21 de outubro de 2014

A desindustrialização e o socialismo

Michael Roberts

Michael Roberts Blog

Tradução / Na semana passada discursei em um painel que debatia a desindustrialização e o socialismo. O painel foi organizado pelo Spring, um grupo com sede em Manchester na Inglaterra e que se tornou um fórum para a discussão dos desenvolvimentos do capitalismo e suas implicações nas perspectivas do socialismo.

O tema principal da discussão foi o fato evidente de que o setor industrial (indústrias, energia, mineração, etc) teve um declínio nítido como parte da produção e do emprego nas economias capitalistas maduras durante o século vinte. A questão em debate era: isso significa que a classe trabalhadora também entrou em declínio e não é mais a força principal da mudança no capitalismo; e também, que uma sociedade socialista ou pós-capitalista será um mundo sem indústria ou emprego dos trabalhadores industriais?

O primeiro ponto que notei na discussão foi que o mundo não esta se desindustrializando. Globalmente, havia 2,2 bilhões de pessoas trabalhando e produzindo valor em 1991. Agora são 3,2 bilhões. A força produtiva global aumentou em 1 bilhão nos últimos 20 anos. Mas não houve desindustrialização globalmente. A desindustrialização é um fenômeno das economias capitalistas maduras. Não se dá nas economias capitalistas "emergentes".

Usando as figuras fornecidas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), podemos ver o que está acontecendo globalmente, com a ressalva de que há um menosprezo sério dos trabalhadores industriais nessas figuras e muitos trabalhadores hi­-tech, de transporte e comunicação são colocados no setor de serviços.

Globalmente, a força produtiva industrial cresceu em 46% desde 1991, de 490 milhões para 715 milhões em 2012 e irá alcançar bem mais de 800 milhões antes do final da década. De fato, a força produtiva industrial cresceu em 1.8% desde 1991, e desde 2004 em 2.7% ao ano (até 2012), uma taxa de crescimento mais rápida do que a do setor de serviços (2.6% ao ano)! Globalmente, a porção de trabalhadores industriais na força produtiva total cresceu moderadamente, de 22% a 23%. É nas economias capitalistas maduras desenvolvidas onde houve a desindustrialização. A força produtiva industrial caiu 18%, de 130 milhões em 1991, para 107 milhões em 2012.


A grande queda não aconteceu no número de trabalhadores industriais globalmente, mas no de trabalhadores da agricultura. O processo de sucção pelo capitalismo de camponeses e agricultores das áreas rurais e da transformação deles em trabalhadores industriais nas cidades não acabou. A porção da força de trabalho agrícola na força produtiva global decaiu de 44% para 32%. Então não devemos falar de des­ruralização, como Marx fez no meio de 1800? Esse é o grande fenômeno global dos últimos 150 anos.

Claro, a maioria dos trabalhadores são do setor de serviços. Esse setor é mal definido: pertence a este setor qualquer um que não seja trabalhador industrial ou da agricultura. Esse setor era menor que a agricultura em 1991 (34% para 44%) mas agora é maior, com 45%, comparado com 32% para agricultura.

Enquanto eu discursava em Manchester, o centro da revolução industrial na Grã Bretanha no inicio do seculo XIX, fui lembrado do trabalho de Friedrich Engels, o parceiro de Marx, e que gerenciava a firma alemã de seu tio na época. Quando jovem (24 anos), Engels escreveu "A Condição da Classe Trabalhadora na Inglaterra" (publicado em 1845) e descreveu as condições horrendas de pobreza que os homens, as mulheres e crianças rurais eram sujeitadas quando foram trabalhar nas cidades urbanas de industrialização rápida no norte da Inglaterra. É a mesma história agora na Índia, China, sudeste da Ásia e na América ­Latina. Engels se concentrou nas condições de trabalho, mas em um prefácio de uma nova edição do seu livro em 1892, ele comentou que a Grã Bretanha estava sendo substituída rapidamente como o maior poder industrial e capitalista pela França, Alemanha e pelos EUA. "Seus produtores são muito mais novos que os da Inglaterra, mas crescem em um nível bem maior que o da última. Eles alcançaram a mesma fase de desenvolvimento que a industria inglesa em 1844." E isso acontece agora para as tais economias emergentes da Ásia, América Latina e África, quando comparadas às economias capitalistas maduras da Europa, Japão e América do Norte.

