22 de agosto de 2014

Bombardeamentos? Menção a Deus? Barack Obama está seguindo o roteiro dos jihadistas depois da decapitação de James Foley

The President came the nearest he has come yet to rivalling George W Bush’s gormless reaction to 9/11

Robert Fisk

The Independent

Tradução / O califado tem produtores teatrais bastante estritos. Escreveram um sórdido e selvagem roteiro. O nosso trabalho é responder a cada uma das suas frases. Compreendem-nos o suficiente para saber o que diremos. Assim, decapitaram James Foley e ameaçam fazer o mesmo com um dos seus colegas. Que fazemos? Exatamente o que previ há 24 horas: converter a morte de Foley numa nova razão para continuar a bombardear o califado do EIIL.

E que mais nos provocaram a fazer, ou pelo menos ao presidente americano de férias? Uma guerra em estritos termos religiosos, que é exatamente o que eles queriam.

Barack Obama, antes de voltar ao campo de golfe, informou ao mundo que nenhum Deus justo permitiria (ao EIIL) fazer o que o grupo faz diariamente.

Aí têm: Obama converteu a barbárie do califado numa batalha inter-religiosa entre deuses rivais; o nosso (ocidental) e o deles (o Deus dos muçulmanos, claro). Isto é o mais que Obama se aproximou para rivalizar com a néscia reação de George W. Bush quando, ao referir-se ao 11 de setembro, afirmou que nos bateríamos numa cruzada.

Agora, claro, Obama não se referiu ao Deus muçulmano da mesma forma que Bush não tinha a intenção de mandar milhares de guerreiros cristãos a cavalo às terras bíblicas do Oriente  Médio. De fato, Bush só enviou guerreiros em tanques e helicópteros.

Obama mencionou também que as vítimas do califado são “muçulmanas na sua imensa maioria”, com o que deu a entender que o califado nem sequer é muçulmano, apesar do seu entusiasmo em intervir no Iraque no princípio deste mês não ter sido para ajudar esses milhares de pobres muçulmanos, mas porque o preocupava que cristãos e yazidis fossem perseguidos. E, então, existia o perigo potencial de que houvesse vítimas americanas, fato que os homens de Abú Bakr Bagdadi compreenderam muito bem. Por isso assassinaram o pobre James Foley. Não por ser jornalista, mas por ser americano; um dos americanos que Obama prometeu defender no Iraque.

Independentemente de Obama se esquecer que tinha reféns de nacionalidade americana na Síria, a tentativa de resgate levada a cabo pelo exército dos Estados Unidos pelo menos prova que sabiam que Foley estava na Síria. Mas, porque é que o EIIL está na Síria? Pois para derrotar o governo de Assad, claro, que é o mesmo que nós tentamos fazer, certo?

Fiquei chocado quando ouvi Obama dizer: Algo em que todos nós (sic) podemos estar de acordo é que um grupo como o EIIL não tem lugar no século XXI. Por que raio Obama achou que pode dizer aos muçulmanos o que um Deus justo pode ou não pode fazer? O presidente lamentou a guerra de Bush no Iraque, mas não se dá conta de que milhões de muçulmanos no Iraque não acham que um Deus justo aceite a invasão americana ao seu país em 2003, ou que dezenas de milhares de iraquianos tenham sido assassinados pelas mentiras de Bush e de Blair.

É o mesmo discurso pedante que o velho malandro do Bill Clinton usou para se dirigir ao Parlamento jordano após o impopular tratado do rei Hussein com Israel; quando afirmou que todos os grupos muçulmanos que se opuseram ao acordo eram formados por homens do passado.

Por alguma razão, na verdade achamos que os muçulmanos do Oriente  Médio precisam que lhes contemos a sua história e lhes expliquemos o que os beneficia ou os prejudica.

Os muçulmanos que estão de acordo que o assassinato de Foley foi um repugnante crime contra a humanidade foram insultados por um cristão que lhes disse o que um Deus justo aprovaria ou desaprovaria. E os que apoiaram o assassinato estarão ainda mais convencidos de que os Estados Unidos são, muito justificadamente, inimigos de todos os muçulmanos.

Quanto ao sinistro verdugo britânico John, inclino-me a pensar que viveu entre Newcastle, Tyne ou Gateshead, pois dado que passei algum tempo em Tyne achei que escutei uma pitada do sotaque característico dessa região.

Mas John bem pode ser francês, russo ou espanhol. Não é isso que está mal na sua cabeça; trata-se de um fenômeno que afeta muitos outros jovens, e milhares farão o mesmo que ele.

Como foi que, por exemplo, um australiano permitiu que o seu filho posasse com a cabeça decapitada de um soldado sírio? (Um militar que servia no exército de Assad, cujo governo juramos derrotar).

E como responderam os nossos serviços de segurança? Com as suas tolices habituais, dando a entender que o simples fato de ver esses horríveis vídeos de execuções poderia constituir um crime terrorista. Que tipo de idiotice é esta?

Pessoalmente, acho igualmente ofensivo filmar – para depois mostrar na televisão – o assassinato em massa de seres humanos mediante bombardeamentos. Mas apesar disso mostramo-los, não é assim? Repetidamente convidam-nos a observar nas nossas telas de televisão os aviões e drones a apontar ao alvo nas supostas posições dos combatentes do EIIL e a imaginar a sua morte dentro da bola de fogo que calcina os seus veículos. Que não possamos ver os seus rostos não torna isso menos obsceno. Claro, as suas atividades são o oposto daquilo por que lutava Foley, mas na verdade todos são militantes? Ainda não ouvimos essa aberrante maldição linguística: dano colateral, mas estou certo de que em breve ouviremos.

Que farão os nossos chefes de segurança? Converter em crime terrorista ver os vídeos das ações militares americanas? Duvido, a não ser que nas filmagens se mostre o sangrento assassinato de muitos civis. Então sim poderiam argumentar, com justa razão, que ao vê-los se alimenta o terrorismo. E então teríamos que deixar de cobrir as guerras.

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