4 de agosto de 2014

Sem olhos em Gaza

As mentiras de Israel

Jonathan Cook

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Um incidente no fim de semana – a noticiada captura, pelo Hamas, de um soldado israelense na sexta-feira (1º de agosto de 2014), servindo-se de um dos túneis – serviu para ilustrar de modo notável as camadas de mentiras que Israel tem conseguido lançar sobre os fatos do ataque contra Gaza.

No domingo, com o exército dando sinais de que iniciaria retirada limitada, Israel declarou que Hadar Goldin estava morto, possivelmente soterrado num dos túneis que teria desabado sob bombardeio naquela área. A família do soldado disse que o exército o havia abandonado.

Nem os funcionários do governo de Israel nem a imprensa viram de modo objetivo a operação do Hamas. Goldin não teria sido “capturado”, mas sequestrado – como se estivesse passeando e tivesse sido atacado por ladrões de rua.

Como acontece frequentemente, muitos jornalistas ocidentais acompanharam a versão dos israelenses. O London Times bradava na primeira página: “Sequestrado em Gaza”. O Boston Globe trazia matéria sobre “soldado israelense apanhado”.

Pelas reações ocidentais, era claro, também, que a captura do soldado era considerada a notícia mais importante que qualquer dos massacres de civis palestinos ao longo de semanas.

O cálculo cínico de Israel – um soldado valeria mais do que grande número de civis palestinos mortos – ecoou pelos corredores da diplomacia e das redações em Washington, Londres e Paris.

Foi posta em circulação também a falsa “notícia” segundo a qual, ao atacar um grupo de soldados em Rafah e capturar o soldado Goldin, o Hamas teria violado os primeiros minutos de um cessar-fogo humanitário de 72 horas.

O Washington Post noticiou as circunstâncias em que um terrorista suicida do Hamas teria emergido de um túnel para explodir-se, o que teria matado dois soldados e Goldin foi puxado para dentro do túnel. "Na manhã de sexta-feira (1º de agosto de 2014), soldados israelenses trabalhavam no sul da Faixa de Gaza, preparando-se para destruir um túnel do Hamas, como informaram oficiais militares israelenses. De repente, militantes palestinos emergiram de um buraco."

O repórter da CBS, Charlie D’Agata propagou o mesmo briefing distribuído aos jornalistas pelos israelenses; e, como tampouco o Washington Post, não percebeu que estava expondo a grande mentira geral. O soldado teria sido “sequestrado durante operação para limpar os túneis. E o sequestro teria acontecido depois de o cessar-fogo ter sido declarado” – como os israelenses e seus jornalistas de serviço não se cansavam de repetir.

Mas, se o cessar-fogo já estava vigente, o que faziam naquela área o soldado Goldin e seus companheiros, explodindo túneis? Caberia talvez aos combatentes do Hamas entrar nos túneis e esperar para serem explodidos durante o cessar-fogo? Ou quem violava o cessar-fogo era, isso sim, Israel?

Então, veio a explosão de fúria dos militares israelenses, quando perceberam que faltava um soldado. Os correspondentes israelenses admitiram que foi invocado o “procedimento Hannibal”: usar de todos os meios possíveis para impedir que qualquer soldado seja capturado vivo; inclusive matá-lo. A ideia é impedir que o inimigo tenha uma vantagem psicológica na negociação.

A furiosa massa de fogo parece ter sido ordenada para garantir que nem Goldin nem seus captores jamais saíssem vivos daquele túnel; mas, nesse processo, Israel matou dúzias de palestinos.

Foi mais uma ilustração de que Israel absolutamente não se preocupa com a segurança de civis. Pelo menos ¾ dos mais de 1.700 palestinos assassinados até agora são não-combatentes; e praticamente todas as baixas israelenses são soldados. Esse tem sido o padrão em todos os confrontos recentes em que Israel esteve envolvido.

A justificativa de Israel para levar a luta para dentro de Gaza também está cheia de camadas de mentiras.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse que Israel tinha sido arrastado para uma guerra de necessidade. Barack Obama imediatamente lhe fez eco: Israel tinha o pleno direito de se defender de uma barragem de foguetes lançados de Gaza. Na sequência o pretexto passou a ser “destruir os túneis do terror”. A lógica, aí, é profundamente viciada.