Mas é verdade que a porção dos trabalhadores industriais nas economias maduras decaiu de 31% em 1991 para 22% agora. De fato, de acordo com McKinsey, o emprego industrial caiu 24% nas economias avançadas entre 1995 e 2005.



Então isso quer dizer que o futuro do capitalismo se dará sem um proletariado industrial capaz de ser um agente de mudança e, por esse motivo, o "pós-­capitalismo" será uma sociedade sem indústrias, onde as pessoas podem esperar a redução de suas horas de trabalho com períodos maiores de "lazer"?

Esse foi o tema que meu companheiro de painel Nick Srnicek propôs. Nick é um camarada da Geopolítica e Globalização na UCL (Universidade Global de Londres). Ele é o autor, junto com Alex Williams, de "Inventing the Future" (Verso, 2015) e o editor junto com Levi Bryant e Graham Harman de "The Speculative Turn: Continental Materialism and Realism" (Re.press, 2010). Nick explicou que, enquanto novas economias estavam sendo industrializadas, seu pico de industrialização veio antes do que para economias como a britânica no século XIX. De fato, nenhuma economia alcançou mais de uma porção de 45% no emprego industrial. Então o futuro não é a industria e uma classe trabalhadora industrial. E não deu em nada defender o retorno às manufaturas e indústrias como o único caminho para uma sociedade melhor.

Tenho certeza que Nick está certo nesses pontos. Divergi no fato de que ele não esclarecia se uma sociedade pós-­capitalista, não-industrial, seria conquistada gradualmente enquanto o capitalismo se expandiria globalmente e a tecnologia substituiria o trabalho industrial pesado e as pessoas trabalhariam menos horas e poderiam usar seu tempo para si mesmas. A ideia de uma mudança em direção de uma sociedade prazerosa e não industrial foi o conceito de Keynes em 1930, argumentando a favor do capitalismo para seus estudantes no auge da Grande Depressão pelos 1930, quando muitos de deles começaram a olhar para o marxismo como a explicação para crises e a alternativa para o socialismo (veja meu post, Keynes: being gay and caring for the future of our grandchildren).

Keynes reconheceu que o mundo capitalista alcançaria um enorme crescimento do PIB per capita e entraria numa economia de lazer, sem pobreza. Bem, este blog tem revelado dados que mostram que a pobreza é ainda um terrível espectro sobre o mundo todo, uma característica inerente ao capitalismo, e longe de uma economia de lazer, as horas de trabalho diminuíram nas economias maduras e se mantiveram altíssimas em setores industriais de economias emergentes. Ainda trabalhamos duro para viver (exceto o 1%), em trabalhos cada vez mais precários.

Não acho que podemos atingir uma sociedade pós-capitalista de economia de lazer através de uma mudança gradual. Será necessário um impulso revolucionário para mudar o modo de produção e as relações sociais de maneira global, mesmo que o potencial de produtividade de robôs e novas tecnologias já estejam disponíveis para a transição em direção à libertação do trabalho duro. O capitalismo se mantém no caminho como um entrave sobre a produção. com os capitalistas como uma classe poderosa oposta à liberdade.

A razão de que as economias capitalistas maduras perderam sua base industrial é a de que não era mais lucrativo que o capital investisse na indústria britânica no fim século XIX ou na indústria dos países da OCDE no final do século XX. Então o capital contrabalanceou esta queda de lucratividade se "globalizando" e encontrando mais força de trabalho para explorar.

