10 de agosto de 2014

Crise no Iraque: “mandato” ocidental limitado por fronteiras nacionais – e não se atrevam a mencionar o petróleo

Presidente Obama diz que “problema” não será resolvido em semanas. Então, quanto tempo vai demorar, pergunta Robert Fisk

Robert Fisk

Tradução / No Oriente Médio, as primeiras imagens da cada guerra definem a narrativa que deveremos seguir obedientemente. É o que está a acontecer nesta que é a maior crise desde a última grande crise no Iraque. Os cristãos fogem para salvar a vida? Salvem-nos. Os yazidis morrem de fome nas montanhas? Atirem-lhes mantimentos. Os islâmicos avançam para Erbil? Bombardeiem-nos. Destruam os seus comboios, a sua artilharia e os seus combatentes, e bombardeiem-nos uma e outra vez até que...

Bom, o primeiro indício do enquadramento da nossa mais recente aventura no Médio Oriente apareceu no fim de semana, quando Barack Obama disse ao mundo: "Não creio que possamos resolver este problema [sic] em semanas; levará tempo". Mas quanto tempo? Pelo menos um mês, obviamente. Talvez seis meses... um ano? Outro mais? Após a Guerra do Golfo de 1991, de facto houve três conflitos semelhantes nas últimas duas décadas e meia, com outro que está por explodir. Os norte-americanos e os britânicos impuseram zonas de exclusão aérea sobre o sul do Iraque e o Curdistão (norte) e bombardearam todas as ameaças militares que encontraram no Iraque de Saddam Hussein durante os 13 anos seguintes.

Estará Obama a preparar o terreno – a ameaça de genocídio e o mandato do impotente governo de Bagdade de arrasar com os inimigos de Iraque – para começar outra guerra aérea na nação? E, a ser assim, o que o faz pensar, ou a nós, que os islamitas, que estão muito ocupados a criar o seu califado no Iraque e na Síria, seguirão a corrente neste alegre cenário. Talvez o presidente dos Estados Unidos, o Pentágono, o Centcom (Comando Central dos Estados Unidos) e, suponho, o puerilmente chamado Comité Cobra britânico na verdade achem que o EIIL, com toda a sua ideologia medieval, se vai sentar nas planícies de Nínive e esperar ser destruído pelas nossas munições?

Não, os rapazes do EIIL, ou Estado Islâmico, ou o califado, ou como o quiserem chamar no momento, simplesmente vão dirigir os seus ataques a outros pontos. Se o caminho para Erbil está fechado, tomarão o caminho de Alepo ou o de Damasco, mesmo que norte-americanos e britânicos estejam menos dispostos a bombardear ou defender essas cidades porque isso significaria ajudar o governo de Bashar al Assad na Síria, a quem odiamos tanto quanto odiamos o Estado Islâmico. No entanto, se os jihadistas tentam capturar Alepo ou sitiar Damasco e cruzar à força a fronteira com o Líbano, a maioritariamente sunita cidade mediterrânea de Trípoli seria o objetivo mais desejado. Então teríamos de expandir o nosso precioso mandato para incluir outros dois países, sobretudo porque começaria a estar ameaçada a fronteira de uma nação que é ainda mais merecedora de nosso amor e proteção que o Curdistão: Israel. Alguém pensou nisso?

E claro, existe o imencionável. Quando libertámos o Kuwait em 1991, tivemos de recitar uma e outra vez que esta guerra não era pelo petróleo. Quando invadimos o Iraque em 2003, tivemos de repetir ad nauseam que este ato de agressão não era pelo petróleo, como se a missão dos marines dos EUA que foram enviados à Mesopotâmia tivesse sido proteger a exportação de espargos. Agora que protegemos os nossos amados ocidentais em Erbil, damos apoio e assistência aos yazidis nas montanhas do Curdistão e lamentamos a injustiça que sofrem dezenas de milhares de cristãos que fogem das ameaças do EIIL, não devemos nem podemos mencionar o petróleo, nem o faremos, em nenhuma circunstância.

Pergunto-me por que não; não é que seja significativo nem relevante... no mais mínimo. O Curdistão produz 43.7 bilhões de barris dos 143 bilhões de barris que formam as reservas iraquianas, além de 25.5 bilhões de barris de reservas não comprovadas e três dos seis milhões de metros cúbicos de gás que produz o país. Conglomerados de combustível e gás emigraram em massa para o Curdistão; daí que houvesse milhares de ocidentais vivendo em Erbil, apesar de a sua presença não ter sido explicada pelos media. O fato é que a Mobil, a Chevron e a Total, entre outras, fizeram investimentos múltiplos a mais de 10 bilhões de dólares, e não será permitido ao EIIL meter-se com companhias assim num lugar onde os operadores petrolíferos obtêm 20 por cento dos ganhos de produção e exploração.

Efetivamente, relatos recentes sugerem que a atual produção de petróleo curdo é de 200 mil barris por dia e chegará a 250 mil barris diários no próximo ano, supondo, claro está, que mantenhamos longe da zona os rapazes do califado, o que significa, segundo a agência Reuters, que se o Curdistão iraquiano fosse um país verdadeiro e não só uma parte do Iraque, estaria entre os dez países mais ricos em petróleo do mundo, o que, obviamente, é algo que vale a pena defender. Alguém o mencionou sequer? Ao menos um repórter da Casa Branca incomodou Obama com uma única pergunta a respeito deste facto notável?

Claro, solidarizamo-nos com os cristãos iraquianos, ainda que muito pouco nos importamos quando começaram a persegui-los após a invasão de 2003. E sim, prometemos proteger os yazidis da mesma forma que prometemos – e fracassamos – proteger milhão e meio de armênios cristãos vítimas do genocídio perpetrado pelos muçulmanos nesta mesma região, há 99 anos. Não esqueçamos que os amos do novo califado do Médio Oriente não são idiotas. As fronteiras da sua guerra estendem-se bem mais além dos nossos mandatos militares. Sabem que, mesmo que não o admitamos, o nosso mandato inclui o imencionável petróleo.

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