12 de setembro de 2014

Quem o Sr. Obama vai bombardear?

Lyuba Lulko

Pravda

Tradução / Em 10 de setembro de 2014, o presidente dos EUA, Barack Obama, ordenou aumentar a acentuada campanha militar contra o Estado Islâmico, declarando que a Força Aérea dos EUA atacaria não só o Iraque, mas também a Síria. Ele jurou destruir os terroristas onde quer que estejam. Como é que Bashar al-Assad vai reagir à invasão?

Qual é exatamente o plano de Obama? Anteriormente os EUA iriam fazer apenas ataques pontuais, para proteger pessoal ou prédios de importância vital para os EUA – o consulado em Erbil, escritórios de empresas de petróleo no Curdistão iraquiano, uma base secreta de forças especiais e da CIA, etc... Agora, os EUA por-se-ão a bombardear territórios que os EUA considerem úteis para a ofensiva do exército iraquiano. Obama também propôs bloquear as fontes de financiamento do Estado Islâmico e criar uma ampla “coalizão” para combater os militantes. Acrescentou que não haverá soldados americanos “em solo”.

Analistas americanos creem que, para alcançar sucesso sem operação por terra, será indispensável aumentar consideravelmente o número de ataques aéreos. Mas só bombas tampouco bastarão. O principal problema é que as ações dos EUA não encontram nenhum apoio entre a população civil (sunitas) que pagam impostos ao Estado Islâmico e consideram os EUA como “inimigo público N° 1” – como se lê na imprensa dos EUA. Assim sendo, na opinião de vários analistas americanos, implementar no Iraque e na Síria o cenário líbio, não dará certo.

Tampouco o Pentágono acredita no poder dos ataques aéreos. O tenente-general William Mayville, por exemplo, disse, em 11 de agosto de 2014, que o Estado Islâmico estava ganhando impulso persistentemente em todo o Iraque, e que conseguirá sobreviver a ataques das forças de segurança iraquianas e curdas, apesar do ataques aéreos.

"Os bombardeios servem para destruir infraestrutura, mas não destrói combatentes, que sabem se esconder em terreno adverso. Só se derrotam combatentes com coturnos em solo", disse ao jornal Pravda, Azhdar Kurtov, historiador, cientista político e editor-chefe do periódico Problemas de Estratégia Nacional.

Segundo o especialista, é claro que os americanos terão de conduzir operação por terra no Iraque e na Síria, se querem mesmo alcançar resultados reais.

A segunda questão é o problema de bombardear a Síria. Obama falou de bombardear territórios controlados pelo Estado Islâmico, não de bombardear áreas tomadas pelas tropas sírias. Do ponto de vista legal, se o Estado Islâmico estiver em território sírio, qualquer ataque contra ele pode ser interpretado como ato de guerra. Os EUA não sabem como o presidente Assad reagirá. Segundo o general Jim Poss, ex-diretor da Inteligência da Força Aérea dos EUA, há sérias razões pelas quais políticos americanos não dão sinal de ter pressa alguma para começar a bombardear a Síria: as defesas aéreas sírias estão entre as melhores do mundo, testadas diariamente contra a melhor força aérea do planeta: a israelense. Assim sendo, os americanos deve temer baixas pesadas na Síria.

"A questão é definir quem Obama vai bombardear na Síria, porque há sérias dúvidas sobre se estará bombardeando militantes, não instalações do governo do presidente Assad que impedem os militantes de chegar a Damasco", disse ao Pravda, Yevgeny Satanovsky, Presidente do Instituto para Estudos de Israel e do Oriente Médio. O especialista acredita que o presidente Assad reagirá imediatamente, no caso de Obama pôr-se a bombardear posições do Exército Árabe Sírio e subúrbios de Damasco.

"O fato é que ninguém derrotará o EIIL e, menos ainda, os EUA. Os EUA precisam do que estão fazendo agora para gerar UMA guerra em grande escala, e forçar outros atores a se envolverem – atores regionais e não regionais. Não há bombardeios que destruam o EIIL, e ninguém conseguirá. Os objetivo é forçar outros países a se envolverem, seja como for – ideologicamente, com recursos, infraestrutura, serve qualquer envolvimento. O objetivo real de Obama talvez seja enfraquecer um pouco o EIIL. Talvez os EUA tenham superestimado a própria importância. Seja como for, só importa aos EUA que a situação sirva como disparador para uma grande guerra no Oriente Médio", disse ao Pravda,  Mikhail Chernov, cientista político e vice-diretor do Centro de Situação Estratégica.

"Quanto ao bloqueio financeiro, o Estado Islâmico recolhe impostos no território que controla militarmente, vende petróleo e recebe ajuda de fundações privadas no Golfo Pérsico. O petróleo deles é vendido por canais ilegais ou semilegais, inclusive estados árabes aliados dos EUA, dentre os quais a Turquia. Se os EUA quisessem criar qualquer tipo de bloqueio financeiro, já teriam criado há muito tempo", disse Azhdar Kurtov.

Para Yevgeny Satanovsky, eles vendem petróleo ao preço de US$ 25/barril, de duas a quatro vezes mais barato que os preços mundiais. "Quanto a isso, Obama nada pode fazer. O Qatar financiou, financia e financiará os islâmicos, e a Arábia Saudita financiará outros islâmicos", diz Satanovsky.

"O EIIL é uma faca de dois gumes. Por um lado são absolutamente malucos, seus combatentes são selvagens e ferozes em suas ações dentro do Iraque. Por outro lado, são políticos profissionais bem educados, com conexões ocidentais, talvez com origens também ocidentais, e criam a base econômica e financeira para que o Estado Islâmico funcione. Será destruído? Duvido, porque eles são a garantia de grande suprimento ilegal de petróleo barato, e muitas empresas americanas aproveitam-se disso para obter o petróleo que elas próprias vendem", disse Mikhail Chernov.

Quanto à “ampla coalizão” de fantoches dos EUA, incluirá Canadá, Austrália, Reino Unido e vários estados europeus membros da OTAN, diz Azhdar Kurtov. "Pode incluir Ucrânia ou Geórgia, os estados do Báltico, claro. Mas, de fato, a questão de amplas coalizões é absoluto nonsense. Todas essas coalizões falharam em tudo quanto poderiam falhar no Iraque e no Afeganistão. Uma coalizão pode destruir governos centralizados, mas não há “coalizão” que consiga combater terroristas, nem sabem como fazê-lo", disse Yevgeny Satanovsky

"A Rússia vai apoiar os Estados Unidos, se os Estados Unidos lutarem contra o terrorismo", continuou Yevgeny Satanovsky. "Entretanto, o presidente Obama vai combater o terrorismo com uma mão e, com a outra, tentar derrubar o presidente Assad. Por que deveria a Rússia dar luz verde a um golpe contra o presidente sírio, que atua como o único obstáculo para impedir a Síria de entrar em colapso e se transformar em um enclave terrorista, como aconteceu com a Líbia?"

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