25 de agosto de 2014

Por que passei a dizer Sim à Independência da Escócia

Tom Devine

The Conversation

O meu comprometimento com a campanha do Referendo sobre a Independência Escocesa tem sido até agora, restrito a entrevistas acadêmicas imparciais. E embora só tenha chegado a uma decisão pelo SIM durante a última quinzena, tive de fazer um longo percurso antes de chegar aí. A minha opção primeira tinha sido a Devolução Máxima [“Devo-Max”], mas isso não é viável. Além disso, mesmo que o SIM não seja vencedor, é imperativo que o voto SIM seja o mais alto possível de forma a tornar possível pressionar os partidos unionistas para se comprometerem também a garantir uma nova devolução, mais ampla, de poderes, o mais cedo possível logo após o referendo.

Nunca fui membro de nenhum partido e continuo a não ser, por isso a minha posição não significa apoiar o SNP, é simplesmente a favor da independência. O SNP é pura e simplesmente uma força importante na campanha. A campanha do SIM é agora um movimento muito alargado e acho isso encorajante.

O meu percurso com o nacionalismo escocês

Eu provenho de uma família Labour, que inclui o meu avô, a minha mãe e o meu pai e no início da campanha eu era muito anti-independência. O catalisador para a mudança foi em quão desgastada a união se tinha tornado desde o início dos anos 80 e ligada a isso, a transformação da Escócia. Eu nunca teria votado assim na Escócia de 1970s ou 1980s. É a Escócia que evoluiu nos anos 80 e 90 que está a alimentar o meu voto SIM. Atualmente parece-me que estão reunidas as condições para caminharmos para uma economia bem sucedida. Há uma quantidade de razões para isso.

Tem havido um Parlamento escocês que tem demonstrado uma governação competente, e o mesmo parlamento também deu sinais, através da resposta eleitoral, de que o povo escocês parece estar ligado a uma agenda social democrata e à espécie de valores políticos que informaram e foram incorporados na economia de bem-estar dos anos 1950. Pode-se, na verdade, argumentar que foram os escoceses que tentaram preservar a ideia de “identidade britânica” em termos de apoio e intervenção estatal, e que foi a Inglaterra que escolheu seguir um caminho separado desde os anos 1980.

Tem havido um enorme desenvolvimento no que toca à cultura nacional e ao orgulho na identidade escocesa, sentimentos esses sustentados por uma explosão de escritores e de artistas escoceses desde os 1980s, especialmente no que toca à minha própria área. Temos atualmente uma história moderna da Escócia digna desse nome, o que não tivemos até tão tarde como 1970 e 1980. Temos agora uma clara narrativa nacional, apoiada numa objetiva e rigorosa investigação acadêmica. Em 1964, um dos meus importante predecessores, o Professor Hargreaves, disse que a história moderna da Escócia era menos estudada do que a história do Yorkshire.

Tem havido também uma transformação silenciosa da economia escocesa. Até tão tarde como o início dos anos 80, ela não era sustentável devido ao continuado domínio do dinossauro que eram as indústrias pesadas. O problema consistia simplesmente em que os custos do trabalho não eram suportáveis numa economia global emergente, onde os bens e as máquinas podiam ser obtidos mais baratos noutros lugares. Claro que o processo podia ter sido conduzido de uma forma mais sensível e mais cuidadosa por um governo Labour, mas em vez disso foi a cirurgia radical do Tatcherismo e do Conservadorismo que foram usados. O que agora temos – e tem sido o caso desde o meio dos anos 90 e da desindustrialização – é uma economia diversificada na qual as indústrias pesadas, a manufatura ligeira, o setor eletrônico, o turismo e os serviços financeiros se juntaram. E o vibrante setor público é importante em termos de emprego. Temos agora um sistema econômico resiliente.

Temos também reservas consideráveis de uma das coisas mais importantes para um estado independente que é o poder; poder derivado dos ativos de petróleo e também da potencial energia eólica. A Escócia está desproporcionadamente dotada destas duas coisas, quando comparada com quase todos os outros países europeus. Assim, e por outras palavras, devido à sua transformação econômica, que levou sem dúvida à deslocação social de muitas comunidades – e não devemos esquecer isto – temos agora uma economia que pode sustentar-se de forma resiliente nos mercados mundiais.

A dimensão católica irlandesa

Uma das mais importantes manifestações disto, é a emancipação da classe operária irlandesa. Em 1901, os primos americanos deles conseguiram a paridade salarial, ocupacional e educacional. Em 2001 aconteceu a mesma coisa aqui. O que demonstra que uma mobilidade ascendente substancial se deu na Escócia, sobretudo entre o início dos anos 60 e o meio dos anos 80.

