13 de outubro de 2014

A construção midiática dos “jihadistas”

Saïd Bouamama


Tradução / Um novo termo entrou no vocabulário usual do francês nos últimos meses, o de “jihadista”. Os grandes meios de comunicação abordam diariamente o tema e difundem um marco de interpretação que modela a opinião pública, orientando as reações e suscitando tomadas de posição. Para dar um aval científico a afirmações midiáticas, recorrem à ajuda de “experts” e “especialistas” de nomes conhecidos.

Porém, além de uma aparente diversidade de opiniões, esconde-se uma unidade de análise. Apesar da impressão de objetividade dos artigos e reportagens, podem ser identificadas constantemente estas quatro recorrências ideológicas: os prejuízos sobre o Islã, a coerção aos muçulmanos para que justifiquem sua fé, a negação das causas internas nos países ocidentais e a justificativa da guerra. Estes quatro discursos midiáticos, ao serem difundidos sobre um fundo sensacionalista, não são casuais. Possuem uma função social e política muito concreta. Juntos, ajudam a produzir uma realidade social e política com graves consequências.

O sensacionalismo

O tom dominante do discurso midiático é o do sensacionalismo. Encontramo-nos diante de um fenômeno sensacional, não apenas inédito como também sem precedentes. Repetem-se cifras e destacam-se os fulgurantes aumentos das partidas rumo a Síria: “Nunca foi tão elevado o número oficial de participantes franceses na jihad. Em julho, o ministro do Interior estimava em 800 o número de pessoas participantes em operações islâmicas no Oriente Médio. Uma cifra que já tinha aumentado em 56% em pouco meses: eram 500 em abril. Um ano antes, em março de 2013, no máximo 50 franceses tinham escolhido a jihad. O aumento constante do número de combatentes voluntários mostra as dificuldades em deter o fluxo de partidas para o Iraque ou Síria”. [1] As manchetes angustiadas protagonizam as capas de nossa imprensa, as notícias ou a apresentação das reportagens sobre a atualidade: “Jihadismo, uma França mal protegida”, segundo o diário L’Express [2]; “A situação da ameaça terrorista na França”, segundo o diário I-télé [3], “Os jihadistas treinam na zona das Ardenas belgas”, segundo o diário L’Union l’ Ardennais [4], etc.

A fábrica do medo funciona a todo vapor, com suas duas consequências lógicas: a renúncia à explicação racional, por um lado, favorecendo as reações emocionais e, por outro, a demanda de segurança, que será aceita inclusive em detrimento das liberdades essenciais. Já não se trata apenas de perseguir os objetivos atuais, mas que a escalada de uma lógica baseada na segurança se instala profundamente em nossa sociedade. Este mecanismo tem sido descrito da seguinte maneira por Serge Quadrupanni: “O antiterrorismo é a ponta de lança, a vanguarda conceitual e a prática de uma política do medo que tende a infiltrar-se em todos os lugares da sociedade. Esta política de produção simultânea de temores e de controles supostamente justificados para detê-los e controlá-los, está condenada a inventar constantemente novos inimigos: depois do terrorista, serão os jovens dos bairros populares ou simplesmente os jovens, as crianças, o internauta, o louco, o imigrante, o estrangeiro, o muçulmano, o cigano” [5]... Porém, precisamos evitar a crítica que nos apresenta como sob “a teoria da conspiração”, já que esta aparece constantemente como um "curinga” ante cada questionamento dos mecanismos de dominação. Não há necessidade de crer em nenhuma “teoria da conspiração” para determinar a existência de uma estratégia por parte das classes dominantes, em sua pretensão de guiar a opinião pública para mascarar a realidade e impor decisões, apresentando-as como desejáveis e necessárias. [6]

Essencialismo

O primeiro fio condutor dos discursos midiáticos dominantes, imposto pelo sensacionalismo, é uma construção essencialista do Islã. O essencialismo é, pois, o processo do pensamento que consiste em homogeneizar uma realidade plural, em fazer com que perda seu caráter histórico e em apresentá-la de forma reconstruída, como uma explicação invariável ao conjunto dos acontecimentos e/ ou dos comportamentos das pessoas que se destinam a constituir essa realidade. Durante muitos anos, esta construção essencialista (ou estereotipada, distorcida) do Islã foi difundida através de múltiplos canais, tendo como consequência o aumento da islamofobia. Segundo essa reconstrução, o Islã é apresentado como incapaz de conceber a diferença entra a religião e a política, da qual se deriva, logicamente, uma intolerância dos muçulmanos à democracia. Ele se basearia em uma desigualdade de gênero com o resultado lógico de um sexismo exacerbado por parte dos homens muçulmanos, e de uma submissão igualmente significativa por parte das mulheres muçulmanas. Tudo isso seria incompatível com o racionalismo e por essa mesma razão conduziria a uma maior tendência ao fanatismo, etc.

