13 de setembro de 2014

A santa cruzada de Obama

Manlio Dinucci

Il Manifesto

“Que Deus abençoe nossos soldados. Que Deus abençoe os Estados Unidos da América”. Com essas palavras (convidamos o papa Francisco a comentá-las), termina a solene “Declaração sobre o EIIL”, com a qual o presidente Barack Obama, metido no fraque de “comandante-em-chefe”, dirigiu-se na quarta-feira, 10/9/2014, não só aos seus concidadãos, mas ao mundo inteiro. “Os EUA”, explica Obama, fazem jus às bênçãos, “porque assumem as tarefas mais difíceis, a começar pela “responsabilidade de exercer a liderança”. Num “mundo incerto” como o nosso atual mundo, “a liderança pelos EUA é a única constante”. De fato, só “os EUA” têm “a capacidade e a vontade de mobilizar o mundo contra os terroristas”. “Os EUA” foi quem “reuniu o mundo contra a agressão russa”. “Os EUA” é quem “pode conter e eliminar a epidemia de ebola”. Em tom que faz pensar em pregador medieval do tempo da peste – e pondo “a agressão russa” no mesmo plano que a epidemia de ebola – o presidente dos EUA proclama a nova cruzada contra o “Estado Islâmico no Iraque e Levante (EIIL), advertindo que “será preciso tempo para erradicar um câncer como este”. Apesar de tudo que os EUA fizeram até agora para combater o terrorismo, Obama insiste, “continuamos a enfrentar uma ameaça terrorista” porque “não podemos apagar do mundo todos os rastros do Mal”.

Com essa advertência, que faz recordar as cruzadas do Republicano Ronald Reagan contra “o Império do Mal” (a URSS) e do também Republicano George W. Bush contra “o inimigo escondido em algum rincão escuro da Terra” (al-Qaeda), o Democrata Obama anunciou “a estratégia dos EUA para vencer o ISIS/ISIL”, estratégia constituída de quatro pontos. 1) “Uma campanha sistemática de ataques aéreos contra o EIIL”, na Síria e no Iraque. 2) “Crescente apoio às forças que combatem o ISIS/ISIL em campo”: com a diferença, em relação às intervenções anteriores no Iraque e no Afeganistão, dessa vez os EUA não enviarão forças terrestres, só conselheiros e instrutores (mais 475 chegarão em breve ao Iraque). Também haverá financiamento e armas para os “locais”, graças ao Congresso dos EUA que aprovou uma lei ad hoc: para forças iraquianas e curdas e, na Síria, para grupos que combatem contra “o regime de Assad que aterroriza o próprio povo” e contra “extremistas como o ISIS/ISIL”. 3) “Continuar aproveitando nossas consideráveis capacidades em matéria de antiterrorismo para impedir ataques do ISIS/ISIL”, o que se conseguirá trabalhando em contato estreito com os parceiros – Israel, por exemplo, que já se ofereceu para compartilhar a informação recolhida por seus próprios serviços de inteligência. 4) “Prestar assistência humanitária a civis inocentes expulsos de suas casas” pelo EIIL. Os EUA já montaram “ampla coalizão de associados” que aportam “bilhões de dólares em ajuda humanitária, armas e apoio às forças de segurança iraquiana e à oposição síria”. Nos próximos dias o Secretário de Estado, John Kerry, viajará ao Oriente Médio e Europa para “recrutar associados para essa luta”.

O que o governo Obama anunciou não é estratégia que o presidente teve de autorizar depois de ter subestimado a ameaça do Emirado Islâmico – segundo versão que os jornais da imprensa-empresa não se cansam nunca de repetir – mas estratégia que já está traçada há anos. Como já se comprovou amplamente, os primeiros focos do futuro Emirado Islâmico formaram-se quando, para derrubar Gaddafi na Líbia – em 2011 – a OTAN – obedecendo ordens dos EUA – pôs-se a financiar e armar grupos jihadistas até pouco antes considerados terroristas. Depois de ter ajudado a derrubar Gaddafi, aqueles jihadistas mudaram-se para a Síria, para derrubar Assad. E é na Síria, em 2013, onde nasce o Emirado Islâmico, que imediatamente passou a ser ajudado, através de Arábia Saudita, Qatar, Kuwait, Turquia e Jordânia, que também fornecem armas e dinheiro, no quadro de um amplo programa coordenado pela Agência Central de Inteligência (CIA). Em maio de 2013, um mês depois de ter fundado o Estado Islâmico no Iraque e Levante, Ibrahim al-Badri – o hoje Califa, que adotou o nome de guerra de Abu Bakr al-Baghdadi – reúne-se na Síria com o senador John McCain, a quem Obama entregou a execução de várias operações secretas para o governo dos EUA. Depois daquela reunião, o Estado Islâmico, ainda então chamado apenas ISIL, começou sua ofensiva no Iraque, no preciso instante em que o governo do primeiro-ministro al-Maliki distanciava-se de Washington, para aproximar-se de China e Rússia. O verdadeiro objetivo da Santa Cruzada de Santo Obama é destruir a Síria e reocupar o Iraque. Por outro lado, ao implicar seus aliados europeus numa nova frente de guerra no Oriente Médio, e também na frente oriental contra a Rússia, os EUA reforçam a própria influência sobre a União Europeia, cuja unidade só interessa a Washington, se o continente se mantiver sob a liderança dos EUA.

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