10 de outubro de 2014

A revolução dos huzies no Iêmen: Revolução ou missão por delegação?

Mohamed Siali

Fundación Al Fanar

Tradução / As recentes evoluções que se produziram no Iêmen depois de o movimento chil Ansarala assumir o controle da capital Saná superam as interações nacionais para constituir uma luta de interesses regionais, o que torna o Iêmen na arena de uma guerra por delegação entre a Arábia Saudita, a República Islâmica do Irã e o Estado do Qatar, como já aconteceu no Iraque, Líbano e Síria. Nesta última ronda que aconteceu no Iêmen, a Arábia Saudita mudou a sua postura ao não intervir para proteger os seus aliados tribais perante o avanço dos huzies devido à aliança destes com os Irmãos Muçulmanos que Doha patrocina e aos quais Riad combate sem quartel.

Embora a Arábia Saudita estivesse ao lado do ex presidente iemenita Ali Abdala Saleh nas suas guerras contra o movimento Ansaralá, desta vez optou pela neutralidade. O avanço dos huzies para Saná beneficia Riad, que atacou as redes políticas e militares da organização dos Irmãos Muçulmanos a quem declarou uma guerra subterrânea no verão de 2013, ao apoiar as Forças Armadas egípcias quando derrubaram o regime de Mohamed Mursi que pertencia a essa mesma corrente. A neutralização dos Irmãos Muçulmanos no Iêmen, ou pelo menos a redução da sua influência, onde estão representados pelo partido do Agrupamento Iemenita pela Reforma (Islaqh) e os seus aliados tribais do clã Al Al Ahmar e a sua ala dentro do exército, ou seja, o general Mohsen al Ahmar e o Batalhão de Blindados, é um golpe na influência do Qatar e da Turquia neste país no qual coincidiu o interesse por um mesmo objetivo dos dois rivais regionais tradicionais, a saber, a Arábia Saudita e o Irã. É provável que Riad tenha permitido a expansão dos huzies porque os combatentes desse grupo são chiles zaidies, que diferem dos chiles duodecimanos ao não acreditar na Wilayat al faquih (o governo do alfaqui) como a maior parte da chia do Irã, Iraque e Líbano.

Quem são os huzies?

O movimento Ansaralá ou os huzies é uma organização de que fazem parte rebeldes do credo zaidi chil próximo da sunna a partir do ponto de vista da jurisprudência. O número de huzies vem do seu líder espiritual e fundador da organização o já falecido Badereddin al Huzi, morto pelas topas iemenitas em 2004. A sua primeira aparição como entidade política aconteceu em 1992 através do Movimento dos Jovens Crentes, uma organização política que lutava contra a marginalização que haviam vivido as zonas do noroeste do Iêmen, bastião regional dos zaidies que são uma terceira parte da população do Iêmen. Entre 2004 e 2010 os huzies mantiveram seis guerras com as tropas iemenitas, concretamente no seu bastião montanhoso da província de Saada. Também mantiveram um conflito com a Arábia Saudita entre 2009 e começos de 2010 ao ocupar parte do território saudita.
As autoridades do Iêmen interceptaram em fevereiro do ano passado em águas territoriais do Iêmen um barco carregado de armas iranianas que incluíam mísseis SAM-2 e SAM-3. Detiveram um grupo de oito iemenitas. Os serviços secretos iemenitas prenderam também no ano passado dois cidadãos libaneses no aeroporto da cidade costeira de Aden, no sul do Iêmen, ao suspeitar que pertenciam ao grupo libanês Herzebola e que se dirigiam à província de Saad para lutar com membros do Ansaralá. A cômoda situação em que se encontra o influxo iraniano no Iêmen é demonstrada pelo fato de as autoridades do Iêmen terem liberado todos estes presos poucos dias depois do Ansarala conseguir o controle da capital iemenita.

A intenção de Teerã seria ajudar o movimento Ansarala a aproximar-se dos círculos de decisão política de Sana (aproveitando a debilidade do Estado iemenita e as possibilidades que oferecem as conclusões da conferência do Diálogo Nacional Global) para poder através desse grupo e a longo prazo controlar o estreito de Mandeb que liga o Índico ao Mar Vermelho e através deste mar ao Mediterrâneo e ampliar a influência persa na região do Golfo. Pelo seu lado a Arábia Saudita queria marcar tentos provisionais permitindo que os huzies deitem a perder a composição resultante da Conferência do Diálogo Nacional Global que consolidou uma subida forte dos Irmãos Muçulmanos porque Riad acredita que o Ansarala não pode ser um aliado permanente de Teerã tendo em conta as diferenças doutrinais de huzies e iranianos.

