19 de agosto de 2014

Como o Estado Islâmico se tornou a máquina de guerra que é hoje

Patrick Cockburn

Vice

Tradução / Na segunda metade de 2013, comecei a escrever sobre os jihadistas que estavam formando a oposição armada na Síria; na mesma época, várias evidências mostravam que o Estado Islâmico, anteriormente conhecido como Al-Qaeda no Iraque, ganhava força rapidamente. Meu jornal, o The Independent, pediu que eu nomeasse um “homem do ano” para o Oriente Médio, e eu escolhi Abu Bakr al-Baghdadi, a sombria figura que tinha se tornado líder do grupo em 2010.

Alguns dias depois, em 3 de janeiro de 2014, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, conhecido no Ocidente pela sigla ISIS, chegou a Falluja e o governo local se mostrou incapaz de retomar o controle dessa cidade. Isso não foi tão alarmante quanto poderia ser: o primeiro-ministro iraquiano estava enfatizando a ameaça mortal de uma contrarrevolução sunita na província Anbar para assustar a maioria xiita, fazendo com que o grupo votasse nele nas eleições parlamentares de 30 de abril e se esquecesse da corrupção no governo e da falta de serviços básicos. Achei que o fracasso em recapturar a cidade talvez fosse uma estratégia eleitoral e que um ataque definitivo seria lançado depois das eleições.

Mas iraquianos bem informados me disseram que o fracasso na retomada de Falluja e em derrotar o ISIS em Anbar e no norte do Iraque não foi por falta de tentativas. Ao todo, 5 das 15 divisões do exército iraquiano tinham sido mobilizadas em Anbar e foram submetidas a perdas pesadas e muitas deserções. Os soldados estavam sendo mandados à frente de batalha só com quatro cartuchos de munição para suas AKs-47. Soldados passavam fome, porque os comandantes tinham desviado o dinheiro da alimentação enquanto alguns batalhões estavam atuando com um quarto de suas forças. No Iraque, um país tão rico em petróleo, combustível para os veículos do exército estava em falta. “O exército vem sofrendo uma derrota significativa em Anbar”, me garantiu um ex-ministro iraquiano em abril.

Apesar desses alertas, fiquei chocado um mês depois, quando, no dia 10 de junho, Mossul caiu quase sem luta. Todas as histórias depreciativas que eu tinha ouvido sobre o exército iraquiano – como as de que se tratava de uma instituição falsa na qual os comandantes compravam seus postos para poder enriquecer com propinas e desvios – se mostraram verdade. Os soldados rasos podem ter fugido em Mossul, mas não tão rápido quanto seus generais, que logo apareceram em trajes civis em Arbil, a capital curda. Ficou aparente nos anos anteriores que o ISIS era comandado com uma mistura arrepiante de fanatismo religioso e eficiência militar. Sua campanha para tomar o norte e o oeste daquele país foi habilmente planejada, escolhendo alvos fáceis e evitando posições bem defendidas, ou, como o próprio ISIS colocou, se movendo “como uma serpente entre as pedras”.

Era evidente que os governos ocidentais tinham interpretado mal a situação no Iraque e na Síria. Por dois anos, políticos iraquianos alertaram quem quisesse escutar que se a guerra civil na Síria continuasse, ela desestabilizaria o frágil status quo do Iraque. Quando Mossul caiu, todo mundo culpou Maliki, que realmente tinha muitas perguntas a responder, mas a causa real do fracasso no país foi a guerra do outro lado da fronteira. A revolta dos sunitas sírios tinha causado uma explosão similar no Iraque. Maliki tratava as províncias sunitas como um país conquistado, mas os sunitas iraquianos não teriam se levantado novamente sem o exemplo e o incentivo de seus colegas sírios. A ascensão do ISIS, que fez o grupo ser capaz de agir como tropas de choque de uma revolta sunita geral, pode ainda ser reversível. Mas a ofensiva deles no verão de 2014 possivelmente acabou para sempre com o estado dominado pelos xiitas, que tinham subido ao poder com a invasão norte-americana de 2003.

