:  Winston Churchill era um canalha.

Durante cinco anos manteve a população de Londres sob o fogo incessante da Luftwaffe alemã. Utilizou aos habitantes de Londres de escudos humanos na sua guerra louca. Enquanto a população civil estava exposta às bombas e foguetes, e sem a protecção de uma "cúpula de ferro", ele estava escondido no seu bunker debaixo do nº 10 de Downing Street.

Ele usou todos os habitantes de Londres como reféns. Quando os líderes alemães fizeram uma proposta generosa de paz, recusou-a por razões ideológicas dementes. Assim condenou a seu povo a um sofrimento inimaginável.

De vez em quando saía de seu esconderijo debaixo de terra para lhe tirarem uma foto em frente às ruínas e depois regressava à segurança de seu ninho de ratos. Mas para o povo de Londres dizia "As gerações futuras dirão que este foi o vosso melhor momento!"

A Luftwaffe alemã não teve outro remédio que prosseguir o bombardeamento sobre a cidade. Os seus comandantes anunciaram que só estavam a atingir objetivos militares, como as casas dos soldados britânicos, onde tinham lugar as reuniões militares.

A Luftwaffe alemã pediu aos habitantes de Londres que saíssem da cidade e, de fato, evacuou muitas crianças. Mas a maioria dos londrinos obedeceram ao apelo de Churchill de permanecer, condenando-se ao destino de "danos colaterais".

A esperança do alto comando alemão de que a destruição das suas casas e o assassinato dos seus familiares poderia induzir o povo de Londres a revoltar-se, afastar Churchill e o sua gang belicista, acabou por fracassar.

Os primitivos londrinos, cujo ódio aos alemães superava a sua lógica, seguiram as perversas instruções do covarde Churchill. A sua admiração por ele cresceu de dia para dia e no fim da guerra quase se tinha convertido num deus.

Uma estátua sua encontra-se ainda hoje em frente ao Parlamento em Westminster.

Quatro anos depois a roda da história inverteu-se. As forças aéreas britânicas e estadounidenses bombardearam as cidades alemãs e destruíram-nas por completo. Não ficou pedra sobre pedra, destruíram palácios gloriosos, apagaram tesouros culturais. "Civis não implicados" voaram em pedaços, foram queimados vivos ou simplesmente desapareceram. Dresden, uma das cidades mais belas da Europa, foi totalmente destruída em poucas horas por uma "tempestade de fogo".

O objetivo oficial era destruir a indústria de guerra alemã, mas não foi conseguido. O verdadeiro objetivo era aterrorizar a população civil com o fim de induzi-los a remover os seus líderes e capitular.

Isso não aconteceu. De fato, a única rebelião séria contra Hitler esteve a cargo de altos oficiais do exército (e fracassaram). A população civil não se revoltou. Pelo contrário. Numa de suas diatribes contra os "pilotos terroristas", Goebbels declarou: "Podem destruir nossas casas, mas não podem quebrar o nosso espírito!"

A Alemanha não capitulou até o último momento. Milhões de toneladas de bombas não foram suficientes. Só fortaleceram a moral da população e a sua lealdade ao Führer.

E assim chegamos a Gaza.

Toda a gente se pergunta: quem está a ganhar este combate?

Que deve ser respondida, à maneira judia, com outra pergunta: como avaliar?

A definição clássica da vitória é: o lado que fica no campo de batalha é o vencedor. Mas aqui ninguém se mexeu. O Hamas continua lá. Tal como Israel. Carl von Clausewitz, o teórico de guerra prussiano, pronunciou a célebre frase de que a guerra não é senão a continuação da política por outros meios. Mas nesta guerra nenhuma das partes tinha nenhum objetivo político claro. Por isso a vitória não pode ser avaliada dessa forma.

O bombardeio intensivo da Faixa de Gaza não resultou na capitulação do Hamas. Por outro lado, a campanha intensiva de foguetes lançados pelo Hamas, que alcançava a maior parte de Israel, também não resultou. O impressionante sucesso dos foguetes a chegar a todas as partes de Israel juntou-se ao impressionante sucesso da "Cúpula de Ferro" antifoguetes para os interceptar.

Então até agora estamos num beco sem saída.

Mas quando uma pequena força de combate num território pequeno consegue um confronto com um dos exércitos mais poderosos do mundo, isso pode considerar-se uma vitória.

A falta de um objetivo político de Israel é o resultado dum pensamento confuso. A liderança israelense, tanto política como militar, não sabe realmente como tratar com o Hamas.

Pode ser que já se tenham esquecido de que o Hamas é em grande parte uma criação de Israel. Durante os primeiros anos da ocupação, quando reprimia brutalmente qualquer atividade política na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, o único lugar em que os palestinos se podiam reunir e organizar-se era a mesquita.

Nesse momento, a Fatah era considerada o arqui-inimigo de Israel. A liderança israelense satanizava Yasser Arafat, o arqui-arquiterrorista. Os islâmicos, que odiavam Arafat, eram considerados o mal menor, até mesmo aliados secretos.