Desde a destituição do presidente egípcio Muhamed Mursi a 3 de julho de 2013, a Arábia Saudita, os Estados Unidos e o Kuwait tentaram neutralizar os Irmãos Muçulmanos na região do Próximo Oriente e o Norte de África, principalmente ilegalizando a atividade do grupo nos seus territórios e apoiando as novas autoridades egípcias tanto a nível econômico como a nível político e diplomático, para defender a nova situação do Egito, dar-lhe cobertura e evitar qualquer crise social que possa ser explorada pelos Irmãos Muçulmanos para tomar as rédeas da iniciativa de rua. Finalmente tanto a Arábia Saudita como o Egito declararam os Irmãos Muçulmanos um grupo ilegal. O Qatar, que também pertence ao Conselho de Cooperação do Golfo de que faz parte a Arábia Saudita, tomou a via contrária dando o seu apoio, juntamente com a Turquia, ao grupo dos Irmãos Muçulmanos e acolhendo no seu território os seus mandatários perseguidos judicialmente no Egito.

Apesar da trajetória política que os huzies impuseram por via militar ao tomar o controle de Saná dando passos de forma unilateral e sem coordenação aparente com nenhuma das forças nacionais, pode dizer-se que o Iêmen seguiu a senda da transição democrática depois da destituição do ex presidente Abdala Saleh, uma transição patrocinada pela ONU e o Conselho de Cooperação do Golfo. Depois da invasão do movimento Ansaralá da capital iemenita, o enviado das Nações Unidas para o Iêmen, Yamal Benomar, tentou que os huzies se comprometessem a respeitar minimamente as conclusões da Conferência do Diálogo Nacional Global assim como achar uma fórmula de consenso entre eles e outras correntes políticas do país. Sob os auspícios da ONU, os grupos políticos iemenitas assinaram a 21 do passado mês de setembro um Acordo de Paz e Associação Nacional que pôs fim a uma semana de combates na capital entre o Movimento Ansarala, liderado por Abdelmalek al Huzi, e uma parte do exército iemenita apoiada por milícias armadas do partido do Agrupamento Iemenita pela Reforma, que se considera uma filial iemenita do grupo sunita dos Irmãos Muçulmanos. O avanço do Movimento Ansalará para a capital foi rápido e surpreendente e recebeu muito apoio popular porque os huzies empregaram lemas de reivindicação que são compartilhados por amplos setores da sociedade iemenita como a aceleração da aplicação das resoluções da Conferência do Diálogo Nacional Global, a eleição de um governo tecnocrata no quadro de uma associação nacional e a supressão da decisão governamental de eliminar a subvenção aos carburantes.

Os huzies não poderiam ter avançado tão rapidamente sem ter contado, entre outras condições, com amplo apoio popular nas zonas que controlam. Um destacado diplomata iemenita que prefere o anonimato afirmou que a gestão dos assuntos públicos por parte dos huzies nas zonas que controlam é melhor do que a gestão do Estado e é isso que os faz ganhar a simpatia da população. Segundo essa mesma fonte, os huzies também contam com a simpatia de altos responsáveis do Estado iemenita embora não neguem o apoio iraniano que os ajudou a conseguir rápidas vitórias.

O discurso do movimento Ansaralá é um discurso duplo que pretende sempre manter um forte apoio popular e antes de adotar essas exigências acima mencionadas, com o fim de salvaguardar esse apoio, fizeram uma campanha contra a província de Imrán para expulsar as milícias armadas do partido Al Islah, indivíduos tribais armados próximos do poderoso líder tribal Sadeq al Ahmar, chefe da tribo Hashed e mandatário no partido sunita. O movimento de Ansaralá também admite combater setores armados pertencentes ao assessor do presidente da República, Ali Monsen al Ahmar próximo dos irmãos Muçulmanos que acusam os huzies de corrupção e de impedir a aplicação das resoluções da Conferência do Diálogo Nacional Global. No seu perfil no Facebook, Ali al Bajit, um membro do Conselho Político do Movimento Ansarala anunciava, depois de os huzies terem conseguido o controle da província de Imran, que eles estavam dispostos a entregar todas as instituições governamentais da zona ao Estado porque o objetivo da ocupação da província era "expulsar os terroristas da organização internacional dos Irmãos Muçulmanos (em alusão ao partido do Agrupamento Iemenita para a Reforma) e a suas milícias aliadas na cidade de Imrán". Al Bajiti acrescenta que em Imrám se tinha produzido uma revolução em que tinham participado as diversas tendências políticas e que tinha possibilitado "o derrubamento do reino de Al Ahmar" em alusão à expulsão das milícias e das forças militares pertencentes à tribo Al Al Ahmar na cidade. O outro rosto do discurso huzi é o do seu desejo de participar no poder, e em último acordo conseguiram ficar com o direito a que um dos seus membros seja nomeado assessor do presidente da República, com amplas competências e com o direito de participar na nomeação dos membros do novo governo, embora fossem flexíveis ao negociar o seu pedido de reduzir os preços dos carburantes.

