21 de setembro de 2014

A retórica de John Kerry sobre o EIIL insulta a nossa inteligência e esconde a realidade da situação na Síria

Qualquer um que tenha estudado a Síria sabe que oposição moderada não existe

Robert Fisk

The Independent

John Kerry vai ficando cada dia mais parecido com William McGonagall, o “pior poeta do mundo”, cujo horror, ante o desastre da Ponte Tay, em 1879, gerou o imortal comentário de que [a tal desgraça] “será lembrada por muito tempo”.

Como no verso de McGonagall, as tentativas de Kerry para explicar a cruzada da América contra o mais recente inimigo malvado são tão ridículas, que se vai ficando viciado nelas. E quando você pensa que a explicação capenga, de Kerry, para os políticos americanos da cruzada iraquiana de Obama – o EIIL tem de ser derrotado, puro e simples, e fim da história – não pode(ria) ficar mais infantil, ela fica.

Por puro infantilisme – a palavra francesa captura isso melhor – desafio os leitores a ler a frase seguinte até o fim, sem nenhuma incredulidade: “Quero deixar bem claro que, quando acabarmos aqui hoje, vocês me dirão o que pensam e eu saberei o que estão pensando” – disse Kerry à Comissão de Relações Exteriores do Senado semana passada – “e vocês terão ouvido de mim e saberão o que nós estamos pensando, o que o governo Obama está pensando, e que vocês têm uma clara compreensão do que estamos fazendo hoje e faremos na sequência”. “Tudo muito complexo”, disse Kerry – e que, claro, sem dúvida, “será lembrado por muito tempo”.

Mais imediatamente chocante era o mundo de fantasia de Obama o qual Kerry, com seu jeito de moleque pesadão, representou. Quem tenha estudado a Síria, mesmo de longe, e nem se fala dos que a conheçam de perto, sabe que a tal “oposição moderada”, ficcional – supostos desertores do Exército do governo sírio – absolutamente não existe. Corrupto, desiludido, assassinado ou simplesmente desertado de volta ao EIIL ou para outro grupo associado da al-Qaeda, o velho “Exército Sírio Livre” é, hoje, mito ridículo – e tão potente, para os kerrys desse mundo – quanto os arroubos de Mussolini de que o exército italiano poderia derrotar os britânicos no Norte da África. Qualquer soldado sírio pode contar, de viva voz, que está feliz por poder combater contra o tal “Exército Sírio Livre”, porque aquela “oposição moderada” só é especialista em fugir feito coelhos. Quem luta até a morte são os “terroristas” de al-Qaeda-Nusra-EIIL.

 Mas Kerry, como os generais da I Guerra Mundial, vive num castelo ornamentado de sua própria imaginação. “Na Síria, o combate em campo será feito pela oposição moderada, a qual é o melhor contrapeso da Síria [sic] para extremistas do tipo EIIL” – eis o que ele disse à Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados. – “E podemos falar mais sobre aquela oposição moderada – que jeito tem, quem é, do que são capazes hoje e do que poderão fazer – conforme nós avançarmos”. Como os generais [Douglas] Haig e [John] French, Kerry entrou em delírio.

O “Exército Sírio Livre”, disse Kerry, vem combatendo contra o eIIL há dois anos – em Idlib, Aleppo, em torno de Damasco e em Deir Ezzor e o governo sírio − Kerry insistiu − não dá combate, nem dará, ao EIIL. Isso é um absurdo. A maioria dos 35 mil soldados mortos do exército sírio foram mortos em combates contra al-Qaeda e o EIIL. E as únicas forças que realmente mantêm coturnos em solo contra o EIIL são o Hezbollah e os Guardas Revolucionários do Irã, ao lado dos curdos.

Exaltar a “oposição moderada” dois dias antes de as mais recentes vitórias do EIIL já os terem trazido até a fronteira da Turquia é absurdo. E que estadista ilustra(ria) a própria ideia de que sunitas e xiitas estariam em aliança com a América, brandindo no ar a primeira página do The Wall Street Journal em que se vê um líder curdo, um ministro iraquiano xiita e o ministro sunita de Relações Exteriores da Arábia Saudita fotografados lado a lado? Kerry elogiou os clérigos sauditas por condenarem o EIIL sunita, sem mencionar que muitos destacados imãs sauditas consomem muito mais tempo desqualificando América. Nem poderia, mesmo, falar, dos clérigos paquistaneses que também declararam herético o EIIL – porque, claro, passam praticamente todo o tempo acusando os sauditas de financiarem o EIIL.

Como Cameron, Kerry serve-se do vocabulário da autoconfiança. A América “de pleno direito” e “sem dúvida alguma” tinham de apoiar os esforços do governo iraquiano; e há “absoluta clareza” de que o América deteve o EIIL. Quanto ao “Estado Islâmico” propriamente dito, não passa(ria) de “distorção insultante do Islã”, “inimigo do Islã”, “culto militante fantasiado de movimento religioso” de “assassinos a sangue frio” cuja filosofia “saiu da Idade da Pedra”. O que é isso? Começamos por declarar que o EIIL “saiu” da Idade Média; depois, que “saiu” do século XVIII. Agora, “saiu” do ano 2.000 a.C.

 Graças aos céus temos o general John Allen – o qual, nem faz muito tempo, andava propondo garantias de “segurança” para o Vale do rio Jordão que ambos, palestinos e israelenses, puseram abaixo – para resolver o caso no Iraque. É o ex-vice comandante da província Anbar do Iraque, homem – segundo Kerry – com “grande respeito” na região, com “conhecimento das tribos sunitas” e – ah, mas que perfeito momento McGonagall, esse – “de todo o pessoal por lá e que são parte da mistura a ser capaz de mobilizar a ação”. Não surpreende que Kerry também tenha dito ao mundo que, dos 50 aliados internacionais anti-EIIL da América, alguns, sim, se engajarão em “atividade cinética”. Aposto que eles vão. Embora eu também aposte que ninguém vai ver qualquer força aérea árabe unir-se ao bombardeio aéreo franco-americano.

O que Kerry absolutamente não nos pode dizer é tão simples quanto o que ele diz que será simples a luta contra o EIIL: que terá de haver algum tipo de aliança – algum tipo – entre o “ocidente” e o Irã, para derrotar o EIIL; que essa aliança inevitavelmente terá de incluir algum entendimento não revelado com a Síria de Bashar al-Assad; e quem sabe até com os horríveis “super-terroristas” do  Hezbollah, os quais – diferentes do que Kerry diz do EIIL – não andam por aí “matando e estuprando e mutilando mulheres” ou vendendo meninas “para serem escravas sexuais de jihadistas”.

Mas para um homem que pensou que poderia costurar uma paz palestino-israelense em 12 meses, o que mais você pode esperar? Sim, o EIIL é o mais recente espectro a nos assombrar. Mas há outro, não mais distante, que ameaça todos e que, esse sim, tem de ser derrotado, “puro e simples, e fim da história”. Ameaça matar infinitamente mais gente que o EIIL. Recebeu o nome de um obscuro rio africano. Então, onde está a convocação de uma aliança de 50 nações para destruir o Ebola?

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