A queda de Mossul foi apenas o último de uma série de eventos desagradáveis e inesperados no Oriente Médio, que pegaram o mundo exterior de surpresa. A região sempre foi um terreno traiçoeiro para intervenções estrangeiras, mas muitas das razões para o fracasso do Ocidente em ler a situação política do outro lado do globo são recentes e autoinfligidas. A resposta dos EUA aos ataques de 11 de Setembro, em 2001, visou os países errados: Afeganistão e Iraque foram identificados como os Estados hostis a serem derrubados. Enquanto isso, os dois países mais envolvidos com a Al-Qaeda e que favoreciam a ideologia por trás dos ataques, a Arábia Saudita e o Paquistão, continuavam quase ignorados.

Ambos eram aliados antigos dos EUA e continuaram a ser – independentemente do 11 de Setembro. A Arábia Saudita pode estar retirando seu patrocínio aos combatentes jihadistas na Síria e em todo lugar do mundo por medo um efeito bumerangue dentro do próprio reino. O primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, pode insistir que está fazendo de tudo para livrar os serviços de segurança de sua nação de elementos extremistas. Mas até que os EUA e seus aliados no Ocidente reconheçam que esses Estados são fundamentais na promoção do extremismo islâmico, pouco progresso real será feito na batalha para isolar os jihadistas.

E não foram só os governos que entenderam tudo errado. Os reformistas e revolucionários também se enganaram ao considerar os levantes da “Primavera Árabe” de 2011 como um golpe mortal nos antigos regimes autoritários da região. Por um breve momento, sectarismo e ditadura pareciam estar desmoronando; o mundo árabe estava às portas de um novo futuro, livre de ódio religioso, em que inimigos políticos acertavam suas diferenças em eleições democráticas. Três anos depois, com os movimentos democráticos tendo recuado por toda a região diante do sucesso da contrarrevolução e uma violência sectária cada vez maior, esse entusiasmo parece ingênuo. Vale a pena analisar por que alternativas revolucionárias progressistas, em oposição a estados policiais e movimentos jihadistas como o ISIS, falharam tão completamente.

As revoluções e levantes populares de 2011 eram genuínos como quaisquer outros da história, mas a maneira como foram percebidos, particularmente no Ocidente, foi seriamente errada.

O inesperado é da natureza das mudanças revolucionárias: sempre acreditei que se eu podia perceber a chegada de uma revolução, o chefe da inteligência das forças de segurança egípcias também podia. E ele faria todo o possível para evitar isso. Revoluções de verdade acontecem de uma coincidência imprevisível e surpreendente, com eventos de diferentes motivações acontecendo ao mesmo tempo, visando a derrubar um inimigo comum como Hosni Mubarak ou Bashar al-Assad. As raízes políticas, sociais e econômicas dos levantes de 2011 são muito complexas. Isso não ficou óbvio naquele momento parcialmente, porque comentaristas estrangeiros exageraram o papel das novas tecnologias de informação nesses eventos.

Os manifestantes, habilidosos em propaganda, viram a vantagem de apresentar os levantes como revoluções de “veludo”, com blogueiros e tuiteiros educados e falantes de inglês na vanguarda. O propósito deles: transmitir ao publico do Ocidente que os novos revolucionários eram parecidos com ele e que aqueles acontecimentos no Oriente Médio em pleno 2011 eram algo como os levantes anticomunistas e pró-Ocidente no Leste Europeu depois de 1989.

As exigências da oposição eram apenas sobre liberdades pessoais: desigualdades sociais e econômicas eram raramente declaradas como questões pertinentes, mesmo quando elas eram as razões da raiva popular contra o status quo. Um ano ates da revolta síria, o centro de Damasco era cheio de lojas e restaurantes chiques, enquanto a maioria dos sírios via seus salários estagnados diante da alta nos preços. Agricultores, arruinados por quatro anos de seca, estavam se mudando para favelas na periferia das cidades. A ONU reportou que algo entre 2 milhões e 3 milhões de sírios estavam vivendo em “pobreza extrema”. Pequenas fábricas estavam fechando por causa da concorrência das importações mais baratas da Turquia e China. A liberalização econômica, elogiada pelos capitais estrangeiros, estava concentrando riquezas rapidamente nas mãos de poucas pessoas bem relacionadas politicamente. Mesmo membros da Mukhabarat, a polícia secreta, tentavam sobreviver com US$ 200 por mês.