Uma das consequências do processo do essencialismo é o uso como sinônimo dos termos “Islã” e “muçulmano”. Desta maneira, todos os comportamentos dos muçulmanos podem ser explicados por esse Islã apresentado como uma essência, essencializado. O boxeador Mohammed Ali respondeu, de maneira fulminante, este tipo de raciocínio em uma famosa entrevista com um jornalista sobre os ataques do 11 de setembro: “Como você se sente acerca da ideia de compartilhar da mesma fé com os suspeitos detidos pelo FBI?” – “E você”, contestou, “Como se sente sobre a ideia de que Hitler compartilhou da sua?” [7].

Coerção

A divisão binária implica uma lógica de suspeita. Ao mesmo tempo em que se aplaude o “muçulmano moderado”, aos “radicais” são pedidas explicações, que tomem a palavra, que emitam condenações. O muçulmano é, de alguma maneira, responsável por todos os atos e declarações que sejam feitas em nome do Islã por qualquer pessoa neste planeta que se reivindique desta religião. Seus silêncios são diagnosticados, no melhor dos casos, como irresponsabilidade e, no pior, como cumplicidade. Foi assim que o jornal francês Le Figaro iniciou uma pesquisa, em 25 de setembro passado, em torno de tão significativa pergunta: “Os muçulmanos franceses manifestam suficientemente sua oposição à ameaça terrorista?”. De sua parte, La Libre Belgique intitulou um de seus artigos, em 28 de setembro, da seguinte maneira: “Devem os muçulmanos se separar dos jihadistas?”. A campanha "NotInMyName" (Não em meu nome) não apenas protagonizou as manchetes de todos os meios de comunicação durante vários dias, como foi retomada pelo próprio presidente Obama, que declarou na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 24 de setembro, que: “É hora do mundo – e em particular as comunidades muçulmanas – repudiar explicitamente com firmeza e de forma sistemática, a ideologia do Al Qaeda e do Estado Islâmico”.

Após a acusação de “comunitarismo” ser frequentemente usada ao serem abordadas as questões referentes ao Islã, agora é pedido aos muçulmanos que se expressem como comunidade. Tanto faz aceitarem o jogo do julgamento ou repudiarem o constrangimento de ter que se justificar, o resultado é o mesmo: a reprodução do estereótipo que apresenta os “muçulmanos” como totalidade homogênea e vazia de contradições. O constrangimento de ter que se justificar está sob a mesma lógica que a dos “castigos coletivos” da época colonial. Antes, era possível condenar grupos inteiros por delitos que não tinham cometido. Agora, existem grupos inteiros que devem se justificar pelos fatos pelos quais não são responsáveis. Porque, evidentemente, o silêncio é, rapidamente, percebido como sinônimo de cumplicidade.

A lógica não é nova, sendo utilizada várias vezes no que se refere à imigração e seus filhos, que são as novas gerações de franceses. Por exemplo, recordemos as revoltas nos bairros populares, em novembro de 2005, na França. As pessoas de origem imigrante eram convidadas aos palcos da televisão unicamente para responderem uma pergunta: o que tinham a ver com as revoltas? Também podemos citar a coerção (quando a pessoa é de origem imigrante) de ter que demonstrar que está se integrando, que não é homofóbico, nem sexista, nem antissemita, etc...

