21 de agosto de 2014

Lágrimas de crocodilo pelo Iraque

O verdadeiro legado dos Estados Unidos

Nick Alexandrov

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / “Isto é um ato de limpeza étnica, quase um genocídio, por assim dizer”, advertia um funcionário militar dos Estados Unidos. Estava a referir-se aos bombardeamentos que mataram quase 800 membros da seita minoritária yasidí no norte do Iraque. “Entre os feridos, um em cada cinco sofria lesões graves” e as suas “famílias estavam tão transtornadas pelo ataque que insistiam em levar os seus destroçados familiares de volta para as suas aldeias, longe dos hospitais que os estavam a tratar”, informava The New York Times. Os funcionários estadunidenses atribuíam esta atrocidade à al-Qaida. Seguramente, seria necessária uma intervenção calibrada, eventualmente uma série de ataques, para impedir uma potencial carnificina.

Mas estes bombardeamentos produziam-se em agosto de 2007, anos depois do início da invasão estadunidense. Nessa fase da ocupação, Bush “duplicava a presença estadunidense no Iraque” enviando “entre 150.000 e 170.000 mercenários privados em apoio da missão ali instalada, com pouco ou nenhum conhecimento por parte do público ou do Congresso, e menos ainda com o seu consentimento”. Como o descreveram duas acadêmicas estadunidenses: é esse o tipo de democracia preferido por Washington. E as suas políticas exteriores favoritas: “invadir, ocupar, debilitar e saquear o Iraque”, “trouxeram a Al-Qaida para o país”, escreve Juan Cole, sublinhando que a organização islâmica tinha zero de presença no Iraque antes de março de 2003.

Quer isto dizer que o Iraque evoluiu segundo as expectativas de Washington. “Meses antes da invasão do Iraque, as agências de inteligência dos Estados Unidos predisseram a possibilidade de que se desencadeassem violentas divisões sectárias que iam proporcionar novas oportunidades à al-Qaida no Iraque e no Afeganistão”, revelava The Washington Post em maio de 2007. Estas sombrias análises “estiveram circulando profusamente dentro da administração Bush antes da guerra” mas, não obstante, prosseguiram com os seus planos, com os efeitos devastadores de todos conhecidos.

“As tensões sectárias e étnicas mais graves na história moderna do Iraque produziram-se após a invasão dirigida pelos EUA em 2003”, assinalava Sami Ramadani no The Guardian. “Os EUA tinham a sua própria política de divide e vencerás, promovendo organizações iraquianas baseadas na religião, na etnia, na nacionalidade e na seita em vez de na política”, continuava. As suas observações reforçavam as que o analista político iraquiano Firas Al-Atraqchi publicou recentemente: “Desde a queda de Bagdá em 2003, a comunidade cristã tem estado debaixo de ataque e desde então dezenas de milhares dos seus membros fugiram do país por temor às perseguições religiosas”.

Por exemplo, “os mandeus ou sabeus, uma seita que segue os ensinamentos de João Batista e do primeiro cristianismo e o islã no Iraque, viram-se desde 2003 forçados a fugir em massa devido a uma brutal campanha contra eles”. Um estudo do Grupo Internacional pelos Direitos das Minorias concluía em 2008 que “os mandeus se defrontavam com a sua extinção como povo”. E um relatório da Organização dos Povos e Nações Sem Representação (UNPO, na sua sigla em inglês) de junho de 2013 – já bem avançada a era Obama – concluía que “a situação dos direitos humanos com se debatem as minorias no Iraque continua sendo terrível a todos os níveis: político, cívico e cultural. As minorias religiosas e étnicas do Iraque, juntamente com outras populações vulneráveis, continuam tendo que enfrentar ameaças de violência, discriminação religiosa, exclusão e denegação dos seus direitos de propriedade”.

Desta forma, os resultados da política estadunidense indicam o desprezo de Washington pelas minorias religiosas do Iraque. Por outro lado, Obama afirmava em 7 de agosto passado que as preocupações humanitárias o levavam a iniciar ataques aéreos, e estas palavras bastaram para convencer a imprensa de que o governo estadunidense se preocupa com os iraquianos perseguidos. “Há relatos de dezenas de civis assassinados”, escrevia The New York Times, portanto “não constitui surpresa nenhuma ouvir o Presidente Obama anunciar a sua decisão de intervir”. “O Presidente Obama fez bem em ordenar ações militares para impedir um potencial genocídio”, decidia The Washington Post, enquanto o Los Angeles Times “não tinha dúvida de que o presidente estava comovido pelo sofrimento que o Estado Islâmico havia infligido aos yasidís e a outras vítimas”. A cobertura era inclusivamente ainda mais crédula, se tal é possível, em páginas da Internet como Slate, onde William Saletan simplesmente transcrevia as observações de Obama. “Estamos fazendo apenas o que podemos no Iraque”, insistia Saletan em 8 de agosto. Sabia isto porque “Obama disse que os Estados Unidos deviam intervir”, dadas as suas “capacidades sem igual para ajudar a evitar um massacre”. Confrontado com tão poderoso argumento mesmo um hábil polemista bateria em retirada.

