11 de setembro de 2014

Robert Fisk sobre a campanha do EIIL. Bingo! Aqui está mais uma força do mal a ser "banida"

One can see how difficult these lessons in Middle East history must be for the average American

Robert Fisk


Tradução / Ressurreição, reinvenção e linguística. Barack Obama fez de tudo. E agora leva os EUA para a guerra na Síria, bem como no Iraque. Ah sim, e vai derrotar o EIIL, a sua "barbárie", "genocídio", a sua "ideologia distorcida" – até que os malditos sejam "aniquilados da face da Terra". O que aconteceu a George W Bush?

Mas vamos examinar a situação de uma perspetiva linguística. Primeiro, Obama vai ressuscitar as milícias sunitas "Conselho do Despertar" – uma criatura criada por um tal general David Petraeus – que era pago pelos norte-americanos para combater a al-Qaeda durante a ocupação norte-americana do Iraque, mas foi varrido de lá pela al-Qaeda e traído pelo governo iraquiano dominado por xiitas. Obama até inventou um novo nome para estas milícias: chamou-as de "Unidades da Guarda Nacional", que vão "ajudar comunidades sunitas a assegurar a sua própria liberdade contra o EIIL". Guarda Nacional, de facto!

Depois há também a reinvenção da tal oposição síria "moderada", que antigamente se chamava Exército Sírio Livre – uma força composta por desertores corruptos e traídos tanto pelos seus aliados ocidentais como também pelos seus aliados islâmicos – que já nem existe. Esse exército fantasma será chamado de "Coligação Nacional Síria" e será treinado – de todos os lugares – na Arábia Saudita, cujos cidadãos deram zilhões de dólares à al-Qaeda no Iraque, também chamada EIIL, Jabhat al-Nusra e inúmeros outros homens maus, os quais, agora, Obama quer ver "banidos".

E depois a linguística. Obama "não hesitará em atuar contra o EIIL na Síria". Mas isso significa que vai "banir" os inimigos do presidente sírio Bashar al-Assad, o mesmo que Obama queria “banir” no ano passado – até que se amedrontou e preferiu deixar Assad em paz. Então, se o inimigo do meu inimigo é meu amigo – como, supostamente, os árabes dizem uns aos outros – Assad pode ver Washington como o seu novo aliado.

Mas não. Então vieram as explicações curtas e duvidosas: os EUA "não podem confiar num regime Assad que aterroriza o próprio povo", regime que "nunca mais recuperará a legitimidade que perdeu". Mas nunca ninguém pediu aos EUA que "confiassem" em Assad – é Assad que confia no apoio da Rússia. E a legitimidade de Assad é reconhecida e respeitada pela China, Irão – com quem os EUA estão a ter conversações íntimas sobre a questão nuclear – e a Rússia, cujos exércitos claramente não hesitaram "em atuar" na Ucrânia.

Feitas as contas, um belo estado de coisas. E parte do problema é que os EUA não têm memória semântica – institucional ou nacional. Obama diz-nos que os EUA vão "caçar os terroristas que ameaçam o nosso país". Mas lembro-me que o Vice-Presidente George Bush disse ao seu povo, depois de a Marinha dos EUA ter bombardeado Beirute em 1983, que "não deixaremos que um bando de covardes terroristas insidiosos abale a política externa dos EUA". Depois, os militares norte-americanos fugiram de Beirute. Três anos depois, o presidente Ronald Reagan afirmou que Muammar Gaddafi da Líbia ("o cão raivoso do Médio Oriente") "fugiu – mas não tem onde se esconder". Mas Gaddafi escapou – e ainda foi beijado por Tony Blair, depois de ser perdoado por todo o seu "terrorismo" – para depois ser assassinado pelos seus inimigos quando voltou a ser "terrorista".

É fácil entender que estas lições de história do Médio Oriente sejam muito difíceis para o norte-americano médio. Todas estas forças do mal banidas repetidamente, até que – bingo – aparece mais uma força do mal a ser banida. E Obama produz palavras fáceis de engolir: "genocídio", "barbárie", "cancro".

Só ocasionalmente aparece algo sem encadeamento lógico que os norte-americanos devem ignorar. Como, por exemplo, a estranha referência de Obama a "grupos radicais que exploram ressentimentos em seu benefício ". E que "ressentimentos" seriam esses?, pergunto eu. A invasão ilegal do Iraque em 2003 e o concomitante banho de sangue? A nossa ocupação contínua do Afeganistão? A pulverização de Gaza, pelo maior aliado dos EUA?

Obama, generosamente, não pronunciou o nome do tal aliado, embora este tenha uma grande participação na guerra recém-expandida dos EUA no Médio Oriente – afinal, partilha uma importante fronteira com a Síria. Mas a Arábia Saudita, Qatar e os outros líderes Cresos do Golfo árabe sunita podem não gostar que os seus cidadãos sejam relembrados de que a renovada aliança com Washington ajudará Israel.

A ironia gritante é que os homens do "Estado Islâmico" massacram, decapitam e procedem a limpezas étnicas dos seus inimigos. O "estado" que inventaram e o seu sadismo converteram-nos numa estranha combinação de Mickey Mouse com Genghis Khan. Estranhamente, o EIIL não tentou explorar o "ressentimento" anónimo a que Obama se referiu. A sua "ideologia" (as aspas são obrigatórias) é tão totalmente introvertida que não proferiram uma única palavra de simpatia pelos palestinianos de Gaza durante o mais recente derramamento de sangue. Mas existem ressentimentos. Haverá alguma vez um Curdistão? Haverá algum dia uma Palestina?

Obama não disse uma palavra sobre estes assuntos infinitamente mais graves. Temo que se trate da mesma velha política dos EUA: confrontar a maior crise no Médio Oriente desde a última maior crise no Médio Oriente. E podemos contar com os americanos para isso.

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