16 de agosto de 2014

O povo das repúblicas do leste da Ucrânia entre milícias e oligarcas

Boris Kagarlitsky


Tradução / A guerra entre o governo da Ucrânia e as repúblicas da Novorrússia está gradualmente assumindo o caráter de impasse de posição. Os recursos dos dois lados estão exauridos, e as reservas para combate estão no fim. Para as repúblicas populares, que se autodefendem contra forças militares muito superiores do governo de Kiev, o princípio segundo o qual “governos têm de vencer; para uma insurreição, já basta não perder” opera com força total.

A situação econômica que se deteriora na Ucrânia, a crescente desmoralização dos apoiadores do regime de Kiev e o desenvolvimento gradual de um movimento partisan de resistência em território controlado pelo governo são fatores que, juntos, inauguram uma nova fase numa guerra civil que, claramente, se estenderá para bem além dos limites do sudeste.

Os meados do mês de agosto assistiram ao acentuado fracasso da mais recente ofensiva pelo exército do governo de Kiev (mais provavelmente, a última ofensiva na campanha de verão de Kiev). É significativo que, durante a ofensiva anterior, a mídia de massas dominante, que só faz sonegar aos seus consumidores qualquer informação real sobre a guerra, pôs-se repentinamente a publicar matérias sobre sucessos do exército do governo em Kiev. Como já ocorrera antes, depois das previsões otimistas, veio o silêncio. O fracasso da segunda ofensiva seguiu exatamente o mesmo cenário que a primeira: as forças atacantes tiveram interrompido o contato com suas bases e acabaram cercadas. As vitórias ‘de noticiário’ viraram catástrofe no mundo real. Não há como vencer guerras no espaço informacional, se você está apanhando em terra firme.

Parece haver todas as razões para falar de perspectivas positivas para os povos das repúblicas da Novorrússia. Mas, nos bastidores de vitórias militares, desenrola-se uma crise política e administrativa que cria novos perigos, os quais, se não são maiores que os associados ao ataque por forças militares, não são por isso menos graves. Ao longo de várias semanas, toda a liderança das repúblicas de Donetsk e Lugansk foi efetivamente trocada. O desenvolvimento mais inesperado e de mais impacto foi o afastamento do líder militar das milícias, Igor Strelkov. Na melhor tradição dos soviéticos, o anúncio veio vazado em termos de “transferência para outro serviço”. A decisão foi tomada num momento em que Strelkov estava em Moscou, longe de suas tropas.

A remoção de Strelkov, afastado de seu posto, é um evidente ato de vingança, por aquelas forças dentro do Kremlin às quais o comandante das milícias populares infligiu uma séria derrota política no início de julho. As unidades de milícias, depois de campanha heroica de dois meses na defesa de Slavyansk, rompeu o círculo de forças ucranianas e avançou para Donetsk, onde figuras políticas ligadas ao Kremlin já planejavam a rendição da cidade ao governo em Kiev. A chegada das milícias foi seguida de um expurgo radical nas estruturas de poder. Ninguém reprimiu os conspiradores, mas todos foram forçados, um depois do outro, a assinar cartas de renúncia. Na sequência, deixaram a cidade sem excessivo alarido, alguns tomando o rumo de Moscou; outros, de Kiev. Aconteceu assim, contra um pano de fundo de crescente radicalização política dentro do movimento da resistência. Em agosto, foi publicada uma carta conjunta de soldados combatentes e comandantes das milícias da resistência, exigindo que o slogan “repúblicas sociais” que estava sendo proclamado em Donetsk e Lugansk fosse implantado em todos os seus efeitos reais; que a propriedade dos oligarcas tinha de ser nacionalizada e que eram urgentes inúmeras reformas a serem implantadas na defesa dos direitos dos trabalhadores. Quem assumiu o posto de presidente do Soviete Supremo foi Boris Litvinov, comunista que rompeu com a liderança oficial do Partido. Aprovou-se uma legislação que revertia a privatização do atendimento à saúde que havia sido iniciada pelos líderes anteriores; e fizeram-se repetidas, embora excessivamente tímidas, tentativas na direção da nacionalização.

Por sua parte, especialistas políticos próximos do Kremlin desencadearam uma campanha contra Strelkov na mídia de massas russa. A amargura dos burocratas em Moscou e de seus assistentes para propaganda é compreensível: enquanto permaneciam no abrigo aconchegante de seus escritórios, traçando planos e tecendo intrigas, o povo, na vanguarda dos eventos, ia fazendo história sem consultá-los.