A frequente divisão binária entre “muçulmanos moderados” e “muçulmanos radicais” não muda em nada a questão da essencialização. O muçulmano moderado seria o que pratica o Islã com moderação e o muçulmano radical, o que pratica o Islã sem moderação. Definitivamente esta divisão binária e essencialista atribui à palavra “radical” um certificado de “islamidade”, já que é necessário moderar o Islã, então é porque carrega, em sua essência, tendências perigosas. Como destaca Maurice Tarik Maschino “o muçulmano moderado é uma abstração, um pseudoconceito ou conceito de guerra, cuja função é a de despertar na imaginação dos leitores, os estereótipos habituais que estigmatizam os muçulmanos”. [8]

Negação

A essencialização e a coerção que levam à prática da justificação, possuem uma função social e política: a de esconder as causas que podem levar jovens franceses a se candidatarem para ir à Síria. Em todos os processos sociais, o questionamento unicamente da “oferta” (neste caso a oferta de “jihadismo”) conduz a um reducionismo da realidade. O silêncio sobre a “demanda” é uma negação das verdadeiras causas do processo estudado. Existe muito em jogo, já que considerar a demanda nos leva ao interesse pelas condições materiais da existência de uma parte de nossa população, cuja origem é a imigração pós-colonial.

Agora bem, essas condições revelam uma discriminação massiva e sistêmica, tornando impensável o porvir para muitos jovens. Essas condições ressaltam uma precariedade, fazendo do cotidiano algo insuportável. Destaca-se a relação com a polícia baseada em controles de identificação em um ritmo de excessiva regularidade, o que produz um sentimento difuso de insegurança. Além disso, trazem à luz um estado de suspeita permanente pelos meios de comunicação, com uma islamofobia em crescimento exponencial durante estas últimas décadas. Todos estes são fatores que podem se somar em trajetórias individuais, fazendo emergir uma “demanda”, exatamente como causas similares podem levar outros jovens a comportamentos suicidas, a necessidade ou demanda de uma seita, à violência contra si mesmo e contra os seus.

A explicação midiática em termos de “autorradicalização”, que se tornou tão comum, não rompe com esta negação das causas da demanda. Aqueles que formularam a “oferta” se converteram em especialistas do doutrinamento informático e isto seria suficiente para explicar todo o processo. Mais uma vez, se elimina o questionamento sobre os fatores que fazem alguns mais idôneos para esta oferta. O verniz de tipo psicológico de inúmeras reportagens tem como objetivo cobrir, sob um discurso de pretensamente científico, a operação de negação das causas reais.

A justificativa

A essencialização, a coerção e a negação conduzem, finalmente, para evitar todo o debate sobre os objetivos reais das guerras. Tudo o que está em jogo em termos geoestratégico e energético (gás e petróleo) desaparece por completo do debate, para deixar espaço unicamente para a urgência de um consenso “antibarbárie”. A operação foi, até agora, um sucesso. As intervenções na Síria, na Costa do Marfim e na África Central ainda não geraram grandes reações. Ao reunir o conjunto de atores sociais suscetíveis a opor-se à guerra, em um clima de pavor e em meio a explicações essencialistas, é possível destruir o movimento de “não à guerra” e “anti-imperialista”. Esse clima e essas explicações permitem que não questionemos as táticas e estratégias utilizadas concretamente, como por exemplo, o apoio a grupos, que mais tarde serão combatidos, a apresentação de monarquias obscuras (Arábia Saudita, Qatar, etc) como aliados, etc...

É assim como a construção midiática dos jihadistas se inscreve no marco de uma estratégia de guerra. Pouco importa que isto se faça de forma consciente ou não pelos atores dos meios de comunicação: o resultado é o mesmo.

Notas:

1. Le Figaro.fr del 14-09-2014.

2. L’Express N° 3300 del 1-10-2014.

3. I-télé 15-09-2014.

4. L’Union l’Ardennais del 3-10-2014.

5. Serge Quadrupanni, La politique de la peur, Seuil, Paris, 2011, p. 24.

6. Para uma crítica mais aprofundada da invenção da teoria da conspiração e sua instrumentalização (em particular Taguief et Boudon) contra qualquer crítica do sistema de dominação capitalista, ver: “L’invention de la théorie du complot ou les aveux de la sociologie libérale, in Terreur et Possession, enquête sur la police des populations à l’ère technologique”, Éditions de L’Échappée, Paris, 2008.

7. Palavras citadas por Sylvain Cypel no Le Monde, em 06-10-2001

8. Maurice Tarik Maschino, Qu’est-ce qu’un musulman modéré ?, El Watan du 28-03-2012.

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