3 de setembro de 2014

Mais agressões da OTAN contra a Síria?

Mitos e distorções da mídia

Rick Sterling

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / A Síria será um importante tema de discussão na cúpula da OTAN desta semana no País de Gales. As potências dos Estados Unidos e da OTAN irão avaliar a possibilidade de expandir ataques aéreos contra o Estado Islâmico no Iraque e da Síria (EIIS) para a Síria, se a fazê-lo em cooperação com o governo sírio ou se aumentam o apoio à oposição armada “moderada”. Os principais meios de comunicação norte-americanos e os políticos rufaram os tambores de guerra com o senador republicano McCain pedindo escalada militar e o senador democrata Feinstein criticando o presidente Obama por ser “muito cauteloso”.

Houve pouca menção ao fato de que, faz um ano desde o altamente divulgado ataque com armas químicas na periferia de Ghouta em Damasco. Os mesmos elementos que pressionam por ação militar para “mudança de regime” agora, já o faziam há um ano. Desde então, o caso de que o governo sírio foi o responsável pelo ataque foi efetivamente desacreditado. O acordo negociado diplomaticamente para remover todas armas químicas de Assad foi implementado com sucesso. Imaginava-se que isso mereceria atenção, mas tem sido amplamente ignorado.

Uma coisa boa na mídia esta semana é o reconhecimento de que a Líbia agora está em caos. Este é o país que foi “libertado” pelo bombardeio da OTAN que levou ao assassinato do presidente Ghadaffi e ao colapso do governo. Nove meses atrás, uma pluralidade de líbios disseram que estão em pior situação do que antes da mudança de regime. É muito provável que ainda mais líbios estejam descontentes hoje, com a mudança de regime imposta externamente. Há três anos, os membros da OTAN felicitaram-se sobre a campanha aérea contra a Líbia. Agora com sorte, estão mais sóbrios, uma vez que se torna público que a Líbia está um caos, o aeroporto fechado, extremistas concorrentes lutando pelo domínio, com uma facção se divertindo na piscina da Embaixada dos EUA.

A administração Obama está em outro momento decisivo, onde pode optar por escalar sua agressão contra a Síria. Claramente Obama e equipe não querem ir sozinhos. Os sonhos de um “Novo Século Americano”, com predomínio dos Estados Unidos incontestável foi quebrado pela realidade no Iraque, Afeganistão e além. Mas os cães de guerra e agressão são barulhentos e persistentes.

Como a OTAN começa a deliberar se e como escalar a agressão contra a Síria, vamos rever alguns mitos e mentiras, recentes e antigos, sobre o conflito sírio.

Mito 1

Alguns artigos e até mesmo o (atual) verbete na Wikipedia para James Foley (jornalista), afirmam que ele era um prisioneiro do exército sírio e que este o entregou para o ISIS. Isto está em perfeita harmonia com a demonização difusa do governo Assad. No entanto, é falsa. Uma investigação séria sobre o desaparecimento de Foley está na edição de maio/2014 da Vanity Fair6. Foley foi capturado pela Frente Nusra (ou rebeldes aliados) em novembro de 2012 e, posteriormente, transferido ou vendido ao ISIS.

Mito 2

Anne Barnard do NY Times7 e John McCain, sugeriram ou afirmaram que o governo sírio tem colaborado com o ISIS. A “prova” disso é que o Exército Sírio não atacou ativamente o ISIS no leste da Síria durante o ano passado.

A realidade é que o Exército Sírio precisa escolher suas batalhas e prioridades. Estão enfraquecidos por mais de três anos de conflito intenso, resultando em pelo menos 65 mil mortes do exército e das milícias sírias8. Para referência, a contagem total de mortos dos EUA no Vietnã foi de 58 mil e a Síria, hoje, é um décimo do tamanho dos EUA na década de 1970. No ano passado os militares sírios se concentraram em confronto com a oposição armada em Aleppo (a maior cidade), Homs, periferia de Damasco e a fronteira com o Líbano. Os militares sírios vem ganhando terreno em cada uma dessas áreas, juntamente com a implementação da política nacional de “reconciliação”.

