16 de setembro de 2014

O tempo da "Terceira Força" na Síria

Peter Lee


[Subsequent to e-mailing this piece to China Matters subscribers, I went back and added a paragraph about the "28 pages" and the legal jeopardy they might pose to Saudi Arabia in US courts, and some thoughts about the "anti-IS campaign" as a harbinger of a new US approach to pursuing limited goals in the region.]

Desde que o presidente Obama proferiu o discurso “crISis®” tenho lutado para afastar o que entendo que sejam predições simplistas do fracasso da “guerra” de Obama, que se sirvam de argumentos como “força aérea não ocupa” e “armar rebeldes sírios anti-Assad ostensivamente moderados é sempre exercício no campo da futilidade”.

Em 12 de setembro de 2014, escrevi:

A parte mais deprimente da estratégia dos EUA é que, tanto quanto posso ver, considera-se a campanha anti-Estado-Islâmico como Cavalo de Troia, uma chance para ajudar, fortalecer e promover forças anti-Assad. Quer dizer: em vez de cooperar com, literalmente, o único estado do Oriente Médio disposto a pôr no solo um exército inteiro contra o Estado Islâmico (a Síria), os EUA recusam-se a trabalhar com a Síria e, em vez disso, vão treinar e equipar uma força anti-Assad e anti-EI, ao que se sabe, na Arábia Saudita, que é menos uma milícia de “insurgentes” venais comprados pelos EUA e mais uma força militar de ataque controlada e disciplinada e usada pela CIA-USA e, diferente do nosso mais conhecido experimento anterior desse tipo – a invasão da Baía dos Porcos – essa força terá muito poder aéreo. 
A ideia, presumivelmente, é que o EI é acossado por drones e ataques aéreos (e sua frota de caminhões-tanque transportando petróleo bruto para a Turquia é destruído) e retrocede; a força apoiada pelos EUA então avança e ocupa o território deixado vazio, antes de que Assad consiga chegar. Com sorte, a força atrairá os espirituais aliados do EI que preferem um cheque em dólares norte-americanos e imunidade contra ataques aéreos, a ser convertido ao estado de átomos dispersos. Assim, os EUA podem orquestrar as demandas de uma oposição síria viável para que Assad “saia”... em nome de preservar a unidade nacional, receber total apoio dos EUA, e guerra total contra o Estado Islâmico. Vitória! 
Meu conhecimento reconhecidamente limitado sobre o processo de tomada de decisões do governo dos EUA dizem-me que alguém tem de ter apresentado ao presidente Obama uma proposta de vitória dos EUA na Síria, ou, pelo menos, alguém tem de ter aparecido com algum argumento plausível de chance de vitória dos EUA na Síria. Tem de ter sido isso, antes de Obama tomar a decisão politicamente intragável de voltar a entrar no atoleiro do Oriente Médio.

Um claro presságio dessa abordagem já aparecia na declaração do Exército Sírio Livre de que não participará da coalizão anti-Estado-Islâmico. É, você leu certo. Não participará. Ainda que o Exército Sírio Livre já esteja na gaveta do EI, mesmo assim poderia aproveitar-se de alguma ajuda dos EUA.

O fundador do grupo, o coronel Riad al-Asaad, destacou que derrubar o presidente sírio, Bashar al-Assad é a sua prioridade, e que eles não vão unir forças com os esforços liderados pelos EUA sem uma garantia de que os EUA estejam comprometidos com a sua derrubada.

O mais provável é que o coronel al-Asaad tenha justificada desconfiança da nova iniciativa dos EUA, porque era claro que a CIA já vinha negociando diretamente com os comandantes mais viáveis e mais capazes, para tirá-los do Exército Sírio Livre.

Patrick Cockburn expôs essa história em 9 de setembro de 2014, com alguma ajuda de McClatchy:

O Exército Sírio Livre, elogiado nas capitais ocidentais como provável vitorioso no combate militar contra o presidente Assad, já estava em pleno colapso no final de 2013. O comandante militar do ESL, general Abdul-Ilah al Bashir, que desertou do governo sírio em 2012, disse em entrevista com a agência de notícias McClatchy semana passada que a CIA já tinha assumido o comando dessa nova força moderada. Disse que “o comando do Exército Sírio Livre é americano”; acrescentou que desde dezembro passado o suprimento de equipamentos americanos já tinha atropelado a liderança do ESL na Turquia e estava sendo feito diretamente a mais de 14 comandantes no norte da Síria e a 60 grupos menores no sul do país. O general Bashir disse que todos esses grupos do Exército Sírio Livre reportam-se diretamente à CIA.

