8 de agosto de 2014

Bombas! Estados Unidos para o resgate - mas só de algumas minorias, e não muçulmanos

Obama’s air strikes on Isis in northern Iraq are hypocritical, and a sense of déjà vu is understandable

Robert Fisk

The Independent

Tradução / Não quis bombardear o califado sangrento de Abu Bakr al Baghdadi quando ele estava massacrando a maioria muçulmana de xiitas do Iraque. Mas Barack Obama vai ao encontro do resgate dos refugiados cristãos – e dos yazidis– devido a “um possível ato de genocídio”. A bombardear. E graças aos céus que os refugiados em questão não são palestinos.

Esta hipocrisia quase nos deixa sem alento, sobretudo porque o presidente dos Estados Unidos ainda está muito assustado – por medo de desagradar os turcos – para usar a palavra “G” para o genocídio de 1915 da Turquia de um milhão e meio de cristãos armênios, um massacre massivo em uma escala que, até mesmo os matadores de Abu Bakr ainda não tentaram fazer. Vamos ter que esperar outro ano para ver como Obama liderá com as comemorações do 100º aniversário desse particular massacre muçulmano dos cristãos.

Entretanto, por ora, os “Estados Unidos chegam a ajudar” no Iraque com os ataques aéreos sobre os comboios de combatentes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Mas, por acaso não é isso o que os americanos protagonizaram contra os talibãs no Afeganistão, frequentemente confundindo comemorações inocentes com militantes do EIIL? Deixar cair pacotes de alimentos para a minoria de refugiados por medo de arriscarem suas vidas nas ladeiras das montanhas peladas do norte do Iraque é exatamente a mesma operação que as forças americanas realizaram para os curdos quase um quarto de século atrás; e, ao final, tiveram que colocar soldados americanos e britânicos no terreno para criar um “refúgio seguro” para os curdos.

Obama também não disse nada sobre seu amigável aliado, a Arábia Saudita, cujos salafistas são a inspiração e a arrecadação de fundos para as milícias sunitas do Iraque e da Síria, da mesma forma como foram para os talibãs no Afeganistão. O muro entre os sauditas e os monstros que criam – e que os Estados Unidos agora bombardeiam – deve se manter tão alto quanto invisível. Essa é a medida de dissimulação americana neste último ato de duplicidade. Obama está bombardeando os amigos de seus aliados sauditas – e inimigos próximos do regime de Al Assad na Síria, certamente –, mas não revelará. E somente por acaso, ele acredita que os Estados Unidos devem atuar em defesa de seu consulado em Arbil e na embaixada em Bagdá.

Essa é a mesma desculpa que os Estados Unidos utilizaram quando dispararam seus canhões navais para as montanhas Shouf, no Líbano, há trinta anos: que os chefes militares pró-Síria do Líbano estavam colocando em perigo a Embaixada americana em Beirute. É tão pouco provável que os islâmicos tomem Arbil como que tomem Bagdá. Obama diz que tem um “mandato” para bombardear do governo iraquiano de Nouri al Maliki, escolhido, porém ditatorial xiita que atualmente comanda o Iraque como um Estado quebrado e sectário. Como nós ocidentais amamos os “mandatos”, desde o Tratado de Versalles de 1919, que desenhou as fronteiras do Oriente Médio para nossos “mandatos”, as mesmas fronteiras que atualmente o califado de Abu Bakr jurou destruir. Não restam muitas dúvidas acerca do terrível e igualmente sectário EIIL que Abu Bakr está criando.

Sua ameaça aos cristãos do Iraque – se convertam, paguem impostos ou morram – agora se voltou contra os yazidis, a pequena seita inofensiva, cujas raízes persas assírias, com rituais cristãos e islâmicos e o perdão divino os condenaram, assim como aconteceu com os cristãos. Os curdos étnicos, os pobres velhos yazidis acreditam que Deus, cujos sete anjos supostamente governam a Terra, perdoou Satabás: assim, inevitavelmente, este antigo povo chegou a ser considerado como adorador do diabo. Daí que seus 130 mil refugiados – pelo menos 40 mil dos quais vivem nas montanhas em pelo menos nove lugares ao redor do Monte Sinjar– contam histórias de violação, assassinato e mortes de crianças pelas mãos dos homens de Abu Bakr. Desgraçadamente, tudo pode ser verdade.

Os yazidis provavelmente são descendentes dos apoiadores do segundo califado Omíada, Yazid I; seu conflito com Hussein e al-Zubair, filho de Ali –cujos seguidores são agora os xiitas do Oriente Médio -, poderiam teoricamente ter elogiado os yazidis ao exército muçulmano sunita de Abu Bakr. Mas seus rituais mesclados e sua negação do mal nunca encontrariam o favor de um grupo que –como a Arábia Saudita e os talibãs – acreditam “na supressão do vício e na propagação da virtude”. Nas falhas geológicas que estão no Antigo Curdistão, na Armênia e o que era a Mesopotâmia, a história deu uma mão má aos yazidis.

Mas por eles, e pelos nestorianos e outros grupos cristãos, Obama já foi à guerra. Os franceses, com seus velhos ímpetos de cruzados revividos, pediram ao Conselho de Segurança que reflita sobre este pogrom cristão. Mas a pergunta persiste: os Estados Unidos teriam feito o mesmo se os refugiados do norte do Iraque fossem palestinos? Ou a última campanha de bombardeios de Obama simplesmente proporcionará uma providencial distração dos campos de extermínio de Gaza?

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