Israel está ocupando e sitiando Gaza, o que confere aos moradores de Gaza o direito, nos termos da lei internacional, de lutar pela própria liberdade. Como seria admissível que o violador das leis, o opressor, o ocupante, mantivesse algum direito de autodefesa? Se Israel tem objeções a ser atacado e agredido, Israel que pare de fazer, da vida de suas vítimas, um inferno sem fim.

O grau no qual a narrativa da “autodefesa” de Israel passou a dominar toda a cobertura “jornalística” e todas as declarações “diplomáticas” apareceu muito claramente numa entrevista na CNN. A âncora Carol Costello perguntou a um entrevistado perplexo com a seriedade: “Por que o Hamas não mostra a Israel onde estão aqueles túneis?”.

Igualmente significativo, Israel tem obscurecido a verdade de ter utilizado um acontecimento para essa nova fase de confronto com o Hamas – e o fez cinicamente.

Um repórter da BBC confirmou recentemente com um porta-voz da polícia israelense um rumor que circulava entre os correspondentes militares há semanas. O grupo que sequestrou os três jovens na Cisjordânia – o motivo para a campanha de Israel contra o Hamas – era um grupo agindo por conta própria.

Netanyahu mentiu que teria provas abundantes de que o Hamas teria sido responsável; foi o que bastou para que o exército se pusesse a prender centenas de membros do Hamas e a bombardear as instituições do partido na Cisjordânia.

O ataque foi a provocação necessária: o Hamas autorizou os seus grupos ativistas a lançar os primeiros foguetes, ainda em número limitado. O analista Nathan Thrall observou recentemente que o Hamas havia impressionado o exército israelense até ali, porque havia feito valer o cessar-fogo acordado com Israel 18 meses antes; e isso apesar de Israel ter violado os termos do acordo e mantido o cerco de Gaza.

Agora os foguetes deram a Netanyahu uma desculpa para atacar.

Mas qual foi a razão real de Netanyahu para atacar Gaza dessa vez? Para que se serviu de tantas mentiras e encenações? Para esconder o quê?

Parece que Netanyahu quis pôr fim a uma ameaça estratégica: não os foguetes nem os túneis do Hamas, mas o governo de unidade entre os dois partidos políticos e antigos rivais, Hamas e Fatah. A unidade palestina criava o risco de aumentar a pressão sobre Netanyahu para negociar; ou, talvez, de fazer ressurgir uma campanha mais crível, dessa vez, pelo reconhecimento da soberania do estado palestino na ONU.

Mas o impressionante aparelho de guerra do Hamas, surpreendente, de fato, dessa vez, contra Israel – Israel perdeu dúzias de soldados; e os foguetes, agora, de longo alcance contra Israel (o Hamas conseguiu manter fechado o único aeroporto internacional de Israel por alguns poucos dias), e o tempo de resistência, que causou perdas de mais de US$4 bilhões para a economia israelense – obrigaram Netanyahu a retroceder e a mudar seus planos.

Por hora, Netanyahu parece estar preferindo retirar os soldados israelenses, em vez de ser empurrado, por pressão internacional, a negociar com o Hamas. Ele sabe que a principal demanda será que Israel ponha um  fim ao cerco de Gaza.

Mas, ao longo prazo, é possível que Netanyahu venha a precisar da unidade palestina, pelo menos nos seus próprios termos, como meio para “controlar” o poder obtido pelo Hamas.

Quando Israel estava começando seu ataque contra Gaza, Netanyahu virou-se na direção da Cisjordânia. Alertou que “jamais poderá haver qualquer acordo pelo qual descuidemos do controle da segurança” na Cisjordânia, por medo de que devido o tamanho muito maior da Cisjordânia, Israel venha a criar ali “outras 20 Gazas”.

Estava dizendo que jamais haverá estado palestino. Alguma espécie de entidade “desmilitarizada”, circunscrita e absolutamente dependente de Israel e dos EUA, parece ser tudo o que Israel nunca aceitará discutir.

Permitir a Mahmoud Abbas e ao Fatah governar Gaza justificaria aliviar o cerco. Mas se, e somente se, Abbas assumir a tarefa de pôr fim à infraestrutura militar do Hamas e concordar em exportar para Gaza o modelo que estabeleceu na Cisjordânia – de acomodação incondicional com Israel e com suas ordens.

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