20 de agosto de 2014

Sabemos muito sobre a crueldade deles, mas muito pouco sobre quem são

Now President Obama has seen the next US reporter to be threatened with beheading, will he blink?

Robert Fisk

The Independent

Ao longo de séculos, governos disseram aos seus soldados e povo “Conhece teu Inimigo”. O problema com o “Califado” do ISIL – e não é pequeno problema para o presidente Obama, depois do assassinato do jornalista James Foley – é que nós não conhecemos quem é o inimigo. Nos falam muito sobre a crueldade deles, açougueiros, que sequestram mulheres, que enterram gente viva, que são horríveis contra cristãos e iazidis e os degolamentos públicos, e só. Mesmo o líder do ISIL, Abu Bakr al-Baghdadi, nos é mostrado como combinação ensandecida do Mahdi que assassinou Gordon de Khartoum, com o assassinado Osama bin Laden e Oliver Cromwell, que fez aos civis de Drogheda o que o muçulmano e Senhor Protetor al-Baghdadi fez aos próprios inimigos.

A decapitação ritual de Foley é suficiente para dissuadir até o mais ousado dos jornalistas de tentar qualquer entrevista com al-Baghdadi. Nunca antes houve no Oriente Médio território tão gigantesco absolutamente inacessível para a imprensa Ocidental. Somos tão completamente ignorantes de tudo que tenha a ver com esse Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) – terra obscura da qual só se conhecem os vídeoS gravados pelos aparelhos celulares deles mesmos – que os obamas, camerons e hammonds só podem rilhar os dentes de medo desse indizível inimigo. Reação fácil – mas que não pode durar muito tempo. Seja como for, O fato é que o ISIL sabe fazer bem feita pelo menos uma coisa: forçar Obama a encarar o seu próprio problema de reféns, a mesma charada imposta a Tony Blair quando Ken Bigley apareceu-lhe em vídeo. Você ignora os avisos, provando assim que não se preocupam com os seus cidadãos ao realizar operações militares - que é a verdade - ou você se transformar em Jimmy Carter, uma reverência a todos os caprichos de seus inimigos, se põe de joelhos e diz ao Pentágono "Espere um pouco"?

Agora Obama já sabe o nome do próximo repórter americano a ser decapitado. Será que ele vai piscar? Ele não pode, pode?

Assim sendo, suspeito que a resposta que virá é o que presidentes e primeiros-ministros sempre fizeram, de melhor, no Oriente Médio: anunciarão que o assassinato de Foley mostra só o quanto o ISIL é horrível e mau – e o quanto é importantíssimo continuar a bombardear e bombardear para destruir aquela instituição amaldiçoada. Em outras palavras, vão converter a reação sádica do ISIL contra os ataques aéreos, em razão pela qual os ataques aéreos aconteceram e têm de continuar. Afinal de contas... estamos bombardeando o ISIL“porque” mataram iazidis e expulsaram cristãos e ameaçaram curdos. E o Iraque. Agora, temos nova razão para bombardear o “Califato” de al-Baghdadi.

Para os jornalistas, ontem foi um dia aterrorizante. Há 30 anos, os árabes reconheciam o papel dos jornalistas como observadores equilibrados. Com os anos passando – e jornalistas assassinados por militares dos EUA, por soldados israelenses e por rebeldes iraquianos (além de milicianos árabes), nossa vulnerabilidade aumentou muitíssimo. Quando nosso amiguinho, o marechal de campo egípcio Abdel Fattah al-Sisi encarcera jornalistas durante meses, os governos ocidentais pouco se preocupam ou afligem. Quando nossos chefes dão tão pouca importância a se vivemos ou morremos, não é surpresa que o ISIL – o ISIL, ou seja quem for – dedique-se a matar jornalistas. É verdade: jornalistas não executam árabes. Mas essa não chega a ser diferença significativa à qual o ISIL dê muita importância.

Há duas verdades que o “Ocidente” terá de encarar, sobre o selvagem e simplório “Califato”: esses executores de hoje começaram as respectivas carreiras – ou os que os precederam –  nos assassinatos-de-televisão pela resistência anti-EUA no Iraque; e por mais repugnantes que sejam as práticas deles, há centenas de milhares de muçulmanos sunitas que vivem nas terras do Califato e que NÃO FUGIRAM; os quais, para salvar a própria pele, ficaram ali. Não que sejam verdades agradáveis de ler. Se o “Califato” é tão revoltante, repugnante, horrendo, em sua brutalidade que aspira à pureza, como se explica que aquela gente – iraquianos e sírios – não tenham fugido, como fugiram seus irmãos cristãos? Será que uns poucos milhares de combatentes armados realmente conseguiriam coagir tanta gente, em território tão vasto, em pleno Oriente Médio?

Voltemos aos meses e anos imediatamente depois da invasão anglo-norte-americana de 2003. Os rebeldes ou insurgentes sentiram-se competentes para demonstrar extraordinária crueldade contra seus prisioneiros. Entregaram-me uma vez em Fallujah um vídeo de um homem sendo degolado por um grupo de encapuçados. Demorei algum tempo para perceber que se tratava, quase com certeza, de um soldado russo, e que os assassinos eram chechenos. Alguém trouxera o vídeo para Fallujah, para que os futuros carrascos da resistência aprendessem. Essa é a violência sem limites que a nossa invasão disparou naquela parte do mundo.

E muitos muçulmanos sunitas permaneceram em suas vilas e cidades e continuaram a viver ali, enquanto seus irmãos – os cidadãos do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) do futuro – prosseguiram em seu trabalho repugnante. Em outras palavras, o “Califato” obviamente não parece ser tão horrendo para eles, quanto nos parece a nós. Há aí algum problema? Ou é só questão, como os norte-americanos parecem supor que seja, de as tribos sunitas – aquelas microssociedades de mil e uma utilidades, das quais nós dependemos quando as coisas dão errado – serem subornadas, ou de metermos lá algum governo mais “inclusivo” depois da partida de al-Maliki, para pôr al-Baghdadi p’rá correr? Essas são as perguntas que cabe ao “ocidente” perguntar.

Nas últimas semanas de vida, Osama bin Laden várias vezes manifestou repulsa pelo caráter sectário dos ataques “islamistas”. Ele até recebeu uma tradução, mandada do Iêmen, de artigo que escrevi no The Independent, no qual falo da al-Qaeda como “a organização mais sectária do mundo”.

O mundo mudou muito. Pelo menos, quando entrevistei bin Laden, eu em momento algum temi que ele me degolasse.

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