11 de agosto de 2014

Os "salvadores" do Iraque

Manlio Dinucci


Tradução / Os primeiros caça-bombardeiros americanos, que no Iraque atacaram, a 8 de agosto, objetivos na zona controlada pelo Emirado Islâmico, decolaram do porta-aviões batizado George H. W. Bush, em homenagem do presidente republicano, autor em 1991 da primeira guerra contra o Iraque. Copiado pelo seu filho, George W. Bush, que em 2003 atacou e ocupou o país, acusando para isso Saddam Hussein (com base em "provas" que mais tarde se revelaram falsificadas) de possuir armas de destruição em massa e apoiar al-Qaida. Depois de ter empregado na guerra interna no Iraque mais de um milhão de soldados, além de centenas de milhares de aliados e mercenários, os Estados Unidos saíram substancialmente derrotados, sem chegar a conseguir realizar o objetivo de controle total deste país, com importância primordial pela sua posição estratégica no Oriente Médio e pelas suas reservas petrolíferas. É aqui que entra em cena o presidente democrata (e Prêmio Nobel da Paz) Barack Obama, o qual em agosto de 2010 anuncia o início da retirada das tropas, e dos aliados americanos do Iraque, e o nascimento de uma "nova alvorada".

Alvorada vermelha de sangue na realidade, que assinala a passagem da guerra aberta para a secreta, que os Estados Unidos estendem para a Síria fronteiriça com o Iraque. Neste quadro surge o Estado islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), o qual, declarando-se totalmente inimigo jurado dos Estados Unidos, é de fato a peça funcional da sua estratégia. Não foi por acaso que o EIIL arregimentou o grosso de suas forças justamente na Síria, onde um grande número dos seus líderes e militantes apareceram depois de terem feito parte das formações islâmicas líbias que, primeiro classificadas como terroristas, foram armadas, treinadas e financiadas pelos serviços secretos americano para derrubar Muammar el-Qaddafi. Tendo se juntado com militantes majoritariamente não Sírios— vindos do Afeganistão, da Bósnia, da Chechênia e de outros países— eles foram abastecidos com armas por uma rede organizada pela CIA, e infiltrados na Síria, sobretudo a através da Turquia, para derrubar o presidente Bashar al-Assad. Daí o EIIL começou o seu avanço no Iraque, atacando em particular as populações cristãs. Ele forneceu assim a Washington, até aí assistindo, oficialmente, como espectador exprimindo a propósito mais ou menos "fortes preocupações", a possibilidade de iniciar a terceira guerra do Iraque (mesmo se Obama, obviamente, não a define como tal). Como ele declarou, em maio, os Estados Unidos utilizam a força militar em dois cenários: quando os seus cidadãos ou interesses são ameaçados; quando ocorre quando uma "crise humanitária" de tais proporções que lhes é impossível ficar a assistir sem fazer nada. Depois de ter provocado, em mais de vinte anos de guerra e de embargo, a morte de milhões de civis iraquianos, os Estados Unidos apresentam-se, agora, aos olhos do mundo como os salvadores do povo iraquiano. Trata-se — precisou Barack Obama — de "um projeto a longo prazo". 

Para a nova ofensiva aérea no Iraque, o CentCom (cuja "área de responsabilidade" é o Oriente Médio) conta já com 100 aviões e oito navios de guerra, mas pode usar muitas outras forças, especificadamente os 10 mil soldados americanos estacionados no Kuwait e 2.000 fuzileiros navais a bordo. Os Estados Unidos relançam assim a sua estratégia para o controle do Iraque, compreendendo a mesma o bloqueio à China, que estabeleceu fortes laços com Bagdá, via primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki, para incrementar a sua presença econômica no país. Neste contexto, Washington tem todo o interesse na partição, de fato, do país em três Estados – Curdo, Sunita e Xiita – mais facilmente controláveis. Nesta linha, a ministra italiana das Relações Exteriores Federica Mogherini promete um "apoio, aí incluindo apoio militar, ao governo curdo", mas não ao governo central em Bagadá.

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