É importante dizer aqui que rejeito o ponto de vista, especialmente defendido por George Galloway e outros, de que os Católicos na Escócia ficariam mais vulneráveis num país mais pequeno. Não faz sentido. George é habitualmente um demagogo. Nenhuma destas afirmações se baseia em qualquer entendimento ou conhecimento académico. A população escocesa comum pura e simplesmente não partilha desta opinião. Os dados mais recentes do Scottish Social Attitudes Survey [inquérito sobre os comportamentos sociais] em 2012 demonstram sem margem para dúvidas que, entre os três mais importantes agrupamentos escoceses – Católicos, Protestantes e não-crentes –, as amostras de entre os Católicos indicam que 36% optavam pela independência; os não crentes eram cerca de 27% e os Kirk [ramo do Protestantismo escocês] 16%.

Isto demonstra ainda mais, penso, que as pessoas de etnia irlandesa católica, pela primeira vez se sentem confortáveis na sua pele de escoceses. O que também pode ser atribuído ao declínio da “identidade britânica”, numa experiência semelhante à da comunidade asiática. Penso que a comunidade irlandesa acha mais fácil identificar-se com a “identidade escocesa” do que com a “identidade britânica”, porque este último ainda ressoa ao antigo poder imperial.

Houve também uma transformação nos estudos universitários escoceses. Até aos anos 1950, estávamos num segundo escalão em termos de investigação, mas entretanto houve uma revolução neste campo. Quatro universidades escocesas estão agora nas 200 melhores do mundo. Na minha área, de Humanidades, a Universidade de Edimburgo aparece em 11º lugar. Em termos de índices de citação. a Escócia tem estado regularmente nas três mais altas e por vezes vem em número um.  Recebemos 16% do financiamento competitivo do Reino Unido apesar de termos só 10% em termos de população. O que significa que, desde que continuemos a conseguir aplicar a investigação à indústria e à economia, o futuro, que será concentrado numa indústria inteligente, brilhará para a Escócia, que já entra na corrida em vantagem. O que também ajudará à potencial resiliência da economia.

No entanto, o que precisamos ainda melhorar muito, muito é o desempenho das nossas escolas. Precisamos de envolver-nos num investimento a longo prazo do género do implementado pela Finlândia para levá-las até aos modelos dos países de elite no mundo, porque para mim não restam nenhumas dúvidas de que o futuro reside numa classe trabalhadora cultivada e empenhada, na qual se possa considerar a atividade uma mais-valia e não uma rotina.

Assim, tudo isto significa que a Escócia é uma nação muito mais resiliente e isto é comprovado pela nossa experiência desde a devolução. Podemos hoje dirigir um país eficazmente e o registo eleitoral do Parlamento escocês durante os últimos seis ou sete anos demonstra que o povo escocês quer um determinado tipo de governo. E também que procura um certo tipo de abordagem política, que é diferente das escolhas feitas pelo sul.

O problema da Devolução Máxima

Também cheguei à conclusão de que mesmo a Devolução Máxima só prolongaria um estado de coisas. Mesmo que aceitemos o lado positivo de a Devolução máxima garantir mais poderes, isso não tornaria mais infelizes muitos ingleses? Eles não estão contentes com a formula Barnett que acham que favorece a Escócia. Esta é uma das razões pelas quais eu acho que tem de haver soberania. Só através do poder soberano podemos realmente desenvolver uma verdadeira relação, amiga e igualitária, com o nosso grande vizinho do sul, em todos os campos possíveis.  O que deve incluir partilha económica, partilha dos custos de investigação e deve também incluir estreitas relações culturais. A última autoridade legislativa, para tornar segura esta amizade, deve residir efetivamente no norte.

Até ao início de 1980, as relações entre a Inglaterra e a Escócia foram estáveis, desde a rebelião Jacobita de 1745. Não houve praticamente nenhuma interferência rude por parte dos governos de Londres nas áreas que consideramos especificamente escocesas. E quando houve governos fortes depois da Segunda Grande Guerra, a Escócia provavelmente beneficiou com o nascimento do estado-providência. Também beneficiou com a intervenção estatal na nacionalização das grandes indústrias. E há também uma dualidade: a identidade escocesa ficou mais forte dentro da União, o que também é manifesto na convergência do padrão dos votos. Se a Inglaterra votasse Tory, a Escócia tendia a votar Tory. Se votássemos Labour, idem.

Por volta de 1979, começaram a surgir as fissuras. E aqui não penso que devamos culpar o Thatcherismo. As mudanças na nossa paisagem industrial eram quase uma inevitabilidade histórica, embora talvez pudessem ter sido um pouco mais benignas com um governo Labour. Sejam quais forem as razões, criou-se então um fosso estrutural no comportamento eleitoral entre a Escócia e a Inglaterra. Num estado altamente centralizado, como era o Reino Unido antes da Devolução, isso é uma receita para tensões.