O primeiro obstáculo perante esse acordo surgiu no passado dia 7 quando o movimento Ansaralá recusou que o presidente iemenita encarregasse o director do seu departamento, Ahmad Bem Mubarak, da formação de um governo de consenso nacional alegando que tinha sido uma eleição imposta por várias embaixadas estrangeiras. Esta oposição obrigou Bem Mubarak um tecnocrata a não aceitar o pedido do presidente.

A revolução iemenita

A revolução dos jovens iemenitas estalou no início de 2011 e continuou sob a forma de protestos e manifestações populares até que Ali Abdala Saleh deixou a presidência e foi eleito Abderrabu Mansur novo presidente do país em Fevereiro de 2012. Apesar da eleição do novo presidente as manifestações populares continuaram de forma intermitente até que Mansur Hadi destituiu os parentes de Saleh de altos cargos nas instituições militares e de segurança. A revolução iemenita é também conhecida como a Revolução do 11 de Fevereiro ou a Revolução do 3 de Fevereiro.

A Conferência do Diálogo Nacional Global arrancou a 18 de Março de 2013 como marco para uma transição política e para a reconstrução do Estado após a renúncia do presidente Saleh. O diálogo, patrocinado pelo enviado das Nações Unidas para o Iémen, Yamal Benomar e em que participaram todas as forças políticas e locais (o movimento Ansará e Al Harak al Yanubi continuou até 25 de Janeiro de 2014 quando viu a luz a Carta do Diálogo Nacional Global que coloca o Iémen no da justiça de transição e estabelece os pilares da transição a um estado democrático moderno. Devido a manifestações populares multitudinárias, o presidente Saleh renunciou ao poder aceitando assinar a 23 de Novembro de 2011, o plano de passagem pacífica do poder que estabelecia a iniciativa dos países do Conselho de Cooperação do Golfo e as suas ferramentas executivas e em função da qual se criou um governo de unidade nacional a 7 de Dezembro de 2011 em que participaram ministros do partido do ex presidente, membros do Partido do Congresso Popular Geral e do partido do Agrupamento Iemenita para a Reforma que dirigiu a revolta popular contra o antigo regime, junto de movimentos juvenis. E embora o movimento Ansaralá participasse na revolução contra o regime de Saleh, não participou no governo de unidade nacional.

A Carta do Diálogo Nacional Global inclui uma parte importante destinada à província de Saada, bastião do movimento Ansaralá que manteve várias guerras com o Exército iemenita antes de se estender recentemente a outras províncias. A Carta trata do tema de Saada em grande parte por considerar que é uma crise entre o governo central, a população e a elite dessa província. Oferece soluções como garantia da liberdade de religião à maioria chi que vive ali, prepara um plano governamental global de desenvolvimento da zona para superar a marginalização que sofreu e quer compensação pelas perdas gerais devidas às guerras contra as Forças Armadas iemenitas. A Carta obriga o movimento Ansaralá a permitir ao Estado que estenda a sua soberania em Saada e também a entregar as armas como as demais milícias e a incorporar os seus grupos armados nos aparelhos de segurança e no Exército. Mas, quando acabou a Conferência do Dialogo Nacional Global, o movimento Ansaralá aproveitou o vazio político no país e a debilidade do Exército para se transformar rapidamente num movimento com perspectiva nacional e a sua causa deixou de ser uma crise local ou uma questão de identidade ou de marginalização. No passado mês de Julho, depois de conseguir o controlo de Imrán, que separa Saada de Sana e com amplos espaços na província de Al Yauf, a leste de Saada, o movimento mobilizou os seus partidários em Sana explorando exigências sociais e depois assediou e conseguiu o controlo de todas as instalações do Estado na capital incluindo o aeroporto internacional., após violentos choques com grupos militares próximos dos Irmãos Muçulmanos. O movimento passou a querer tomar parte no governo sem dar um golpe contra a legitimidade do presidente Abderrabu Mansur Hadi, apesar de o ter podido fazer dado o colapso de uma parte das Forças Armadas iemenitas e à neutralidade de outra parte. Apesar de Ben Omarter declarado numa entrevista concedida ao diário saudita Okaz que «o Acordo de Paz e Associação Nacional» assinado para deter o agravamento da situação «não era um programa de um grupo político determinado mas sim um produto do acordo de todas as partes», os riscos das exigências dos huzi e a sua vitória sobre o terreno em Saná tiveram muito peso na hora de formular o conteúdo do acordo, que segundo o enviado das Nações Unidas, é «a única saída que pode evitar uma guerra civil no Iémen».