Mas os antecedentes dos Estados Unidos no Iraque revelam capacidades diferentes das que Saletan identificava. Por exemplo, depois da Operação Tormenta do Deserto, o Enviado Especial da ONU, Martti Ahtisaari, esteve à frente de uma missão em Bagdá. Os integrantes da delegação estavam familiarizados com a literatura sobre os bombardeamentos, e em março de 1991 Antisaari escreveu que eram “plenamente conhecedores das informações dos meios de comunicação sobre a situação no Iraque”, mas que após a sua chegada compreendeu de imediato “que não havíamos visto nem lido nada que nos preparasse para a forma particular de devastação, quase apocalíptica, que se abateu sobre o país”, condenando-o a “uma época pré-industrial” num futuro previsível. Era esse o nível de destruição existente quando o Conselho de Segurança da ONU impôs as sanções. Nações Unidas só de nome, clarifica o filósofo político Joy Gordon, já que “estavam condicionadas em todos os seus aspectos pelos Estados Unidos”, cuja constante política era “infligir o máximo dano econômico possível ao Iraque”.

A este respeito, tal política foi um êxito total. A ONU estimava em 1995 que as sanções tinham morto meio milhão de crianças iraquianas, algo que “valeu a pena”, na infame avaliação de Madeleine Albright no programa 60 Minutes que levou a que dois Coordenadores Humanitários sucessivos da ONU no Iraque, Denis Halliday e Hans von Sponeck, se demitissem. Halliday concluiu que as sanções foram “criminosas e genocidas”; von Sponeck manifestou-se de acordo, encontrando provas de “violações conscientes dos direitos humanos e do direito humanitário por parte dos governos representados no Conselho de Segurança, sobretudo por parte dos dos Estados Unidos e do Reino Unido”.

Mas a eliminação por inanição de centenas de milhares de crianças foi apenas a prequela da ocupação, “o maior desastre cultural desde que os descendentes de Gengis Khan destruíram Bagdá em 1258”, escreveu Fernando Báez. Entre os seus “sucessos” temos os ataques contra Fallujah de abril e novembro de 2004: um Grupo de Trabalho de Emergência da ONU avaliou que “40% dos edifícios e das habitações” da cidade estavam “gravemente danificados” no final dos ataques, enquanto “outros 20% apresentavam ‘danos importantes’” e “os restantes estavam ‘completamente destruídos’”, explica a cientista política Neta Crawford. Crawford, citando o livro No True Glory de Bing West, onde se relata como um alto general estadunidense, ao chegar a Fallujah após o massacre de novembro de 2004, “olhava para um lado e para outro as ruas, os postes de telefone caídos, as montras rebentadas, os montões de betão, os esqueletos retorcidos dos automóveis calcinados, os telhados derrubados e os muros caídos, o que o levou a exclamar: ‘Puta merda!’”.

Os esforços dos Estados Unidos para “libertar” os habitantes de Fallujah – ao que parece dos percalços da própria vida – pressupôs “uma cascata de violações das Convenções de Genebra”, segundo as peritas Elaine A. Hills e Dahlia S. Wasfi. E também o congressista estadunidense Jim McDermott e o Dr. Richard Rapport escreveram sobre o ataque às instalações sanitárias e de água potável que “o nível de barbárie traz à mente o que a ONU tem descrito como a destruição “sem precedentes” de Gaza por Israel”. “Aglomerados e povoações inteiras foram varridos do mapa”, informava a Dra. Mona El-Farra desde a Franja, onde o presidente da câmara de Beit Hanun, Mohammed al-Kafarna, disse a The Guardian que a sua cidade havia sido devastada a ponto de resultar “inabitável”. A monção de seis semanas de bombas israelense [renovado] assassinou mais de 2.000 pessoas, carnificina à conta dos contribuintes estadunidenses.

Desde a II Guerra Mundial, “os Estados Unidos entregaram a Israel 121.000.000 de dólares (sem tomar em conta a inflação) em ajuda bilateral”, concluía o Serviço de Investigação do Congresso em abril. “Quase toda a ajuda bilateral dos Estados Unidos a Israel é em forma de ajuda militar”, e “o Presidente Obama prometeu” em março de 2013 “que os EUA continuariam assegurando a Israel os seus compromissos plurianuais de ajuda militar”, ou seja 3.100.000 de dólares dedicados ao financiamento militar estrangeiro. É desta forma, se é que estamos interessados nisso, que podemos levar a sério os discursos que Obama faz perante as câmaras. Mas a crucificação do Iraque e o apoio ao sadismo israelense por parte de Washington mostram-nos o alcance real dos objetivos humanitários que impulsionam a política dos Estados Unidos.

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