Penso que também é importante dizer aqui que não é de forma nenhuma evidente  proclamar que a Escócia se tornou uma sociedade dividida, como é defendido por pessoas como o escritor Alexander McCall Smith no  Festival Internacional do Livro, em Edimburgo. O que eu vejo, nas famílias e nos pubs, e nos debates públicos a que fui é um sério comprometimento, por vezes feroz, por vezes muito forte. Mas simplesmente não vi nenhuma evidência de que a divisão política tivesse causado a forma de divisão social de que McCall Smith fala. Aonde vão pessoas como ele, ou como o George Galloway buscar essas informações? A minha profissão baseia-se em generalização e provas e no provocar de tensões entre as duas. E a menos que eles possam vir com dados que a suportem, a sua teoria não é mais do que assobiar para o vento.

Também acredito que, por causa de todas estas mudanças na natureza da união e no re-emergir social e económico da Escócia, nem o mais entusiástico unionista poderia hoje em dia sugerir seriamente que a nação escocêsa não pode prosseguir sozinha.

O pior dos mundos: uma pesada derrota do Sim

O que mais receio no referendo é a possibilidade do que possa acontecer no caso de uma pesada derrota da campanha do SIM. Não penso que isso seja uma boa coisa para a psicologia coletiva da nação.

Lembro-me do que aconteceu depois de 1979 (o primeiro voto sobre Devolução) entre alguns grupos sociais. Uma derrota pesada podia levar a que uma parte substancial da população se sentisse agravada, desapontada e, em alguns casos, angustiada. Acho que é diferente no campo do NÃO. No sentido de que a maioria deles não se comprometeu com a mesma intensidade e com o mesmo grau emocional do que os do campo do SIM.

Não estou a insinuar que esta decepção se manifeste com violência. Mas há uma real dinâmica política por todo o país sobre o referendo, que irá colapsar completamente, julgo, no caso de uma pesada derrota do SIM. Também tem havido um enorme interesse internacional no que vai acontecer aqui, e aos olhos deles podemos, mais uma vez, tornar-nos numa nação periférica.

Todavia, também tenho um grau de simpatia pela campanha do NÃO no que respeita ao seu assumido negativismo. É muito difícil manter uma negativa sem nenhum entusiasmo. Muita dessa gente são entusiásticos patriotas escoceses, mas também aceito que estão à vontade com a “identidade britânica” e vêem riscos maiores no colapso da União. No caso de um voto NÃO, e depois dos partidários do YES terem recuperado do trauma, estaremos de volta ao mesmo problema da desestabilização e tensões dentro da União.

A realidade da União

A União da Inglaterra e da Escócia não é um casamento de amor; é um casamento de conveniência. É pragmático. É por isso que não acredito que haja o mesmo grau de interesse em Inglaterra na possível dissolução da União. Para começar, a União era muito instável entre 1707 e 1750 e era um dos estímulos mais importantes para as rebeliões Jacobitas. De 1750 até aos anos 80 a relação foi estável. Agora, porém, os principais fundamentos da estabilidade foram-se todos, ou diluíram-se em massa: o Império; o Protestantismo como ideologia da União; a Igreja da Escócia, que perdeu dois terços dos seus membros desde o início dos anos 50.

Os mercados ingleses e imperiais foram outrora muito sedutores para a Escócia, mas agora a Europa é mais importante. No que respeita ao militarismo escocês, tínhamos 13 regimentos em 1957 e agora só temos um. E tem-se sentido um decrescer da influência da monarquia, e a ausência de uma força externa potencialmente hostil que em tempos teria induzido a solidariedade coletiva interna. Refiro-me ao final da Segunda Grande Guerra e ao colapso do antigo império Soviético. Claro que de momento não há outro.

Quando se juntam todos estes factos, podemos dizer que da União não sobra muito, a não ser sentimento, história e família. Algumas das razões pragmáticas para a subsistência da União, que emergiram nos séculos XVIII e XIX, desapareceram. E a longo prazo este enfraquecimento é paralelamente a emergência de uma mais poderosa e mais madura democracia e economia escocesa. É uma ideia, pode dizer-se, mas é uma ideia que se impôs.

Foram estes dois fatores, juntos, que causaram a desestabilização da União. E esta nunca acabará – Devolução Máxima só teria sido um ‘penso rápido’ – até conseguirem uma separação amigável e o estabelecimento de uma reação de igual para igual entre os dois países após a independência.

O grande historiador francês, Ernest Renan, nos longínquos anos de 1880 negou que uma nação se baseasse em etnia e língua ou em nacionalidade sangue-e-solo. O argumento dele era que uma nação consiste no povo que partilhou um sentimento coletivo e esse sentimento baseia-se em mito, história e numa série de símbolos e marcas de identidade. Há um referendo permanente no sentido de saber se esse sentimento ainda existe na União. O conceito de nação de Renan é que esta pode ser efémera; não dura para sempre, não é uma permanência pois varia de acordo com as circunstâncias. Há aqui um intrigante paralelo com o que está a acontecer no Reino Unido hoje em dia.

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