16 de setembro de 2014

Soldados da unidade de elite estão dizendo "não mais!"

Michel Warschawski

Alternative News
Há um mês, durante a agressão criminosa contra Gaza, escrevi no meu blog "Mas, onde estão os refuseniks?1”. Há que recordar que durante a guerra no Líbano (1982-1985) e durante a Intifada (1987-1990) milhares de oficiais da reserva e soldados no ativo negaram-se a reintegrar as suas unidades, e centenas deles foram condenados a pequenas penas de prisão (digamos que só de várias semanas). Ficaram conhecidos como refuseniks.

Apesar da evidente natureza agressiva dos atuais ataques israelenses a Gaza dirigidos contra civis e que causaram mais de 2.000 mortos, nesta ocasião não houve movimento refusenik. Só uma meia dúzia de soldados se negou a intervir, o que está muito longe do que se pode chamar um movimento refusenik. Há que encontrar as razões disso nas mudanças estruturais que, durante as últimas duas décadas, se deram na sociedade israelita e, evidentemente, não foram em boa direção.

No entanto, há poucos dias, o jornal Yediot Aharonot, o diário israelense mais lido, publicou uma “carta aberta” assinada por 43 oficiais e soldados da reserva, em que anunciaram que a partir de agora negar-se-ão a servir nos territórios palestinos ocupados. Não se trata de uns soldados quaisquer: todos eles pertencem à Unidade 8200, uma das mais prestigiadas do corpo de segurança militar. Na carta denunciam o que durante anos têm estado a ordenar: espiar a vida privada de centenas de milhares de palestinos e utilizar a informação para chantagear e recrutar muitos deles como colaboradores das forças de ocupação. O objetivo da informação que reuniam era dirigido a "recrutar colaboradores e chantageá-los, inclusive mediante o uso de informação sobre a sua vida sexual, as suas doenças ou outros problemas de palestinos inocentes" (publicado no diário Haaretz, 15 de setembro de 2014).

A classe política reagiu de forma brutal: "põem em perigo a segurança de Israel", disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu; e o Ministro da Defesa acrescentou: "estão a atirar lenha para a fogueira da campanha internacional de deslegitimação contra Israel". O ministro dos transportes, Israel Katz, sugeriu que fossem transladados como simples soldados para Neguev, e o presidente do Comitê de Segurança e Relações Externas do Parlamento, Zeev Elkin, acusou-os de "darem uma facada nas costas ao Exército israelense". O general (na reserva) Hanan Gefen, ex chefe dessa unidade de elite, foi ainda mais longe: "devem ser levados às salas de interrogatório do SSG (Serviço de Segurança Geral) ou da segurança militar". A "esquerda" não foi melhor que a direita, e como de costume, Yair Lapid foi um dos piores na denúncia da “carta aberta” dos soldados.

Uma vez mais, o diário Haaretz constitui uma exceção. No seu editorial de 15 de setembro, intitulado "Escutem os refuseniks", pode ler-se: "Seria bom que os chefes dos aparelhos de segurança e os líderes do Estado compreendessem que este protesto vem do próprio coração de uma unidade de elite como a Unidade 8200. O que deveria ter provocado indignação não é a sua posição, mas sim o que isto significa (...) Em lugar de atacar os 43 subscritores, seria mais sábio escutar o que têm para dizer".

Se os membros da Unidade 8200 estão a levantar a bandeira da rejeição, pode prever-se que uma nova onda de soldados de outras unidades dirá "não mais!" A estação seca da rejeição de que me queixava há um mês, está a chegar ao fim. Que assim seja!

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