Paradoxalmente, foi Strelkov quem mais fez para estimular a radicalização do processo, apesar de suas simpatias pela monarquia pré-revolucionária e nostalgia do império russo. O líder das milícias não tem fama só pela honestidade e abertura-transparência (basta lembrar os relatos detalhados que distribuiu das próprias dificuldades e fracassos, que contrastam fortemente com a propaganda distribuída por Moscou e Kiev). Os instintos políticos de Strelkov o levaram, em grande medida apesar de suas próprias tendências ideológicas, a apoiar mudanças sociais e políticas. Ele e seus aliados destacaram repetidas vezes que não permitiriam que a Novorússia fosse convertida numa segunda edição de uma Ucrânia pré-Maidan – opondo-se assim diretamente à estratégia de parte do Kremlin, que queria obter exatamente isso.

Diferente de outros líderes de Donetsk e Lugansk que viajaram inúmeras vezes a Moscou para suplicar ajuda (na maioria dos casos sem qualquer sucesso), o comandante das milícias sempre podia ser localizado na linha de combate, com seus homens. Essa atitude, como a prática mostrou, foi mais segura para ele no campo político do que nos corredores do poder em Moscou.

Não se sabe como Strelkov foi atraído para Moscou e o que lhe fizeram para obrigá-lo a assinar a renúncia “voluntária” (se é que assinou alguma coisa semelhante a isso). É possível que tenha sido ameaçado com suspensão total do fornecimento de suprimentos russos para os territórios liberados da Novorússia. Em grau considerável, essa dependência das novas repúblicas populares, de recursos que lhe chegavam de fora, é resultado de gerência mal feita pelo pessoal que o próprio Strelkov demitiu de seus postos em julho e início de agosto: não conseguiram, ou recusaram-se a fazê-lo, organizar a economia na retaguarda, para garantir distribuição normal de recursos. Em agosto, já se configurava uma situação na qual as repúblicas estavam ameaçadas de desastre, a menos que carregamentos de comida e munição fossem trazidos da Rússia. Muito provavelmente, esse fator foi usado pelos conspiradores dentro do Kremlin, para se livrarem de Strelkov.

De um modo ou de outro, as forças conservadoras tiveram sua vingança e o comandante militar de Donetsk foi removido. Há quem suspeite de elos com os oligarcas indicados para postos chaves. Em Moscou, durante os últimos dias, o político ucraniano Oleg Tsarev, que não representa ninguém e foi expulso de Donetsk pelos combatentes das milícias da resistência, desfraldou uma “nova bandeira da Novorússia”. Sabe-se lá por que, era uma versão, de cabeça para baixo, da velha bandeira imperial; e foi obviamente pensada para ‘'neutralizar'’ a bandeira, vermelho-escuro com uma cruz de Santo André, sob a qual as milícias estão combatendo.

A imprensa russa já está noticiando abertamente um acordo que teria sido feito entre os burocratas de Moscou e o oligarca ucraniano Rinat Akhmetov. Nas melhores tradições do ancien régime, a burocracia do Kremlin decidiu sacrificar os territórios libertados e entregá-los ao novo vassalo, em troca de seus serviços como mediador nas relações futuras com Kiev e, depois, também com o Ocidente. Ao mesmo tempo, contatos estão sendo revividos entre diplomatas russos e ucranianos, e estão em curso acaloradas discussões sobre o destino final do sudeste. Depois do fracasso da mais recente ofensiva, e confrontadA com crescentes dificuldades internas, Kiev pode muito bem estar pronta para assinar um acordo.

A única coisa que os autores desse cenário não levaram em consideração é o pensamento do povo da Novorrússia e Ucrânia, nem o estado de espírito dos residentes em Donetsk e a lógica geral de um processo revolucionário para o qual a sociedade russa está sendo levada gradualmente. Os combatentes das milícias da resistência que, sob bombardeio, estão construindo um novo estado, já não mais aceitarão permanecer como agentes dóceis de decisões tomadas longe dali – as quais, não importa onde sejam tomadas, se em Moscou ou em Kiev, são decisões alheias aos próprios interesses locais. Na Novorússia, as simpatias idealistas com uma Rússia abstrata, que caracterizaram os primeiros meses do levante, estão agora cedendo lugar a uma crescente irritação contra os burocratas do Kremlin, que estão sendo acusados de traição e sabotagem pelos apoiadores das repúblicas populares. O mesmo estado de espírito alastra-se também, como UMA avalanche, dentro da própria Rússia. Quanto a Igor Strelkov, um novo grupo de comandantes de campo está assumindo o lugar dele, aceitando-o, em vários sentidos, como exemplo, mas diferentes de Strelkov, porque se posicionam com mais radicalismo, mais à esquerda.

Mediante intrigas, chantagem e manipulação, o “aparelho” pode, talvez, conseguir alguns sucessos táticos, e a remoção de uma ou outra figura de liderança. Mas não conseguirá deter a crise revolucionária cujo desenvolvimento está agora ganhando impulso.

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