E a lucratividade caiu porque a acumulação capitalista corta força de trabalho. Os capitalistas competem entre si para lucrarem mais. Aqueles com mais tecnologia podem passar na frente dos outros ao aumentar sua produtividade reduzindo os custos laborais cortando trabalhadores. A direção que seguem é sempre a de reduzir a quantidade de força de trabalho e aumentar os lucros. A contradição central, tal como foi explicada por Marx na lei da lucratividade, é que a redução da força de trabalho e o aumento da mecanização levam a uma eventual queda na lucratividade, o que faz com que a força de trabalho industrial seja reduzida nas economias maduras e expanda a indústria de maneira global. O capitalismo é um modo de produção que caminha na direção da mecanização, mas a mecanização também levará à sua própria morte, pois ela é um modo de produção voltada ao lucro e não a uma necessidade social, e mais mecanização significará menos lucro. Isto mostra que enquanto caminhamos para uma economia de robôs, o lucro do capital e os interesses sociais se tornarão cada vez mais incompatíveis. E uma sociedade de lazer é apenas um sonho impossível.

O crescimento do emprego está caindo em economias capitalistas avançadas, ele tem sido muito menor do que 1% ao ano no século XXI.


O engenheiro computacional e empresário do Vale do Silício, Martin Ford, coloca a situação da seguinte maneira: “enquanto as tecnologias avançam, as indústrias se tornam cada vez mais intensivas em capital e menos intensivas em trabalho. A tecnologia pode criar novas indústrias e elas são quase sempre intensivas em capital”. A luta entre capital e trabalho é então intensificada.

E tudo isso depende da luta de classes entre os trabalhadores e os capitalistas sobre a apropriação do valor criado pela produtividade do trabalho. E claramente os trabalhadores têm perdido esta batalha, particularmente em décadas recentes, sob a pressão das leis anti-sindicais, o fim da proteção ao emprego, a redução dos benefícios, o aumento do exército de mão-de-obra de desempregados e subempregados e através da globalização das indústrias.

De acordo com o relatório da OIT, em 16 economias desenvolvidas, os trabalhadores obtiveram 75% da renda nacional nos anos 1970, mas este valor caiu para 65% alguns anos antes da crise econômica. Este valor cresceu em 2008 e 2009 — mas apenas porque a renda nacional se afundou nestes anos — antes de retomar seu curso descendente. Mesmo na China, onde os salários triplicaram na última década, a fatia da renda nacional para os trabalhadores diminuiu. De fato, isto foi o que Marx queria dizer com “pauperização da classe trabalhadora.”

E isso será diferente com os robôs? A economia marxista diria que não, por duas razões. A primeira, a teoria econômica marxista começa a partir do fato de que apenas quando os seres humanos realizam qualquer trabalho é que uma coisa ou um serviço é produzido. Então, apenas o trabalho pode criar valor no capitalismo. E o valor é necessário para o capitalismo. O valor é a substância do modo capitalista de produção. Os donos do capital controlam os meios de produção criados pelo trabalho e só o colocarão em uso para se apropriar do valor criado pelo trabalho. O Capital não cria valor por si só.

Agora, se toda a tecnologia, produtos e serviços pudessem reproduzir a si mesmos sem trabalho vivo, apenas a partir de robôs, as coisas e os serviços seriam criados, mas a criação do valor (em particular, o lucro e a mais-valia) não seriam. Como Martin Ford declara: quanto mais as máquinas comandarem a si próprias, o valor que o trabalhador médio adiciona começa a cair.” Então a acumulação sob o capitalismo cessaria logo antes que os robôs tomassem conta de tudo, porque a lucratividade desapareceria. Esta contradição não pode ser resolvida sob o capitalismo.

Nós nunca chegaremos a sociedades robóticas; nós nunca chegaremos a sociedades livres do trabalho — não sob o capitalismo. Crises e explosões sociais ocorreriam muito antes disso.

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