19 de outubro de 2014

Com os EUA liderando a intensificação dos ataques aéreos sobre o EI, é um bom momento para ser um gigante de armas como Lockheed Martin

No último mês navios de guerra americanos dispararam o equivalente a U$65 milhões de mísseis Tomahawk no prazo de apenas 24 horas um do outro

Robert Fisk


Quem está ganhando a guerra? O Estado Islâmico? Ou os curdos (lembram-se deles?)? Os sírios? Os iraquianos? Nós nos lembramos da guerra? Não. Vamos falar a verdade. E agora escolhemos as famosas armas e os fabricantes que as produziram. Os preços das ações nos Estados Unidos dispararam para os que fabricam as bombas da coalização, os mísseis e aviões não tripulados e os aviões que participam desta última guerra que - para todos os que estão envolvidos (exceto para os destinatários das bombas e mísseis e para os que estão lutando) - é Hollywood do começo ao fim.

As ações da Lockheed Martin - fabricante dos mísseis “Um por todos e todos por um” ou Hellfire [fogo infernal] - subiram 9,3% nos últimos três meses. Raytheon - que tem uma grande sucursal israelense - subiu 3,8%. As ações da Northrop Grumman subiram 3,8%. E as ações da General Dynamics aumentaram 4,3%. Lockheed Martin - que roubou dos Três Mosqueteiros, de Alejandro Dumas, seu material de publicidade – faz com que os foguetes dos drones Reaper sejam famosos por destruir festas de casamento no Afeganistão e no Paquistão.

E não desanimem. Os lucros estão em alta. Quando os americanos decidiram estender seus bombardeios na Síria em setembro - para atacar os inimigos do presidente Assad justamente um ano depois de proporem pela primeira vez atacar o próprio presidente Assad - Raytheon foi premiada com um contrato de 251 milhões de dólares para abastecer a Armada dos Estados Unidos com mais mísseis cruzeiros Tomahawk. A agência France Presse, que faz o trabalho que a Reuters costumava fazer quando era uma agência de notícias de verdade, nos informou que, em 23 de setembro, os navios de guerra americanos dispararam 47 mísseis Tomahawk. Cada um custa cerca de 1,4 milhão de dólares. E se gastássemos de forma tão promíscua em tratamento para o ebola, acreditem, não haveria mais ebola.

Deixemos aqui o custo político deste conflito. Depois de tudo, a guerra contra o Estado Islâmico está alimentando o Estado Islâmico. Para cada membro do EI morto, estamos criando mais três ou quatro. E se o EI realmente for a instituição "apocalíptica", "má", "fim do mundo" que nos disseram que é - minhas palavras vieram do Pentágono e dos nossos políticos, claro - então cada aumento dos benefícios para Lockheed Martin, Raytheon, Northrop Grumman e General Dynamics está criando ainda mais combatentes do EI. De modo que cada avião não tripulado ou F/A 18 caça bombardeiro que enviamos é o portador de um vírus, cada míssil é um germe ebola para o futuro do mundo. Pensem nisso.

Permitam-me fazer uma citação em tempo real com base no que o repórter Dan De Luce enviou para a agência francesa sobre a venda de armas. “A guerra promete gerar mais negócios não apenas de contratos do governo dos Estados Unidos, mas também para outros países em uma crescente coalizão, incluindo os Estados europeus e árabes... Além dos aviões de combate, espera-se que a campanha aérea aumente o apetite pelos navios cisterna de reabastecimento em voo, aviões de vigilância, como os aviões U-2 e P-8 de espionagem e robótica, drones. Contratistas de segurança privada, que se beneficiaram em grande medida da presença dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão também estão otimistas de que este conflito produzirá novos contratos para assessorar as tropas iraquianas”.

Isto é obviamente indignante. O mesmo grupo de assassinos armados que enviamos ao Iraque vai ficar em liberdade para ensinar a nossos “aliados” na Síria – milícias seculares “moderadas”, certamente – as mesmas táticas viciosas que utilizaram contra a população civil no Iraque. E os mesmos mísseis serão utilizados – com enorme benefícios, naturalmente – nos povos do Oriente Médio, do EI ou não. É por isso que o relatório de De Luce seja talvez o mais importante de toda a guerra na região.

Sempre argumentei que as vítimas civis destes fabricantes de armas devem demandar judicialmente estes gigantes conglomerados cada vez que uma sobrinha ou um avô for assassinado. Em Gaza ou na Cisjordânia, os palestinos costumavam manter os pedaços e fragmentos de mísseis de fabricação americana que mataram seus familiares inocentes, com a ideia de algum dia poder levar as empresas ao tribunal. Os civis libaneses fizeram o mesmo. Mas a eles foi dada uma “compensação” - com ordem de quem, eu me pergunto – e foram convencidos a não seguir adiante com a ideia de forma tão consistente que os fabricantes de armamentos acabaram conseguindo o que queriam. Há muitos advogados em Nova York dispostos a ganhar a causa. Mas, até agora, não há nenhum comprador. É hora de aparecerem. Por que os comerciantes da morte devem se dar bem?

Enquanto isso, o Pentágono pode continuar impulsionando projetos de lei. “É terrivelmente difícil dizer não quando se está em guerra”, disse na semana passada uma pessoa com “contatos” na indústria das armas. É claro que sim. Ele diz, a propósito, que a BAE Systems (contratista militar anglo-americana) está se saindo muito bem da crise atual. Pensem nisso. E recentemente, certamente, pelos 200 mil mortos na guerra da Síria.

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