Uma vez perguntei ao chefe do Shin Bet se a sua organização tinha criado o Hamas. A sua resposta: "Nós não os criamos. Toleramo-los".

Isto só mudou um ano após o início da primeira Intifada, quando o líder do Hamas, o Sheik Ahmad Yassin foi preso. Desde então, claro, a realidade inverteu-se completamente: a Fatah é agora um aliado de Israel do ponto de vista de segurança e o Hamas é o arqui-arqui-terrorista.

Mas será mesmo?

Alguns responsáveis israelenses dizem que se não existisse o Hamas teria de ser inventado. O Hamas controla a Faixa de Gaza. Pode ser considerado responsável pelo que ali sucede. Fornece a lei e o ordem. É um parceiro de confiança para um cessar-fogo.

As últimas eleições palestinas, que se realizaram sob supervisão internacional, resultaram na vitória de Hamas, tanto na Margem Ocidental como na Faixa de Gaza. Quando negaram o poder ao Hamas, tomou-o à força na faixa de Gaza. Segundo todas as fontes fiáveis, goza da lealdade na grande maioria no território.

Todos os especialistas israelenses concordam que se o regime de Hamas caísse em Gaza, grupos islâmicos dissidentes bem mais extremistas tomariam o poder e afundariam a Faixa, com os seus 1,8 milhões de habitantes, num caos total. Os especialistas militares não gostam disso.

Então o objetivo da guerra, se é que se lhe pode chamar isso, não é destruir o Hamas, mas deixá-lo no poder, embora num estado bem mais enfraquecido.

Mas, pelo amor de Deus, como se pode fazer isso?

Uma maneira, exigida agora pelos ultradireitistas no Governo, é ocupar toda a Faixa de Gaza.

Ao qual os líderes militares voltam a responder com uma pergunta: E depois?

Uma nova ocupação permanente da Faixa é um pesadelo militar. Isto significaria que Israel assumiria a responsabilidade de pacificar e alimentar 1,8 milhões de pessoas (a maioria das quais, diga-se de passagem, são refugiados procedentes de Israel em 1948 e seus descendentes). Seguir-se-ia uma guerra de guerrilha. Ninguém em Israel quer isso.

Ocupar e depois abandonar? Falar é fácil. A ocupação em si seria uma operação sangrenta. Se se adota a doutrina de "Chumbo Fundido", significaria mais de mil, quiçá vários milhares de mortos palestinos. Esta doutrina (não escrita) diz que se é preciso assassinar uma centena de palestinos para salvar a vida de um soldado israelense, que assim seja. Mas se as baixas israelenses ascendem ainda que apenas a umas dezenas de mortos, o estado de ânimo no país mudará por completo. O exército não quer correr esse risco.

Por um momento na terça-feira (15 de julho de 2014) parecia que se tinha conseguido um cessar-fogo para grande alívio de Binyamin Netanyahu e os seus generais.

Mas foi uma ilusão de ótica. O mediador foi o novo ditador egípcio, uma pessoa odiada pelos islâmicos de todo mundo. É um homem que matou e prendeu centenas de Irmãos Muçulmanos. É aliado militar declarado de Israel e cliente da generosidade estadounidense. Por outra parte, desde que o Hamas surgiu como um ramo da Irmandade Muçulmana egípcia, o general Abd-al-Fatah Al-Sisi odeia-os com todo o coração, e não o esconde.

Assim, em vez de negociar com o Hamas fez algo extremamente estúpido: ditar um cessar-fogo nas condições israelenses sem consultar o Hamas. Os líderes do Hamas ouviram falar do cessar-fogo pelos meios de comunicação e recusaram-no de imediato.

A minha opinião é que seria melhor que o exército israelensee o Hamas negociassem diretamente. Ao longo da história militar, os cessares-fogo foram negociados pelos comandantes militares. Um lado envia um oficial com uma bandeira branca ao comandante da outra parte e o cessar-fogo marca-se ou não. (Um famoso general americano respondeu a uma oferta alemã deste tipo com "Doidos!").

Na guerra de 1948, no meu setor da frente de batalha, um curto cessar-fogo foi organizado pelo Major Yerucham Cohen e um jovem oficial egípcio chamado Gamal Abd-al-Nasser.

Dado que isto parece impossível com as atuais partes, há que encontrar outro mediador realmente honesto.

Entretanto, Netanyahu foi empurrado pelos seus colegas/rivais a enviar as tropas para a Faixa, para tentar ao menos localizar e destruir os túneis cavados pelo Hamas em baixo da barreira fronteiriça para lançar ataques surpresa aos colonatos junto à fronteira.

Como é que isto vai acabar? Não terá um fim, só uma ronda após outra, a menos que se adote uma solução política.

Isto significaria: parar os foguetes e as bombas, pôr fim ao bloqueio israelense, permitir à população de Gaza uma vida normal, fomentar a unidade palestina sob um governo de verdadeira unidade, realizar negociações sérias de paz, FAZER A PAZ.

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