Bem, perdoem-me uns passos de dança da vitória. Garantido que a senhora gorda colocou os pulmões para fora de tanto que berrou esse canto.

Do depoimento de Dempsey, comandante dos chefes do Estado-Maior dos EUA, ao Congresso, segundo The Guardian:

Na Síria, os EUA buscam treinar rebeldes sírios “selecionados” para capturar território sírio tomado pelo ISIS. Hagel e Dempsey reconheceram que uma coorte inicial de 5 mil homens das forças de oposição síria não estará preparada antes de, no mínimo, oito meses. 
... 
“5 mil não bastarão para virar a maré, reconhecemos isso” – disse Hagel. Nem ele nem Dempsey descartaram pedir mais poderes e mais dinheiro para construir uma “versão” de exército sírio no futuro.

Quanto ao presidente Assad, acho que ele está cansado de saber que a estratégia é “primeiro-ISIL”, “segundo-Assad”:

[Dempsey] e Hagel negou [negaram], quando perguntado[s] pelo Senador John McCain (...) se os novos aliados dos EUA receberiam cobertura aérea se atacados pelo “ditador sírio Bashar al-Assad”. 
“Ainda não chegamos lá, mas nosso foco é o ISIL”, outro nome do mesmo ISIS, disse Hagel. 
Dempsey – cuja renúncia McCain havia exigido, dada a relutância do general em usar soldados dos EUA contra Assad – concedeu que “se tivéssemos de descartar [lutar contra] Assad, teríamos “ainda maiores dificuldades” para persuadir os sírios a unir-se à coalizão; mas disse que o governo, sim, tem uma estratégia de “primeiro o ISIL”.

The Guardian, como eu, também enfrentou alguma dificuldade para encontrar o nome certo para essa força. Não acho que “exército por procuração” [“proxy army”] resolva o caso, porque o tal “exército”, embora constituído de soldados sírios, não de unidades militares americanas, estará sob o comando diário da CIA e não lhe será permitido afastar-se um passo que seja nem trabalhar por agendas políticas, estratégicas e táticas próprias deles, como acontecia com o desmoralizado Exército Sírio Livre.

“Terceira Força” me parece um nome adequado nesse caso.

Não penso necessariamente que a tal estratégia dará resultados, e com certeza tem menos chances de funcionar que alguma aliança que una os três atores que hoje já estão com os afamados “coturnos em solo” e já estão dando combate determinado ao Estado Islâmico: os governos sírio e iraniano e os curdos sírios. Basicamente, os EUA acalentam esperanças de que dinheiro, ataques aéreos, o comando da CIA e pó mágico conseguirão fazer sumir o Estado Islâmico, o suficiente para que os EUA possam dedicar-se integralmente a derrubar o regime de Assad – escondidos por trás de algum discurso sobre “governo de unidade nacional” como no Iraque – como um espécie de preço pelo esforço adicional dos EUA contra o Estado Islâmico.

Os EUA já tentaram antes a própria sorte com essas estratégias de “Terceira Força”, mas o apoio dos EUA, embora tenha obtido sucesso de curto-prazo, praticamente sempre se converteu em beijo-da-morte para a legitimidade da força local e, afinal, de sua própria viabilidade. Assad, ISIS, Irã e Rússia estão afanosamente preparando contramedidas para assegurar que a estratégia de evolução lenta dos EUA não acabe por queimá-los.

Mas eu acho que aí está importante lembrete de como o presidente Obama e burocracias governamentais, de fato, todas as burocracias, funcionam.

Políticas falhadas como o golpe de “terceirizar” o golpe para derrubar Assad transferindo-o para rebeldes dominados por jihadistas não são só políticas velhas re-embaladas. Não só porque o presidente Obama é sujeito cerebral, avesso a fracassos. As coisas são como são, também porque há toda uma rede de apoio de governo, militares e especialistas e planejadores de think tanks, cujo trabalho é aparecer com algum plano plausível, com alguma chance de sucesso – mesmo que sua única chance para existir seja que a inexequibilidade do tal plano ainda não esteja claramente demonstrada por fracasso prévio.

It might also mean that the United States has decided to wean itself of its reliance on proxies and release of uncontrollable regional forces to remake the Middle East when the Powell Doctrine of massive, decisive US power could not be brought to bear, and use a limited force largely under its control to pursue, and maybe even achieve, limited goals. That will have certain implications for countries like Israel and Saudi Arabia, which have relied on their willingness to do--or fund--America's ambitious dirty work in order to inflate their own regional stature.