Um relatório do International Crisis Group apontou que a elite síria “tinha herdado poder em vez de ter lutado por ele e imitava a classe alta urbana”. O mesmo aconteceu com as famílias quase monárquicas e seus associados que operavam de maneira parecida no Egito, Líbia e Iraque. Confiantes na proteção de seus Estados policiais, elas ignoraram o sofrimento do resto da população, especialmente dos numerosos jovens subempregados apesar de educados, que quase não acreditavam mais que poderiam ter uma vida melhor.

Uma ilusão simplória, de que a maioria dos problemas desapareceria quando democracias tivessem substituído os antigos Estados policiais, estava no centro dos novos governos reformistas no Oriente Médio, seja no Iraque em 2005 ou na Líbia em 2011. Movimentos de oposição, perseguidos localmente ou vivendo à míngua no exílio, foram tranquilizados por tal noção e eram fáceis de vender aos patrocinadores estrangeiros. No entanto, uma grande desvantagem de ver as coisas dessas maneira era que Saddam, Assad e Kadafi eram tão demonizados que seria difícil criar qualquer coisa próxima de um compromisso ou transição pacífica do velho para o novo regime.

No Iraque em 2003, ex-membros do Partido Baath foram demitidos, empobrecendo assim uma grande parte da população, que não teve outra alternativa a não ser lutar. A oposição síria se recusou a participar das negociações de paz em Genebra em 2014 se Assad tivesse qualquer papel nelas apesar de as áreas da Síria sob o controle dele serem o lar da maioria da população. Essas políticas de exclusão eram também uma maneira de garantir empregos para os garotos da oposição. Mas acabaram aprofundando divisões sectárias, étnicas e tribais, fornecendo mais ingredientes para a guerra civil.

Qual a cola que deveria manter juntos esses Estados pós-revolucionários? O nacionalismo não é bem visto no Ocidente, considerado uma máscara do racismo e do militarismo, supostamente fora de moda numa era de globalização e intervenções humanitárias. Mas intervenções no Iraque em 2003 e na Líbia em 2011 acabaram sendo muitos similares às tomadas imperialistas do século 19. Houve discussões bizarras sobre “construção de nações” a serem realizadas ou assistidas por potências estrangeiras que claramente tinham seus próprios interesses em mente, assim como a Inglaterra quando Lloyd George orquestrou o entalhe do Império Otomano. A justificativa dos líderes árabes que tomaram o poder nos anos 60 é que eles poderiam criar Estados poderosos capazes, finalmente, de dar realidade à independência nacional.

E eles não fracassaram totalmente: Kadafi teve um papel crucial na alta do preço do petróleo em 1973, e Hafez al-Assad, pai de Bashar, que tinha tomado o poder na Síria dois anos antes, criou um Estado que pôde se manter numa prolongada luta contra Israel pela predominância no Líbano. Para os oponentes desses regimes, nacionalismo era simplesmente um plano de propaganda de ditadores implacáveis, preocupados apenas em manter seu poder. Mas sem o nacionalismo – mesmo em lugares onde a união da nação é quase uma ficção histórica – falta uma ideologia que permita que os Estados disputem o foco de lealdade com seitas religiosas e grupos étnicos.

É fácil criticar os rebeldes e reformistas do mundo árabe por fracassarem em resolver os dilemas que encaravam para derrubar o status quo. Suas ações parecem confusas e pouco efetivas quando comparadas com a revolução de Cuba ou a luta pela libertação no Vietnã. Mas o terreno político no qual eles tiveram que operar nos últimos 20 anos era particularmente traiçoeiro. A dissolução da União Soviética em 1991 significou que o endosso ou tolerância dos EUA – e só dos EUA – era crucial para a tomada do poder. Nasser pôde se voltar para Moscou para garantir a independência do Egito na crise de Suez em 1956, mas depois do colapso socialista, países menores não achavam mais um lugar para si entre Moscou e Washington.