Nos últimos dois meses, ISIS passou para a ofensiva no leste da Síria e está pressionando Aleppo e a Síria central com equipamento e armamento capturado dos Estados Unidos no Iraque. As batalhas resultaram em baixas pesadas para o ISIS e os militares sírios. De acordo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), alinhado aos rebeldes, 346 lutadores do ISIS foram mortos em um ataque de quatro dias na Base Aérea de Tabqa perto de Raqqa. A luta tem sido brutal com pesadas perdas em ambos os lados.

O jornalista, que há tempos cobre o Oriente Médio, Patrick Cockburn escreveu9, “A teoria da conspiração, muito apreciada pelo resto da oposição síria e por diplomatas ocidentais, que ISIS e Assad são aliados, mostrou-se ser falsa.”

Em contraste com o mito, ISIS tem sido de fato auxiliado por aliados dos EUA. Isto inclui fundos da Arábia Saudita10 e outros países do Golfo, ideologia e recrutamento pela mídia saudita, transporte e porto seguro[orig: safe haven] através da Turquia.

Mito 3

Usualmente alega-se que o conflito sírio é uma guerra civil que começou com protestos pacíficos em 2011. Na realidade, as sementes do conflito foram plantadas muito antes. O livro de memórias do general Wesley Clark de 2007, descreve os planos de “mudança de regime” na Síria e em outros países. Também em 2007, Seymour Hersh documentou a estratégia dos Estados Unidos de fomentar o conflito na Síria (e Irã), trabalhando com extremistas sunitas:

“Os Estados Unidos também têm participado em operações clandestinas destinadas ao Irã e seu aliado Síria. Um subproduto dessas atividades tem sido o fortalecimento de grupos extremistas sunitas que defendem uma visão militante do Islã e são hostis aos Estados Unidos e simpáticos a Al Qaeda.”

Quando protestos começaram na Síria, estes incluíam ataques violentos e assassinatos a policiais desde o princípio. A situação era a mesma em outras regiões. O padre jesuíta Frans Van Der Lugt era muito respeitado pelos muçulmanos sunitas e cristãos na cidade velha de Homs. Ele descreveu o início dos protestos, assim:

“Desde o início, os movimentos de protesto não eram puramente pacíficos. Desde o início eu vi manifestantes armados marchando ao longo dos protestos, que começaram a disparar contra a polícia em primeiro lugar. Muitas vezes, a violência das forças de segurança tem sido uma reação à violência brutal dos rebeldes armados.”

O conflito na Síria tem sido primariamente instigado e favorecido por alguns dos governos mais ricos e poderosos do mundo. Eles não fazem segredo e chamam-se de, com audácia [chutzpah] orwelliana, os “Amigos da Síria”. Dividem as tarefas, incluindo quem paga os salários dos mercenários rebeldes, quem fornece equipamentos de comunicação, quem faz o treinamento e quem fornece armas. Assim, o conflito na Síria é essencialmente uma guerra de agressão usando mercenários nacionais e estrangeiros.

Mito 4

Sugere-se frequentemente que a “oposição moderada” é popular, democrática e secular.

O presidente Obama propôs recentemente dar US$500 milhões para a “oposição moderada”.

Patrick Cockburn resume a realidade no recém-lançado livro “The Jihadis Return: ISIS and the New Sunni Uprising” [O Retorno Jihadista: ISIS e a Nova Revolta Sunita]:

“É aqui que reina o auto-engano, porque a oposição militar síria é dominada pelo ISIS e por Jabhat Al Nusra, o representante oficial da Al Qaeda, além de outros grupos jihadistas radicais. Na realidade, não há nenhuma parede divisória entre eles e os aliados da oposição supostamente moderada da América.”

Esta situação não é nova. Um artigo do New York Times no verão de 2012 discutiu a presença escondida da Al Qaeda dentro do “Exército Livre Sírio”. Quando o leu, James Foley enviou um tweet fazendo referência ao artigo e ponderando se a bandeira negra fotografada era necessariamente da Al Qaeda. Ele não reconheceu a bandeira e se perguntou se era “algum grupo jihadista aleatório”. Ironicamente, era a bandeira do ISIS antes de ser amplamente reconhecida. O grupo “jihadista aleatório” era aquele que viria a matá-lo.