Assim sendo, critiquem o quanto queiram o plano do presidente Obama. Mas ninguém jamais ouvirá a crítica de que “tudo isso já falhou antes”. Porque o que realmente interessa na repetição é que, se os EUA falharem, falharão de modos novos, jamais vistos. Não há de ter escapado à análise que o presidente Obama certamente fez, o fato de que o processo está agendado para arrastar-se por pelo menos três anos – caso em que o fracasso, se ocorrer, será entregue em pacote sanguinolento deixado à porta da presumível próxima presidente, Hillary Clinton—has perhaps not escaped President Obama.

Como um Post-Scriptum, e uma vez que a bola de cristal desse nosso blog China Matters parece estar em magníficas condições de funcionamento, começo a achar que já se esgotou o prazo de validade da aliança entre os EUA e o Reino da Arábia Saudita. Indicador chave será se o presidente Obama cumprir aquela promessa de campanha do candidato Obama e mandar revelar o conteúdo das 28 páginas excluídas do Relatório da Comissão do 11/9.

As linhas gerais do que lá está escrito são bastante bem conhecidas e comprovam a culpa de indivíduos e do que parecem ser funcionários do governo do Reino Saudita nos ataques do 11/9/2001. Mas esse material é considerado altamente embaraçoso para o governo Bush, por causa de seus contatos íntimos com a Arábia Saudita e disposição para permitir que figuras sauditas chaves fugissem dos EUA em avião que decolou secretamente para evitar questionamentos do FBI; tudo isso considerado, a pouca disposição do atual governo para ordenar a divulgação desses documentos; e o motivo pelo qual Obama enfrentou sem revidar as críticas cínicas e irresponsáveis de Dick Cheney contra as políticas antiterror do atual governo já são, há algum tempo, uma espécie de mistério.

Minha opinião, porém, é que a chave de todos esses mistérios é que a Arábia Saudita assinou aliança de autoproteção com Israel, cuja capacidade para fazer-acontecer o que deseje em Washington supera em muito a capacidade d’ “O Reino”. Pelo modo como vejo as coisas, a cooperação entre Israel e a Arábia Saudita é fundada num desejo conjunto de manter o Irã sempre sob o status de pária, e bem afastado de qualquer relação normal com os EUA, evento que empurraria Israel e Arábia Saudita na direção da periferia das políticas dos EUA para o Oriente Médio.

A Arábia Saudita, por sua vez, atiça determinadamente o fogo da crise na Síria, porque a necessidade do Irã, de apoiar Assad, põe o Irã em oposição aos EUA. Israel bate o tambor de alarme contra “a ameaça” nuclear do Irã e, suspeito eu, diz ao governo Obama que tanta atenção aos wahhabistas e excessos anti-EUA do governo saudita – como as páginas arrancadas do relatório da Comissão do 11/9 – desestabilizariam a Arábia Saudita e dariam ajuda e conforto ao Irã.

When one considers that throwing the 28 pages into the US anti-terrorist, criminal, and civil law mix might expose the Saudi government--and extremely wealthy and powerful members of the nation's elite--to imprisonment and literally hundreds of billions of dollars in civil penalties, it seems plausible that the Saudi government would want to keep a lid on the redactions despite Prince Bandar's public protestations to the contrary--and perceive further incentive for shaping its regional diplomatic and military strategy around an otherwise reckless anti-Iran/pro-Israel play.

Mas, agora, o Exército Islâmico é escorregão em mais um sangrento incômodo contra a campanha brutal, mal feita, de subversão regional, comandada pela Arábia Saudita; o boomdo gás de xisto convenceu os EUA de que a segurança energética do país já não é refém de “O Reino”; que os EUA já não dependem de rapapés ostensivos a favor de um regime de degola gente por “feitiçaria”; o presidente Obama gostaria de ver a aproximação com o Irã, como seu legado; e é possível que Obama também se sinta enojado pelo oportunismo basal que foi forçado a exibir na questão dos mais recentes massacres contra Gaza, por israelenses. E, claro, Barry e Bibi detestam-se mutuamente.

Maybe President Obama decides it's in America's interest to keep that Sword of Damocles hanging over Saudi Arabia, continuing to use the threat of releasing those pages to wring value from the Saudis.

Mas talvez, se o presidente Obama acha que pode passar a linha pela agulha, concluir as negociações nucleares com o Irã, e talvez até mesmo convencer o Irã a jogar Assad debaixo do ônibus tudo num mesmo negócio... é de supor que venha a arrancar da tomada o fio que mantém ativo um relacionamento colossalmente tóxico com a Arábia Saudita – doença-perversão mortal, marcada pelos ataques do 11/9 e que já consumiu 15 anos, mais de dois trilhões de dólares e milhões de vidas ceifadas, e ainda sem falar de dar a conhecer ao mundo o conteúdo amaldiçoado daquelas 28 páginas.

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