Além do tema da província de Saada, começou a ressurgir em força a tendência separatista no sul do país que foi um Estado comunista independente entre 1962 e 1990, a República Democrática Popular do Iémen, que se uniu logo à zona norte, à República Árabe do Iémen. Em 1994 estalou uma guerra entre o norte e o sul que terminou com a recuperação do controle do sul por parte de Sana. Depois dessa guerra, o governo iemenita propôs a iniciativa de retirar uma grande número de funcionários e de militares do sul que formaram associações para defender os seus direitos e elevaram imediatamente a lista das suas exigências. Foram recebendo cada vez mais apoio popular até que se tornaram a partir de 2007 um movimento político conhecido como Al Harak al Yanubi que pede a independência do sul do país. Desde então o movimento optou umas vezes pela convocatória de manifestações e outras pela confrontação armada contra as autoridades. Em finais do ano passado o presidente iemenita acusou directamente o Irão de tentar desestabilizar o país oferecendo apoio às facções do Al Harak alYanub.

Para além das lutas políticas o Iémen tem de enfrentar o aumento da força da organização Al Qaeda na Península Arábica, filial da Al Qaeda na zona, cuja maioria de combatentes é iemenita e saudita. Esta organização transformou as províncias do sul do país no bastião a partir do qual executa os seus atentados terroristas contras as autoridades iemenitas e sauditas. Um dos atentados mais importantes que perpetrou nos últimos meses foi o ataque com armas ligeiras e explosivos contra o hospital Al Arad dentro de um complexo do Ministério da Defesa em Sana, em Dezembro de 2013. O atentado deixou 56 mortos e 214 feridos e morreram 13 membros da organização, a maioria de nacionalidade saudita. A Al Qaeda na Península Arábica causou a revolta popular em Sana para conseguir o controlo da província de Abyan em Maio de 2011, no extremo sul do país, e com posições noutras províncias do sul. Em Junho de 2012 o exército iemenita conseguiu recuperar essa província e expulsar os jihadistas para zonas montanhosas afastadas onde foram continuadamente bombardeados por drones norte americanos. A partir daí a organização concentrou-se em fazer atentados selectivos especialmente em Sana, contra oficiais do exército, polícia e alguns mandatários políticos como o representante dos huzies na Conferências de Diálogo Nacional, o académico Ahmed Ashrafeddin, que foi assassinado a tiro na capital no passado 21 de Janeiro. No final do mês passado a Al Qaeda dirigiu um comunicado de advertência aos huzies armados aos quais ameaça com «despedaçar os seus corpos e fazer rolar as suas cabeças» e acusa de «completar o projecto expansionista persa no Iémen». A 8 de Outubro um suicida cumpriu a ameaça imolando-se no meio de uma manifestação de huzies em Saná provocando mais de 60 mortos.

Sem chegar ao poder, o movimento de Ansaralá transformou-se na facção mais forte do Iémen, também graças ao controle de Saná e dos aparelhos de segurança. Assim o demonstrou ao revogar a decisão presidencial de nomear Bem Mubarak primeiro- ministro. Apesar das disposições da Conferência do Diálogo Nacional Global apelarem à recuperação por parte do Estado da soberania em todo o território nacional e pedirem às facções a entrega das armas, os huzies comportam-se como um Estado dentro do Estado e como se nada tivessem a ver com essas disposições, e inclusive depois de conseguir o controlo da capital, ficaram com grande quantidade de armas do exército iemenita e continuam a manter o controlo das províncias que já estavam sob o seu poder o que dá a impressão de que continuaram a estar muito presentes nas decisões do Estado no futuro próximo e dadas as ameaças da Al Qaeda contra eles, e as discrepâncias doutrinárias, é também provável que aconteça um choque sangrento entre o Ansaralá e a organização terrorista.

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