Em 1990, Saddam disse que uma das razões para invadir o Kuwait na época era que tal empreendimento não seria mais viável depois que o Iraque fosse confrontado com o poder norte-americano. Ali ele errou nos cálculos diplomáticos, mas sua previsão foi, de certa forma, realista – pelos menos até que o exército americano fosse rebaixado pelo fracasso de Washington em alcançar seus objetivos no Afeganistão e Iraque.

A deterioração da situação no Iraque e Síria pode ter ido longe demais agora para se recriar estados genuinamente unitários. O Iraque está se despedaçando. Depois de tomar a cidade petroleira de Kirkuk, que há muito clamam como sua capital, os curdos nunca vão entregá-la, nem os outros territórios disputados onde eles sofreram limpeza étnica. Enquanto isso, o comando do governo sobre as terras sunitas do norte e do centro do Iraque evaporou com a desintegração do exército iraquiano. O governo pode continuar a manter a capital e as províncias de maioria xiita ao sul, mas terá grandes dificuldades para restabelecer sua autoridade sobre os vilarejos e cidades sunitas do país.

O doutor Safa Rusoul Hussein, conselheiro adjunto de Segurança Nacional do Iraque, me afirmou que “quando 100 combatentes do ISIS tomam uma área, eles normalmente recrutam cinco ou seis vezes o número de sua força original. Esses recrutas não são combatentes de linha de frente e podem se juntar apenas para proteger suas famílias, mas os números do ISIS crescem rapidamente”.

Ajuda exterior para o governo do Iraque é imprevisível. Intervenção estrangeira pode vir tanto do Irã como dos EUA. Como um Estado também de maioria xiita, o Iraque importa mais para Teerã do que a Síria, e o Irã emergiu como o poder estrangeiro mais influente em Bagdá desde as invasões de 2003. O presidente iraniano Hassan Rouhani garantiu que seu país vai agir para combater “a violência e o terrorismo” do ISIS; de fato, por uma semana a máquina de rumores de Bagdá clamava que batalhões iranianos já estavam no Iraque, mesmo que ninguém tivesse realmente visto.

Quanto aos EUA, o cansaço da guerra em casa descarta o retorno de tropas terrestres, apesar de o país ter enviados conselheiros. Mesmo ataques aéreos são problemáticos, porque o ISIS opera como um exército de guerrilha, sem movimentos facilmente visíveis de pessoal ou equipamento. Sua liderança tem muita prática em ficar fora de vista. Sua ofensiva tem tido sucesso porque foi acompanhada de um amplo levante de ex-oficiais do exército iraquiano que combateram os americanos e jovens de vilarejos e cidade sunitas de todo o país. Atacar essas forças com aviões ou drones só enfureceria ainda mais a comunidade sunita. E, se combatentes do ISIS começarem a ser mortos por ataques norte-americanos, pode não demorar muito para que uma certa organização de renome comece a mandar homens-bomba para destruir alvos americanos. Em qualquer um dos casos, a probabilidade de sucesso do exército americano é remota. É importante lembrar que, mesmo com bases aéreas e 150 mil soldados no país, o que os americanos não têm mais hoje, os EUA fracassaram em vencer a guerra de oito anos ali.

Além de tudo isso, os EUA provavelmente não vão querer aparecer como os defensores da dominância xiita sobre a minoria sunita, especialmente quando a personificação disso é um governo mais sectário, corrupto e disfuncional do que o regime de Saddam jamais foi. Pode haver menos violência do Estado do que antes de 2003, mas só porque ele é fraco. Os métodos do governo Maliki são igualmente brutais: as prisões iraquianas estão cheias de pessoas que confessaram falsamente sob tortura ou ameaça. Vilarejos sunitas perto de Fallujah estão cheios de famílias com filhos no corredor da morte. Um intelectual iraquiano, que planejava abrir um museu na prisão de Abu Ghraib para que os iraquianos nunca esquecessem as barbaridades do regime de Saddam, descobriu que não havia mais espaço disponível: as celas já estavam cheias de novos detentos. O Iraque continua sendo um lugar extraordinariamente perigoso. “Nunca imaginei que dez anos depois da queda de Saddam, você ainda poderia mandar matar alguém em Bagdá por US$ 100”, me confessou um iraquiano que também estava envolvido no projeto abortado do museu.