No seu último artigo, Foley documentou a impopularidade geral dos rebeldes em Aleppo:

“Aleppo, uma cidade de cerca de 3 milhões de pessoas, já foi o coração financeiro da Síria. À medida que continua a deteriorar-se, muitos civis aqui estão perdendo a paciência com a oposição cada vez mais violenta e irreconhecível – que é prejudicada por disputas internas e falta de estrutura e profundamente infiltrada tanto por combatentes estrangeiros quanto por grupos terroristas.”

Mito 5

Finalmente, há o mito de que o Exército Livre Sírio e outros grupos da oposição “moderada” não tiveram apoio. Na realidade, grandes quantidades de armas e munições têm fluído, que é exatamente o que tem permitido às organizações terroristas continuarem o caos e o derramamento de sangue. Começando em novembro de 2012 três mil TONELADAS18 de armas e munições foram levados de Zagreb para a Turquia e, em seguida, transferidas para os rebeldes sírios. Além disso, houve enormes embarques de Benghazi na Líbia19, e mais embarques pagos pela Arábia Saudita e Qatar.

Os EUA e a OTAN realmente querem parar o ISIS?

Uma semana após a eleição presidencial síria onde 73% do eleitorado compareceu, ISIS fez o seu avanço através do Iraque ocidental para Mosul e em outras cidades. Praticamente não houve batalhas. A liderança militar iraquiana simplesmente partiu e na confusão, tropas fugiram ou debandaram. Foi um colapso militar ou foi planejado, com figuras iraquianas chave, subornados ou não, em aliança com ISIS? Seja qual for a verdade, podemos ver as consequências e quem se beneficiou: a campanha por uma maior autonomia da região curda rica em petróleo avançou; a divisão entre xiitas e sunitas se agravou; e uma das maiores transferências de armas militares do mundo ocorreu, do dia para a noite, com o ISIS facilmente assumindo o controle de veículos, jipes, tanques, lançadores de morteiros letais, equipamentos e toneladas de munição militar de alto grau.

Será que oficiais militares dos EUA, que gastaram anos e bilhões de dólares “treinando” os militares iraquianos, foram informados ou tiveram conhecimento deste conluio aparente entre ISIS e oficiais militares iraquianos de antemão? Será que os ricos inimigos da Síria, simplesmente subornaram os oficiais iraquianos? Foi um “colapso” ou há muito mais por trás disso20? Como podem algumas centenas de militantes jihadistas, que viajam em comboios de picapes Toyota novas, surpreenderem e ultrapassarem barreiras militares e bases sem uma luta, a menos que houvesse conluio nos níveis mais altos?

Ações revelam mais que palavras. Se os EUA e a OTAN realmente estão preocupados com o ISIS, eles podem e irão implementar medidas como as seguintes:

  • Fechar a Rodovia Jihadi através da Turquia.
  • Encerrar o porto seguro e rotas de abastecimento do ISIS e outros grupos terroristas na Turquia.
  • Fornecer informações úteis de voos de vigilância para o exército sírio que é quem faz a luta principal no campo de batalha.
  • Exigir e fiscalizar que a Arábia Saudita e Qatar parem a transmissão de programas de TV com discurso de ódio, que servem para recrutar jihadistas para participar do ISIS.
  • Exigir e fiscalizar que a Arábia Saudita e Qatar implementem medidas para impedir o financiamento para o ISIS, através de seus bancos e outras operações financeiras.

Será que os EUA e a OTAN tomarão medidas práticas para combater o ISIS ou será que aumentarão a agressão contra a Síria, violando o espaço aéreo sírio e à procura de um pretexto para impor uma “zona de exclusão aérea”, como feito nas agressões desastrosas contra o Iraque e Líbia?

Será que os EUA e a OTAN iniciarão uma campanha de bombardeio contra ISIS na Síria que irá inflamar MAIS apoio para o grupo no mundo árabe?

Será que eles violarão o espaço aéreo sírio como um trampolim para bombardeio americano de posições do Exército Sírio?

Ou será que os EUA e a OTAN resistirão aos cães de guerra e, finalmente, colocarão de lado a campanha de mudança de regime contra um governo de inclinação secular, socialista, que é apoiado pela grande maioria de seu povo?

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