A desintegração do país em regiões xiitas, sunitas e curdas quase com certeza será um processo doloroso e violento. Confrontos sectários serão inevitáveis onde as populações se misturam, como em torno de Bagdá, com sete milhões de pessoas. Parece improvável que o Iraque possa ser dividido sem derramamento de sangue e milhões de refugiados. Um possível resultado é uma versão iraquiana da violência que acompanhou a divisão da Índia em 1947.

A situação é igualmente sombria na Síria. Há muitos conflitos e jogadores envolvidos para que quaisquer termos de paz sejam aceitos. O confronto é frequentemente comparado com a guerra civil libanesa, que durou de 1975 a 1990, tirando disso o conforto moral de que, por mais sangrento que o conflito tenha sido, todos os lados ao final se cansaram e abaixaram as armas. Mas a guerra não acabou exatamente assim: foram a invasão de Saddam Hussein ao Kuwait em 1990, e a decisão do governo sírio de se unir a uma coalizão liderada pelos EUA para expulsá-lo, que levaram Washington a tolerar que a Síria extinguisse sua última resistência no Líbano. Não é um paralelo muito reconfortante.

Não há dúvida de que o povo sírio, tanto dentro quanto fora do país, está completamente exausto e desmoralizado pela guerra civil e faria quase qualquer coisa para acabar com isso. Mas eles não estão mais em posição de determinar seu próprio destino. A Arábia Saudita e o Catar estão armando e treinando uma nova “oposição militar moderada”, que supostamente vai enfrentar Assad, ISIS e outros grupos jihadistas. Mas não está claro se essa oposição “moderada” tem qualquer substância, exceto como peões rigidamente controlados por poderes estrangeiros.

Só o tempo dirá se o presidente Assad é forte o suficiente para derrubar o atual impasse na Síria, apesar de isso parecer pouco provável. Até agora, as forças de combate do exército sírio foram capazes de lutar apenas numa frente de cada vez, enquanto se torna cada vez mais óbvio que movimentos tipo Al-Qaeda – mais exatamente ISIS, JAN e Ahrar al-Sham – podem operar livremente através das fronteiras sírias com Iraque e Turquia. Eles têm um vasto território para manobra.

Enquanto a guerra continuar, grupos fanáticos como o ISIS, com legiões de combatentes preparados para sacrificar suas vidas, vão continuar tendo vantagem sobre os moderados, que estariam mais abertos a negociações. Nessa situação, a importância da opinião pública síria diminui constantemente. No entanto, isso ainda pode valer de algo. Um dos poucos eventos positivos a ocorrer no país no começo do verão de 2014 foi a evacuação da Cidade Velha de Homs por 1.200 combatentes, que tiveram permissão para levar seu armamento pessoal para território rebelde. Ao mesmo tempo, duas cidades xiitas pró-regime, Zahraa e Nubl, cercadas há dois anos pela oposição, puderam receber comboios humanitários. Além disso, 70 reféns capturados em Alepo e Lataquia foram libertados. O fato de que diferentes grupos rebeldes foram coerentes o suficiente para negociar e implementar um acordo, algo considerado impossível até agora, é encorajador. Esse tipo de negociação de paz local pode não parar o conflito geral, mas salva vidas pelo caminho.

Nenhum dos partidos religiosos que tomaram o poder, tanto no Iraque em 2005 como no Egito em 2012, conseguiu consolidar sua autoridade. Rebeldes por toda parte buscam apoio de inimigos estrangeiros do Estado que estão tentando derrubar. A oposição síria pode apenas refletir as políticas e divisões de seus patrocinadores. A resistência ao Estado foi tão rapidamente militarizada pelos movimentos de oposição que foi impossível experimentar uma liderança nacional e um programa político. O descrédito do nacionalismo e do comunismo combinado à necessidade de dizer o que os EUA querem ouvir os deixaram à mercê dos eventos, sem nenhuma visão de uma nação não autoritária capaz de competir com o fanatismo religioso dos militantes sunitas do ISIS e movimentos similares financiados por países petroleiros do Golfo. Agora os resultados disso se espalham além da fronteira com o Iraque. O Oriente Médio está entrando num longo período de fermentação, na qual cada contrarrevolução pode se mostrar mais difícil de consolidar que a própria revolução.

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